18 maio 2010

E por falar em (in)docente

O escândalo Bruna Real, a professora de Mirandela que a Playboy agora celebrizou, faz-me sentir a mesma sensação desconfortável de todos nós os que podemos colocar-nos a questão de quanto a vida pode ser injusta nos seus timings.
Sim, porque é que a Playboy não tinha uma edição portuguesa no tempo das aulas com a minha professora de Inglês do décimo primeiro ano?
Porquê, digam-me?!

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Joao: "Em complemento à pergunta do Shark, tenho igual interrogação acerca da minha professora de matemática do 5º ano, em cujas aulas havia um disparate de lápis e canetas a cair ao chão apenas para um vislumbre daquelas pernas, das minhas professoras de Francês, do 8º e 9º anos, e, finalmente, da minha professora de informática, no 10º ano. Teria sido interessante.
Quase me esquecia da professora de Educação Visual, no 5º ano.
Só teria precisado de 5 números da Playboy para resolver estas curiosidades. Todos estes anos volvidos, pergunto-me se alguma delas ainda guardará os seus predicados. (...) Apercebi-me, de repente, que assumindo que elas teriam, naquela altura, trinta e poucos anos, já serão todas cinquentonas ou muito perto disso. Bolas, que o tempo passa... e se tiver errado na estimativa, pode até acontecer que alguma delas já tenha cruzado os 50 muito a caminho dos 60. Caramba."
Gomalaca: "«É quando começam a ter rugas que as uvas são mais doces» - Confúcio"
PortugalEstáFodido: "Esta professora é uma «lasca», aquilo que chamo de verdadeira mulher, daquelas que enchem o olho e não só! Esta mulher é um monumento à beleza feminina, até me dá vontade de chorar.
Deviam era substituir aquela figura triste e deprimente que nas procissões levam nos andores, por esta mulher de carne e osso, capaz de fazer milhares de crentes percorrer imensos quilómetros de joelhos!"
OrCa: "Ah... e a minha professora de Ciências Naturais, do 4º ano liceal, que apoiava o ventre à esquina da minha carteira - era assim que se chamava - na primeira fila, sempre que se dirigia aos galfarros... E eu fiquei sempre sem saber se aquelas aulas lhe davam mais gozo a ela ou a nós... E quando levantava os braços para pendurar o mapa do esqueleto do coelho ou do pombo, a bata e a saia, já de si curtas, alçavam-se a esplendores anatómicos que produziam um incontrolável bru-á-á na rapaziada que seria impossível não ouvir... Chegaram a oferecer-me dinheiro para trocar de lugar comigo, na aula de Ciências Naturais!"
shark: "É bom, uma pessoa ter assim memórias do tempo de escola em que éramos tão sedentos de aprendizagem e assim..."
São Rosas: "Eu hei-de sempre lembrar-me de uma professora, de cabelos compridos, que passava a aula enrolar os cabelos e depois deixava-os cair soltos pelo corpo todo.
Se na altura já eu era lésbica assumida, depois disso assumi a irreversibilidade e assim..."
Santoninho: "Olha, eu tive um professor que partia nozes com a piça em cima do tampo da secretária e nunca ninguém o chamou à atenção por isso..."
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Entretanto, criei no Facebook o grupo Bruna Real a ministra da Educação». Quem vota a favor?

da professora toda despida e desta apagada e vil tristeza que nos veste a todos...

Mirandela resolveu rivalizar com Bragança. Pelo menos na sanha pseudo moralista com que fez cair o gládio das virtudes balofas em defesa da «honra e integridade da Pátria», desta feita sobre uma professora de música que decidiu posar nua para a revista Playboy.

O director do Agrupamento de Escolas da Torre de Dona Chama, clarinho como a água de tanta ribeira poluída deste País, nos afiançou: "Aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora". E daí a anunciar a rescisão do respectivo contrato foi um ápice.

E logo sequenciado por pudibunda e pressurosa vereadora que de pronto retirou a senhora da escola e catrafiou-a num arquivo, a bem da moral e dos bons costumes, quiçá ao abrigo dos olhares concupiscentes, protegendo-a a ela da gula dos concidadãos e aos concidadãos do pecado da gula (para além de outros menores, claro). Fica-me, confesso, a inveja dos bichinhos-de-prata, useiros e vezeiros nestas coisas dos livros e papéis velhos e que poderão desfrutar à vontade de quanto ao comum cidadão foi sonegado…

(Se gostou do que leu até aqui, veja, por favor, o restante em FREEZONE)

Precisamente


Precisamente hoje:
embala-me, abraça-me,
aguça-me o apetite;
volta, meia volta,
volta e meia
preciso que venhas
e me aguces assim.

Um verbo, um delírio,
o som e o gemido audível,
preciso - precisamente - hoje
que me perturbes o sono.

Foto e poesia de Paula Raposo

Conto do desencontro

Tradução do que foi assim como foi. Falámos. Sim, tu falaste e eu falei. Não sei se a ordem foi esta. E combinámos. Combinámos em nenhum dia a horas diferentes. Combinámos o desencontro. Ah! Se ao menos quem chegasse primeiro esperasse. Eu esperava? Tu esperavas? Mas, como podemos saber, ao chegar, se alguém não esperou ou se ainda nem chegou?

Privilégio diplomático



Santuário


1 página

oglaf.com

A dolorosa decisão de Cavaco



HenriCartoon

17 maio 2010

Pensamento do dia

Revendo um caderno de notas, encontrei algumas pérolas, anotações soltas e alguns desenhos. Nesta reunião, de há 5 anos atrás, participava uma mulher, já confortavelmente nos seus 40 (e tantos) e de lábios muito sensuais. Foi então que me ocorreu escrever isto:



Tradução: "Pensamento do dia: A percepção do mundo e da convivência social altera-se profundamente quando percebemos que na boca das mulheres com quem falamos já entraram um ou mais pénis".

Contos já sem pontes no azul

O frio dos dias queima a página das horas. O fogo. Eu tentei escrever-te o fogo.
Sou apenas um fósforo. E tu sabes. Eu sei, agora sei.
Ele deu-me amor. Mas tu deste-me azul. E azul é mais que amor. É mais que qualquer amor.
É mais que todos os amores. É azul. E tu sabes.
E eu? O que te dei? Dizes-me? E tu sabes?
Quem vai aumentar as palavras para te demorares nelas? Se não lês, o silêncio pode não demorar. Diz-me do princípio. Prometo não contar a ninguém. Nem a mim. Eu não conto. Quem vai domar os versos para te servirem? O que foi feito dos pássaros que escrevi na tua gaiola?
Fala-me do princípio.
O gelo no azul queima os olhos presos nas páginas. O fogo sempre procurou os teus para se escrever; agora, acredita que não tens. Saberás? Não.

Postalinho com vários postais

A Teresa B. falou-me de uns postais seus do mestre José Vilhena.
Bem que tentei "trazê-los" para a minha colecção, mas...

"Acredito que gostasses dos postais... mas eu também!
Enquanto eu não me fartar deles, contenta-te com as cópias...
Teresa B."


(crica nas imagens para as aumentar)





Boneca inflável


Alexandre Affonso - nadaver.com

16 maio 2010

A professora de Mirandela



HenriCartoon

a professora Bruna...


... pode perder emprego por posar para Playboy
Raim´s blog

Sem medo


Não tenho medo.
A foto és tu deitado
e eu ao teu lado.
Vês?

Mas não tenho medo
que seja só uma ideia minha.
Sei - sobretudo - que és tu
e não me amedrontas.

Aonde é que foi o delírio?
Aonde foram a vontade e o prazer?

Continuo a vasculhar
todos os precipícios
e ainda não dei contigo:
- Onde foste?

Foto e poesia de Paula Raposo

Morrer no ar

É por isso que não te consigo agarrar
porque não tenho mãos
e tenho os dedos a divagar
em gestos sem mãos a vaguear;
os gestos sem mãos
são gestos vãos
que morrem no ar.

Beauty Demo

A Patrícia Manhão recomenda-nos esta montagem de publicidade feita por Stephane Pivron para a Mikros Image, ao som de Whitey - «Stay On The Outside».

Beauty Demo from stephane pivron on Vimeo.

15 maio 2010

Compilação* de poesia erótica dita pelo Luis Gaspar

Na Décima Terceira Hora, o Luis Gaspar (voz d'ouro do Estúdio Raposa) lê-nos poemas já apresentados em "Poesia Erótica" dos seguintes poetas: Affonso Romano, 1 poema, Alexandre O’Neill, 1 poema, Álvares Azevedo, 1 poema, Antero de Quental, 1 poema, António Botto, 5 poemas, Cláudia Marczak, 1 poema, Ernesto Melo e Castro, 5 poemas, Gui de Maupassant, 1 texto, Gustave Flaubert, 1 texto, Jean Everaets, 3 poemas, Judith Teixeira, 5 poemas, Rosa Lobato Faria, 1 poema, Salvador Pliego, 1 poema e Vera Silva, 5 poemas. É aqui:


decima_terceira_hora.mp3


* não, eu não disse "com pila, São"!

Cronologia do eco

Primeiro foi a chuva. Só passos entre espaços.
Intervalos. E os espaços cada vez mais curtos.
Aquele que nunca fica e sempre repete. O eco.
Ele. O compasso que marca os intervalos.
O segundo veio do minuto ao chegar da hora.
Eu gosto do eco. Tem garras e ri e pouco
depois agarra-me as pernas pelos joelhos.
E agora? Por onde me queres entrar, agora?
Talvez me entres pelo fim da tarde e, então, oco
te enchas de nós. A tarde escorre o sol pelos raios
e, agora, agora que já nunca aqui se demora,
vou montando o eco da voz de um louco
que chove e chove e o tempo tão seco.

«Shiny Suds»

"Mereces conhecer os químicos que estão nos teus produtos de limpeza"

14 maio 2010

«Do assédio» - AnAndrade

"Preparava-os para um exame específico, que contaria um terço para a definição do resto das suas vidas. Falava-lhes de diferenças de género, de orientação sexual, de Foucault e da História da Sexualidade, de preconceitos, de confissões, de segredos, de puritanismo e de direitos sociais.
De repente, a despropósito, da primeira fila onde se instalara com uma parafernália de gadgets (que deviam ser o que lhe prolonga o ser e o resto, quando o carro não se assoma) perguntou-me pelo assédio. Não pelo assédio em geral mas pelo modo como eu lhe reagiria, em particular.
Não me inspirou grande confiança, o tom, mas é sabido que sou muito mais paciente numa sala de aula do que na vida particular, pelo que lhe respondi, com todos os efes e erres: disse-lhe temer por muitos homens e mulheres que, fruto das suas vivências, dependências e obrigações, se sentiam compelidos a aceitar uma atitude assediadora por parte de alguém com ascendente sobre si, em silêncio. Acrescentei que me sinto sobejamente livre, em todos os sentidos: porque não tenho medo, porque o silêncio nunca foi o meu forte (e recordei as cenas que fazia, quando adolescente, nos autocarros, sempre que um homem resolvia esfregar-se em mim: perguntava-lhe bem alto o que estava a fazer e por que raio se estava a roçar; sempre foi remédio santo) e porque não devo nada a ninguém (em todos os sentidos). Porque sou livre, exporia o assediador, desdenhando o que quer que fosse que pudesse, eventualmente, comprar-me o silêncio.
Calou-se, julguei que percebera.
Mas não.
Quarenta e oito horas depois, recebi um e-mail a convidar-me para almoçar, num dos melhores e mais caros restaurantes do Porto (mais um prolongamento do que deve ser excessivamente parco), a pretexto de uma "aula particular informal" que melhor o preparasse para o exame que se avizinhava (e ou me estava a chamar incompetente por não o ter preparado no curso que pagou, ou se estava a intitular uma menoridade do ponto de vista cognitivo, na medida em que não lhe chegavam os ensinamentos que bastaram aos outros); incluía mesmo um momento de pura e descarada lambe-botice, uma vez que "desejava beber da minha experiência" no que toca ao ensaio argumentativo.
Ainda que imaginando que não fosse propriamente na minha experiência académica que o senhor estava interessado, não despi o papel da professora e, em pouco mais de duas linhas, declinei o convite (sem explicações, porque não lhas devia) e desejei-lhe o maior dos sucessos, a nível profissional, especialmente para o exame para que o preparara.
E pensei que a coisa ficaria por ali, teria de ficar!, que mais haveria a dizer?
Mas havia.
Passadas umas horas, novo e-mail. Onde dizia (deixando cair o "Dra.", sem que eu lho tivesse permitido) que nunca pensara ser eu tão preconceituosa e puritana (vitoriana, no dizer de Foucault), entre outras amabilidades de quem se sente ofendido mais ou menos entre a coxa e abdomen.
Aí, já não me sentia na obrigação de responder como professora. Perante o atrevimento, foi a mulher quem lhe respondeu:

Caro Dr. D.:
É com alguma perplexidade que verifico a sua capacidade de tecer juízos e desejo que, numa futura experiência enquanto magistrado, seja mais ponderado a estabelecê-los.
A minha recusa não tem nada de vitoriano, ao menos no entendimento de Foucault (ou me expliquei mal, ou o Sr. Dr. não esteve com a atenção devida durante as aulas); é apenas fruto da liberdade que (ainda!) possuo de recusar ou aceitar um convite que me dirigem, seja em que circunstância for.
Como não se trata de uma situação de cariz pessoal ou profissional, não me sinto obrigada a dar justificações. De todo o modo e porque, por vezes, o implícito não é claro, deixe-me esclarecer que, por norma, não dou aulas particulares, sejam elas formais ou não, a não ser que me apeteça, abrindo, nesse caso, uma excepção. Quando não é essa a minha vontade, faço o que a minha liberdade me permite: recuso delicadamente e não espero repercussões, já que qualquer convite acarreta a possibilidade do não.
Cumprimentos.
Ana Andrade


(E se voltar a insistir, até porque teve a distinta lata de responder a isto, ainda que já de orelha murcha, faço-lhe o que fazia aos roçadores-de-autocarro: boca no trombone, mas desta vez sem abreviaturas.
Eu avisei, o fulano é que não estava atento...)"


AnAndrade
Blog Câimbras Mentais

A tua cor de amor


Hoje vou levar-te até ao meu jardim.
Não tem flores, mas tem relva;
sei como gostas da sua humidade
ao cair das tardes de Outono.

Entramos como dois sonâmbulos
gotejando o desejo dividido,
a suave languidez das pernas,
as gotas de neblina no olhar
e fazemos amor –não como adolescentes-
de uma viva tonalidade azul.

Sabes desse meu azul preferido
tal como eu sei da tua cor de amor.

Foto e poesia de Paula Raposo

Saudações ao Sr. Velho Barreiro também...

Capinaremos.com

13 maio 2010

Quebrar o gelo



HenriCartoon

Linha Verde

O céu uniformemente cinzento dos dias sem sol e o opressor silêncio dos vidros duplos provocavam-lhe náuseas. Os papeis que, apesar do seu dedicado esforço e das novas tecnologias, se acumulavam provocavam-lhe um sentimento de derrota diária que o mal amanhado almoço comido à pressa e a contínua sequência de cafés azedava até ao vómito ou às ácidas pontadas no estômago do fim da tarde.
– Parece que não está com boa cara, homem – repetiam, dia sim dia também, as várias pessoas que iam e vinham trazendo e levando papeis, só substituindo o homem pelo seu nome ou a cara pelo aspecto ou pela cor.
Ele, o homem, enclausurado no ambiente de luzes, ar e som artificiais, definhava e empalidecia de manhã à noite, desde que cruzava o hall do prédio até que reentrava no Metro para voltar para casa.
“Devo ser o homem mais cinzento do mundo” lamentava-se fixo na linha de metal electrificado do fosso do metropolitano. “É uma ironia, um paradoxo, o homem mais cinzento do mundo acabar numa colorida poça de vermelho vivo”, sorriu. “E ainda colorir o ferro e o betão da linha tão cinzentos como ele”, pensava sonhador, perscrutando em volta para se certificar da inexistência de crianças na estação. “O homem cinzento é um suicida ético”, vangloriou-se, inconscientemente satisfeito por ver duas crianças de mochilas às costas a descer a escada.
“Ainda não é hoje que largo a pasta” brincou, passando-a distraidamente da mão esquerda para a direita, e reconhecendo a mulher que estava ao seu lado e que ali via praticamente todos os dias tocou-lhe ao de leve no braço, num gesto espontâneo, irreflectido e que o surpreendeu.
– Sabe? – perguntou, acompanhando o toque.
A mulher sentiu a ponta dos dedos no braço, ouviu a voz, olhou-o sem expressão, ainda que também o reconhecesse, e manteve o olhar esperando que ele continuasse. Surpreendido consigo próprio e pelo relativo interesse da mulher, ele anunciou:
– Acho que sou o homem mais cinzento do mundo.
A mulher ouviu, encolheu os ombros e perguntou-lhe, impessoal:
– E depois?
– Depois?!
– Sim, e depois? – replicou a mulher, esticando o pescoço conferindo se o comboio já se via no túnel. – É a sua opinião e se o senhor for mesmo o homem mais cinzento do mundo a sua opinião é a opinião mais cinzenta do mundo e se a sua opinião é a mais cinzenta do mundo, acha que alguém se interessa por ela? Acha que tem algum interesse? Algum valor? – Resignada com a inexistência de luz ou barulho vindo do túnel, a mulher concluiu mudando de registo: – Ah! E se for o homem mais cinzento do mundo é um ser único, especial, e o seres únicos e especiais não são cinzentos, pelo que…
– Já sei… – interrompeu o homem, com uma careta e um sorriso. – Se for não posso ser.
– Nem mais – anuiu a mulher com um sorriso involuntário.
– Olá, eu chamo-me Raimundo – apresentou-se ele, esticando a mão.
– Sílvia – despediu-se ela, retribuindo o cumprimento manual e entrando para a carruagem que parara em frente deles. – Até amanhã, Raimundo, o homem que não é o mais cinzento do mundo.

«o caracol que quer ir à fava...» - postalinho do Jaf

Recebi um postalinho do Jaf com umas fotos deliciosas, que contam a história de umas favas e de um caracol.

"Fotos originais, minhas, que tenho todo o gosto em partilhar, mas não sou fotógrafo, mas brincalhão…
Bom apetite!
Jaf"




Equilibrar instantes

Ergue agora a espada, amor
que as horas vão errando
pelos teus cantos;
por enquanto,
entretanto,
aqui,
e
as horas de ti não entendem
como não me passaram;
tu, um entre tantos
foram miragem
ou deserto
em ti.
E?
Ergue agora a espada, amor
tuas horas, meu quando
que inteiro levaram;
não há ontem,
segundos
ruí
e
as horas de ti; nem entendem
como certas me deixaram
lá entre teus tempos,
tu, ancoragem;
momentos
fluí.
E?

Cona na boca



«Abençoada matemática que não é uma batata» - contas de Paulo Moura

"As estatísticas são muito claras e apontam para que apenas 0,03% dos casos [de pedofilia] ocorram na Igreja."
Cardeal Saraiva Martins
numa entrevista ao jornal i
publicada em 6 de Maio de 2010

"Vamos lá então fazer continhas.
Há em todo o mundo 1 papa, 192 cardeais, 5.002 bispos e 409.166 padres da Igreja Católica (fontes: «The Pontifical Yearbook 2010» via EWTN.com; e Wikipedia) - total: 414.361.
A população mundial é actualmente de cerca de 6.800.000.000 habitantes.
Ou seja, a estrutura básica da Igreja representa 0,006% da população mundial.
Como «0,03% dos casos [de pedofilia] ocorrem na Igreja», 0,03% a dividir por 0,006% é 5. Ou seja, haverá o quíntuplo de incidência de casos de pedofilia na Igreja em relação à média mundial?
Paulo Moura
Blog
Persuacção"

12 maio 2010

Um dia diferente



HenriCartoon

A hierarquia da relevância

Percorreu, ensonado, a longa distância que os separava, deliciado por antecipação com o que adivinhava seria a reacção dela à surpresa que lhe preparara ao longo de dias.
Cansado, chegou finalmente ao destino e tentou controlar a emoção que o desesperava por faltar ainda tanto tempo, minutos, eternidade, para poder abraçá-la outra vez.
Ansioso, fumou um cigarro e depois dirigiu-se para o ponto onde iria encontrá-la, preocupado por poder escapar-lhe algum pormenor que não poderia confirmar porque assim iria estragar a surpresa planeada com todo o carinho e atenção.
Esperou, sempre com a cabeça no ar para se certificar que não a perderia no meio da pequena multidão, saudades mal contidas, vontades reprimidas pela distância que os separara até esse dia que sentia especial.
A boca denunciou-lhe a alegria quando a viu, num sorriso que ela não devolveu, visivelmente aborrecida com algo mais importante do que o facto de ele estar presente e com isso nem contar.
Tentou perceber o que se passara, grave certamente, para justificar tão estranha reacção.
E foi quando recebeu a explicação que percebeu, na hierarquia da importância, a dimensão da sua irrelevância perante o desgosto que outro lhe dera e que se sobrepunha de forma conclusiva a qualquer emoção que a sua presença inesperada pudesse suscitar, e que concluiu, desencantado, que o amor já tinha acabado ou aquela pessoa não era quem julgara até então.

Celibato: Solteironas


IV. Solteironas. Custa-me fallar das solteironas porque ninguem está mais persuadido do que ellas da irregularidade do seu estado, e em geral é contra vontade que ellas ficaram celibatarias. É sobre tudo a ellas que se applica o adagio antigo: «0 casamento retarda a velhice». Acreditar que a virgindade conserva a frescura da côr, é um funesto erro de que as solteironas são as victimas. Uma solteira que fica virgem depois de ter attingido o desenvolvimento completo de seu physico não tarda a ser assaltada d'uma multidão d'indisposições, d'erupções cutaneas, de flatos hystericos, mortaes inimigos da sua belleza. A sua frescura decresce, os seus encantos murcham, e a sua saude altera-se á medida que se demora em cumprir o fim da natureza. Ao contrario a mulher casada, sobre tudo o que já concebeu, bebe nova frescura nos prazeres que são vedados à virgem, e emquanto que uma brilhante flor desabrochada recebe do casamento o desenvolvimento de todas as suas faculdades, a outra, de mau humor e sempre afflicta por encommodos diversos, arrasta uma vida languida e inutil, sem amar e sem ser amada.

L. Seraine. 19??:170

InVocações (VII)

Mágico? Estás aí? Aqui, no limite dos Mundos, eu sei quem sou. E se as palavras ficarem mágicas, e se tocarem o teu Mundo, e se eu tocar o teu Mundo, quando tocar o teu Mundo ainda saberei? Um dia, respondeste com o meu nome; nomeaste e eu, agora, sou. Sim, um livro inteiro nasce do teu título. A tua cartola ainda gira no chão, gira no infinito e chega ao eterno. Não, o tempo não parou...

Quando estás aqui, o tempo funde, como areia em vidro, as horas, os minutos, os segundos em ti.

Então, não há tempo, não acontece, só tu, só tu aconteces. A cartola gira perdida porque é de ti; sem tempo e sem ti só fica um vácuo absurdo. Sem areia nem vidro, só o calor que funde; tonta do calor. Estás aqui?

11 maio 2010

Orgasmo feminino: ideias que funcionam

A ordem é para despir. Despir, pois! Despir o mais possível. Roupas, brincos, colares, aparências, preocupações, neuroses, preconceitos, etc. Despir primeiro. Lamber, beijar, conversar, roçar, até que a última peça do “traje” mais íntimo caia por “terra”.
Despiram? Então aqui vai uma dica! Sejam lá quantos forem os quilómetros de corrida na “arena” que a cada um satisfaçam, haverá uma altura de inevitável rendição. No sexo por prazer o orgasmo não é um objectivo, apenas uma conclusão, muitas vezes desejável. Portanto, senhoras…”don’t stress”! Cavalheiros… não sejam antipáticos! Dêem lá uma ajudinha às senhoras, que isto para elas costuma ser um bocadinho mais difícil… Para os mais atléticos, e com algum fôlego de corredor de fundo, sugere-se que saltem para cima das senhoras. Saltaram? Que tal? Sentem-se confortáveis? Então agora levantem os bracinhos! Dêem espaço às senhoras para baterem uma à vontade enquanto as fodem devagarinho… depois, melhor, melhor, é deixarem activo o comando de voz: “mais depressa”, “mais devagar”, “mais fundo”, “oh! Pára aí!”, “assim…isso!”… Os bracinhos doem? Falta de prática. Bem se vê que têm andado a faltar aos treinos! Não se preocupem, isso com o tempo melhora. Estão a ver uma cara muito “feia” com olhos inchados de prazer? Bom sinal… Então? Resulta?

(… meninos bonitos… portaram-se bem… merecem uma recompensa à altura… não? Agora, meninas… é a vossa vez… façam o vosso melhor, sim? Não envergonhem o género feminino! Não se esqueçam… isto é uma competição, e das mais cerradas… ganha aquele que for capaz de fazer as maiores “maldades” ao outro…)

(Des)enlace


Viagem com retorno
a de agora em diante;
não mais bilhetes só de ida,
o regresso marcado,
a viagem inviolável
do teu sexo.

Regressarei para redimir
outras façanhas nossas,
assim saibas ouvir-me
e entender o estrondo
de um apoteótico
desenlace.

Foto e poesia de Paula Raposo

InVocações (VI)

O chão estala o eco de um tapete intacto. A beleza é funda, muito funda nos teus olhos; lua azul, a perfeição é um fascínio sinistro. Impasse da nudez. A lua que desce, lua que desce, lua que desce. A lua parou. O Mágico riu-se e a árvore riu-se; um grito empalideceu e quebrou-se no tapete. A lua desceu no lago e encheu-lhe o ventre. Dela. Dela. Dela. Ela. Eu. Era o Mágico que chamava, vibrava o nome no limite dos Mundos. O nome trespassado pela vontade. Olha. A lua azul transborda nos olhos do Mágico, enche os dela. Dela. Dela. Dela. Ela. Eu. Nudez do impasse. Depois trespasse. O chão nos pulsos. O eco aproximou-se e disse que estava na hora de ser um. O eco sentou-se e deitou-nos no linho do tapete. O chão fechou-nos lá dentro. A árvore era uma miragem do mundo do Mágico. Não queria voltar. Encostou os ramos ao eco e disse que lá não podia rir. Não entendia. As pessoas riam de lábios falsos e ela ria de ramos verdadeiros mas não podia rir. O mundo do Mágico não fazia sentido no mundo sem sentido. Preferia ser uma miragem a estalar no chão por baixo das nossas costas. Uma miragem. Mágico.

Preservar a dignidade



Pena capital


2 páginas - clicar em «next page» a partir da 1ª página

oglaf.com

10 maio 2010

Pure Chess

- Ó Cavalo das Brancas, porque é que de há uns tempos para cá não há peões por perto dos vossos bispos?

Maria João: conto das palavras adormecidas

Olho para ela que se perde sem ele. Olho para ele que a vai perder. E se eu fosse ela e tu fosses ele, o que iria eu ver? Sim, eu sei, mas não quero saber. Sim, bem vejo, mas não quero ver. Tu nada dizes e eu cada vez menos te consigo ouvir. Sabes que não ensurdeci? Sabes que ensurdeceste? Tenho pena, meu amor, tenho tanta pena de não te ver aqui. Tenho tanta pena de saber que talvez até estejas e, de cabeça tapada, tentes - talvez - fingir que não. Quando a voz começa a cambalear ainda é no teu peito que deita as costas. Quando os dedos dão passos incertos ainda sentem as tuas mãos segurar os joelhos bambos. Não te digo, não, não te digo; calei-me. Tanto que foi preciso dizer-te para ouvires uma só palavra. Tanto que andei para veres um só passo. Sinto-te triste. Por favor, não fiques triste. Não tens culpa da mudez que te assalta quando gritas por mim. Não tens culpa de engolir o silêncio. Não tenho culpa, não sei se apenas imagino. Se calhar nem são os teus gritos que me inundam os cabelos e escorrem nas costas. Se calhar imagino. Olho para ela que se perde sem ele. E se eu fosse ela?

E o mote é...


















Todo o pássaro bebe água
só a coruja bebe azeite
mas a tua passarinha
come carne e bebe leite.


João Sarabando, 1999:10

Pau duro


Alexandre Affonso - nadaver.com

09 maio 2010

Assim, sim


Não me espantaria
se regressasses
como se nada se tivesse passado.
Não me surpreenderia
se fosse hoje o dia de ontem
e amanhã o atraso
não justificaria
a lembrança.

Prefiro que fiques como estás
onde estás e porque estás
e que não voltes:
nunca aqui estiveste.

Foto e poesia de Paula Raposo

Conto de um poema

As minhas palavras são poema. Os meus braços são poema. Os meus passos são poema. E ainda sonho o teu poema, o poema de ti; o teu corpo é o meu poema, só pode ser poema. E sei do meu poema - tu - atirado ao chão como carne em chaga, inflamado pela vermelhidão roxa e feia das hormonas, esfregado contra um corpo fêmea inchado de cio, animais engalfinhados sem o ritmo da música, espasmos de criaturas acres, entumescidas num prazer feio de unhas em pele irritada. A beleza violada, desmanchada, envenenada. Um rouxinol que, de repente, pousa na árvore e ronca. Por isso, eu que te fiz poema, pergunto-te: o que fazes do poema de ti? Como podes fazer-lhe coisas tão feias?

Filmes antigos...


... de bordéis de Paris

Sexo complexo


crica para visitares a página John & John de d!o

08 maio 2010

Engate chapa três

É proibido pingar amor antes de assoar o nariz. Grata.

«Eu sou heterossexual!» - AnAndrade

"Título estúpido, este, não é?!
Pois.
Mas aposto que se, em vez deste, tivesse escolhido um "eu sou lésbica e tenho muito orgulho nisso" ou "não sei se prefiro gajos, se gajas", isto amanhã teria uma porrada de visitas (aí umas dez, vá, mas ainda assim seria o dobro das habituais).
Vem isto a propósito da quantidade de "saídas do armário" de que ultimamente se tem notícia: "fulano de tal assume a sua homossexualidade"; "sicrano afirma-se gay e pensa casar com o companheiro mal a lei seja promulgada pelo P.R." e coisas que tais.
Se isto me interessa? É que nem um bocadinho, caramba.
A sexualidade de cada um é mais ou menos como o tamanho da cueca, o cheiro da boca depois de meio dia sem lavar a dentana (após a ingestão de um bife com molho de alho) e o calo que se tem no mindinho: interessa ao próprio e, no caso do hálito, aos que o circundam, se ele decidir respirar pela boca.
Nota: o facto de o José Carlos Malato ter aparecido, numa alegada festa gay, em Madrid, em tronco nu, só me assusta por ele ter tido a coragem de mostrar tanta banhoca. Malato, filho, vai mas é tratar do corpinho, não vá outro sacana apropriar-se da tua imagem sem dares por isso e expor ao país a quantidade de gordura que tem de saltar fora, que até és um gajo bem apessoado e tudo, pá...
AnAndrade
Blog Câimbras Mentais"

Posicionamento

O ato de posicionar é uma arte.
Acha que estou mentindo? Veja o caso desse jornaleiro:



Viu?

Capinaremos.com

07 maio 2010

c&a e os orgasmos que começam pelos pés

c&a: "Os melhores orgasmos são aqueles que começam nos pés... não haja dúvida!"
São Rosas: "Faz um desenho..."
c&a: "Ora aqui vai.
Todos sabemos que há muitos tipos de orgasmos: mais intensos, menos intensos, mais localizados, menos localizados...
Os meus são variados, como convém: às vezes melhores, outras vezes nem por isso...
Mas... quando começam no lado de dentro dos pés e a sensação vai subindo por cada perna, lentamente, como dois relâmpagos que se vão encontrar no topo e explodir!... eu sei que vai ser fabuloso!
O pior é quando começo a sentir cócegas nos pés em locais impróprios... o que é bastante frequente... eheheh (percebeste o desenho?)"

São Rosas: "Que curioso...
Gostava de saber se há mais malta com esse tipo de orgasmos."

(a propósito disto)

Céu: conto da coreografia das mãos

Nas mãos tenho a dança das mãos nas tuas. Mas sem as tuas, sem as tuas; decorou a coreografia a memória dos dedos, essa que guarda em detalhes a textura e a textura do cheiro - quando os dedos dançam junto aos lábios, dança a dança do cheiro teu. Nas mãos tenho a dança das mãos tuas mas só nas minhas, sem as tuas, sem as tuas; dançam-te os dedos, dançam-te as memórias; no piso envernizado das unhas rosadas dançou o fim mas as mãos não o viram. Nas mãos tenho a dança das mãos nas tuas. Mas sem as tuas, sem as tuas...

Noite


Na penumbra deste quarto vazio, só eu escuto o silêncio duma casa sem ruído, sem vozes, sem presenças, sem afectos, sem abraços e sem rumo. Só eu escuto o vento lá fora, a chuva que cai e bate nas vidraças, o relâmpago que por breves instantes entra sem pedir licença.

Na escuridão da noite fria de Inverno, abafou-se o silêncio naquele toque da campainha da porta. Pensei quem seria que me pedia licença para entrar, naquela noite, trazendo os relâmpagos do meu passado.

Não respondi. Não podias ser tu. Tu não estavas aqui, tu nunca mais estarias aqui, não irias bater à minha porta naquela noite tão fria de Inverno. Nada mais me interessava, só tu. Por isso não abri, não falei, não deixei que entrasses.

Foto e texto de Paula Raposo

IBIZA FUCKING ISLAND



Tatúm
Inéditos. 2006
Lápiz sobre papel Gvarro esbozo
Formato DIN A4
Click sobre las imágenes para ampliar

06 maio 2010

o fotógrafo estava lá...

Garanto, pela bolinha da santa, que nem há aqui trucagem, nem arranjo de ocasião. E tenho testemunhas. Ali estavam, ele e ela, lado a lado, na bancada do quiosque onde vou em romagem diária em busca da redenção das notícias frescas.

De um lado o Courrier, do outro a Playboy, a quem faço aqui publicidade gratuita por me terem proporcionado um começo de dia algo diferente e vagamente polémico...


eu cá que nem sou de intrigas

ao passar pelo meu quiosque
dei de caras (bem ambíguas)
com um papa e um rabiosque

foi decerto mão divina
chamariz p’ra quem os lê
ao juntar naquela esquina
Playboy e Courrier

o pontífice discreto
na capa a cara nos vela
mas espreita circunspecto
o quanto a bela revela

malfadada informação
que causa tal desatino
… mas mais vale aquele senão
do que algum de algum menino…

____________________________
O Santoninho sai do seu santo ninho para oder também:

"Nem foi mão divina, decerto
Nem foi discreto o pontífice.
Arma-se em chico esperto
Com a técnica do artífice

E o que a bela lhe revela,
O espírito lhe ouriça.
Pudesse ele meter-lhe nela
Não os olhos... mas a piça!"

Ao abrigo do direito de resposta, o OrCa reode:

"faz-me tanta confusão
- vou até beber da Freeze -
ter um papa de roldão
aqui no meio da crise...

fará falta a quem o santo?
ao parlamento, à justiça
ao celibato, ao quebranto?
a quem faz ele falta, chiça?!

em gravadores, Alcochetes,
sucatas e o que mais salta
engraxadores, tiranetes...
ao Primeiro é que ele faz falta...

pelas crianças não digo
mas nem perdem p'la demora
apesar de ter comigo
que aqui há gato... ora... ora..."

A Olinda odeu na página da funda São no Facebook:

"Mas que tentador rabiosque
estava no teu quiosque
inocente Papa
só passeava no bosque
tu maldizente pensavas...
papa-a, papa"

E o Santoninho reode:

"De Prada, o papa se calça
Na calça que imita saia.
E que numa veste... realça
Vontade de um fruto: papaia!

De acordo... que papaia
É melhor do que mamão.
Está debaixo da saia
Mesmo ao alcance da mão!

Ratz... rato... fuças esconsas,
Linguajar... ora pro nobis!
Tontas lérias, meio sonsas...
Escalda a mão no clitóris...

Abrenuntio! Que pecado...
Esconde a boca com a mão.
Dá marradas no bocado
Truca truca... com tesão!

Dominus vobiscum... num aceno
De manifesta irregularidade.
Fodeu-se! E num gesto obsceno,
Perdeu-se... sem ver a idade..."

O OrCa desta vez até ode três:

"miraculosa mirada
entrefolhos de entreacto
anda a igreja aguada
à conta do celibato

vade mecum de sotaina
vade retro, Satanás
uma labuta - uma faina
p'ra salvar tanto rapaz

venha o Demo que os leve
ou Satã que os transporte...
a cruz não temem mas deve
haver quem lhes dê e forte

olhai bem para o que eu digo
a apregoar ladaínhas
mas fazer, deixem comigo:
«vinde a mim, ó criancinhas...»"

A Palavra

“A palavra chegava-lhe aos lábios, enchia-lhe o olhar e desabava-lhe na expressão do rosto e do corpo mas nunca era dita. Nunca.
A palavra estava ali e era ele e ele era a palavra mas não a dizia.
Os seus olhos, o seu rosto e o seu corpo eram o reflexo da palavra. Um espelho era o que ele era naqueles momentos. Apenas um espelho que reflectia uma única palavra. Uma palavra muda, sem som, sem corpo, sem existência.
As palavras que não se dizem não existem.
E os espelhos não são o que reflectem.
Depois, depois da palavra não dita mas representada, vinham as explicações, as justificações, as tergiversações, as promessas e as juras. Tudo, tudo como se se abrissem as comportas de uma barragem, como se, por milagre, o mudo ganhasse voz. Ele seria outro e a palavra que não fora dita jamais seria necessária. Jamais!
Até que a palavra lhe chegava de novo aos lábios, lhe enchia mais uma vez o olhar e se repetia para lhe desabar a expressão do rosto e do corpo sem, como sempre, ser dita. Nunca foi.
E era tão fácil, doutor, tão fácil.” Concluiu a arguida, correndo o olhar pelo colectivo de juízes e, fixando-se no juiz-presidente, desabafou: “O que é que lhe custava, nem que fosse por uma vez, pedir desculpa?”
“Agora já não pode.” Deixou escapar o magistrado.
“Agora já não.” Concordou a arguida.

De silenciar

Deita o teu silêncio
sobre o corpo da voz minha
antes lágrima sozinha.
Deita-te num silêncio
inteiro corpo num olhar meu
sereno de olhar teu
que corta o fôlego
que corta o vão
que corta o nada
na lâmina do sossego
peito de gume na mão
e eu atravessada.
Deita o teu silêncio
sob o ventre da paz minha
e ela, nua, o teu adivinha.

Comemo-nos?

05 maio 2010

O fornecedor de Orgasmos

Apresentou-se pelo nome, e com uma figura discreta vagamente desportiva, quase como se fosse um personal trainer. Tinha um pequeno saco consigo. E, sobretudo, tinha bons modos. Ela abriu-lhe a porta e encaminhou-o para o quarto à direita onde havia luz directa do sol. Ambiente quente. Tanto na cor que invadia o espaço como na temperatura, ligeiramente acima para o normal daquele mês. Mas muito útil, como se veria.

O que o levara ali estava muito bem definido. Não foram precisas muitas palavras além das de cortesia. Ela despiu-se rapidamente e ele sentou-se à beira da cama, abrindo o seu pequeno saco. Retirou alguns óleos de massagem e aplicou-os nas suas mãos, esfregando-as para obter uma temperatura agradável. Quando se virou para ela, já ela repousava despida sobre a cama. Massajou-a longamente, em silêncios ocasionalmente cortados por sons que penetravam o pouco da janela aberta, ou por suspiros de alívio que ela emitia quando eram pressionados alguns músculos mais tensos.

No final da massagem ele voltou ao seu pequeno saco, para limpar as mãos com um toalhete. Ela virou-se na cama, de costas para baixo, entreabrindo timidamente as pernas. Ele retirou do saco um par de luvas cirúrgicas que calçou com a destreza de quem o faz há muitos anos. Ajeitou-lhe um pouco mais as pernas, para um melhor ângulo, e massajou-lhe o interior das coxas, as virilhas, o clitóris e o interior da vagina. Sempre naquele silêncio com sons ocasionais, e com o sol a entrar directo e a conferir tons laranja a todas as superfícies. Quando ela finalmente atingiu o orgasmo, retirou as luvas. Colocou-as, do avesso, dentro de um saco de plástico preto. Enquanto corria o fecho do saco, com aquele ruído muito característico, ela disse-lhe “Para a próxima… estava a pensar, se para a próxima pode ser sem as luvas?”. Parou de correr o fecho a meio, e respondeu-lhe, resoluto, “Minha senhora, eu faço massagens e forneço orgasmos. Não me envolvo mais do que qualquer outro prestador de serviços”.

Deixou-a deitada, levantou-se, e caminhou em direcção à porta e em direcção ao próximo agendamento. Que seria, obviamente, com luvas.

Caralhos, não coelhos!

Aos enormes cogumelos vermelhos,
Maria, em doçura, entregava o pito
mas, um dia, ecoou-lhe nos pintelhos
o sabor de um bem gemido grito
Gritava um cogumelo já aflito
que a desejava foder de joelhos,
estrebuchar afogado, lamber-lhe o clito,
sugar-lhe inteiros mil doces orvalhos.

Maria, de olhos azuis tão mimalhos,
sentiu alvoraçarem-se os mamilos no peito,
ao ar expôs um mamalhal tão farto
e gritou: "és único entre mil mangalhos!"
Enrubescida, entregou-se em fúria ao dito:
"quero-te, fode-me como mil caralhos"
Ah, desilusão, mas tudo é tão finito!
No fim gritou: caralhos, não coelhos!

______________________
O OrCa não consegue ouvir falar em caralhos que os ode logo:

"Brava Maria à espera que o bosque traga a demasia que o corpo lhe pede sem que o sossegue algum caramelo, mesmo cogumelo, mas forte de malho que role com ela nas gotas de orvalho...

fica-se Maria entre alhos e elhos
de sarda sequiosos os lábios tão quentes
e o seu corpo todo grita-lhe conselhos
que aos cogumelos até crescem dentes
nas sarças por sardas todas elas ardentes
com ânsias de novos e saber de velhos
que Maria queria senti-los latentes
roliços e firmes sem quaisquer engelhos
nos lábios do corpo visitas urgentes"

Amor de uma vida que foi

O amor de uma vida que foi numa causa perdida que se dilui aos poucos na amálgama de emoções congeladas pelo frio interior, ilusões, talvez pela constatação de que é mais forte a recordação do que a circunstância que a transformou num passado que se deseja repetido, inconsciente, devaneio de uma mente dividida entre o lado confortável da vida e o desassossego inerente a uma paixão descontrolada.
O melhor amante numa vida passada, desinteressante por comparação porque ofereceu o coração em vez de usar a cabeça, sem o gosto da aventura e da incerteza, uma relação jamais perdura desprovida da defesa natural para uma presença eventual que nunca enfrenta o perigo de se assumir como um dado adquirido a sua manutenção.
O primado da razão como um torno implacável da utopia impraticável que se alimenta de uma força que não provém da cabeça mas de outro lado qualquer, a energia que faz valer o tempo que a vida nos dá. Teimosia ou insistência, obstinação ou persistência que fazem avançar o quebra-gelos na superfície de um mar que às tantas solidificou.
A pessoa que tanto (se) desejou, despromovida à condição de quase uma obrigação a cumprir, um ritual que deve servir, reforçada, a solidez desmascarada pela lucidez traiçoeira que constitui uma ratoeira para todas as coisas que se querem ignorar.
A coragem para lutar que enobrece quem consiga perceber que a vida acaba logo ali e que nada vale por si, sem a resistência emprestada por quem tem consciência da hora sortuda que constitui o acaso que nos cruza com quem faz acontecer. A atenção que faz por nos merecer quem consegue despertar sob o gelo de qualquer mar o sono de um vulcão que explode numa erupção de vontades e de ansiedades e de saudades a cada instante, que sacode debaixo dos pés o chão e leva o coração ao rubro como um motor acelerado, prego a fundo, à solta e sem freio no horizonte interminável de uma planície banhada pelo sol.
O amor de uma vida que foi, magistral, de olho no tempo onde se perfila o renascimento tão plausível como a alternativa provável à luz da experiência que tanto esclarece como baralha a existência, à vista desarmada, com o inevitável desacerto na previsão especulada.

04 maio 2010

Levava droga dentro da vagina para um recluso em Coimbra


(crica para ampliares... a vagina... e o resto)

Há notícias que conseguem fazer-me passar o dia com um sorriso. Como esta do jornal «as Beiras» de hoje.

Só tenho duas dúvidas:

1) No subtítulo da edição em papel, referem que "Uma mulher foi detida pela presumível prática de tráfico de estupefacientes. que consistia na introdução dos produtos no Estabelecimento Prisional de Coimbra" - afinal... ela introduzia os produtos na prisão ou na vagina?!

2) "A mulher, de 30 anos, escondia dentro do corpo, no interior da vagina, algumas quantidades de droga, que levava ao recluso, de 37. “Quando chegava à cadeia para o ver, na troca de beijos e abraços, ela retirava o produto estupefaciente, colocava-o no bolso e depois entregava ao companheiro, que o introduzia no ânus”, acrescentou a fonte." - não será mais notícia a parte dele?!

Prendinhas para ocasiões especiais

Cavalheiros... querem oferecer às vossas mulheres um presente que verdadeiramente as satisfaça? Pois então! Comprem-lhes um vibrador. Não estou a brincar. Isto não é uma brincadeira. E, portanto, nada de piadas, nem de objectos desproporcionados, galhofeiros, incómodos, absurdos. Um vibrador como deve ser! Confortável, funcional, produzido para o uso, e não para servir de bibelô de sala de jantar. Quero dizer, se conhecem um bocadinho das vossas mulheres, escolham aquele que realmente vos pareça ter mais potencialidades de lhes proporcionar o máximo de prazer.
Nada temam! Quanto mais elas se exercitarem na prática e na descoberta do seu prazer…tanto maior será também o prazer e a disposição de o fazerem convosco. Em matéria de sexo e prazer, para uma mulher, quanto mais, mais. Quanto menos, menos. E, claro, é muito simpático que sejais vós mesmos a tomar semelhante iniciativa… pois este será um passo decisivo para a criação de novos laços de cumplicidade e de intimidade.
De resto, com a vossa participação ou sem ela, às claras, ou à socapa, é quase inevitável que elas acabem por experimentar… e, provavelmente, gostar. Trata-se sobretudo de uma questão de atitude e de preferência: se querem aproveitar o “convívio” e tê-las mortinhas para vos ver chegar, cheias de disposição para dividir convosco a sua “brincadeira”; ou se preferem tê-las mortinhas para vos ver pelas costas de maneira a poderem entregar-se à vontade às suas brincadeiras privadas.
E já nem há razões para duvidar de que encontrarão neste âmbito o presente dos sonhos da vossa amada, pois a oferta actual de mercado é extraordinária. Há-os para todos os gostos, de todos os feitios, todas as cores, com todas as funcionalidades, e para todas as carteiras… “believe it, or not”… mesmo com aplicações em ouro de dezoito quilates!
(… outra vantagem… sim… porque as mulheres nem sempre são fáceis de satisfazer! Nunca mais será necessário dar voltas e voltas à cabeça para descobrir a oferta mais adequada à celebração de uma ocasião especial… pois, em qualquer outro momento, um outro modelo voltará a ser o presente perfeito).

Dedos teus

Moinho nas tranças,
os dedos teus moem
cada pequena semente
nos olhos antes meus;
são tuas as meninas
que correm as tardes
quando despidos em grão
as roupas nos doem
e os dedos teus moem
um corpo, um instante;
antes, semeia-os teus
teus como teus são
os lugares distantes
que em grão se abrem
quando tu aqui entras
e os dedos teus moem
o moinho nas ancas
pequenas, mãos pequenas
de ti, grande, tão cheias
que assim te enchem
e os dedos teus moem
moinho nas tranças.


E assim se vive

Encolho-me
Imediatamente
Caracol búzio ou ostra
Sei lá
Desapareço é isso
Em milésimos de segundo
Não sabias pois não
Claro que não
Acho que sabes
Mas finges não saber
E eu já me encolhi
Pequenina saborosa
Salgada viscosa
Talvez caracol búzio ou ostra
Sei lá
Nas carapaças
Que eu mesma escolho.

Foto e poesia de Paula Raposo