31 maio 2010

'xa passar o Arraial!


eu não vou faltar!
e tu?

Tradução de mim

Quero. Quero saber a que cheiras em cada momento. Como fazes. Saber. Como és. Como falas. Como cheiras: como te chamas? Como te chamas; em que chamas te chamas quando gritas quem chamas; quem chamas? O que são os teus gritos, quando gritas, quem gritas; quem chamas que chamas em chamas; o nome de quem, o nome inteiro teu inteiro em cada grito? Tudo. Aprender sem apreender. Nunca prender. Mesmo com o medo, o medo de perder o pássaro que voa. Porque, se prendesse, perderia ainda assim. Perderias tu o que quero aprender, o voo do pássaro. A lição de ti. A fome tua e a que te dão. Tudo. Cada milímetro. Ver tudo, quando estou, quando não estou, quando estão, quando ninguém está e o mundo, quem és? Que cores tens em cada céu, no céu meu e no céu alheio, a que cheiram, a que cheiras, como voas aqui e ali, quando vejo, quando não vejo? Sim, quero cheirar-te, dissecar-te, analisar-te, extrair-te aos bocadinhos para te descobrir quando te vou colando no meu peito, nu, despido, meu em todo um pouco mais em cada vez. Porque não te peço que entres na gaiola, peço-te muito pouco. Ainda assim, muito pouco. Sim, muito pouco te peço: tu todo.E que sejas tudo quando tudo me fores porque tudo tu és.

Este filme fez-me lembrar uns versos dos tempos de escola

"Os passarinhos
tão engraçados
fazem os ninhos
com mil cuidados"



___________________________
O OrCa não pode ver um passarinho que ode logo às passarinhas:

"ao ver-se assim passarinho
a resvalar pelo seio
quem me dera fazer ninho
como ele ali no meio

e mais descendo a preceito
maior a ventura minha
se descendo sempre a eito
encontrasse a passarinha

havia de asas bater
feliz ridente dos olhos
e para sempre viver
no calor dos entrefolhos"

Opções


Alexandre Affonso - nadaver.com

30 maio 2010

Os compadres da Covilhã



HenriCartoon

Permanência

Agora que te sei aqui,
sinto-te a peça essencial
que faltava na montagem,
na engrenagem,
na construção final
do ritual.

Mesmo não te vendo,
ainda consigo rir
e posso usufruir
do teu olhar perdido;
da tua saudade.

Percorro - então - o meu corpo
numa descoberta:
a permanente ilusão
de te saber sempre aqui.

Foto e poesia de Paula Raposo

InVocações (VIII) - Paragens

Onde vais? Agora que o caminho e os caminhos te segredam o meu nome, meu amor, enquanto andas não podes ficar aqui? O meu caminho tu sabes qual é. Eu, agora, também sei. E sei que caminho contra a multidão, e sei que escolhi caminhar contra a multidão, e sei que se me acertarem com braços e pernas e encontrões e pisadelas, não me devo queixar; eu escolhi. Mas tenho que te dizer, a multidão tem sido cuidadosa. Não levei mais que uma pequena pisadela. Sabes que, quase sempre, as palavras me escudaram e as pessoas me conseguiram ver. Nunca adivinharia tanta força às palavras. Sim, eu já tinha, antes, as palavras e estavam cheias. Mas tu, tu ensinaste-me e ensinas-me a deixá-las rebentar, a torná-las facas, a torná-las dores, a torná-las vento e sol e relógio e amor e fome e pessoas e mendigas. Eu quero a tua magia, ensina-me. Quando as minhas palavras forem mágicas como as tuas, a multidão há-de mudar o sentido ou abrir caminho para que passe. Tens que ser tu, peço-te, não chego lá sem ti e essa é a mais pura das realidades. Vês quanto caminho já fiz? Porque tu me ensinaste, porque me ensinaste as palavras, porque me fizeste sentir que nos ouvem não quando gritamos mas sim quando as palavras gritam. Dá-me a mão. Fica dentro do caminho como quando ficas dentro de mim: nu, parado, entranhado, inteiro. Trouxeste-me até aqui, foste tu, não me deixes sozinha agora que estou no fundo do lago e mal sei respirar. Dá-me a mão e eu sei onde posso chegar. Mágico?


Reanimação Cardiopulmonar explicada como deve ser

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29 maio 2010

Primeiro abraço

Leu-lhe no olhar a tristeza e a desilusão de quem viu terminada uma relação que era sonhada para a vida inteira.
Depois leu da mesma maneira a frieza emocional instalada pela revolta sentida na ressaca de maus momentos pelos quais não teria que passar se não tivesse que enfrentar todos os desafios e ameaças de uma vida a sós.
Percebia a sua tendência para desatar os nós nos laços que criava a custo, reflexo condicionado de fracassos que iam retalhando em pedaços a esperança numa felicidade de longa duração, protegia o coração de quaisquer desgostos que lhe acrescentassem uma espécie de calo que endurecia o olhar que lhe lia agora, um olhar que via de fora mas sentia como seu.
E foi isso que transmitiu no primeiro abraço que lhe deu.

Tradução dos nossos lobos

Tenho que te dizer. Tenho que te explicar. Com que queres afogar as minhas certezas se elas bebem de ti? Sufoca antes as minhas angústias, elas respiram de ti. Eu saberei o que estou aqui a fazer até não estar. E quando não estiver é apenas porque já não sei. Nada mais simples. Se ainda estava quando fui é porque, na verdade, fiquei, sempre fiquei e ainda sabia. E agora que voltei, voltei e sei o que sei. E é isso que tenho que te dizer. Tenho que te explicar. Tenho que te explicar que, dos lobos famintos que se deitam aos teus pés, só posso enfrentar os que vejo. Não os escondas, mordem-me com mais força quando não os vejo. Atirei-me a eles. Para que me comam. Para que saciem de mim as tuas dúvidas. Para que alimentem de mim as tuas respostas. Tirei a pele. Senta-te aqui, tenho que te dizer, tenho que te explicar.


A nau do Nelo

"Todus us cu com a idadi çe priocupam
Devíom çaber da verdadi
Cum bucado belu de carni
Çó fica bom
çe for a lumi brandu grilhadu

Para quéim quereim shamas com preças
ardendeim fortis i imediatas
Fagulhas eim barda, tempraturas altas
e a carne neim goza, fica logu queimada

Agora veijam um broshe, ou pinadela traseira
a pila quaze mole a pedir lingua farta
a mão a paçar na tola i tumatada
e a alegria de sentir a marei a shegar alta

Ai melhéres, i depois já tod' ela tezada
Nu corpu meter, iscorrendo de baba
leva quaze um dia a shegar, a nau langonheira
e u Nelo a guzar que nem uma tonta, tonteira

Nelo"

___________________________________
O OrCa ode tudo o que se mexe... e o Nelo mexeu... os olhinhos:

"ah, Nelo, de ti se há-de louvar essa alegria
de dares corpo e alma e força por prazer
e foder só por foder e ser fodido em cada dia
que amanhã mais outro dia irá nascer

e tens arte em ti que faz de ti um artesão
e cantando hás-de espalhar por toda a parte
o tesão que é dares-te assim a um teu irmão
para mais se ele for senhor de um bacamarte

um pouco mais de sol e tu ardias
um pouco mais de azul com outro alguém
e neste mundo azedo de agonias
ter-se um anelo assim - ó Nelo - é que está bem!"

O Bartolomeu ode uma ajudinha:

"E... se o cu não se gastar
Em fodas loucas, delirantes
Pede à pixa para não murchar
Mesmo que lhe apliques uns tirantes

E se a memória te atraiçoar
E confundas sardo com chouriço
Engole-o até a respiração te faltar
Até que o nabo leve sumiço

Tu, ó Nelo, rei das bichas
Que no olimpo da paneleiragem
tem assento
Fazes parar a Terra, quando o cu espichas
sacodes a ramagem
quando do teu cu sai vento

Se é caralho que tu pedes, em tuas rimas
que acalme essa inflamação que te devora
Convida para uma festa as tuas primas
E pode ser que, no fim, leves no cu a tora"


O Santoninho acha que "isto está mesmo a melhorar... até o Nelo já serve de musa..." e o OrCa ode-o:
"claro, Santoninho, e clara musa
e não outra, ora agreste, ora confusa
que desliza entre matéria obtusa
e atiça e acossa e tira a tusa

este Nelo é aquele que nos apraz
registar cá se vir contra o silêncio
e por tanto gostar de levar atrás
sempre faz evocar o bom Terêncio

que dizia muito a rir mas sempre sério
que «- sou homem e nada me é estranho
do que humano é», em magistério
de criar um ser humano sem tamanho

o Nelo é assim e mesmo à rasca
neste mundo enredado em preconceito
ele grita aos quatro ventos que é panasca
mas não busca casamento... é o seu jeito!"

O Santoninho reclama: "Foda-se! Não se pode abrir a boca que nos odem logo! Não quero misturas com o Nelo, capisce?"
E o Bartolomeu... pimba:
"Casamento não, que ele é dedicado
à sua santa esposa tão amada.
mas para andar mais consolado
lá vai fazendo aqui e ali, uma mamada

Não cuspas para o ar, ó Santo Ninho
E do Nelo não desdenhes da peidola
Deixa que ele te faça um brochezinho
Vais ver o que é bom prá tosse, seu mariola

Dá o piço ao Nelo, bem levantado
E espera que ele faça a peneirinha
Vais ficar por aquele cu, enfeitiçado
Vais nomear o Nelo, a tua rainha!"

Na-Turismo

Para além do reconhecimento social de um direito a quem o pretende, está aí à porta um enorme potencial que pode fazer uma diferença significativa na economia do país: o Turismo Naturista.

por Pedro Laranjeira


Oportunidades perdidas

Portugal perdeu no passado algumas oportunidades preciosas, como quando a Fuji, em momento de vitória de mercado sobe a Kodak, projectou a instalação de uma linha de montagem para a Europa no norte do país e o governo de então não conseguiu negociar a bom termo, deixando os lucros que daí adiviriam, bem como os dois mil postos de trabalho iniciais, fugir para o estrangeiro.
No entanto, talvez que a nossa maior oportunidade perdida se situe precisamente no campo em que queremos dar cartas na Europa: o turismo, o clima, a natureza. Isso sucedeu há menos de 20 anos, com o desmembramento da Jugoslávia que era, então, o paraíso naturista da Europa.
Já nessa altura havia uma tradição antiga da prática nudista em praias portuguesas: no Malhão há 50 anos, no Meco há 40, para citar apenas dois exemplos. O fim da Jugoslávia como destino naturista deixou em aberto uma janela de oportunidade que Portugal não viu mas foi bem aproveitada pela França e pela vizinha Espanha, onde existem mais de 400 praias naturistas e centenas de estabelecimentos turísticos, incluindo parques de campismo, hotéis e aldeamentos. Em 2008, nuestros hermanos serviram mais de três milhões de turistas naturistas.

Naturismo em Portugal

Em Portugal, existem seis praias oficiais, um Parque de Campismo no Alentejo, cerca de vinte camas de oferta em turismo rural… e mais nada. Não há nenhum aldeamento, hotel, clube de saúde, ginásio ou praia fluvial…
Mas este estado de coisas vai mudar, essa é a boa notícia. Antes disso, porém, analisemos os números, para avaliar o potencial em presença.
Só na Europa, existem 20 milhões de naturistas, dos quais 12 milhões compram, anualmente, turismo naturista. A procura dos Estados Unidos excede 40 milhões. Acrescente-se-lhes, modestamente, outros 20 milhões do resto do mundo, incluindo Brasil, Canadá, Austrália, Japão, etc, e estamos perante um universo de mais de 80 milhões de potenciais “clientes” do país.
Portugal é um dos 15 destinos mais procurados do mundo. Com uma população de 10 milhões de habitantes, recebemos 12 milhões de turistas em 2006. Temos o melhor clima da Europa, espaços naturais maravilhosos e uma gastronomia famosa. O Algarve reclama-se de “326 dias de sol por ano”. Temos tudo para responder aos anseios de férias de quem gosta de natureza, incluindo também experiência em hotelaria de qualidade.
Se acrescentarmos ao turismo que já recebemos o enorme potencial de venda de turismo naturista, um sector em que a procura é extraordinária, a inclusão de uma oferta nacional neste âmbito fará decerto uma diferença substancial na nossa balança económica.
O único investimento que existe em Portugal nesta área, tanto em termos de campismo como de turismo rural, é exclusivamente estrangeiro.
De que estamos, então, à espera?...

A Boa Nova

… simplesmente, do aparecimento de portugueses que vejam este potencial e decidam entrar no mercado.
Pois bem, isso já sucedeu.
Se a lei souber agora adequar-se às necessidades, tanto da prática social como do desenvolvimento de iniciativas ligadas ao turismo naturista, existe já investimento preparado, português, nacional, com projectos feitos e prontos a arrancar em menos de um ano, para colmatar esta grave lacuna da nossa adequação enquanto país ao evoluir das sociedades e do mercado global.
A procura existe. Imensa, rica, crescente. A oferta está pronta. Mais precisamente 15 milhões de euros de investimento, perto de 150 postos de trabalho, duas zonas do país abrangidas, oferta de turismo de qualidade àqueles de 80 milhões de potenciais clientes que queiram juntar as suas preferências de férias aos encantos de Portugal.

O Futuro

Os portugueses, onde mais de cem mil naturistas ainda são muitas vezes “nudistas à escondidas”, com pouco mais de dez mil faces visíveis, mostraram já que são um povo tolerante com uma prática ancestral de hábitos de nudez social, pacífica, familiar, saudável.
Falta-lhes a aceitação social que a lei pode ajudar a consensualizar. Como pode ajudar, noutra área, a criar uma mais valia económica que ajude o país a superar as sucessivas crises por que tem passado.
Está agora nas mãos dos legisladores. Esperemos que tudo corra bem, para benefício da saúde do país, potenciada pela filosofia naturista que promove os princípios que conduzem a “uma mente sã num corpo são”.

A sociedade Marc Dorcel avança com filmes porno 3D

28 maio 2010

Desgostos e Doces de Colher

– Sabe o que é que ele me disse, doutor?
Acenei que não com a cabeça.
– Que era de ferro, doutor. – A mulher soltou um riso escarninho. – De ferro! – exclamou, fechando-se num carão de desgosto e ressentimento. – E, afinal, sabe o que ele era?
Repeti o aceno.
– Gelatina. – A mulher imitou o meu aceno de cabeça. – Ele era feito de gelatina, doutor. De gelatina.
– Quem o vê… – disse eu, lentamente à espera da interrupção.
– Sim, isso é verdade, doutor – avançou a mulher, tal como eu esperava. – Quem o vê com aqueles fatos e cara de mau e aquele ar másculo de quem leva tudo à frente…
– Sempre firme e hirto…
– Engana bem, engana – concluiu, fungando. – A mim enganou-me, doutor. A mim enganou-me bem!
Levantei-me e rodeei a secretária, agarrei uma caixa de lenços de papel que se encontrava sobre um móvel encostado à parede e estendi-a na sua direcção. Ela retirou três pedaços de papel e assoou-se ruidosamente. Admirei disfarçadamente os movimentos que se produziram dentro do apertado decote, que a mulher usava como um expositor, e, depois de devolver a caixa ao seu primitivo lugar, tornei a sentar-me.
– Esta altura é péssima para as alergias – justificou-se a mulher, com os papéis ranhosos na mão.
– É – concordei, segurando no cesto de papéis para ela depositar os lenços, o que fez.
– Homem de Ferro – disse ela, sarcástica. – Ainda gostava de saber como é que lhe chamam Homem de Ferro – continuou no mesmo tom. – De certeza que nunca gramaram com ele em cima, esparramado, a mexer-se em câmara lenta, para cima e para baixo, tão firme como uma gelatina, tão duro como um pudim… Homem de Ferro!... Bah!... – A mulher fez uma pausa para ganhar fôlego. – Mas a culpa é minha, doutor, só minha! Eu, eu mais do que ninguém, já devia estar à espera, não acha? Eu já devia ter aprendido! Quem é que me mandou a mim ser burra… Aaaaah… – parodiou tom e gestos de gratidão divina, erguendo os olhos para o tecto e levantando as mãos e agitando-as ligeiramente. – Aaaah! O homem é de ferro, é o Homem de Ferro!... Burra! Que burra, doutor!... Homem de Ferro, ah! Tretas!... Mas a culpa é minha…
– Sim… – admiti, brincando com a esferográfica para me distrair dos movimentos ondulantes das comprimidas mamas que pareciam querer saltar na minha direcção. – É verdade que a sua anterior experiência lhe podia ter servido de aviso mas… mas… – Interrompi-me, distraído pelas consequências estéticas da inspiração profunda que se seguiu ao fim do encenado agradecimento sacro.
– Mas? – perguntou a mulher, expectante da minha conclusão.
– Ahn?
– A minha anterior experiência podia ter-me servido de aviso mas? – repetiu, vendo o meu mudo atabalhoamento.
– Ah! – Recuperei as minhas faculdades e voltei à esferográfica. – Quero dizer: podemos aprender com os erros anteriores mas nunca podemos saber que as coisas se vão repetir com outra pessoa só por terem ambos o mesmo ramo de actividade… Temos de dar o benefício da dúvida e foi isso que a senhora fez.
– Hum! – discordou a mulher. – Eu devia ter calculado, doutor!... Qual benefício da dúvida qual carapuça… Isso é conversa de psiquiatra, doutor!... De psicoterapeuta!... A culpa é minha e ponto final, se com o outro já tinha sido o que foi…
Aceitei com um trejeito o argumento da paciente: ela tinha razão.
– Sabe o que eu lhe digo, doutor?
Acenei que não.
– Posso ser franca?
Acenei que sim, ainda que o lamentasse.
– O doutor desculpe-me mas isto não me sai da cabeça e… – fez uma ligeira pausa e preveniu: – E não é nada contra os pais deles. – A mulher olhou para a porta do gabinete para confirmar que estava fechada e voltando a fixar-me disse com ar de quem meditou no assunto: – Que fodas tão mal empregues, senhor doutor… O tempo que os pais deles perderam a fazê-los mais valia terem estado a… a… Nem sei o quê, doutor, nem sei o quê… Qualquer bodega que lhes tivesse ocupado aqueles trinta segundos tinha sido melhor empregue. Muito melhor…
– Às vezes as coisas não correm bem entre as pessoas – disse, sem convicção, olhando disfarçadamente para o relógio.
– Já está na hora? – perguntou a paciente, verificando o seu relógio de pulso.
– Já – informei com ensaiado pesar. – Para a semana continuamos.
A mulher expirou pelo nariz, ainda desimpedido, levantou-se, colocou as mãos sobre a secretária, olhou-me nos olhos e concluiu desanimada:
– Só comigo, doutor. Já viu bem a minha pouca sorte?... O Super-Homem foi o que foi, um fiasco do pior. Que pãozinho sem sal!... Agora, aparece-me o Homem de Ferro, todo cheio de basófia, que faz e acontece, e, no fim, vai-se ver… Gelatina, doutor, o homem devia chamar-se era Homem-Gelatina. Gelatina e pouco fresca!... Não tenho mesmo sorte nenhuma!
A mulher aceitou o meu aceno concordante com um sorriso e quando ia a sair, já depois das despedidas, perguntou-me com um brilho no olhar:
– Sabe com quem é que eu vou jantar no Sábado?
– Com o Batman? – lancei.
– Bolas! Nem pensar – respondeu, mostrando-me a língua com ar enjoado.
Sorrindo, a mulher abriu a porta, saiu e fechou-a.
Esperou um momento, reabriu a porta cerca de um palmo, espreitou para me encontrar no mesmo sítio, a olhar para ela, e anunciou, sorrindo e piscando-me o olho, antes de voltar a fechar a porta:
– Sábado vou jantar com o Homem-Queque!

Túlipa

Se o teu sexo fosse uma flor
eu quereria que fosse uma túlipa,
como um cálice de licor
e tivesse várias cores:
amarelo, azul, vermelho, preto.

Se fosse uma flor o teu sexo
poderia ser uma túlipa amarela,
com o sabor amendoado
do amargo limão
e o aroma inconfundível
do anis subindo em mim.

Seria o sexo perdido
- na minha boca -
ávido da minha fome,
por todas as vezes
das vezes minhas.

Foto e poesia de Paula Raposo

Quem quer dar uma mãozinha ao Aalberto Montanelas?

Recebi esta mensagem do Aalberto Montanelas no Facebook:


A mensagem



A foto

Como a página dele no facebook é pública, a minha resposta também é: Aalberto, eu sou lésbica e por isso decerto compreenderás que não quero "sentilo". Mas se houver algum membro ou membrana que queira verificar a tua alavanca de velocidades, tem aqui o teu contacto. Sem desprimor para o resto da malta, recomendo-te o Nelo. Afinal, depois da experiência com o Baldé, o Nelo nem vai "sentilo".

Padre, pequei!



HenriCartoon

27 maio 2010

Da prostituta ao prostituidor, as duas faces da mesma moeda

A propósito de comentários e de comentários a comentários, muito estimulantes e dignos de interesse, numa amena cavaqueira lá «mais para baixo», alguns comentários mais, porque o tema é cíclico e inesgotável:

A(o) prostituta(o) - que designação rebuscada... - e o(a) prostituidor(a) são as duas faces da mesma moeda. Assim posto isto, lapalicianamente, tudo fica obscuramente claro. A saber: ele há-as por todos os motivos e para todos os gostos... e, quanto a eles, eles, também. É a Humanidade, senhores, e está tudo dito. Claro que estou muito de acordo quando aqui se introduz, na conversa, a questão do dinheiro envolvido, como é óbvio.

Agora, quanto à necessidade da dar a queca marginal - ou alguma das suas envolventes - e de haver quem, pelo tal dinheirinho, esteja disposta(o) a levá-la – ou a alinhar nas tais envolvências -, isso parece-me que tem mais a ver com o que alguns estudiosos da matéria chamam «miséria sexual».

Na verdade, parece-me historicamente admissível e de fácil prova que a necessidade de vender (ou comprar) o corpo por dinheiro se prende com a invenção do dito dinheiro, nem que seja na sua forma mais elementar da troca directa de bens ou, se se quiser ser mais técnico, de mercadorias.

Tal será coincidente com o declínio social do matriarcado e o ascendente do patriarcado, que culmina na subjugação total da mulher aos prevalecentes direitos do mais forte. Mais forte aqui, principalmente, à luz do conceito daquele que detém ascendente sobre os meios de produção.

Do esvaziamento dessa importância social da mulher nas sociedades à criação do conceito mulher-objecto terá sido pequeno passo. Da mulher subjugada à mulher prostituída, mero objecto de prazer, passo mais pequeno, ainda.

Depois, no passo seguinte, as sociedades organizadas vieram a impor os seus limites ou regras a este jogo, eivadas de mais ou menos preconceito e hipocrisia, porquanto assumiu, ao mesmo tempo, condescendências várias a par de mais ou menos veladas proibições, situação que atinge o seu esplendor com a dominação, no dito mundo ocidental, da religião católica apostólica romana, suprema defensora do incontornável princípio do «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço».

Para manter aparências e não deixar que o deboche abalasse os pilares civilizacionais, vem de lá tanta repressão, tanta contenção, tanta pressão social, tanta pomba assassinada - como o poeta diria -, que se desvirtuou e perverteu assim, através desses jogos temíveis de dominação, o acto sexual livre e mutuamente consentido.

Ou por laços do sento matrimónio ou por descabelado comércio. Fora disto, as morais públicas não vêm o sexo com bons olhos.

Porque o ser livre é, também, o ser sexualmente satisfeito. Ou, dito de outra maneira, a repressão sexual faz parte das rédeas do(s) poder(es), como quaisquer outras. Haverá algum conceito mais subversivo do que este?

Vista por este prisma, a prostituição passa a ser, meramente, a infracção, hipócrita e cirurgicamente permitida pelo(s) poder(es) instituídos, para «equilibrar» a tensão gerada pela repressão sexual social. quando esta levada a extremos potencie excessivos danos sociais, o que estragaria o «arranjinho», saindo pior e emenda que o soneto, como sói dizer-se.

A prostituição, então, como válvula de escape de tensões sociais geradas pela repressão sexual. Enfim, nada disto é novidade. Muitos outros, mais e melhor do que eu, o têm dito. Estude-se, como boa referência, a obra de Wilhelm Reich, por exemplo.

«Felizmente», com a emancipação progressiva e inegável da Mulher, nos nossos dias esbateu-se o conceito de que a prostituição é mais uma das coisas que cabe em exclusividade às mulheres e, agora, existe prostituição para todos os gostos e enlaces possíveis. Mas continua a estar subjacente o conceito da dominação de um ser humano por outro, por via do poder económico

Mas, uma vez mais e sempre, ela fica a dever-se à tal «miséria sexual», onde apenas muito poucos – os detentores do poder, geralmente económico -, conseguem dar livre curso, com razoável desinibição, aos seus impulsos sexuais, sem que a sociedade, à volta, desate logo aos gritos...

Como me parece óbvio, havendo dinheiro, do banco de trás do carro, ao apartamento, passando pelo quartinho de hotel mais ou menos rasca, até ao desmancho de algum descuido, sob observação oficial ou não oficialmente reconhecida, a tal hipocrisia atrás referida faz descer o seu pudico véu social sobre a coisa... e passa a estar tudo bem e mais ou menos socialmente aceite.

Em seguida, da fome de comer à fome de jóias, por outro lado, é tudo um problema de circunstância e de escala, civilizacional, dir-se-ia.

Quanto ao mais, bem aventurado o homem que, no seu desespero de identidade aquando do recurso a uma prostituta, consegue fruir e fazer fruir. Dele será, porventura, o reino do Olimpo.

Lateralmente, refiro apenas uma curiosidade que me foi anunciada em recente palestra a que assisti e que registei com curiosidade:

- as prostitutas com mais procura (e mais dispendiosas) são, nos dias que vão correndo, as chamadas «she-male». Pelos vistos, constituem «elas», para os seus clientes, o melhor dos mundos – onde, também, os fétiches ou necessidades primárias de dominação se tornam, porventura, mais patentes.

«Comer» uma prostituta com pénis «desculpabiliza» infidelidades, aguça o carácter de dominação sobre um seu igual, sublima homosexualidades... Enfim, uma panóplia de potencialidades que reflectem com maior clareza a perversão social que é ter de pagar para se ter aquilo que devia ser, porventura, a manifestação de afecto e confiança supremos entre seres da mesma espécie.

- Jorge Castro

Carolina: conto para as semi-pessoas

Porque tu não conheces a palavra. Porque tu não conheces a palavra com que encheste os meus braços. Porque tu não conheces a palavra - como poderias? - que depois te devolvi. Porque tu não conheces; porque se tu conhecesses não falavas em grãos de pó; como se fala em grãos de pó perante um castelo inteiro que imaginaste, que se diz teu e cresce num peito nu? Porque tu não sabes o que é.

Porque quando é já não é uma palavra: é a palavra e a palavra não se acalma nas amarras das tuas ponderações, não se amordaça no pano dos teus impossíveis, não se detém nas cordas das tuas fragilidades, não pára nos muros erguidos das pedras quebradas dos teus obstáculos - é, somente é, e nada mais é mais.

É por isso que não mais te falo da palavra; percebo, agora, que não sabes sequer do que estou a falar. Quer queiras ou não, somos seres humanos e nenhum caminho é caminho se nos perdermos do fundamental; é pelo fundamental que não nos extinguimos enquanto espécie e é na ausência dele que alguém corre o risco de se extinguir por dentro, mesmo que esteja muito distraído, especialmente se estiver muito distraído. E é a palavra que te faz pensar em mim - também em momentos de distracção, quando adormece a pele cinzenta que te endurece - sem perceberes porquê.

Sim, eu sou dura; mas tu és somente uma semi-pessoa e eu preciso de uma pessoa inteira; ninguém aos pedaços se sabe dar completo.



Pronta...



26 maio 2010

homosseXuais no Estado Novo

O estudo é da jornalista São José Almeida e defende que a nossa sociedade ainda é homofóbica.
Pode ler-se no site da TSF:
«O livro “ Homossexuais no Estado Novo”, que analisa o período que vai de 1912 a 1982, surge depois de vários meses de pesquisa e conta com dezenas de depoimentos.
Décadas passadas e com a chegada do regime democrático muito mudou. A jornalista São José Almeida considera positiva a lei que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas diz que a sociedade portuguesa ainda é homofóbica.
O livro “Homossexuais no Estado Novo” é publicado pela Sextante editora»
Para comprar, ler, reflectir e colocar na prateleira (salvo seja), lado a lado com o diciOrdinário.


A parte mais difícil do casamento gay



Pedro K. - blog Bico Calado

Arregaça pum pum arregaça


XIV . – É preciso ter grande cuidado na limpeza das partes e do ânus; lavar umas e outro, com água e sabão, não só quando se toma banho, mas, pelo menos, uma vez por dia. Quando não houver lavatórios apropriados pode servir uma toalha molhada. Os furúnculos das nádegas, tão frequentes, sobretudo nos que montam a cavalo, tem quási sempre por causa a falta de asseio. É preciso, quando se lavam as partes genitais, arregaçar a pele do membro, para descobrir e lavar, ou limpar com uma toalha molhada, o rêgo que separa a cabeça do membro da pelle que a cobre e onde se junta uma substância esbranquiçada, de mau cheiro, cuja demora produz inflamações e feridas, dispondo assim para as doenças venéreas. Sendo asseado, o soldado corre muito menos risco de apanhar males de mulheres.

Ministério da Guerra
CARTILHA DE HIGIENE
Lisboa: Imprensa Nacional, 1912 - p. 14

Desfeito

Vais soprar areia. Tu tens vento, vento
que sopra e grita e pede e tu, tu tens
vento que sopra nas arcadas do meu peito.
Vais soprar areia nos dedos e vais e vens
e eu encolho as mãos na cegueira do tacto;
por baixo das arcadas deixas as mãos reféns
do vento, do vento no peito e o peito rarefeito.
Vais soprar areia e nos cabelos miragens
dos dedos do vento que de vento és desfeito.

25 maio 2010

Esperança

Já faltou mais.
Claro que sim.
Esperança - lugar comum -,
ainda resta
neste espaço exíguo
em que a acalento.

Mas já faltou mais.
A esperança tem duração limitada.
A minha, esvai-se
em todos os copos
que não bebi...

Foto e poesia de Paula Raposo

Roubar aos ricos...



Alívio


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oglaf.com

1º Encontro de Mulheres... de bem com a Vida! - 29 de Maio - Lisboa

Um encontro para mulheres inteligentes, despreconceituosas, descomplicadas... e de bem com a Vida!
Descomplicadamente sozinha, acompanhada ou em grupo... Todas seremos bem vindas num encontro que se pretende despreconceituoso, entre mulheres de bem com a Vida e que inteligentemente gostam de conviver e conhecer pessoas.
Se na nossa vida existe um homem verdadeiramente inteligente, poderemos convidá-lo para uma tarde diferente. Ele só irá aceitar se realmente o for ;)
Almoçar de forma descontraída e intimista, ao som de um pianista russo... Conhecer mulheres tão fantásticas como nós... Projectos ousados... Actividades enriquecedoras... Conselhos preciosos... Registos inesquecíveis... e surpresas valiosas.
Um espaço novo, onde se respira qualidade e bom gosto, abrirá as portas para nos receber.
E para que nada se complique... reserve já a sua presença, pois a participação neste encontro é limitada a 100 participantes bem descomplicadas :)
Detalhes e Inscrições Aqui
Estarei presente e moderarei um pequeno debate:

"Como podemos descomplicar a nossa intimidade?"

"Este permitirá discutir e partilhar, com as participantes, as melhores estratégias para evitar a rotina. De uma forma descontraída abordaremos algumas questões que preocupam ainda muitas mulheres e algumas dúvidas que ditam tantas vezes a insatisfação, complicando assim a nossa sexualidade."

Vamos?

Sem rasto



HenriCartoon

24 maio 2010

Noutro mundo

Imagina-te num local a bordo de uma nave espacial com as estrelas a brilharem como velas no céu que invade a redoma e produz pequenas explosões de luz na retina desses teus olhos que me contemplam como uma miragem ao longo desta viagem que embarcámos a dois.
Imagina-te pouco tempo depois, despenteada, com uma expressão de pessoa amada, na ponte de comando, no sítio onde se vai alterando a rota em função daquilo que nos impuser o coração a cada momento que vivemos nesse tempo sonhado, quem sabe concretizado num dia amanhã. Imagina-te transportada para uma galáxia distante, nos braços do amante escolhido, do teu homem preferido no tempo em que o quiseres, espaço fora, aqui e agora, a bordo da tua imaginação onde me anseio tentação irresistível, acredita que é possível sentires assim sempre que penses em mim presente em cada vez mais passado e no futuro abraçado num local a bordo de uma nave espacial a caminho de um mundo deserto onde iremos assistir todos os dias, para sempre, a pelo menos três nasceres do sol.

Celibato: Solteirões



III. Solteirões. Mas em que razão se fundam os cili­batarios leigos para se conservarem fora do uso comum? Pedem elles, como os solitários da Thebaida, para se conservarem sem distracções a sós com Deus? Pedem, como esses guerreiros antigos marcados pela espiação, para se conservarem livres, afim de, na occa­sião precisa, de cabeça baixa, se precipitarem na morte para a salvação da sua patria? Não, nem Deus, nem a patria vivificam a sua alma; apertai-os nos seus ultimes entrincheiramentos, e quasi por toda a parte só en­contrareis o egoismo. Não é uma predominancia das affeiições superiores que os eleva à força acima das af­feições domesticas; é uma fraqueza do coração que não permitte mesmo às suas sympathias o elevar-se até esta altura. Desligados dos deveres do casamento, mais des­enfreados são na licença dos seus amores. Não vivem senão das desordens e da corrupção; o adulterio e a prostituição, esses dois flagellos caminham deante d'elles como dois anjos maus, e recrutam-lhes na multidão o cortejo que elles pedem. Que a vergonha peze pois sobre elles como pesava sobre as estereis na antiguidade e que a opinião publica os confunda.

L. Seraine. 19??:169-170

Para deitar no solo


Alexandre Affonso - nadaver.com

23 maio 2010

passatempo...


Dilúvio


Perturbante.
Sensação que aflora
o meu corpo em dilúvio.
Estremeço.
Divago.
Entrego-me.
Já não sei regressar
ao canto escondido
dos nossos dias de pressa.
Aterrador: o tempo.
Não há memória que resista;
a ausência marca-nos;
dispersa-nos
e - talvez -
mata-nos o coração!


Foto e poesia de Paula Raposo

Mariana: conto das sombras

Agora que não te trais e que ninguém te trai, sabe que te trai a tua sombra: ela continua a colar-se à minha pele durante a noite, todas as noites. E depois trespassa-me. Uma e outra e outra vez. Mais tarde, enfraquecida pela aproximação da manhã que sabe sempre escura junto de ti, quer invadir a minha sombra e morar aqui. Mas eu não deixo; convido-a a sair pela janela e penduro-a no regaço da lua para que encontre o caminho de volta. Porque a minha sombra não me trai; porque eu vou com ela onde quero ir mesmo que a sombra do medo ou de qualquer outro sentimento escuro nos acompanhe; porque eu não quero ser uma sombra.

22 maio 2010

Prostituição: carta aberta - a realidade na sombra (Comentário "extraído" do facebook)

O texto que se segue é o comentário integral deixado no mural do meu facebook pelo José Daniel Nunes Dias:

"Posso ser polémico, mas possuo uma visão muito própria e que resumiria em poucas letras...

A relação sexual comercial habitual é uma relação rápida e, por norma, desprovida de afecto. Mas, às vezes, pode haver sentimentos e emoções passíveis de serem concretizados.
Muitas vezes, os clientes tornam-se habituais e começam a investir naquela relação, que passa a ser de amizade, de afecto e, caso a prostituta esteja disponível, pode até evoluir. Ou seja, apesar de, por regra, não haver afecto, é possível que ele exista. Tal como o prazer.

Antigamente, definia-se a prostituição como a ausência de escolha e de prazer; quanto à escolha, já vimos que existe; quanto ao prazer, embora não seja algo facilmente admitido pelas prostitutas, percebe-se que algumas acabam por tê-lo com os clientes. Ora, isto é polémico: dizer que a prostituta é activa, que escolhe, e, ainda por cima, que o faz porque pode ter prazer sexual, é mais um tabu para o que se julga ser o comportamento sexual adequado a uma mulher... É mais fácil vê-las como vítimas, e não como sexualmente activas, porque o comportamento esperado de uma mulher não é aquele – é o recato, a monogamia, a fidelidade, ideias que estas mulheres, de algum modo, vêem contrariar. Daí a sociedade não estar preparada e não aceitar muito bem esta profissão.

Assim, os clientes não são nenhuns pervertidos, são homens de todas as classes sociais, idades, estatuto civil e experiência de vida - os maridos, pais e irmãos de toda a gente. Os abolicionistas, que acham que a profissão é uma forma de violência sobre a mulher, chamam aos clientes “prostituidores”, porque, na sua óptica, a mulher é uma vítima passiva tanto do chulo como do cliente - a lógica é: se não houvesse clientes, não havia prostitutas. E fazem deles seres perversos. Não são.

Há que respeitar uns e outros e olhar para esta profissão como mais uma."



A minha resposta:


Bom comentário, muito bom mesmo. Eu apenas substituiria o "que o faz porque pode ter prazer sexual" por "quando o faz pode ter prazer sexual".

Não digo que não existam mulheres que se prostituem pelo gozo de se prostituírem mas não me refiro a elas quando escrevo. Não por criticar mas porque simplesmente não saberia o que dizer, não conheço nenhuma. Conheço algumas, num extremo, que decidiram prostituir-se por fome de comida e outras, noutro extremo, que decidiram por fome do último modelo da Nokia e todos os casos intermédios. Em todos, o ponto comum: motivação base - dinheiro; mesmo que depois 100 outros motivos se pudessem juntar a esse, o central - dinheiro.

Depois, se o prazer acontece? Claro que pode acontecer, afinal continuam a ser pessoas. Depende do homem, depende da mulher, depende do dia, da hora, do estado da lua; mas estas circunstâncias não fazem com que as pessoas deixem de ser seres humanos.

Se há aqui vítimas ou mulheres que não tiveram outra opção ou que outra opção seria insuficiente? Há... Mas também há quem esteja aqui porque escolheu estar. De qualquer forma falamos sempre, quando falamos em alternativas, de alternativas insuficientes. E sofremos todas o preconceito, as dificuldades de se ter uma vida dupla, a discriminação, o medo de sermos descobertas.. o dedo apontado.

Não, não é uma vida fácil, embora algumas possam achar mais fácil que outras, depende de cada uma a forma como se lida internamente com isto.

Infidelidade? A minha perspectiva romântica não me permite considerar infidelidade um encontro que não tem como motivação (da mulher) o desejo. Mas isto é teoria, na prática, o companheiro de uma prostituta tem dificuldades sérias para racionalizar a coisa dessa forma.


Não, os clientes não são nenhuns bichos papões e mauzões. :) Mas que os há, bichos papões e mauzões, há; mas isso não é porque são clientes, é porque há homens assim que por acaso são clientes.
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Agradeço ao José o comentário que "emprestou" aqui ao meu blogue. :) Obrigada! Quem quiser, pode "espreitar" o original aqui.

Viagem ao jardim das sombras

Recebi agora o meu exemplar do livro «voyage au jardin des ombres», com uma dedicatória da autora das ilustrações, Lulu Amere. Eu bem gostava de ter um salário que não fosse português, para comprar um dos desenhos originais dela...


A capa


A dedicatória


Tinha-lhe pedido para me fazer um pequeno desenho na dedicatória. Quando recebi o livro, fiquei triste por não ver lá o desenho que lhe tinha pedido. E ela perguntou-me se eu não tinha visto o "piscar de olho". Tinha visto, mas é um desenho tão perfeito que pensei que era uma ilustração do próprio livro. É este:


«le clin d'oeil»



Ginástica íntima

Ora vamos lá, meninas. Um, dois... um, dois... um..., dois... e...





Explicam no YouTube:
"Intimate gymnastics" é um programa patenteado por Tatyana Kozhevnikova. Tatyana é a única mulher do mundo que levantou 14 Kg com os seus (dela!) músculos íntimos - consta no The Guinness Book of Records (2003).

Se querem ver mais, é só pesquisar no YouTube por "Intimate gymnastics".

21 maio 2010

Não me peçam para assistir a um filme pornográfico em 4D!

"Rock in Rio arranca hoje também em 4D - os visitantes são convidados a assistir a um vídeo com aspecto tridimensional, mas ao qual se somam salpicos de água e acções sensoriais que fazem parte da experiência a 4D"
in Diário Económico

Prostituição: carta aberta - a realidade na sombra

Não, eu não quero falar.

Prefiro escrever poesia, metáforas, contos. Mas aqui não há luz; existem corredores na sombra e outros ainda no escuro. E na sombra e no escuro crescem os fungos. Falar é lançar luz. Falar é acender a lâmpada que permite que os olhos alheios percorram estes corredores.

Esta é a realidade, não como a pensam, não como a julgam, não como a imaginam, não como tem sido mostrada: é a realidade tal como ela é. Falar é tentar manter os corredores limpos e dignos. A realidade. A realidade é que recebo mensagens de mulheres (e homens) e não sei o que responder. Aliás, mal entendo o que me escrevem: "Quero ser acompanhante de luxo"... "Quero ser acompanhante de alto luxo"... "Sou muito bonita por isso quero ser acompanhante de luxo"... "Quero ter uma vida fantástica, fácil, quero ganhar muito dinheiro, quero jantar, viajar e conhecer pessoas interessantes e/ou famosas, quero ser acompanhante de luxo".

E depois a cartada final: "Explica-me como faço"...

E eu tenho vontade de responder que não faço a mais pequena ideia, que nem sei o que significa a palavra "acompanhante" aplicada a este contexto, nisto que é a prestação de serviços sexuais; tenho vontade de lhes dizer que sou prostituta e só conheço prostitutas como eu, prestadoras de serviços sexuais; que a palavra acompanhante, neste contexto, é apenas uma forma de suavizar, uma forma de defender a nossa sensibilidade e a de quem nos procura, uma forma de proteger olhos mais susceptíveis, uma forma em forma de placebo, uma ilusão com que tentamos defender o estômago. Eu sou prostituta; defende-me o estômago a aceitação da palavra. O que conheço é prostituição: algumas cobram mais pelos seus serviços e outras cobram menos, valores esse que podem ser cobrados por relação sexual, por tipo de relação sexual, por tempo: quinze minutos, meia hora, uma hora, duas ou três horas, um dia, uma noite, uma semana. Só muito excepcionalmente a procura não solicita a prestação sexual, a forma de solicitar e a forma de lá chegar pode ser mais explícita ou implícita, mais directa ou mais indirecta, mais ou menos romântica – mas o objectivo é chegar ao sexo, independentemente do tipo de "preliminares" escolhidos: conversa, jantar, empatia, telefonema e marcação daí a meia hora, etc. Os serviços mais procurados são os cobrados por número ou tipo de relação sexual ou os serviços cobrados por tempo até à marca da hora (quinze minutos, meia hora, uma hora). Serviços mais "longos" são raros e quanto mais "especiais" mais raros são. A qualidade do serviço sexual é avaliada por alguns com base – essencialmente ou apenas – na estrutura geométrica da coisa: posições, malabarismos, tipos de sexo, o rosto, o corpo da parceira, e assim por diante. Outros avaliam-no – essencialmente ou apenas – com base na química, na empatia, na simpatia, na sensação de exclusividade, ou o que for. As características do serviço procurado, em cada caso, dependem mais do próprio cliente do que do tipo de serviço escolhido: um cliente pode contratar um serviço pago por relação sexual ou, por exemplo, por meia hora, e, ainda assim, ser um cliente que dá mais importância à química e à empatia do que à "estrutura geométrica" do sexo e da mulher escolhida. As prostitutas que normalmente chamamos de "acompanhantes de luxo" são – quase sempre – as que maioritariamente prestam serviços por meia hora ou uma relação (entre os 50 e os 80 euros) e uma hora (entre os 80 e os 100 euros). Destes valores para cima existe mercado mas é mais escasso e escasseia mais quanto mais o valor sobe. Aliás, basta espreitar um dos sites mais conhecidos, onde as acompanhantes se anunciam, para verificar que, dentro dos valores que referi (até aos 100 euros), se pode contratar serviços de belíssimas mulheres dispostas a agradar; a concorrência é feroz, o número de mulheres nesta actividade é uma elevadíssima incógnita. Tudo se pode encontrar dentro destes valores, por isso, as mulheres que cobram ainda mais, especialmente se ainda desconhecidas ou principiantes, vão ter menos (às vezes, nenhuma) procura. Só um golpe de sorte pode fazer com que uma mulher, ao iniciar-se nesta actividade, comece a cobrar valores superiores a estes e tenha sucesso, especialmente se estiver a contar com serviços maravilhosos que incluem jantares, passeios, noites, etc., para não falar dos riscos constantemente ignorados em aceitar um desses serviços que implica acompanhar um estranho. É também necessário ter um local onde receber os clientes: serviços de deslocação a hotel são mais raros e deslocações a domicilio implicam enormes riscos.

Ou seja, ser prostituta (excluindo a rua) implica despesas elevadíssimas: apartamento ou quarto, anúncios em sites ou jornais e investimentos na própria imagem. Alugar um apartamento e receber sozinha também é um risco, evidentemente; passamos o dia a quebrar a regra de segurança numero um - não abrir a porta a desconhecidos. Encontrar uma colega ou mais com quem dividir o apartamento também se pode revelar tarefa complicada: as personalidades podem chocar-se ou a pessoa escolhida pode revelar-se pouco responsável com horários, higiene, divisão de despesas, etc.; tudo se torna complicado num mundo em que se reserva a identidade, ninguém sabe quem é quem e tudo pode acontecer mais facilmente.

Face a estas dificuldades e desconhecimento do meio, muitas mulheres optam por trabalhar por conta de outrem, porque a casa suporta todas as despesas e pode proporcionar mais segurança; em troca, cada mulher dá à casa uma percentagem por cada cliente que atende, geralmente cinquenta por cento. Considero esta opção legítima enquanto opção, enquanto escolha e preferência e decisão da própria mulher; todos os profissionais têm o direito de decidir se querem trabalhar por conta própria ou de outrem.

Alertas: o lenocínio é ilegal. Tradução: ele existe na sombra, não há ninguém que fiscalize as condições em que ele existe, não há ninguém que proteja as trabalhadoras da entidade profissional. As condições a que as mulheres nesta actividade estão sujeitas quando trabalham em casas dependem, neste momento, única e exclusivamente do carácter do proprietário ou proprietária da casa em que "aterram" e isto pode, sim, tornar as coisas muito complicadas. O lenocínio não vai deixar de existir por ser ilegal, isto só lhe vai dar carta branca para existir nos moldes que a gerência dessas casas quiser.

A prostituição não vai deixar de existir por ser escondida, "alegal", discriminada enquanto profissão; vai apenas continuar a existir numa escuridão que esconde criaturas e acontecimentos negros, bem negros. A "alegalidade" é perigosa, a "alegalidade" deixa-nos desprotegidas perante riscos diversos, a "alegalidade" é apenas um "lavar de mãos" imoral e vergonhoso. Não sou acompanhante, sou prostituta; não conheço acompanhantes, apenas prostitutas; desconheço vidas fantásticas, glamourosas, luxuosas - mas conheço riscos, dificuldades, uns dias melhores que outros e alguma compensação financeira. Claro que não conheço a realidade toda, mas garanto que já por aqui ando há tempo que chegue e sobre para conhecer a maior parte. A quem decidiu escolher este caminho desejo boa sorte – é que vai mesmo precisar dela!

Os dedos

Solta-se da maresia
uma longa história:
entranha-se nos dedos.
Salgada, doce,
sabedora de segredos
uma infinita descoberta.
O poder de te saborear:
lamber as gotas
que escorrem do teu peito.
A maresia percorre-me
os sentidos,
no sentido inverso da realidade.

Foto e poesia de Paula Raposo

A primeira impressão é a que fica?

Nem sempre… Nem sempre…


Você pensaria o que? Apenas outro antílope morto por um cão selvagem?


Pois é, esse PitBull é Poodle!

Capinaremos.com

20 maio 2010

A «nossa» Bruna Real é uma santa!

"Aqui no Brasil, uma professora saiu pra balada. Isso foi lá na Bahia. Era professora de criancinhas. Olha o que ela aprontou.
Deu a maior polêmica.
Foi demitida e tudo.
Flávia Belo"

Quem ainda não aderiu ao grupo do facebook «Bruna Real a ministra da Educação»?

Será uma antestreia do Salão Erótico?!


Olh'ó grelinho liiiiiiiiindooooooooo!"

Tráficos

O funeral decorria dentro da tristonha normalidade que envolve a morte de um velho que já deve anos à terra, quando, de repente, descontrolando-se, o rapaz desatou num berreiro desalmado, repetindo num lamento aflitivo que condoeu todos os presentes:
– E agora, meu Deus?! E agora?! E agora?! E agora, meu Deus?! E agora?!
Primeiro os presentes estranharam e, ainda que incomodados, aceitaram o que podia ser uma legítima manifestação de dor. Depois, percebida a fonte da ladainha, o que podia ser, em qualquer outro, um compreensível e aceitável descontrole emocional foi rotulado como uma pouca vergonha e uma absoluta falta de senso e respeito pelo morto, a que acresceu, e não foi despicienda para a censura generalizada, a desinteressante repetição do monólogo que não ganhava motivos de interesse e o insuportável nível acústico a que, por vezes, era debitado, obrigando a que, enquanto o corpo do ancião descia à terra, dois amigos ladeassem o inesperado carpideiro, o amparassem e levassem quase de rojo para fora do pequeno cemitério.
Sem parecer notar a forçada remoção ou os olhares censórios que o acompanhavam, o rapaz continuava a soluçar a sua invariável lengalenga:
– E agora, meu Deus?! E agora?! E agora?! E agora, meu Deus?! E agora?!
Sensibilizado, como mais ninguém, o sacerdote que tinha a seu cargo dezassete freguesias e pouco tempo ou interesse para conhecer os paroquianos que não frequentavam a liturgia ou que não contribuíam para o bem-estar do rebanho e do seu pastor, inquiriu da identidade do jovem.
– É um amigo do neto do sr. Rebelo – explicaram-lhe, sem mais detalhes, ainda que (ou porque) lhe estranhassem a pergunta.
– Coitado do moço, está mesmo afectado. Pobre rapaz – ia comentando o sacerdote para quem o cumprimentava, prosseguindo na direcção do mais afectado dos presentes no funeral, ainda que o fizesse para se ir embora e não por algum desejo súbito de confortar o jovem.
Junto à porta do cemitério, o padre cumprimentou o neto do sr. Rebelo que amparava o inconformado mancebo, acenou com a cabeça para o rapaz que o suportava segurando-o com o seu braço direito, e, fitando o desesperado, dirigiu-lhe umas breves palavras de solidariedade, obtendo como resposta a mesma anterior ladainha, remoída num sussurro desesperado.
– Coragem, rapaz, coragem – despediu-se o padre, encaminhando-se para a sua viatura onde o esperava uma mulher. – É preciso é coragem. Muita coragem.

Sem olhar para trás, o padre aproximou-se do carro, abriu a mala, desparamentou-se, depois de constatar a ausência de qualquer movimento da acólita para o ajudar, vestiu um blaser, arrumou as vestes litúrgicas, fechou a mala e entrou no carro, sentando-se pesadamente ao volante.
– Já está? – perguntou a mulher, que se mantivera, até aí, quieta e calada.
– Já – respondeu o padre, de maus modos. – Podia ter saído – censurou, ligando a ignição.
– Para quê? – perguntou a mulher.
– Ajudava-me a tirar alba e as pessoas viam que era você… – O padre rodou o volante, para efectuar inversão de marcha.
– Porquê?! – disparou, com animosidade, a mulher e esperou que o padre a olhasse para completar a pergunta: – Porquê, costuma andar com outras mulheres no carro, é?
O padre não respondeu, cogitou sobre a forma de o fazer mas, não chegando a nenhuma opção satisfatória, preferiu mudar de tema aproveitando que o automóvel iria passar em frente ao portão do cemitério, onde estava o lamentoso jovem que havia perdido o rumo na vida com a morte do senhor Rebelo.
– Aconteceu uma coisa estranha no funeral – comentou o padre, terminando a manobra de inversão de marcha. – Está a ver aquele rapaz, ali no meio dos outros? – A mulher assentiu proferindo um som gutural quase inaudível. O padre continuou enquanto o automóvel se aproximava: – Não é da família mas era o mais afectado pela morte do velho… Era só – o padre caricaturou o tom choroso do rapaz, dando-lhe uma entoação de nasalado aparvalhamento: – “E agora? E agora, meu Deus? E agora?”
– Vá devagar – ordenou a mulher, quando o automóvel passou em frente do grupo. O padre abrandou a marcha e a mulher, levantando a voz, quase gritou: – Eu conheço-o. Eu conheço o ra… Ah!
– O que foi? – perguntou o padre e, espantado com o inesperado volume da voz e a súbita e inconclusiva interrupção da mulher, travou o automóvel, em frente ao portão do cemitério.
– Continue! Continue! – disse ela, reforçando a ordem com gestos nervosos. – Continue!
Sem pensar, o padre obedeceu e acelerou, ainda que de forma mais ruidosa que eficaz.
A mulher olhou-a desaprovadoramente mas nada disse.
Vexado, o padre esperou a normal e ácida censura à sua condução e, depois, a explicação quanto ao conhecimento do jovem choramingas mas, constatando o prolongamento do silêncio e a súbita turvação da expressão da mulher, avançou:
– Afinal, mas quem é o rapaz? O que é que aconteceu?
– Espero bem que não seja o que eu estou a pensar – ponderou a mulher, muito preocupada. – Espero bem que não… – A mulher olhou para o padre e perguntou-lhe compenetradamente: – E o que é que ele estava a dizer?
– Estava desesperado…
– Mas o quê? – insistiu a mulher. – Há bocado não o estava a imitar?
– Estava – admitiu o padre. – Ele só dizia “E agora, meu Deus?! E agora?! E agora?! E agora, meu Deus?! E agora?!”
– Que pouca sorte… – lamentou a mulher. – De certeza que é o que estou a pensar… Que pouca sorte…
O padre olhou-a intrigado e, preferindo não ir directo ao assunto, perguntou:
– Mas quem é o rapaz?
– É o filho do Santos.
– Qual Santos?
– Do enfermeiro.
– É?... É o filho do António? – admirou-se o padre. – Aquele é o Antoninho?
A mulher, de olhar perdido que acabou por pousar na braguilha do padre, anuiu desolada:
– É, é o Antoninho. É mesmo o Antoninho.

– E agora? – perguntou o Antoninho. – E agora, Alex?
– Mas tu só usavas o avô dele? – inquiriu o outro, em tom conspirativo.
– Agora era – murmurou Antoninho, passando a mão pelo rosto. – Na semana passada morreu o avô do Juca e na outra tinha morrido o velho Neves… – O Antoninho suspirou profundamente e recomeçou: – Ainda por cima os sacanas dos velhos morreram todos de repente, pá. E numa altura lixada…
– A Primavera… – troçou o neto do sr. Rebelo, abafando o riso. – Chega a Primavera e a natureza começa a desabrochar…
– Se fosse só a natureza… – acompanhou o Alex, rindo.
– Vocês riem-se mas eu é que estou todo lixado – lamentou o Antoninho. – Ainda por cima não tenho stock nenhum.
– Não?! – preocupou-se o Alex. – Nada?
– Quase nada – esclareceu o Antoninho. – Dá para três dias.
– Três dias?! – horrorizou-se o Alex. – Três dias?!
O Antoninho acenou que sim sem vislumbre de esperança.
– Meu Deus… – desabafou o Alex pondo as mãos na cabeça, sem esconder um sorriso trocista. – Vêm aí tempos maus… Tempos muito maus… Tempos de penúria e tédio… Então, e o que vais dizer… O que vais tu dizer… O que vais tu… – Alex colocou a voz como se estivesse a acusar o outro: – Tu, o fornecedor de substanciais alegrias aos habitantes e sólido consolo às habitantes das nossas freguesias; Tu, o dealer das maravilhosas noites azul-viagrosas e das deleitosas tardes cialis que suportam o ânimo das nossas gentes; Tu, o recuperador de auto-estimas, semeador de sorrisos e sustentáculo das alegrias conjugais e extra-conjugais de meio concelho… O que vais tu dizer aos teus clientes?
– Os meus clientes… – relativizou o Antoninho, encolhendo os ombros e espantando os outros. – Com os meus clientes posso eu bem… Que todos os males fossem os meus clientes…
– Então?
– O que me preocupa são as minhas clientes, pá, as minhas clientes – esclareceu o Antoninho, em pânico. – Com os homens posso eu bem: não há esta semana, há para a outra ou para a outra a seguir ou tem de se arranjar outra solução que ainda tem de ser estudada. Agora com as mulheres… Com as mulheres… Com as mulheres não sei se me safo… – O Antoninho abandonou-se ao desalento: – E agora, meu Deus, e agora?
– Agora?… Agora tens de arranjar outros velhos para darem o nome para as receitas – concluiu o neto do sr. Rebelo, alçando os ombros despreocupadamente.

Para pensarem...

Aquilo que a valores mais baixos (preço) pode ser considerado um extra, a valores mais altos é considerado o serviço. E vice-versa.

um cu novo por apenas 39 eur!


um cu, um rabo, umas nalgas empinadas...
'tá comprar, minha gente! 'tá comprar!

e depois «afalfar» aquilo é que... enfim!
_________________________
O OrCa ode ao logro:

"que chatice
que tolice
que canseira
tanto engano para algum nabo empinar
e depois quando afoito
chega o coito
vai-se a ver e de nalgas é só ar

e o nabo
coitadito
deprimido
está fodido por se deixar enganar

não é tanto mais bonito
e expedito
encontrar amante certo e perspicaz
que aprecie mais a frente
que o atrás?

é que há gostos para tudo
minha gente
e do tudo há-de sempre alguém gostar
o pior é quando assim de repente
quando alguém espera um cu
só lá ter ar..."

Fodida na boca



19 maio 2010

vai fermosa e bem segura...

Ainda a propósito de despropósitos…


descalça saiu à praça
Bruna Real professora
vem fermosa e com tal graça
que traz tudo o mais de fora
a pauta nas mãos de prata
mas também um vira-lata
disfarçado de decote
ou de sedoso saiote
mais inocente não fora
vai fermosa e professora
descobre os pés e a garganta
e pelo meio dourado
o corpo todo mostrado
tão linda que o mundo espanta
chove nela a fúria santa
e tanta cabeça à nora
vai fermosa e professora

-  que me perdoe o Luís Vaz, mas acabei agorinha mesmo de pedir autorização ao Camões…

O fenómeno de Mirandela

Não tenho nenhuma opinião inteiramente formada sobre o que tanto se discute nestes dias: uma professora ter pousado para a Playboy e, por essa razão, ter ficado afastada do contacto com as crianças, supostamente pelo alarme social que as suas fotos causaram. E "alarme social" não é uma expressão minha, foi o que ouvi no rádio pela boca de alguém que comentava a situação.

Sabendo quem me lê que sou Católico, poderia esperar de mim uma forte condenação, uma posição firme de apoio à rejeição desta senhora como professora que deveria dar o exemplo, um exemplo (não sei qual, mas um exemplo), e manter uma conduta regrada, adequada à sua condição de professora que influi na formação de crianças que amanhã serão adultas e farão com as suas vidas muito daquilo com que foram crescendo. Podia, podia assumir essa posição. Mas não a assumo.

O sexo (muito mais o sexo do que o erotismo) está em todo o lado. As crianças levam com o sexo desde muito cedo. Quem é que não viu, já, filmes na televisão, durante o fim-de-semana em horas familiares, com cenas de sexo, insinuação de sexo ou algum tipo de nudez? Quem não passou já na rua, com crianças pela mão, em frente a outdoors publicitários que procuram vender algum tipo de produto com mensagens mais ou menos descaradas de carácter sexual? Pergunto ainda: mesmo assumindo que a Playboy não é uma revista que se tenha em cima da mesa ao lado da TVGuia ou da Science, quantas das pessoas que se dizem chocadas com esta situação, não se incomodam de ter, nas suas casas, ao acesso das suas crianças, revistas daquelas de "dona-de-casa" (para que saibam quais são, que não me apetece referi-las pelo nome) que, nas secções de aconselhamento, referem coisas porventura mais complicadas de explicar a uma criança do que a nudez de uma pessoa?

Não consigo ter uma ideia formada sobre isto. Não está provado, para mim, que a nudez desta professora a torne pior profissional, incapaz de dar aulas e formar bem as crianças. Não está provado, para mim, que ser professora é incompatível com nudez. Mas também não está provado, para mim, que isto não suscite, em algumas crianças, uma curiosidade acrescida pelo sexo, numa altura em que talvez não lhes seja benéfico. Mas, se assim acontecer, talvez já aconteça por muitas outras coisas, sendo isto apenas a gota final que transborda.

Mais. Não será isto, para as gentes de Mirandela, uma boa oportunidade para contextualizar as coisas? Para fazer um esforço em quebrar as dificuldades do diálogo sobre sexo e fazer as criancinhas entender a nudez, entender a sexualidade, o erotismo, e como estas coisas podem estar (ou não) e devem estar (ou não) associadas a outros sentimentos de alguma nobilidade?

Espero que o benefício financeiro obtido com estas fotografias tenha sido, para a professora, minimamente compensador. Porque enquanto o tal alarme social não passa, vai precisar aguentar-se. Tenho mais dúvidas que certezas. Uma coisa não faço: não a condeno nem julgo. Nem como pessoa, nem como profissional.

Isto é um escândalo!!!!


Fotografia de Libélula Purpurina.

[blog Libélula Purpurina]

Blenorragia ou Gonorréia


BLENORRHAGIA

1. A blenorrhagia ou esquentamento apega-se com muita facilidade, é uma doença muito contagiosa. Um individuo atacado desta doença, em nome da moral social, não deve ter relações sexuaes.
2. O doente terá cuidado de lavar as mãos sempre que tocar no membro, deve evitar, chegá-las aos olhos; o pus blenorrhagico produz uma inflammação nos olhos tão forte que já muitas pessoas têm ficado cegas, por ignorancia ou descuido deste preceito de hygiene.
3. O doente deve abster-se de carne de porco, comidas salgadas e apimentadas ou fortemente condimentadas, bebidas alcoolicas (vinhos finos, cognac, cerveja, aguardente, etc.). Pode beber às refeições um pouco de vinho tinto traçado com muita agua.
4. O doente não deve andar a cavallo, não deve dançar, não deve andar em bicycleta nem de automovel.
5. É muito conveniente usar um suspensorio para os testiculos.
(..)
8. A blenorrhagia que merece pouco cuidado da gente moça, póde ser causa de muitos desgostos para o individuo e para a familia. (…) Um individuo que se case, tendo a gota militar (blenorrhagia ou esquentamento chronico) contagiará fatalmente a esposa. (…) Muitas doenças próprias das mulheres reconhecem como causa a gota militar dos maridos que estes desprezaram ou não quizeram tratar em solteiros. (…) Nos casos chronicos favoraveis, o marido fica sujeito a ser reinfectado a cada passo pela mulher, na occasião das relações sexuaes.
(…)
10. É de maxima urgencia que os individuos, atacados de blenorrhagia, procurem um medico, única pessoa competente para os tratar não com drogas maravilhosas e secretas, mas com remedios conhecidos pelos médicos de todos os paizes.

Prophylaxia sanitaria e moral: II Blenorrhagia
Porto: Typographia Santos, 1913 – 2.ª Edição, pp.1-7

Ouvir é andar o discurso dos passos

Não, eu não quero, não quero desmanchar. Sei que se mancha com ilusões. Sei que... Anda, perto. Não, mais não, ainda não. Sim, já a sei. Não, não me contes. Ele veio e dizia: "deixa que respire pelo teu peito". Ouvir. Ouvir é andar o discurso dos passos. Tu agora só falas com palavras. Eu, antes, não. Não me toques mais assim, por baixo da roupa. Assim. Direito à pele, sem sequer despir e assim só te misturas na multidão. Os passos não andam e andam as tuas mãos; apertam o meu peito, vermelhas, e deixam o cheiro dos animais com dedos que gostam de arranhar.Agora és surdo como um mudo. Agora és feio. Eras? Não vi.

18 maio 2010

E por falar em (in)docente

O escândalo Bruna Real, a professora de Mirandela que a Playboy agora celebrizou, faz-me sentir a mesma sensação desconfortável de todos nós os que podemos colocar-nos a questão de quanto a vida pode ser injusta nos seus timings.
Sim, porque é que a Playboy não tinha uma edição portuguesa no tempo das aulas com a minha professora de Inglês do décimo primeiro ano?
Porquê, digam-me?!

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Joao: "Em complemento à pergunta do Shark, tenho igual interrogação acerca da minha professora de matemática do 5º ano, em cujas aulas havia um disparate de lápis e canetas a cair ao chão apenas para um vislumbre daquelas pernas, das minhas professoras de Francês, do 8º e 9º anos, e, finalmente, da minha professora de informática, no 10º ano. Teria sido interessante.
Quase me esquecia da professora de Educação Visual, no 5º ano.
Só teria precisado de 5 números da Playboy para resolver estas curiosidades. Todos estes anos volvidos, pergunto-me se alguma delas ainda guardará os seus predicados. (...) Apercebi-me, de repente, que assumindo que elas teriam, naquela altura, trinta e poucos anos, já serão todas cinquentonas ou muito perto disso. Bolas, que o tempo passa... e se tiver errado na estimativa, pode até acontecer que alguma delas já tenha cruzado os 50 muito a caminho dos 60. Caramba."
Gomalaca: "«É quando começam a ter rugas que as uvas são mais doces» - Confúcio"
PortugalEstáFodido: "Esta professora é uma «lasca», aquilo que chamo de verdadeira mulher, daquelas que enchem o olho e não só! Esta mulher é um monumento à beleza feminina, até me dá vontade de chorar.
Deviam era substituir aquela figura triste e deprimente que nas procissões levam nos andores, por esta mulher de carne e osso, capaz de fazer milhares de crentes percorrer imensos quilómetros de joelhos!"
OrCa: "Ah... e a minha professora de Ciências Naturais, do 4º ano liceal, que apoiava o ventre à esquina da minha carteira - era assim que se chamava - na primeira fila, sempre que se dirigia aos galfarros... E eu fiquei sempre sem saber se aquelas aulas lhe davam mais gozo a ela ou a nós... E quando levantava os braços para pendurar o mapa do esqueleto do coelho ou do pombo, a bata e a saia, já de si curtas, alçavam-se a esplendores anatómicos que produziam um incontrolável bru-á-á na rapaziada que seria impossível não ouvir... Chegaram a oferecer-me dinheiro para trocar de lugar comigo, na aula de Ciências Naturais!"
shark: "É bom, uma pessoa ter assim memórias do tempo de escola em que éramos tão sedentos de aprendizagem e assim..."
São Rosas: "Eu hei-de sempre lembrar-me de uma professora, de cabelos compridos, que passava a aula enrolar os cabelos e depois deixava-os cair soltos pelo corpo todo.
Se na altura já eu era lésbica assumida, depois disso assumi a irreversibilidade e assim..."
Santoninho: "Olha, eu tive um professor que partia nozes com a piça em cima do tampo da secretária e nunca ninguém o chamou à atenção por isso..."
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Entretanto, criei no Facebook o grupo Bruna Real a ministra da Educação». Quem vota a favor?

da professora toda despida e desta apagada e vil tristeza que nos veste a todos...

Mirandela resolveu rivalizar com Bragança. Pelo menos na sanha pseudo moralista com que fez cair o gládio das virtudes balofas em defesa da «honra e integridade da Pátria», desta feita sobre uma professora de música que decidiu posar nua para a revista Playboy.

O director do Agrupamento de Escolas da Torre de Dona Chama, clarinho como a água de tanta ribeira poluída deste País, nos afiançou: "Aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora". E daí a anunciar a rescisão do respectivo contrato foi um ápice.

E logo sequenciado por pudibunda e pressurosa vereadora que de pronto retirou a senhora da escola e catrafiou-a num arquivo, a bem da moral e dos bons costumes, quiçá ao abrigo dos olhares concupiscentes, protegendo-a a ela da gula dos concidadãos e aos concidadãos do pecado da gula (para além de outros menores, claro). Fica-me, confesso, a inveja dos bichinhos-de-prata, useiros e vezeiros nestas coisas dos livros e papéis velhos e que poderão desfrutar à vontade de quanto ao comum cidadão foi sonegado…

(Se gostou do que leu até aqui, veja, por favor, o restante em FREEZONE)

Precisamente


Precisamente hoje:
embala-me, abraça-me,
aguça-me o apetite;
volta, meia volta,
volta e meia
preciso que venhas
e me aguces assim.

Um verbo, um delírio,
o som e o gemido audível,
preciso - precisamente - hoje
que me perturbes o sono.

Foto e poesia de Paula Raposo

Conto do desencontro

Tradução do que foi assim como foi. Falámos. Sim, tu falaste e eu falei. Não sei se a ordem foi esta. E combinámos. Combinámos em nenhum dia a horas diferentes. Combinámos o desencontro. Ah! Se ao menos quem chegasse primeiro esperasse. Eu esperava? Tu esperavas? Mas, como podemos saber, ao chegar, se alguém não esperou ou se ainda nem chegou?

Privilégio diplomático



Santuário


1 página

oglaf.com

A dolorosa decisão de Cavaco



HenriCartoon

17 maio 2010

Pensamento do dia

Revendo um caderno de notas, encontrei algumas pérolas, anotações soltas e alguns desenhos. Nesta reunião, de há 5 anos atrás, participava uma mulher, já confortavelmente nos seus 40 (e tantos) e de lábios muito sensuais. Foi então que me ocorreu escrever isto:



Tradução: "Pensamento do dia: A percepção do mundo e da convivência social altera-se profundamente quando percebemos que na boca das mulheres com quem falamos já entraram um ou mais pénis".

Contos já sem pontes no azul

O frio dos dias queima a página das horas. O fogo. Eu tentei escrever-te o fogo.
Sou apenas um fósforo. E tu sabes. Eu sei, agora sei.
Ele deu-me amor. Mas tu deste-me azul. E azul é mais que amor. É mais que qualquer amor.
É mais que todos os amores. É azul. E tu sabes.
E eu? O que te dei? Dizes-me? E tu sabes?
Quem vai aumentar as palavras para te demorares nelas? Se não lês, o silêncio pode não demorar. Diz-me do princípio. Prometo não contar a ninguém. Nem a mim. Eu não conto. Quem vai domar os versos para te servirem? O que foi feito dos pássaros que escrevi na tua gaiola?
Fala-me do princípio.
O gelo no azul queima os olhos presos nas páginas. O fogo sempre procurou os teus para se escrever; agora, acredita que não tens. Saberás? Não.

Postalinho com vários postais

A Teresa B. falou-me de uns postais seus do mestre José Vilhena.
Bem que tentei "trazê-los" para a minha colecção, mas...

"Acredito que gostasses dos postais... mas eu também!
Enquanto eu não me fartar deles, contenta-te com as cópias...
Teresa B."


(crica nas imagens para as aumentar)