«respostas a perguntas inexistentes (361)» - bagaço amarelo

Deus

E eu a pensar que o Amor era uma necessidade. Uma necessidade que encontramos na solidão dos dias e que nos faz procurar alguém.
Quando ela se aproximou de mim e me perguntou se se podia sentar ao meu lado, eu ia na segunda cerveja. Tinha o livro que ando a ler fechado numa das cadeiras vazias e procurava as minhas próprias palavras para explicar o momento. É isso que a literatura nos faz, explicar-nos cada um dos momentos da nossa vida. O pensamento também.

- É um desenho?
- Mais ou menos...

Cada vez que eu pousava o copo de cerveja, a sua transpiração desenhava um círculo na madeira escura da mesa. Aquele segundo copo já me tinha permitido fazer o símbolo dos Jogos Olímpicos. Cinco círculos entrelaçados a que ela chamou desenho...
Deu-me um jornal para a mão e eu percebi ao que vinha. Era duma religião tão desinteressante para um ateu como eu como um pente para um careca. Ainda assim, queria saber o que é que ela tinha visto em mim para pensar que eu podia querer fazer parte duma seita chamada Igreja Universal do Reino de Deus.

- Também andei assim sozinha, muito tempo, pelos cafés...
- Eu adoro andar sozinho pelos cafés. Se puder fazer isto o resto da minha vida, faço.

Dei mais um gole na cerveja, com a sensação que ela acompanhou com o olhar todo o trajecto do copo, da mesa aos meus lábios e dos meus lábios à mesa. Pousei-o inadvertidamente no meio do símbolo dos Jogos Olímpicos e rodei-o de forma a destruí-lo.

- Eu também pensava isso mas depois, mesmo sem acreditar, encontrei Deus.
- E onde é que estava Deus quando o encontrou?
- Ele está em todo o lado, mas nós às vezes não o sentimos.
- Se ele está aqui, queira convidá-lo a sentar-se à nossa mesa, por favor. Eu pago-lhe um copo.

Pensei que ela ia desistir, mas não. Pôs-me a mão no ombro e explicou-me o que é uma corrente, ou seja, uma assembleia em que várias pessoas se juntam para poderem sentir Deus. E eu a pensar que o Amor era uma necessidade. Uma necessidade que encontramos na solidão dos dias e que nos faz procurar alguém. Foi o que pensei, pelo menos. Várias pessoas reúnem-se numa sala qualquer e não se vêem umas às outras. Preferem ver uma coisa que não existe quando, na verdade, o que elas precisam está mesmo ali ao lado: mais pessoas.
Apesar de tudo, era o que me estava a acontecer. Tinha uma pessoa ao meu lado para falar durante algum tempo, mesmo não acreditando minimamente no que ela me estava a vender. Depois de a informar de que não havia a mínima hipótese de me convencer, pedimos duas cervejas e gastámos o resto da tarde a conversar. Com palavras, claro. Não as do livro que ainda estava pousado, não as do meu pensamento solitário, mas as nossas...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»