16 janeiro 2011

A prostituta azul (VIII) - Remendos

Ao segundo final serão nove horas, três minutos e quinze segundos. Faz anos que digo bom dia (?) aos alheados, brinquedos que acordam e se movem ordenados pelo instante gémeo do anterior. Hoje, um deles tem o fio partido num dos cantos dos lábios, o esquerdo. Tem um aspecto estranho, sorriso pendurado à direita; tenho aqui um pincel, ainda bem, posso emendar do outro lado se misturar a tinta rosa com a vermelha. Parece-me muito melhor, agora. Já desenhei muitos semi-sorrisos bonitos, parecem até verdadeiros, parecem mesmo mais verdadeiros que os normais puxados por fios que adormecem na cara dos sonolentos, é que o sono que vem do escuro permanente é muito contagioso, todos sabemos disso excepto os brinquedos que somos nós. Espreitou o espelho e depois o bolso e esticou os papelinhos coloridos de feio, saiu com três saltinhos leves que lhe pareciam condizer com o remendo de felicidade que veio comprar. Bom dia (?!).


«Mal entendidos» por Rui Felício


Todas as semanas à sexta-feira, vou àquela tabacaria meter o Euromilhões. O sorriso simpático da Sandra, ali empregada, saúda-me quando entro. É uma bela jovem, cujo corpo, de há uns meses para cá tem sofrido uma visível transformação. Os seios aumentaram de volume, as ancas alargaram e a barriga, de dia para dia mais proeminente, começa a dificultar-lhe os movimentos. A gravidez já vai nos seis meses e a Sandra torna-se na mais bonita mãe da Ericeira, que encanta e seduz a clientela masculina da tabacaria.
Na semana passada, reparei que trazia o dedo indicador da mão direita, envolto numa grossa ligadura atada com adesivo. Perguntei-lhe:
- Como é que você fez isso?
Ela fitou-me demoradamente, mediu as palavras e, de olhar cúmplice, respondeu-me sem perder o seu cativante sorriso:
- Ora essa! Com a sua idade e ainda não sabe como se faz?...
Eu falava do dedo. Ela da gravidez...

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações

Sextris - o Tetris erótico

(abre numa nova janela)

Gelado de pau

crica para visitares a página John & John de d!o

15 janeiro 2011

«Seria do período... barroco?» - postalinho do Carlos Car(v)alho

"Do Santinho do Pau Oco já tinha ouvido falar. Mas de anjos terem sexo...Na i_cono_grafia comum os anjos geralmente têm asas de pássaro(a) e uma auréola. Só!
Estas criaturas celestiais aqui patenteadas, em vez de aureoladas, aparentam ter algo mais...
Serão anjos fajutos? Será tunning?
São uns barrocos!"

Carlos Car(v)alho

Correr

Simples pestanejar
sem ânsia:
um só desejo
de correr
e de fugir
por outra porta.
Espero sempre
o regresso
de querer
e de voltar
em ti.

Poesia de Paula Raposo

Esperma em pó

Descoberto pela Paula Carvalho.

As letras & a arte


Webcedário no Facebook

14 janeiro 2011

Ou talvez só depois


Percorreu com um olhar de cetim aquele corpo nu de uma deusa como a via naquele instante no seu tempo em que o paraíso explodia dentro de si.
Encantado, ajoelhado como em reverência, e ela na cama, deitada, em toda a sua magnificência de criatura perfeita, olhar endiabrado em corpo angelical, sentindo por antecipação o toque firme mas suave de uma mão que ele aproximava devagar daquela linha de separação entre a terra e o céu, a pele macia que estremeceu ao contacto com o seu calor.
Queria fazer o amor sublime naquela cama, despertar nela a mesma chama que sentia arder em todo o homem que queria ser naquele instante do seu tempo feliz. Adorada, tocada como porcelana rara, valiosa, encantadora, a mulher feita deusa, feiticeira, que se entregava, disponível, ansiosa pelas sensações que ele lhe oferecia agora, lábios perdidos na imensidão do universo paralelo que percorriam os dois, corpos convertidos em paraísos perdidos, a ilha deserta recriada naquela cama onde ela, espalhada, o sentia sôfrego como um náufrago em busca da salvação, possuído, também ele, pela emoção que arfava no peito que lhe roçava nas costas no seu movimento de vaivém, pelo espaço, na ausência da gravidade, ainda que terrenos no som que produziam, as palavras insanas que proferiam como válvulas de escape da pressão crescente que os agitava em simultâneo quando no horizonte das suas mentes o sol finalmente nasceu, em órbita descendente para o reencontro naquela cama, onde ela, deitada, o beijou com a força desesperada da amante convencida de que o mundo iria certamente acabar amanhã.

Ia eu a passear por Salamanca...

... quando me deparei com uma montra de uma loja da marca «Bimba & Lola» onde estavam uns sapatos que eu nem por encomenda faria melhor para a minha colecção! E já cá moram.
Que belo par fazem com as botas de palhaço de minha criação.



O medo é um apeadeiro sem linha ferroviária...

O medo é um apeadeiro sem linha ferroviária, ao longe passam os comboios onde ninguém se atreveu a embarcar e o som único do pouca-terra faz muito que acenou adeus. É por isso que para o Amor escrevo sempre linhas novas, pode ser que um daqueles comboios maravilhosos, dos antigos, dos que ainda sabem andar sem a velocidade desenfreada e param um pouco em cada estação para observar tudo, me veja aqui cheia de linhas para ele e me venha buscar; pode ser que eu embarque mesmo sem saber para onde vou, que importa o destino se a viagem é a vida e vou ver a fantasia?


ascensão

travessa
atravessas meu espaço
reptícia à distância do meu braço
estremeço
e adormeço o embaraço
de algum tempo nos ser assim tão escasso
suspiras
e aspiro-te a fragrância
impossível de conter a tal distância
e quando um olhar teu
poisa no meu
sem receio neste caminho do céu
eu apuro
com espanto e estupor
que no breve desatino
de um destino
um ressalto - nada mais
breve fulgor
já chegado sou ao velho sexto piso
e sem grito
sem reparo
sem aviso
estremece e estaca o ascensor…

Na falta de portagens electrónicas...


Portagem


2 páginas (clicar em "next page")

oglaf.com

A lei da mudança de sexo



HenriCartoon

13 janeiro 2011

O órgão (social)

O gerente enleou-a pela cintura e murmurou-lhe ao ouvido:
– Estou pronto.
A mulher baixou os olhos, viu-lhe os braços nus sobre a sua blusa e, espreitando entre os seus próprios braços e corpo, viu-lhe o tornozelo, a canela e parte do joelho esquerdo. Engoliu em seco ante a perspectiva da completa nudez do gerente.
O gerente lambeu-lhe a orelha com a ponta da língua e emitiu um longo e grave grunhido, provavelmente com a melhor das intenções.
A mulher tornou a engolir em seco ao sentir um corpo cilíndrico estranho crescer e ajustar-se entre as suas nádegas.
O gerente beijou-lhe suavemente o pescoço, aproveitando o seu cabelo curto.
Sem saber o que dizer, a mulher repetiu-lhe a frase acrescentando um ponto de interrogação:
– Estás pronto?
– Estou – respondeu o gerente, lampeiro e lambareiro. – Muito pronto!
– Ahn… – A mulher hesitou e falhou propositadamente o som ou a frase que não emitiu.
O gerente percebeu a hesitação e, por um momento, duvidou da arrojada estratégia que seguira. Sentiu um arrepio de frio nas nádegas que logo explicou com o funcionamento do aparelho de ar condicionado e afastou as dúvidas: o caminho era aquele.
– Então, minha querida? – Sussurrou da forma mais sensual que conseguiu, que lhe soou como um patético, lancinante e desesperado pedido por sexo, que era, mas que não devia ser ou, pelo menos, não devia parecer. – Então? – encurtou, encostando-se mais.
A mulher repetiu o som e a hesitação, não se mexeu e sentiu que faltava algo no volume que se esfregava na sua saia.
– Hum… – mudou o som e prosseguiu: – Não sei.
– Eu estou pronto – insistiu ele, como se isso fosse uma novidade. – E acho que tu também estás muito pronta para levar com ele – opinou, com entoações maviosas como se declamasse um verso.
A mulher pousou o telemóvel em cima do balcão da cozinha, a que estava encostada e virou-se, encarando-o.
– Estás nu? – perguntou, fingindo-se surpreendida, ao mesmo tempo que percebia o que faltava no volume cilíndrico que se esfregara na sua saia: centímetros.
O gerente respondeu com um recital silencioso de sobrancelhas, concluído com um “tcharam!” manual em que lhe apresentava o órgão do órgão social que ele era.
– Mais do que nu: estou pronto! – publicitou. – Pronto para o amor!
– Estou a ver – disse ela, automaticamente, mas, na verdade, não estava, ou melhor estava e não estava: estava a ver uns doze ou treze centímetros e não estava a ver, pelo menos, mais uns quatro ou cinco que lhe pareciam essenciais. – Ah… – deixou escapar.
– Ficamos aqui, na cozinha? – perguntou ele, excitado, interpretando o “Ah” como um elogio.
Ela, avaliando a forma entusiástica e pouco contida como ele se comportava, temeu pelos soalhos e carpetes das restantes exposições, pois, entre os mosaicos do chão e a fórmica das mobílias a limpeza era muito mais fácil de fazer e a probabilidade de ficarem vestígios era significativamente menor. Acrescentando ainda a não despicienda limitação de posições possíveis para o acto, a mulher achou a exposição das cozinhas mais do que ideal: era a única possível. Sorriu, anuiu com a cabeça e reforçou:
– Sim, ficamos já aqui.
Ele sorriu e começou a desabotoar-lhe a blusa. Ela pôs as mãos atrás das costas, desabotoou a saia e deixou-a cair até aos pés. Os olhos dele percorreram-lhe o corpo, enquanto as mãos lhe cingiam o tronco, afastando a camisa aberta para a contemplar.
– Deixa-me apanhar a saia – pediu ela.
Como se estivesse hipnotizado, ele deu um passo atrás em contemplativo silêncio.
A mulher apanhou a saia, endireitou-a e pousou-a nas costas de uma cadeira.
– Está tudo fechado? – perguntou.
Ele, sem sair do transe, assentiu com a cabeça.
– E as câmaras? Desligaste?
O gerente, sem mexer a cabeça, desviou os olhos para a saia, mordeu o lábio inferior, tornou a olhar para a mulher e moveu ligeiramente a cabeça na horizontal. Os olhares cruzaram-se: o dele era de absoluto pavor. Ele desviou o olhar baixando a cabeça. Ela aproveitou e olhou para as virilhas dele, curiosa por saber até onde encolheria o pequeno órgão social.
– E agora? – balbuciou ele.
Ela fechou os botões da blusa, agarrou e vestiu a saia, pegou no telemóvel, mandou-o vestir, teve a certeza que chegava a chefe de loja sem ter de gramar com aquele minúsculo e ridículo pénis, ordenou-lhe em tom cordial para ficar ali até estar composto e avançou, sorridente, para tornar a ligar as câmaras à central.

Ó João, a São Rosas aprova!


«double bite» por Tracy Nakayama

Onde está o caralho do Wally?


(crica na imagem para ampliar)


Visto em Sweetlicious (obrigada, Raphael B.)

É...



... e há quem diga que é fodido!


12 janeiro 2011

Edito Estrelas

Por muito que me custe assumi-lo, a castração química de um pedófilo não pode ser designada de pedicura.

Do cansaço

O sono fugiu-me da noite para o dia. A noite quer ser lida e o dia dita-me para o escrever. O cansaço espreita, constante, os olhos pequeninos brilham-lhe cerrados na agitação, querem uma pele que possam vestir. Quieta, muito quieta, só uns instantes para a serenidade se perceber convidada de honra nesta casa. Sei, quando estou assim pareço imóvel, não estou, nunca estou, escuto no peito o embalo mágico do coração.
Não vejo o fundo escuro da noite, não vejo o fundo escuro do mar, com nenhum deles lutarei, apenas com o fundo escuro do medo até lhes ver o fundo em claro.
Não tenhas cuidado, não tenhas medo do meu cansaço, acreditar é assim, um gesto completo do corpo inteiro, um mergulho contra a parede negra do lago, voar contra o cimento e atravessá-lo pela porta aberta entre os dedos da tua mão.
Aqui não há cinzentos, meios tons não existem; há branco ou preto, sim ou não no acreditar, tal verbo não existe com "ses", "talvez", "tentar", e cansaço é apenas o nome do vigilante que o vem conjugar.

Não Sei se Posso... Ou Sei?

Não sei se posso ser uma utopia, porque quando o for passarei então a ser um sentimento em ti.
Não sei se posso ser um pássaro porque não tenho asas. Preferi chamar-lhes tentáculos para tudo agarrar, aproximar, conter e melhor observar.
Não sei se posso ser a tua dor, apenas o renascer da ave de fogo que das cinzas dela te leva a voar.
Não sei se posso ser o teu paladino, mas asseguro-te sentar-me na Távola que partilha os mesmos ideais.
Não sei se posso ser o teu dragão, não tenho asas, mas as plumas e as magias poderão envolver-te.
Não sei se posso ser poeta, apenas tentar traduzir aquilo que alguém dentro de mim quiser falar-te.
Não sei se posso ser rei, apenas ajudar os meus cavaleiros a sentar na Távola e em mim confiarem.

Não sei se posso... ou sei?

Gravidez...


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11 janeiro 2011

Prostituição - pessoal e intransmissível(?) (Para o A. e para quem (se) pergunta)

Claro que posso tentar explicar a dificuldade ou facilidade com que uma mulher se prostitui por características da sua personalidade; cada mulher é única, cada uma sentirá o que faz de uma forma diferente. Contudo, – sabes tu que fui sempre a mesma mulher – quando decidi prostituir-me de bolsos vazios e aflição nos dedos, custou-me, sim, a angústia imperou; quando decidi fazer exactamente a mesma coisa apenas por mais algum conforto, apenas – confesso – porque me apeteceu mais do que contemplar montras com coisas giras, foi incomparavelmente mais "leve". Sim, poderia achar que sou uma criatura estranha, absurda, desconectada com a realidade mas, garanto-te, outras meninas que conheci traziam a dor no olhar se nos bolsos traziam aflição e vazios, e olhos muito mais tranquilos quando em situações menos extremas ou nada extremas. Concluí, então, que, se a personalidade de cada uma é factor que influencia a emoção com que vive esta situação, os motivos que nos trazem aqui também devem ser pesados; da junção destes dois se formam respostas. É bem vindo quem quiser contrapor, comentar, acrescentar, perguntar; é certo que aqui existem tantas verdades quantas pessoas; eu respeito quem tudo procura, é muito mais fácil reduzir do que indagar.

Não à crise!



Via Sweetilicious

Romãs

Os desencontros
são como as romãs:
nunca os bagos estão
onde pensamos que
os deixámos.

Mas, as palavras,
essas vão ficando
por lugares incertos
onde não comemos.

Poesia de Paula Raposo

Mais um agasalho de pila para a minha colecção

Desta vez, é um galo. Que me parece ter um pescoço bem maior que qualquer encomenda, por mais que esteja a «cantar de galo».


Faz parte de um conjunto com mais duas variantes:

10 janeiro 2011

Mapa

Das Utopias

O medo da vontade, da dor, baptizou as utopias.
Perder o "só" não significa perdê-las, mas transformá-las.
As utopias existem, sim, mas apenas quando fechamos os olhos e as vemos, e aí passam a chamar-se de forma diferente. Passam a ser um manancial de sujeitos e predicados que apenas podem ser sentidos. Através dos sentidos. Dos outros sentidos e dos sentidos dos outros.
Poucos conhecerão o que deixou para esses de ser uma utopia, e apenas a esses está reservado o privilégio do uso de uma pedra angular que as decifre e sustente.

As 10 melhores pilas do mundo

O tema é polémico. Logo à partida porque não há consenso possível pela divisão entre géneros e logo à chegada porque, lamentavelmente, não há maneira de toda a gente experimentar todas as pilas e por isso ficamos reféns das apreciações subjectivas.
Mas o que faz afinal uma boa pila?
Para a maioria salta à vista o tamanho, embora não falte (sobretudo quem a tem pequena) quem defenda a tese de que tamanho não é documento. Ainda assim, é mais ou menos consensual a ideia de que uma boa pila deve ser bem documentada e ter uma dimensão apreciável, capaz de preencher todas as lacunas do imaginário colectivo.
Contudo, há também quem advogue a prontidão como argumento. Ou seja, uma boa pila será a que reúne em simultâneo uma boa capacidade de resposta em termos de aceleração dos zero aos dezasseis centímetros(*) e uma durabilidade duracell, nomeadamente depois do prego a fundo.
Temos assim esboçado um perfil para a pila ideal? Talvez não.

Muitos pensadores deste tema fascinante e complexo tendem a associar a pila propriamente dita à destreza de quem a utiliza (o que interessa não é o que se faz com ela mas como), arrastando para a avaliação global do membro viril todo um conjunto de factores tão aleatórios como, por exemplo, a pontaria (não apenas relativamente à abertura de uma sanita) ou a sincronização no disparo (demasiado rápidas no gatilho não parecem ser do agrado geral).
No entanto, esta versão tem sido alvo de imenso cepticismo por parte de quem olha a coisa (o coiso?) sem uma perspectiva militar e tem em conta inclusivamente o comportamento de uma pila em modo stand by (murcha, sim, ou tenho que vos explicar tudo?), nomeadamente aquilo que permitem adivinhar da respectiva extensão depois de activadas. Por outro lado, o género masculino exibe a enorme incoerência de quem aparentemente faz o culto da pila quando afinal mal lhe ligam quando, por exemplo, a utilizam para a sua função secundária (a mijinha da ordem). Esta contradição acaba por constituir fundamento para que seja o género feminino (lésbicas como a São não contam para este item) o mais habilitado a fornecer a mais correcta aferição do instrumento, mesmo quando este não é apenas de sopro mas alarga o espectro musical a ritmos como o do batuque.
Muito haverá ainda para dizer acerca desta questão, mas isso dá imenso trabalho.
E eu, por inerência, até já preenchi sozinho dez por cento da tabela que dá título a este post...

(*) De acordo com rigorosos estudos científicos, o tamanho médio de uma pila portuga é de 16 centímetros, superior à média europeia e três centímetros acima das congéneres asiáticas.)

Com preservativo ou sem preservativo?

Videos em que tu é que decides a sequência a seguir. Este é o início:

09 janeiro 2011

Sobre_voar

Se eu não conseguir derrubar
todo este cansaço,
vou chamar-te
às raízes da árvore; sei que estou a voar,
de cada asa se desfaz cada laço
que me ate
ao céu, agora quero alcançar
a porta dos anjos, teu espaço;
vou contar-te
a história última de encantar,
aquela em que ando e cada passo
me promete
pernas novas feitas de penas, o breve pousar
no teu sono é regaço;
eu chamei-te,
doem-me as penas onde nasces, parto a sonhar.

«Timidez» por Rui Felício


Na Faculdade de Letras, o Chico era alcunhado pelos colegas de “bicho do mato”.
Educado, bem parecido, mas de uma atroz timidez, nas raras festas a que acedia comparecer, apenas por falta de pretexto para declinar o convite , refugiava-se num canto, de olhos baixos, pendurado num copo de whisky, tentando passar despercebido.
No meio da algaraviada dos dichotes e das estridentes gargalhadas dos colegas, das batidas rítmicas do “disco sound”, do tilintar dos copos, rezava intimamente para que não reparassem nele nem lhe dirigissem a palavra, contando os minutos para regressar a casa e encafuar-se na protectora solidão do seu quarto.
Andava loucamente apaixonado pela Carla, sua colega de turma, ao lado de quem se sentava durante as aulas, disfarçadamente, numa dissimulada casualidade. Inebriava-o a proximidade do seu corpo, do seu calor! Pelo canto do olho, admirava-lhe as curvas, a pele sedosa, os lábios carnudos, os longos cabelos negros. Um profundo arrepio percorria-lhe o corpo sempre que o braço roçava no dela. Mas era incapaz de lho confessar...
Aspirava, sôfrego, o cheiro perfumado que dela emanava, suspirava baixinho, mas desviava o olhar quando ela o fitava. Ciosamente, guardava o seu segredo, ocultava o intenso desejo de a abraçar, de a tocar. Fingia concentrar-se nos livros que tinha à frente, para esconder a sua perturbação. Chegava a ser carrancudo e ríspido com ela, para não denunciar o que sentia!
Por mero acaso, um dia descobriu na agenda que ela, casualmente, deixara aberta em cima da carteira, o endereço do “Messenger” da Carla.
Chegou a casa, ligou o computador, criou o seu próprio endereço, registou-se no “Messenger”, inventou um “nickname” e mandou-lhe uma mensagem pedindo-lhe que o aceitasse como amigo.
Desde então, todas as noites trocavam mensagens no “chat”, onde, sob o pseudónimo de “Solitário”, o tímido Chico se transformava num ser desinibido, viril, atiradiço até!
Falava-lhe nos íntimos desejos que ela lhe fazia experimentar e alvoroçava-se quando percebia que as palavras que digitava produziam na Carla, reciprocidade e igual reacção.
Numa dessas noites, descaiu-se e escreveu que as carícias e os beijos que ambos trocavam num descontrolado devaneio virtual, lhe faziam lembrar o aroma do perfume “Loewe” que ela usava, como se o estivesse a sentir no ambiente tépido do seu quarto, naquele mesmo momento.
No monitor do computador apareceu a inesperada e surpreendida pergunta da Carla:
- Como sabes? Que estranho! Não nos conhecemos pessoalmente e nem eu te disse nunca que uso “Loewe”!
O “Solitário” nunca mais a procurou no "Messenger"...

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações

Música de filmes porno

Para quem não pode ver imagens, fique com estes excertos de bandas sonoras.

Os bons ares da Madeira



HenriCartoon

Melhor é experimentá-lo do que julgá-lo...

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08 janeiro 2011

07 janeiro 2011

A posta que vês melhor


Olha em frente tudo aquilo que será, abre a tua mente ao que o destino te trará e desmantela essa muralha que te isola de tudo aquilo que és quando jogas à defesa porque não tens a certeza de que vale a pena arriscar.
Olha em frente para poderes enfrentar de forma diferente o mundo que sentes hostil, perdido por cem, perdido por mil, e molda a consciência por forma a encontrares a resistência dos fortes pois é desses o que prevalecerá ao longo das voltas que a vida dá enquanto passeia diante dos nossos olhos a felicidade que por vezes rejeitamos por simples desleixo ou estupidez.
Olha em frente outra vez e prepara o caminho que falta, repara na tua alma que salta irrequieta e que te deixa tão inquieta a prudência que abraças como companheira numa solidão que não mereces conhecer porque sabes existir em ti tudo aquilo que fará, abre a tua mente ao que o destino te trará, as delícias de quem souber apreciar.
Liberta agora o teu olhar da desnecessária desconcentração que te provoca a visão periférica.
Olha em frente, abre a tua mente e envia esse amor como um sinal, como a luz de um farol.
Como uma mensagem telepática.

Em_Canto

Marioneta acorda, tens de acordar
mais um dia a dormir é mais um dia sem sonhar
marioneta acorda, nunca mais adormecer
se o dia for no escuro como pode a noite amanhecer?
Brinquedo de plástico sem vestido, sem perfume
mas os teus pés não estão nus, anda
que preso por um fio está aquele nome
que ainda não te deram, boneca; acorda!
Marioneta desperta, tens de despertar
no meio do sono para o sonho te olhar
marioneta desperta, nunca mais esquecer
se a Luz toca no escuro, espera agora o anoitecer.

Que bela surpresa no convento de Belmonte!

Eu já tinha as melhores referências da pousada do antigo convento da serra da Senhora da Esperança, em Belmonte. E da maravilha que é o restaurante gourmet da pousada, cujo chef é Valdir Lubave.


Só vos digo que comecei com um «Capuccino de cogumelos com espuma de ervas aromáticas do jardim do Convento»...


... mas a surpresa foi ver que os quartos, em vez da habitual numeração, têm os nomes de frades, como se fossem as suas antigas celas do convento. Cada frade tem a sua «especialidade». E à frente de cada quarto está uma imagem do frade respectivo. Fiquei na cela do frei Luís, o arquitecto. Mas na recepção da pousada há canecas e cinzeiros com cada um dos frades. E achei uma delícia, em especial, o frei Damião, o colhedor de fruta. O cinzeiro teve que vir para a minha colecção:


O Quê?!...



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06 janeiro 2011

O João aprova #4


E como não? Como não aprovar isto? Não promove o contacto visual, que seguramente faz falta numa relação e que, provavelmente, é muito mais procurado pela mulher (sentimental) do que pelo homem (putativo dominador), no entanto é uma daquelas posições que nunca falha. Uma das minhas favoritas. Recomendo vivamente. Estou em crer que, para um homem, o que tem de primário, equivale-lhe em prazer. As mulheres que se pronunciem, p.f..

Versão malandreca criada em 1967 por Paul Krassner, desenhista da Disney


(crica na imagem para ampliar)


Visto em Sweetlicious (obrigada, Raphael B.)

Naturalmente quentes

Ibiza Fucking Island siempre



De la serie IBIZA FUCKING ISLAND
(bytatum.blogspot.com)
Lápiz sobre papel 2006
Formato DIN A4

05 janeiro 2011

O botão

– Sabe do que eu gostava, Alice?
– Sabe?!
– Sabes do que eu gostava?
– Sim, assim está melhor. Do quê?
– Se calhar, vai… vais levar a mal.
– Diga, homem. Se não disser…
– É que eu gostava muito.
– O que virá daí…
– Se calhar ficas aborrecida.
– É provável…
– Que fiques aborrecida?
– Sim, é muito provável, sr. Cruz, é que o senhor ainda não me disse nada e eu já estou a ficar aborrecida.
– Ah!… Queres dizer que, seja como for, já não me escapo?
– Mas o senhor quer escapar?
– Não, não quero.
– Então o quer, sr. Cruz?… Olhe que o seu tempo está a acabar.
– Ao tempo que o meu tempo está a acabar.
– Eu não estava a falar desse tempo, sr. Cruz.
– Eu calculei… Está quase na hora, não é?
– É. E estou quase a acabar e o senhor ainda não me disse o que quer.
– Não levas a mal?
– Hum… mas o que é que irá sair daí? Devo ficar preocupada?
– Não, preocupada não, não há razões para isso.
– Menos mal… Pode-se virar para dobrarmos as pernas.
– Para dobrarmos não, para eu dobrar.
– Só se for hoje, seu preguiçoso!
– Mas as pernas são minhas.
– São, quanto a isso não há dúvidas, mas como sou eu que as dobro.
– Isso é verdade… Podes-me pôr a almofada debaixo da cabeça?
O homem virou-se de barriga para cima, a mulher pôs-lhe a almofada debaixo da cabeça e, sorrindo, dirigiu-se aos pés da cama, onde lhe agarrou os pés.
– Vamos lá! Vou-lhe só levantar e segurar os pés e o sr. Cruz vai tentar dobrar as pernas.
– Ah…
– Força!
– Mais?
– Baixe a cabeça… Encoste a cabeça à almofada.
– Eu…
– Boa! Está a ver…
– Agora não.
– Outra vez. Estique. Vamos lá. Agora não? Agora não o quê?
– Não estou a ver.
– Boa! Dobre. Dobre. Está quase, está quase… Não estou a perceber nada, sr. Cruz. Não está a ver o quê?
– Nada. Não estou a ver nada.
A mulher segurou-lhe os tornozelos e empurrou-lhe suavemente as pernas, dobrando-as. Levantou a cabeça e olhou para a cabeça do homem pousada na almofada. O homem tinha os olhos fixos no tecto e uma estranha expressão de resignada tristeza. Em silêncio, ela flectiu-lhe as pernas mais algumas vezes.
– Já está – disse, terminando o exercício e esticando-lhe as pernas, enquanto se endireitava. Olhou para os pés do homem e, quando levantava a cabeça, espantou-se com a clara visão dos seus volumosos seios apertados no soutien rendado branco entre o tecido da bata que tinha um botão aberto a mais e, repentinamente, compreendeu o sentido da conversa do homem e a expressão amargurada com que ele contemplava o tecto.
Nesse momento, o homem levantou a cabeça e os olhos de ambos cruzaram-se, antes dos deles descaírem, por um instante apenas, para o acidentalmente generoso decote da fisioterapeuta.
– E, afinal… – a mulher decidiu dar a entender que não tinha percebido o olhar guloso do velho artrítico e, enquanto ajeitava a bata e fechava o botão, tornou ao desejo inconfessado do homem: – O sr. Cruz não me disse o que queria.
Injuriando em silêncio os dedos ágeis da mulher que fechavam o relapso botão da bata e lhe trancavam a felicidade por trás de um pedaço de tecido, o velho sr. Cruz murmurou:
– Fica para a semana, Alice. Fica para a semana.

Poucos cogumelos, trálálálá?

Dúvidas houvesse de que o Mundo está prestes a acabar e a esta hora já os Cavaleiros do Apocalipse fecharam os cadeados protectores da castidade das suas respectivas e têm as malas feitas, ESTA notícia prova a intenção divina de acertar contas com esta terra pecadora.
Depois dos escândalos que brotaram como cogumelos (sim, freiras e cogumelos são uma combinação inevitável) no seio da Igreja Católica envolvendo os seus clérigos com pila, eis que a coisa (não a pila mas a perfídia) alastra aos símbolos de virtude que restavam (tirando os anjinhos ornamentais, mas esses são de madeira ou de pedra e seria batota arrastá-los para esta negra estatística).

Para quem não tiver pachorra para seguir o linque e ler a notícia, em causa está a acusação formal de abusos sexuais por parte das freiras responsáveis por um orfanato. Aberto já está o inquérito para apurar a sórdida verdade de mais estes factos que se vão acumulando em torno do pagode que se tem vivido em inúmeras instituições directamente ligadas à (cada vez menos) Santa Madre Igreja.
Chocante (montes de) é o relato angustiado de um cinquentão a quem terão enquanto criança as malvadas executado algumas mamadas mesmo durante o sono (the horror, the horror!), ao ponto de lhe provocarem problemas psicológicos (se calhar tinham pouca prática ou assim...).
Uma pessoa nem consegue imaginar o drama vivido na pele de quem acordava a meio de tais sessões de tortura, valha-lhes Ele...

Versos nus

Sei dos meus versos lentos, sonolentos,
que já não precisam de palavras;
escuta-me, agora, onde tu sopras
eles desenham os momentos,
chaves em portas que tu abras.
Sei dos meus versos lentos, minutos
breves em que tu me encontras
escuta-me, agora, quando tu entras
eles não querem ser escritos
dizem que as palavras são magras.
Sei dos meus versos lentos, tontos,
nus, eram demasiado pequenas, as letras;
tu entras, e os versos lentos, imperfeitos.

Indulgência

Uma frase. Por vezes nem uma frase é, apenas uma palavra mal escolhida, ou sequer escolhida.
Mas uma expressão... uma daquelas que discursam monólogos de dor e destilam contundentemente dragões e monstros infernais que nos puxam às catacumbas do Universo, privando-nos da Luz que nos guia os dias e as noites... essas são as expressões que alimentam. Alimentam dor às almas que ainda têm espaço para conter, até que um dia vertam toda a mistura de fel encerrada.

Releva-se. Não adianta. Perdoa-se em expoente de virtude, expressões que nada caracterizam o Eu e apenas existem em plano de perspectiva dramática de insucessos consecutivos. Afinal não dói. Apenas fere por instantes. Absorve-se um pouco mais. Não custa. Guarda-se. Transforma-se para que possa usufruir em proveito de crescimento e concretização.
E essas expressões continuarão guardadas com restantes expressões de outras vidas, em cofre de betão, quase imutável para permitir olhares de felicidade e continuar a ouvir doces melodias, ver campos verdejantes e céus com estrelas e ocasos lunares...
Continuarão guardadas até que um dia o cofre não seja suficiente, ou algum tipo de segredo sirva na sinuosa e recôndita abertura, que libertará os demónios negros e barulhentos que assolam a noite e o sono, em entre-acto da radiante e serena Luz do dia.

Capicua



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04 janeiro 2011

dos livros dificeis de encontrar




- Sim?
Atendi o telefone. Mais uma vez, enganava-me a mim própria. Pensei que fosses ligar por causa daquele assunto pendente. Tinha ficado de te procurar um livro. Certo? Ou melhor, arranjámos uma qualquer desculpa para nos falarmos. Um livro servia. E até dava um certo ar intelectual à coisa. A esta «coisa» que nos une. E que não pode, nem podia existir. Mas existe.
- Quero ver-te. Saber de ti. Saborear-te.
Engoli em seco. Fingi que não tinha percebido. Ruído na linha.
- Não tenho o que precisas.
Estava a falar do livro. Não o tinha encontrado. Acho que escolheste um daqueles títulos impossíveis de se encontrar. Assim, dilatávamos no tempo esta desculpa para nos encontrarmos. Ou, pelo menos, para falarmos.
- Tens – disseste – tens tudo aquilo de que preciso. Não sabes é como, nem quanto. Mas tens.
- Posso continuar a procurar.
E pronto. Lá o disse de novo. Assumi ali que não tenho qualquer hipótese, mas que quero continuar. Persistir «nisto».
A verdade é algo que dói. E é quase sempre seguida do silêncio ensurdecedor. Ele também sabia que era verdade. Que não havia hipóteses. Nem daquelas a que se chamam nulas. Mas ele preferia agir como se nada fosse.
Que assim seja. Eu até gosto de visitar livrarias. Mesmo que saiba que o livro é impossível. De encontrar.
- Tenho saudades tuas. – disse, desligando o telefone de seguida.
Eu também.


texto de Joana Sousa
desenho de Gonçalo Martins | Book of Erotica
para acompanhar com um Jeff Buckley

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A versão para o menino…

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E a versão para a menina…

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Vinte

Tenho como certo
que o sexo rejuvenesce:
a pele alisa,
o cabelo toma brilho
e o vigor dos músculos
renova-se.
Sendo assim:
chegando aos 100
vou parecer ter 20.

Poesia de Paula Raposo

Natal é sempre que um palhaço quiser

Esta menina Natal é bem mazinha... e o palhaço «jack-in-a-box» gosta... pelo menos pelo que se vê do seu nariz.
Uma comprinha do Natal de 2010 para a minha colecção.