via Sweetlicious
05 março 2011
04 março 2011
Sabiam que a Voyager 1 entrou na Heliopausa?

De acordo com uma pequena notícia na edição de Fevereiro da Sciences & Avenir, a sonda Voyager 1, lançada há 33 anos atrás, terá entrado na Heliopausa (não confundir com fenómenos fisiológicos próprios do ser humano), a zona limiar do Sistema Solar na qual o efeito do vento solar deixa de se fazer sentir, prevendo-se que lá para 2014, tenha finalmente cruzado esta fronteira. A uma razoável distância de 17.400 milhões de Kms de distância do Sol, viajando a uma velocidade de cerca de 61.452 Km/h, a sonda Voyager 1 é actualmente o objecto de fabrico humano mais distante do planeta Terra, tanto que os sinais de rádio enviados pela sonda demoram cerca de 16h a chegar à terra, e isto tendo em conta que as ondas de rádio viajam à velocidade da luz.
A Voyager 1 é uma de várias sondas enviadas para explorar o espaço exterior, a par das sondas Pioneer 10 e 11 (lançadas em 1972 e 73 respectivamente), e da Voyager 2, (lançada com a Voyager 1 em 1977).
Para além de toda a parafernália de sensores e instrumentos científicos, as sondas transportam também informações acerca da raça humana, para o caso de algum dia serem encontradas por uma raça extra-terrestre mais avançada. Ao fim e ao cabo, são uma espécie de prospecto turístico muito particular para alienígenas, se bem que há quiçá um certo excesso de informação.
O que causará mais estranheza é a forma como a raça humana é apresentada. Por exemplo, na placa de alumínio anodizado que viaja na Pioneer 10, o homem e a mulher são apresentados como duas criaturas completamente desnudadas, em pose convidativa a dizer olá (isto em vez de usarem uma bela de uma vestimenta própria de um Domingo-de-ir-à-missa) e, como se pode ver em rodapé, a dar informações sobre a localização do planeta Terra no Sistema Solar que, um pouco mais acima, é situado relativamente a alguns pulsares cuja frequência única é também mencionada
Sinceramente, não sei se será boa estratégia de relações púbicas... - perdão!- públicas darmo-nos a conhecer em poses mais libertinas, tal como dar a conhecer a referência à nossa localização ou contactos, embora esta estratégia não seja actualmente nada de extraordinário. É prática corrente, por exemplo, nos anúncios classificados de convívio do Correio da Manhã. Mas preocupa-me o que poderão pensar os alienígenas desta peregrina ideia de incluirmos uma foto nossa exibindo ostensivamente as nossas partes pudendas num cartão de visita...
Se a isso juntarmos os grafismos que, no “Golden Disc” das Voyager explicam como se processa a reprodução humana, começamos aqui a ver um padrão preocupante... Depois admirem-se que haja relatos de abduções de seres humanos por alienígenas, para encontros imediatos de elevada proximidade, como aliás tem sucessivamente denunciado o profeta extraterrestre de Arganil.
Imagem: Astronomy Chamber; NASA
Ouvi Dizer
“Não é certo que ela me torne a falar, aliás, o mais provável é que ela nunca mais me venha a dirigir a palavra. Parece-me que isso é o que vai acontecer. Havia de fazer alguma coisa. Não é isso que quero. “Eu tinha tantos planos p’ra depois”. Ah! Acontecer! Fazer as coisas acontecer. Procurar que os meus desejos se realizem. Levantar-me e ir atrás dela. Falar-lhe. Dizer-lhe qualquer coisa. Podia mandar-lhe um sms ou um mail. Fazer uma chamada. Olha, voltou-se para trás. Sorri, estúpido, sorri! Vai ter com ela e fala-lhe. Ah... Acho que aquele dedo esticado quer dizer que nunca mais me vai falar. Bolas! Se calhar avancei depressa demais. Fecha o sorriso, já chega, ela não se riu para ti. “Na pressa de chegar até nós.” Levanta-te. Vai lá. Fala-lhe. Diz-lhe qualquer coisa que a faça reconsiderar. A tua unha do dedo médio está muito bem pintada. Não. Outra coisa. Desculpa. Sim. Pede-lhe desculpa.”
– Ana!
“Desculpa”
– O que é?
– Fica-te bem essa cor de verniz das unhas – “AAAAAAAHHHH!!! Não era isto…”
– O quê?!
– O verniz…
– Não é verniz, é gel!... Vês?
– Ah… Gel?!... E os outros dedos?
– Tu só vais ver este mas as outras unhas estão iguais, parvo! Adeus.
– Ah… Eu depois mando-te um mail…
– Não, não mandes, não te incomodes, escreve antes uma história.
– Ana!
“Desculpa”
– O que é?
– Fica-te bem essa cor de verniz das unhas – “AAAAAAAHHHH!!! Não era isto…”
– O quê?!
– O verniz…
– Não é verniz, é gel!... Vês?
– Ah… Gel?!... E os outros dedos?
– Tu só vais ver este mas as outras unhas estão iguais, parvo! Adeus.
– Ah… Eu depois mando-te um mail…
– Não, não mandes, não te incomodes, escreve antes uma história.
Cronologia do amor
Ama-me como se fosse eu o chão
onde o sol tomou a luz pelos raios
para entrar de ventre na terra.
Ama-me sem o desejo, sem a paixão
sem todos esses artifícios da sedução
ou os demorados, arrebatados ensaios
de peles e carnes loucas em guerra.
Não me ames como uma lua qualquer
que, desejando, nunca poderás ter;
ama-me por mais do que agora ser,
como se nem fosses um amante jovem,
como se tivéssemos um enorme ontem.
Ama-me, então,
na solenidade das rugas, do cabelo branco
de quem à morte já deu o flanco;
ama-me breve e demorada,
ama-me a manhã, a noite, a madrugada,
ama-me como quem jurou dar a mão
e, nas ancas, o amor terno, já de ancião
nunca se deixará de nós esquecer.
onde o sol tomou a luz pelos raios
para entrar de ventre na terra.
Ama-me sem o desejo, sem a paixão
sem todos esses artifícios da sedução
ou os demorados, arrebatados ensaios
de peles e carnes loucas em guerra.
Não me ames como uma lua qualquer
que, desejando, nunca poderás ter;
ama-me por mais do que agora ser,
como se nem fosses um amante jovem,
como se tivéssemos um enorme ontem.
Ama-me, então,
na solenidade das rugas, do cabelo branco
de quem à morte já deu o flanco;
ama-me breve e demorada,
ama-me a manhã, a noite, a madrugada,
ama-me como quem jurou dar a mão
e, nas ancas, o amor terno, já de ancião
nunca se deixará de nós esquecer.
reflexão matinal romântica, com meia de leite e torradas
- Só tenho olhos para ti, amor! O resto pertence a tanta gente...
03 março 2011
Encontros Imediatos
Olhem, até tou sem fala. E eu já nem sou muito falador, de resto.
Mas contou-me uma pila minha amiga (às vezes os coisos agarrados a nós mijam em urinóis contíguos) que estava muito bem na sua vidinha quando de repente uma espécie de borracha a cobriu da cabeça aos pés, perdão, à base.
Quase deixou de respirar, disse-me a pila, que aquilo não tinha orifício nenhum para além daquele por onde a enfiaram.
E o pior, meus amigos, e o pior foi quando essa pila minha amiga, em pânico, tentou perceber pela conversa do coiso agarrado a ela de que se tratava e percebeu que aquela borracha esquisita não era de origem terrestre: era de Vénus!
Quando lhe tiraram aquilo de cima, um alívio, acabou por perceber (aterrorizada) pela expressão do coiso agarrado a ela que não seria a última vez que a substância alienígena manteria contacto.
Eu gosto de ser uma pila de vanguarda, com horizontes amplos e assim. Mas uma coisa pode o coiso agarrado a mim ter como certa. Se algum dia a tal borracha espacial tentar sufocar-me ele que nem pense que me obriga, como fizeram à pila minha amiga, a ainda por cima me meter em maiores apertos...
Porno a sair fresquinho (ou melhor, quentinho) da padaria!
A Didas preparou mais uma fornada de porno para toda a família:
Pornos na padaria anteriores.
Blog Farinha Amparo
Blog Farinha Amparo
02 março 2011
Fácil ou difícil?
“Não gosto de mulheres fáceis. Mas gostas de mulheres?”
Mas afinal o que é isto da “mulher difícil”? Eu explico. É muito simples. Uma mulher difícil é uma mulher que estando interessada, finge não estar, para assim conquistar o interesse do interessado. Ou seja, diz que não quando pretende dizer sim e sim no lugar do não. Não tem nada que enganar. Mas também pode ser uma mulher que não estando realmente interessada, por insistência ou cansaço, possa passar a estar. Isto é: tenha uma certa tendência para mudar de opinião. Eu nestas não me fiava. Mas gostos há-os para tudo, e uma grande parte dos homens, por razões que desconheço, e embora nada indique que tais características de personalidade indiciem melhores performances sexuais, prefere para foder estas “mulheres difíceis”, o que, contas feitas, sugere que as tais “difíceis” tenham mais saída que as “fáceis”.
Mulheres fáceis… é tão elementar que nem valia a pena falar disso… quando estão interessadas, dizem que sim à primeira. Quando não estão, não há nada a fazer. Embora nada indique que ao nível do desempenho sexual sejam inferiores às “difíceis”, os homens não lhes acham muita graça porque sofrem desta deficiência de quererem exactamente aquilo que fazem crer que querem.
Para além destas, ainda há, como a estatística aqui ao lado demonstra, as “mulheres de outro género”… um caso a respeito do qual ainda estou a meditar… Mas pelo menos já sei o que dizer quando algum cavalheiro se sair com uma destas: “Não gosto de mulheres fáceis”.
Mas afinal o que é isto da “mulher difícil”? Eu explico. É muito simples. Uma mulher difícil é uma mulher que estando interessada, finge não estar, para assim conquistar o interesse do interessado. Ou seja, diz que não quando pretende dizer sim e sim no lugar do não. Não tem nada que enganar. Mas também pode ser uma mulher que não estando realmente interessada, por insistência ou cansaço, possa passar a estar. Isto é: tenha uma certa tendência para mudar de opinião. Eu nestas não me fiava. Mas gostos há-os para tudo, e uma grande parte dos homens, por razões que desconheço, e embora nada indique que tais características de personalidade indiciem melhores performances sexuais, prefere para foder estas “mulheres difíceis”, o que, contas feitas, sugere que as tais “difíceis” tenham mais saída que as “fáceis”.
Mulheres fáceis… é tão elementar que nem valia a pena falar disso… quando estão interessadas, dizem que sim à primeira. Quando não estão, não há nada a fazer. Embora nada indique que ao nível do desempenho sexual sejam inferiores às “difíceis”, os homens não lhes acham muita graça porque sofrem desta deficiência de quererem exactamente aquilo que fazem crer que querem.
Para além destas, ainda há, como a estatística aqui ao lado demonstra, as “mulheres de outro género”… um caso a respeito do qual ainda estou a meditar… Mas pelo menos já sei o que dizer quando algum cavalheiro se sair com uma destas: “Não gosto de mulheres fáceis”.
[blog Libélula Purpurina]
Palavras Turvas
A azáfama diária turva as águas da percepção e da sensibilidade. É o cansaço, o dobrar lombar em resignação a uma lista de tarefas sem espaço livre. Por vezes não são ditas as palavras certas, sequer qualquer palavra. Apenas vocábulos escuros com pouco sentido. O discernimento e a análise do outro ficam de lado e só mais tarde se percebe que não se olhou, que não se sentiu como habituámos a sentir.
Não, nada se alterou. O teu ser é o brilho, o lago do meu olhar.
Apenas num dia se manifestou a diferença do que realmente importa, do que de facto é apanágio da vida que te dou.
Não, nada se alterou. O teu ser é o brilho, o lago do meu olhar.
Apenas num dia se manifestou a diferença do que realmente importa, do que de facto é apanágio da vida que te dou.
01 março 2011
questão pertinente
Acham que dar preservativos a um/a adolescente quer dizer que o/a estamos a incentivar a fazer sexo?
Sonhar-me
Sou mais voo do que asas,
mais canto do que pássaro,
mais amor do que peito;
sou tão pouca, eu nunca chego,
tudo em mim tão incompleto
mas, ao sonhar-me, eu sossego
porque sei do que é perfeito
que é mais frágil e efémero,
como um espantoso castelo de cartas
parece sempre chamar o vento;
assim, sou tão pouca mas um dia espero
sonhar-me na eternidade de todas as palavras.
mais canto do que pássaro,
mais amor do que peito;
sou tão pouca, eu nunca chego,
tudo em mim tão incompleto
mas, ao sonhar-me, eu sossego
porque sei do que é perfeito
que é mais frágil e efémero,
como um espantoso castelo de cartas
parece sempre chamar o vento;
assim, sou tão pouca mas um dia espero
sonhar-me na eternidade de todas as palavras.
Metade
Em cada abraço
nos damos mais e mais;
em cada carícia
retomamos outro tempo
(que não tivemos),
e vivemos um sonho.
É desse sonho que parte
metade de mim
e outra metade de ti,
porque de metades
se pode reconstruir
um todo:
este todo que somos.
Poesia de Paula Raposo


Desenho original de humor a tinta da china e aguarela - Del Principe
Adoro ter na minha colecção estes desenhos originais que foram publicados em revistas de humor.
Neste caso, nem precisa de palavras. Mas pode imaginar-se o que o senhor estará a pensar...
Neste caso, nem precisa de palavras. Mas pode imaginar-se o que o senhor estará a pensar...
28 fevereiro 2011
Verão no seu olhar
Uma borboleta no seu voo irregular, difícil de seguir com o olhar prisioneiro da beleza que o hipnotiza, entretida no seu tempo, na sua vida, asas pintadas a rigor com o empenho e o amor que a Natureza aplica nas suas criações.
O vento suave, rasteiro, sobre o campo espigado no pino do Verão, e o olhar enfeitiçado a seguir a ondulação de um mar diferente desenhado a cada instante por uma brisa a soprar, de passagem, a meio do caminho na sua viagem para um destino qualquer.
O contorno difuso de uma mulher, bela apesar de desfocada pelas ondas de calor que turvam o olhar maravilhado a acompanhar o movimento gracioso de uma mão que acaricia as espigas, feliz, o amor diante do seu nariz cada vez mais próximo da boca no rosto onde o olhar, apaixonado, por momentos desligou.
Sorte, Qualidade e Oportunidade
Uma vez por outra "alguém" rejubila publicamente o seu estado de vida, a sua sorte, num espasmo de felicidade, contentamento e resposta às questões que se lhe vão deparando aqui e ali.
De quando em vez congratula-se a sorte pelos acontecimentos supostamente aleatórios que marcam contundente e positivamente um qualquer estado de alma exteriorizado por arrepios, sorrisos ternos e palavras de aconchego.
Contudo, parafraseando alguém que respeito, "a sorte acontece quando a qualidade encontra a oportunidade".
Esta máxima não poderia estar mais de acordo com o enquadramento que pretendo imprimir. Se esse alguém tem sorte, não é mais do que pelo simples facto de ser digno de tal. Se esse alguém congratula o acontecimento apelidando-o de sorte, será indubitavelmente pelas qualidades que lhe são inerentes, inatas, e que assinalam a receptividade a que se predispõe aos parâmetros elevados que a sua essência exige.
Não falo conceptualmente de "salpicos de sorte", situações efémeras que em nada estabelecem padrão de coisa alguma. Falo naturalmente de acontecimentos duradouros, prolongados e sustentados só disponíveis a quem esculpiu a sua génese à Luz de uma serenidade superior, espiritualmente elevada e com uma conduta de aprendizagem em nada serôdia.
Não me refiro a um histrião, sem nada de profundo para ofertar aos demais, ausente de elementos que acrescentem valor a quem o rodeia.
Falo de eremitas espirituais, não necessariamente religiosos, que aproximam-se do ermo para se aconchegarem em si próprios, longe do trato confuso do materialismo, carácter predominante da sociedade de consumo. Falo de seres que valorizam o sentir, o Amar, o cuidar.
Falo de ti que encontras o que mereces e não o que a sorte te ofereceu.
De quando em vez congratula-se a sorte pelos acontecimentos supostamente aleatórios que marcam contundente e positivamente um qualquer estado de alma exteriorizado por arrepios, sorrisos ternos e palavras de aconchego.
Contudo, parafraseando alguém que respeito, "a sorte acontece quando a qualidade encontra a oportunidade".
Esta máxima não poderia estar mais de acordo com o enquadramento que pretendo imprimir. Se esse alguém tem sorte, não é mais do que pelo simples facto de ser digno de tal. Se esse alguém congratula o acontecimento apelidando-o de sorte, será indubitavelmente pelas qualidades que lhe são inerentes, inatas, e que assinalam a receptividade a que se predispõe aos parâmetros elevados que a sua essência exige.
Não falo conceptualmente de "salpicos de sorte", situações efémeras que em nada estabelecem padrão de coisa alguma. Falo naturalmente de acontecimentos duradouros, prolongados e sustentados só disponíveis a quem esculpiu a sua génese à Luz de uma serenidade superior, espiritualmente elevada e com uma conduta de aprendizagem em nada serôdia.
Não me refiro a um histrião, sem nada de profundo para ofertar aos demais, ausente de elementos que acrescentem valor a quem o rodeia.
Falo de eremitas espirituais, não necessariamente religiosos, que aproximam-se do ermo para se aconchegarem em si próprios, longe do trato confuso do materialismo, carácter predominante da sociedade de consumo. Falo de seres que valorizam o sentir, o Amar, o cuidar.
Falo de ti que encontras o que mereces e não o que a sorte te ofereceu.
27 fevereiro 2011
Peça de teatro espanhola - «The Guarry Men»
"Bienvenidos al universo Guarry. Un mundo donde la reflexión, los buenos modales y la corrección política brillan por su ausencia. Aquí sólo interesa vivir el momento y celebrar cada noche, función tras función, la PARTYFIESTA FOREVER. Esta apasionante misión corre a cargo de los protagonistas de ‘The Guarry Men Show’: cuatro actores que se dejan la piel en escena para recrear situaciones desternillantes propias del día a día, y tres curiosos músicos que ejercen como la voz de la conciencia de todo este tinglado. El resultado son 15 gags independientes en los que se combinan situaciones llevadas al extremo con humor, una pequeña dosis de amargura, música y grandes dosis de diversión.
‘The Guarry Men Show’ estará en cartelera en el Teatre Poliorama de Barcelona a partir del 25 de febrero."
Para quando em Portugal? A malta da Tuna Meliches bem que poderia fazer algo do género para um Encontra-a-Funda...
«A vizinha do lado» - por Rui Felício

Empregada numa panificadora ali para os lados da Achada, perto de Mafra, a Sónia tem os horários trocados. Trabalha de noite, dorme de dia.
Por isso, raramente a vejo, excepto nalgumas tardes de fim de semana quando fico em casa. Quando calha, trocamos palavras de circunstância de quintal a quintal...
Simpática, bonita, boa conversadora, vive sozinha com a mãe e um filho pequeno, desde que se separou do marido.
O quintal dela confina com o meu, separados apenas por uma fiada de arbustos baixos que se podem galgar facilmente com um simples alçar da perna.
Naquele sábado frio e soalheiro, ela chamou-me e ofereceu-me uma caixa de bolos que trouxera da fábrica, como já o fizera de outras vezes. Agradeci-lhe e fiquei a observá-la, tentando afastar maus pensamentos, enquanto ela cirandava por entre as plantas e as flores, cortando aqui, regando ali, ajeitando acolá. Por vezes debruçava-se e a roupa colava-se-lhe mais ao corpo, deixando antever as curvas bem desenhadas das pernas, das ancas.
Quando se agachava para apanhar alguma coisa, a saia curta subia e destapava-lhe as coxas um pouco acima dos joelhos, As pernas assim descuidadamente entreabertas, faziam-me imaginar o tesouro quente ainda oculto, daquela mulher apetitosa.
Para afastar as tentações, eu fingia concentrar-me nas nuvens pesadas que se começavam a acantonar do lado do mar, e comentei: - vamos ter chuva, Sónia!
Pois vamos, concordou ela, tentando adivinhar quando começariam a cair os primeiros pingos.
De súbito, sem aviso, ela tirou o gorro e a bata branca. Esticou os braços para cima, como quem se espreguiça, deixando-me adivinhar os contornos dos seus seios firmes debaixo da blusa justa.
Sem parar e olhando-me de soslaio, tirou a saia, depois a blusa, logo a seguir o soutien, as meias e, por fim, o par de cuecas.
Durante esse tempo todo, não falei, não sabia o que dizer, a garganta secava-se-me...
Sorrindo, ela aproximou-se de mim, com aquelas peças de roupa, todas debaixo do braço, estranhando eu estar tão calado.
- É sempre tão falador e está há tanto tempo aí parado, sem dizer nada, atirou-me ela...
Arrepiei-me quando aquela bela mulher, a seguir, me agarrou suavemente no braço e me perguntou:
- Está frio não é? Podia ter aquecido um pouco se, como é alto, me tivesse ajudado a tirar toda esta roupa do estendal...
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações

Tu...
Não desejo as estrelas,
nunca poderei ser delas;
não desejo o mar,
mesmo o quente é demasiado frio;
não desejo sequer um rio,
corre depressa, não se deixa amar;
não desejo nada
que só possa ser ímpar,
seja a manhã, seja a madrugada
o pôr-do-sol ou o ocaso lunar.
O que desejo não é senão
tão simples quanto apanhar uma flor,
a tua mão na minha mão,
o gesto em par do nosso amor.
nunca poderei ser delas;
não desejo o mar,
mesmo o quente é demasiado frio;
não desejo sequer um rio,
corre depressa, não se deixa amar;
não desejo nada
que só possa ser ímpar,
seja a manhã, seja a madrugada
o pôr-do-sol ou o ocaso lunar.
O que desejo não é senão
tão simples quanto apanhar uma flor,
a tua mão na minha mão,
o gesto em par do nosso amor.
26 fevereiro 2011
Divagar
Deito-me no teu olhar:
como se bastasse o querer,
querer-te;
deixar-te vir
e sermos - deste lado -
a enorme ilusão
de dormirmos juntos,
no sempre que nunca
julgamos...
Poesia de Paula Raposo


25 fevereiro 2011
As Despedidas
– Há regressos que nunca se devem fazer. As coisas nunca voltam a ser as mesmas. Nós já não somos os mesmos. Se voltamos é porque esquecemos o porquê da separação; as razões da separação. A própria separação. Fantasiamos sobre um idílio que acabou e a que queremos regressar como se fossemos menos os que nos separámos do que os que estiveram juntos. Não há retornos felizes. As peças não tornam a encaixar. As peças depois de separadas, partidas, doridas, nunca mais se tornam a encaixar. Os regressos nunca se devem concretizar.
– Assim, definitivamente?
– Assim.
– Então… – Os olhares cruzaram-se. Ele fez uma pausa e perguntou: – O que estamos nós aqui a fazer?
– A despedirmo-nos.
– Definitivamente?
– Sim. – Ela sorriu, primeiro com os lábios e com os olhos, depois com todo o rosto, e completou: – Sim, definitivamente ou até à próxima despedida – e beijou-o, primeiro com os lábios e com a língua, depois com todo o corpo.
– Assim, definitivamente?
– Assim.
– Então… – Os olhares cruzaram-se. Ele fez uma pausa e perguntou: – O que estamos nós aqui a fazer?
– A despedirmo-nos.
– Definitivamente?
– Sim. – Ela sorriu, primeiro com os lábios e com os olhos, depois com todo o rosto, e completou: – Sim, definitivamente ou até à próxima despedida – e beijou-o, primeiro com os lábios e com a língua, depois com todo o corpo.
Fui ver se a palavra «vagona» existe em Português...
... e a Infopédia confirmou-me que a cultura é uma coisa muito linda!

Do amor lento
E o corpo em cima do corpo, comboio em cima da linha, barco na linha do mar; a corrente e a direcção ajustam-se à rota pela cintura, fogem agora das rochas e ao longe, muito longe, perde-se o mundo e um porto e uma estação; e a pele do mar são as ondas, sempre foi assim; e o barco, veleiro soprado do peito ao ventre até à rosa dos ventos, a desenhar as linhas do mapa nos náufragos, a violar, incerto, determinado, a palidez da tempestade que ainda lhe sobra, entrega-se às ondas, inteiro; acertam o tempo e o rumo até se desfazerem em sal. Entretanto, um gato enorme tentava arranhar a pedra com as garras, uma mãe teve o filho, um homem gritava o nome da mulher, o autocarro passou, uma jarra espalhou os cacos pelo chão; o tempo deve ter passado por ali, na mesma, mesmo sem os encontrar e disse-os ausentes à solidão que, nesse dia, não lhes bateu à porta.
24 fevereiro 2011
O Bisturi de Damocles
Aqui há dias abordei o assunto de forma ligeira mas com estas histórias dos saca-rolhas e assim é impossível ignorar essa ameaça latente das mudanças de sexo à fartazana.
E não me venham com os considerandos do sofrimento psicológico de quem se vê amarrado/a a um género que não o seu pois basta porem-se na pele de pila para verem logo a coisa sob outro prisma.
As pirocas não têm o direito à escolha no que toca aos coisos agarrados a nós. Nascemos assim, com aquela enorme verruga nas costas (as nossas) e sem uma palavra a dizer quanto aos seus humores e outras oscilações físicas e psicológicas. Mas isso ainda vá.
Agora, uma piroca ver-se de repente à mercê de um mascarado com um bisturi na mão, um carrasco por encomenda só porque o coiso decide ser coisa, é algo de tão aterrador que quando penso nisso reduzo-me (encolho-me) à mínima expressão.
Ponham-se no meu lugar e logo percebem o porquê de neste assunto nenhuma pila ficar indiferente ou liberal. Não se trata de uma mentalidade conservadora mas de conservação, instintiva.
É por isso que eu, mesmo quem não tem cu tem medo, nunca falho quando o coiso agarrado a mim me requisita seja para o que for...
«Maria Magdala, a prostituta»
Esta foi a segunda publicação da Poesia Erótica, do nosso amigo Luís Gaspar.
Trata-se de um excerto de «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», de José Saramago.
"Quando Maria Magdala, que dormia com os homens por dinheiro, pediu a Jesus que ficasse com ela por um dia, sem nada pagar, apenas que a guardasse na Sua memória."
Como é uma delícia que ainda não tinha recomendado aqui, vão lá e depois digam-me o que acharam:
nº 2 da Poesia Erótica do Estúdio Raposa
Trata-se de um excerto de «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», de José Saramago.
"Quando Maria Magdala, que dormia com os homens por dinheiro, pediu a Jesus que ficasse com ela por um dia, sem nada pagar, apenas que a guardasse na Sua memória."
Como é uma delícia que ainda não tinha recomendado aqui, vão lá e depois digam-me o que acharam:
23 fevereiro 2011
Entrevista da Antena 1 a Maria Teresa Horta
Maria Teresa Horta considera que ainda há estigma em relação à poesia erótica quando é escrita por mulheres. “Há um certo incómodo das pessoas que me rodeiam, porque é um tema que foi sempre proibido às mulheres dentro da literatura”, sublinha.
Recomendo que ouçam. É aqui.
Recomendo que ouçam. É aqui.
"Infidelidade e traição" ou "Pau de três bicos"
Traição é uma faca nas costas.
Para “coisas” que não passam de um monte de pó temporariamente agregado, os humanos são um nadinha exigentes demais e um bocadinho megalómanos… é assim que às vezes lhes dá para terem ideias um tanto obtusas e de muito difícil concretização. Pedir, ou exigir a alguém que supostamente se ama que, para o resto da vida (ou seja, sempre, eternamente!), não foda com mais ninguém, é uma delas. Eu não tenho nada contra o amor, pelo contrário, tenho tudo a favor do amor e ainda mais a favor do verdadeiro amor. E também não tenho nada contra a monogamia e a fidelidade, mas parece-me que uma tal disposição, e a entrega exclusiva do corpo a alguém, só pode partir do exercício da livre escolha e da própria vontade, e nunca do rastreamento, invasão da privacidade, e vigilância abusiva e agressiva sobre a vida de outra pessoa, sendo ela, ainda por cima, a tal que supostamente se ama. Mas cada um lá faz e assina os contratos que entende por bem, e desde que tenha espinha dorsal para os honrar, por mais absurdos que sejam, nada há a apontar! Agora… que ande meio mundo a esconder-se atrás das moitas e a fugir da polícia e o outro meio com lanternas a espreitar para dentro dos armários e para debaixo dos tapetes de arma em punho à caça dos “traidores”, os tais ao lado de quem se deitam na cama e os mesmos a quem supostamente “amam”, é que não faz sentido nenhum. E depois lá vêm as tempestades em copos de água, com velas rasgadas, mastros partidos, incêndios, abordagens sanguinárias, criancinhas pelo ar, facadas, tiros de canhão, e sabe-se lá mais o quê! E ainda as grandes desilusões e os baldes de lágrimas, mais cedo ou mais tarde inevitáveis, quando a fasquia, logo à partida, é colocada bem acima da capacidade de salto… Mas voltando às tais “ideias obtusas” e aos “juízos obtusos”, para punir estes casos de “traição” parece que todas as penas infligidas são pequenas e nunca nenhum ressentimento é bastante. Vá lá, que por cá não se matam mulheres à pedrada! Mas a “brincadeira” também pode não sair barata… porque, ao contrário daquelas coisinhas que muita gente pode facilmente tolerar (maus tratos, desprezo, ausência, gestão ruinosa, abuso de confiança, imundície, ofensas extremas, discussões idiotas e péssimas quecas), para estes “crimes” não há atenuantes, nem importa que o outro seja ou não um companheiro/a exemplar, se mete a pata na argola e fode com outro/outra, forca com ele/ela!
Para “coisas” que não passam de um monte de pó temporariamente agregado, os humanos são um nadinha exigentes demais e um bocadinho megalómanos… é assim que às vezes lhes dá para terem ideias um tanto obtusas e de muito difícil concretização. Pedir, ou exigir a alguém que supostamente se ama que, para o resto da vida (ou seja, sempre, eternamente!), não foda com mais ninguém, é uma delas. Eu não tenho nada contra o amor, pelo contrário, tenho tudo a favor do amor e ainda mais a favor do verdadeiro amor. E também não tenho nada contra a monogamia e a fidelidade, mas parece-me que uma tal disposição, e a entrega exclusiva do corpo a alguém, só pode partir do exercício da livre escolha e da própria vontade, e nunca do rastreamento, invasão da privacidade, e vigilância abusiva e agressiva sobre a vida de outra pessoa, sendo ela, ainda por cima, a tal que supostamente se ama. Mas cada um lá faz e assina os contratos que entende por bem, e desde que tenha espinha dorsal para os honrar, por mais absurdos que sejam, nada há a apontar! Agora… que ande meio mundo a esconder-se atrás das moitas e a fugir da polícia e o outro meio com lanternas a espreitar para dentro dos armários e para debaixo dos tapetes de arma em punho à caça dos “traidores”, os tais ao lado de quem se deitam na cama e os mesmos a quem supostamente “amam”, é que não faz sentido nenhum. E depois lá vêm as tempestades em copos de água, com velas rasgadas, mastros partidos, incêndios, abordagens sanguinárias, criancinhas pelo ar, facadas, tiros de canhão, e sabe-se lá mais o quê! E ainda as grandes desilusões e os baldes de lágrimas, mais cedo ou mais tarde inevitáveis, quando a fasquia, logo à partida, é colocada bem acima da capacidade de salto… Mas voltando às tais “ideias obtusas” e aos “juízos obtusos”, para punir estes casos de “traição” parece que todas as penas infligidas são pequenas e nunca nenhum ressentimento é bastante. Vá lá, que por cá não se matam mulheres à pedrada! Mas a “brincadeira” também pode não sair barata… porque, ao contrário daquelas coisinhas que muita gente pode facilmente tolerar (maus tratos, desprezo, ausência, gestão ruinosa, abuso de confiança, imundície, ofensas extremas, discussões idiotas e péssimas quecas), para estes “crimes” não há atenuantes, nem importa que o outro seja ou não um companheiro/a exemplar, se mete a pata na argola e fode com outro/outra, forca com ele/ela!
[blog Libélula Purpurina]
Todos os gigantes que conheci tinham mais frio do que eu
Se me resumo, toda eu sobro em mim, como se ficasse a flutuar-me, demasiado espaço vazio à volta.; se me tento por extenso, aumento-me e já não consigo caber-me de volta, ainda me rebento de tanto tentar. Disto tudo me chega o medo, se não me ando a viver do meu próprio tamanho ainda me descubro a ilusão de mim. Mas, se me penso, os dedos tropeçam-me; se não me penso, os dedos deixam-me para trás, ignoram-me, escrevem-me sem mim; os dedos só se atrevem a voar no instante em que o pensamento se distrai, quando o sentem de olhos fixos ficam mais lentos, mais pesados, arrastam a razão. Queria ir directa a mim, sem resumos ou extensões, directa ao coração do acto. Mas, quando vou, sinto-me como se não me iniciasse, como se me tivesse saltado os preliminares, sinto-me como se não me terminasse, como se tivesse falhado a chave do meu ponto final, como se me faltasse dividir o cigarro pós-coital. Escolho escrever-me pequena, - não um resumo, apenas pequena - tão pequena que toda a roupa do Mundo sobra em mim e fico ali a flutuar; depois de vestir qualquer casaco, hei-de dar por mim nua, toda eu a conseguir morar apenas numa manga, encasacada, tapada, quente, despida, nua. Prefiro assim, uma casca de noz e estarei a salvo de todos os diluvios; qualquer criatura pequenina que encontre, qualquer estranha formiguinha, poderá comigo conversar. Todos os gigantes que conheci tinham mais frio do que eu.
O Navegante de Equinócios
Sim, quem é ele que navega por equinócios? E nas ondas geradas pelo mergulho no teu peito? Ondas que sobem a temperatura em contraste com o Outono amarelo das folhas caídas e brisas frescas.
Quem é ele?
É o mensageiro da vida que conta em fábula o passado que ainda não chegou. A vida que já viveu e ainda não mostrou.
Quem é ele que em sintonia com o universo, cerca o teu acontecer e expia o que dele é pérfido?
Ele é aquele que constrói nos solstícios e navega com os equinócios. Aquele que vive e acompanha os epílogos quando a própria essência deixou de ser manifestada.
Quem é ele?
É o mensageiro da vida que conta em fábula o passado que ainda não chegou. A vida que já viveu e ainda não mostrou.
Quem é ele que em sintonia com o universo, cerca o teu acontecer e expia o que dele é pérfido?
Ele é aquele que constrói nos solstícios e navega com os equinócios. Aquele que vive e acompanha os epílogos quando a própria essência deixou de ser manifestada.
22 fevereiro 2011
Sujidade sexual
Tive uma colega na faculdade que teve uma educação tão rígida que era incapaz de ver a realidade. Não era mau ser virgem depois dos vinte, o que estava errado era achar que o sexo era algo de sujo!
Um dia, disse-lhe que a maioria das pessoas se masturbava mas que não admitia. Ela disse que nem pensar! Disse-lhe ainda que o irmão de certeza se masturbava (também já tinha mais de vinte) e ela respondeu-me, escandalizada, que nem pensar o irmão nunca faria isso! Perguntei-lhe que mal é que tinha o irmão masturbar-se e ela ficou muito perturbada, inclusive zangou-se comigo e a partir desse dia manteve-me sempre à distância.
Nunca mais soube dela, mas sempre que se fala em sexualidade, lembro-me dela. Espero sinceramente que a sua primeira experiência tenha sido boa e que tenha ultrapassado essa «sujidade» sexual...
Tranças
Quero ter tranças
e laços de cor rosa;
usar saia
e meias pelo joelho;
rir-me e brincar
no recreio da minha escola.
Não quero crescer,
quero ser eu.
Poesia de Paula Raposo


Equilibristas
Dei a mão ao Menino-Homem e avancei. Lisboa deve ser a cidade de todos os equilibristas, um pé aqui e um pé ali e vamos apenas avançando um pouco, sem tentar caminhar, sem conseguir dançar; ninguém aprendeu. Dizem que as calçadas são assim, as nossas, de pedras que lá caem embriagadas e já não existem bailarinas que nos ensinem a constante graça e beleza de andar em pontas, desafiando qualquer chão. Gosto de agarrar bem a mão, apertar o calor entre elas ou então agarrar um só dedo com força, fica escondido, inteiro, dentro da minha mão pequena, por vezes é preciso agarrar menos para conseguir agarrar mais. Dei a mão e a rua estava escura, os candeeiros tinham silêncio em vez de luz, o vento soprou-me a ausência do mundo e desenhava um desamparo assustador nas folhas das árvores que fazia cair, o vento tem dedos e puxa coisas, muitas coisas. Dei a mão ao Menino-Homem e avancei; pode-se oferecer a pele, um mapa e o caminho; secretamente chamei ali a minha solidão, é assim que se oferece o que só a ausência de tudo nos vê, só ela, verdadeiramente, nos conhece; ser apenas é ser só.
21 fevereiro 2011
Imporrta-se de repetirre?
Sempre que lhe perguntavam se estava melhorzinho do seu problema com a ejaculação precoce o imigrante alemão tentava sempre minimizar a coisa alegando que o prroblema não erra constante mas apenas esporrádico...
Quando o olho de trás vê
Foi notícia ontem na televisão.
Jessie e Reanin, duas modelos neozelandesas, puseram câmaras de filmar escondidas nos rabiosques das suas calças.
Assim, conseguiram filmar os olhares de quem passava. E no YouTube já têm quase 5 milhões de visualizações.
Jessie e Reanin, duas modelos neozelandesas, puseram câmaras de filmar escondidas nos rabiosques das suas calças.
Assim, conseguiram filmar os olhares de quem passava. E no YouTube já têm quase 5 milhões de visualizações.
O Altruísmo do Mocho e da Formiga
São seres atarefados que correm de um lado para o outro.
Meio mochos, meio formigas.
São sábios e trabalhadores que se deslocam em busca - quase fuga não sabem do quê - de um próximo mundo que pretendem salvar.
Cumprimentam-se de forma estranha, olham-se com a ternura de quem se conhece há muitas vidas e ajudam-se com a vontade de quem quer mudar o mundo.
São mochos nas decisões e no intelecto.
São formigas no trabalho que se predispõem a fazer.
Eles correm de um lado para o outro para fugir da areia movediça que lá fora querem cimentar.
Correm atarefados de um lado para o outro, raramente sem direcção, raramente sem apoio, raramente lembrando a sua própria existência.
Meio mochos, meio formigas.
São sábios e trabalhadores que se deslocam em busca - quase fuga não sabem do quê - de um próximo mundo que pretendem salvar.
Cumprimentam-se de forma estranha, olham-se com a ternura de quem se conhece há muitas vidas e ajudam-se com a vontade de quem quer mudar o mundo.
São mochos nas decisões e no intelecto.
São formigas no trabalho que se predispõem a fazer.
Eles correm de um lado para o outro para fugir da areia movediça que lá fora querem cimentar.
Correm atarefados de um lado para o outro, raramente sem direcção, raramente sem apoio, raramente lembrando a sua própria existência.
20 fevereiro 2011
Carta ao Viajante (VII)
Nunca consegui sentir-me uma forasteira, uma estrangeira; em qualquer sítio ou qualquer alma a que eu chegue tenho sempre aquela sensação de familiaridade, de paz de chegar a casa, como se já tivesse habitado, como se antes tivesse pertencido ali; uma lavadeira, uma professora, uma taberneira, alguém que tinha a espada pesada que carrego ainda na mão, parece-me que em todo o lado já vivi. A imaginação é coisa poderosa, entendes do que falo, sim? Vi os teus vídeos todos, estranhamente poderia falar-te de saudades desses sítios, de nostalgia, voltei aqui para te contar.
O feio é apenas um sítio onde o belo se escondeu; tento olhar tudo e até cada um desses esconderijos, sem medo, com medo; não existe feio verdadeiramente feio, até na boca roxa do macabro se contorce a mais singular e musical gargalhada que poderá ser escrita como poesia. Vim aqui para te contar que feio mesmo feio encontra-me quando não consigo escrever; talvez logo à noite consiga, finalmente, após tantos dias, encontrar a solidão antes que a solidão se esgote em mim e me esgote as linhas; é nela que encontro a tinta preta que levo comigo para desenhar momentos, pensamentos, emoções, histórias de outras pessoas. Eu não a quero inteira, só quero um pouco dela e, nestes dias, tem sido o preço que pago, a moeda de troca para tudo o que me chega de novo. Tenho que interromper, novamente; pessoas sempre a entrar e a sair, só tive estes (poucos) minutos. Sempre que me deixem sobrar um pouco que eu possa dar à solidão, voltarei para te contar.
O feio é apenas um sítio onde o belo se escondeu; tento olhar tudo e até cada um desses esconderijos, sem medo, com medo; não existe feio verdadeiramente feio, até na boca roxa do macabro se contorce a mais singular e musical gargalhada que poderá ser escrita como poesia. Vim aqui para te contar que feio mesmo feio encontra-me quando não consigo escrever; talvez logo à noite consiga, finalmente, após tantos dias, encontrar a solidão antes que a solidão se esgote em mim e me esgote as linhas; é nela que encontro a tinta preta que levo comigo para desenhar momentos, pensamentos, emoções, histórias de outras pessoas. Eu não a quero inteira, só quero um pouco dela e, nestes dias, tem sido o preço que pago, a moeda de troca para tudo o que me chega de novo. Tenho que interromper, novamente; pessoas sempre a entrar e a sair, só tive estes (poucos) minutos. Sempre que me deixem sobrar um pouco que eu possa dar à solidão, voltarei para te contar.
«A universalidade do amor» - por Rui Felício

Em frente à sala de estar, tenho um jardim interior envidraçado que, frequentemente, observo pensativo, absorto, só com a suave música de fundo a pautar a minha placidez.
Enterrado no sofá, não dou pelo passar do tempo, deixo correr livremente o pensamento, sem peias, pelas recordações do passado, pelo rotineiro presente, pelas utopias do futuro, pela beleza do que nos rodeia.
Admiro as brilhantes gotículas da chuva a deslizarem, como pérolas, pelas folhas das plantas.
Algumas vezes, como ontem à noite, abro a porta de vidro que dá acesso ao jardim e vagueio no meio daqueles seres vegetais, imperceptivelmente sensíveis, que parecem corresponder e retribuir as carícias que lhes dou com o toque macio dos meus dedos.
Depois vou me deitar, envolvendo-os num olhar de despedida.
Esta manhã, depois de acordar e de ter ido à casa de banho, passei apressado pela sala, antes de ir preparar o pequeno almoço.
Estaquei silencioso, imóvel... Incrédulo! Surpreendido!
Um casal de jovens volteava no sofá!
Agitados, abraçados, fundidos num só, em frenéticos movimentos crescentes, obviamente deliciados, indiferentes ao mundo, no auge de uma orgia de sexo explícito, nem deram pela minha presença.
Devo ter me esquecido de fechar a porta do jardim e permiti com essa distracção, que aqueles jovens invadissem a minha casa.
Dali a pouco, aquelas duas belíssimas borboletas, já saciadas, esvoaçaram lado a lado, em direcção à rua, sacudindo as maravilhosas asas multicoloridas…
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações

19 fevereiro 2011
A Polónia já tem um Museu do Sexo
A partir de agora, está aberto ao público o Museu Erótico de Varsóvia («Muzeum Erotyki w Warszawie»).
O Museu apresenta 2.000 peças de arte erótica de todo o mundo, da colecção particular de Dariusz Kedziora, que começou há 20 anos. Curioso... é o mesmo número de peças que eu tenho na minha colecção (acrescidos, no meu caso, de 1.600 livros)... e que comecei a comprar há 25 anos.
Saliente-se que a Polónia é uma nação com elevado peso da religião católica e o sexo mantém-se um assunto tabu.
A entrada para o Museu custa 30 zloty (cerca de 8 euros), com preço sespeciais para estudantes (que têm as suas necessidades prementes) e idosos (que mantêm as suas necessidades).
Informações obtidas aqui e aqui.
Desatino
Mais um desatino.
Palavras sem sentido
(repito-me, eu sei)
vagas/não vagas.
Existe - tem que existir -
um alimento para a alma;
se existe para o corpo?
Onde está o outro?
Longe....tão longe...
e a vontade de fugir.
Poesia de Paula Raposo


A arte da flatulência apresentada pelo Carlos Car(v)alho
A Arte de Todos os Tempos, Credos e Lugares...Publicada pela primeira vez em 1751 numa edição anónima, “A Arte da Flatulência” teve tanto sucesso que o autor - Pierre-Thomas-Nicolas Hurtau - a reeditou várias vezes até à sua morte em 1791. Com o tempo, a dissertação tornou-se um clássico da literatura cómica, escatológica e pseudo-científica, existindo actualmente incontáveis edições e traduções da obra no mundo inteiro.

O que cheira verdadeiramente mal, diz ele, é o preconceito. E a incapacidade de rirmos de nós próprios, das nossas debilidades. Ou seja, o que a flatulência tem de dramático é vir lembrar-nos de que somos imperfeitos e mortais. Que algo está podre dentro de nós, mesmo antes de morrermos. E, contra isso, só há um remédio: rir, mas rir com arte.
Este falso cientista, mas verdadeiro filósofo, leva a paródia às sua últimas consequências, pois, no fundo, quer relembrar-nos que, por baixo das rendas e dos perfumes, temos vísceras, como qualquer outro animal, e não devemos envergonhar-nos do que somos, antes vivê-lo com bom humor. Tanto mais que, como afirma, a flatulência é uma necessidade da natureza, uma condição de boa saúde, que pode e deve ser assumido como fonte de prazer. E até de arte, pois “dar flatulências” não custa, custa é saber dá-las.
Não, “A Arte da Flatulência” não se limita a ser uma obra satírica. Tem uma dimensão sociológica a que só serão sensíveis os narizes mais finos e os ouvidos mais sagazes. Essa é uma das razões por que o livro não perdeu actualidade. A outra é o facto inegável de a flatulência permanecer hoje uma manifestação desconhecida da generalidade das pessoas como o era no séc XVIII. Por isso, não venham dizer que a matéria do texto é de mau gosto.
De resto, este poeta dos gases, este sábio da flatulência, deixa expresso o mais louco dos desejos: o de assistir um dia a um concerto de flatulências, concebido por um compositor capaz de transformar em música os sons mais viscerais. Em suma, decerto já o perceberam: a matéria do livro é, sem tirar nem pôr, um dos vários capítulos da mais difícil e exigente das artes: a Arte de Viver.
Post Sriptum:
Respeitando a sensibilidade dos meus queridos amigos e amigas, optei por não usar a linguagem escatológica da tradução portuguesa, sem que, no essencial, tenha havido alteração do sentido do texto. Em todo o caso, aceita-se a crítica de que o termo utilizado – flatulência - seja pouco preciso quanto ao ponto de saída da dita. Assim e para os que se preocupam com a qualidade da tradução, com a preservação e – por que não dizê-lo? – com a valorização de uma certa linguagem popular, creio que não será difícil repor a pureza das palavras originais, bastando, para tanto, substituir “flatulência” por “peido”. Ipsis Verbis.
(A Arte de dar Peidos - Ensaio teórico-físico e metódico de 1751, de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut. Editora Orfeu Negro, Novembro de 2010. Texto adaptado)
*Texto recebido pela net, onde também pesquisei fotos.
Carlos Car(v)alho
18 fevereiro 2011
Extasiado
Mal havia chegado ao átrio do tribunal quando ouviu o seu nome cantado em voz autoritária mas não desprovida de simpatia por uma funcionária judicial. Subiu as escadas em passo acelerado e respondeu prontamente ainda antes de as abandonar. Ouvindo-o, a funcionária interrompeu o nome seguinte, levantou os olhos, acenou ligeiramente com a cabeça na sua direcção e repetiu o seu nome, “Júlio F… A… F…”. Ele confirmou e, sem mais formalidades, ficou assente para todos os devidos e necessários efeitos que ele era ele e estava ali. Então, encostou-se à parede e ouviu a funcionária declamar, sem resultados, os nomes seguintes do rol de testemunhas do processo para o qual havia sido convocado e, contrariado por não estar incluído nas ausências, procurou as pessoas que o levaram a estar ali àquela hora da manhã. Ninguém. Nem testemunhas, nem arguidos, nem ofendidos. Nada. Nenhuma pessoa do “seu” processo; só um advogado.
– Vamos aguardar – declarou a funcionária, olhando para o relógio de pulso e depois para o advogado e para ele.
– Mas faz-se? – perguntou o advogado, aproximando-se da funcionária.
– Em principio não, mas para já não lhe posso garantir. Têm de aguardar – completou, incluindo-o.
O advogado, aproveitando a inclusão, cumprimentou-o, apresentando-se como mandatário do arguido, por quem Júlio ali estava, e seguiu esticando imediatamente a conversa condenando de forma veemente a falta de informação quanto às consequências da greve.
A funcionária ouviu o causídico com um longo encolher de ombros, enquanto Júlio escutava sem opinar, sentindo-se cada vez mais contrariado por estar ali.
– Vamos aguardar – rematou a funcionária no fim do arrazoado do causídico, afastando-se.
Assustado com a perspectiva de ficar sozinho com o advogado, Júlio chamou a funcionária, perguntou-lhe se tinha tempo de ir beber um café e sorriu-lhe agradecido com a resposta positiva. Estava livre, pensou, cruzando acidentalmente o olhar com o do advogado.
– Quer ir tomar um café, doutor? – convidou, sem querer, por mera educação, dirigindo-se ao advogado.
– Pode ser – respondeu o causídico com inesperada convicção e prontidão, que a frase que transcrevo não revela, nem na forma nem no tom, mas que, a bem da verdade, mantenho nos seus precisos termos.
No caminho, curto, entre o tribunal e a pastelaria mais próxima, falaram do tempo e da justiça e de como ambos se encontram cinzentos e pouco recomendáveis. O advogado falava de dias de sol e de tempos mais prazenteiros. “Com outras formas de se fazerem as coisas e em que nos sentíamos melhor. Muito melhor”, sublinhava em tom grave e sério. Desconsolado, Júlio ouvia-o sem balir, balançando a cabeça a compasso.
Já junto à porta da pastelaria, o advogado travou-lhe o passo, tocando-lhe com a mão no braço:
– Vamos antes ali – disse, apontando para um café mais adiante, sem disfarçar a observação atenta e interessada que fazia do interior do estabelecimento que acabava de rejeitar.
– Por mim… – respondeu Júlio, apanhado de surpresa e tentando, debalde, perceber onde o homem fixava o olhar.
O advogado, mantendo um estado de enlevada contemplação do que se passava para lá da montra envidraçada da pastelaria, perguntou-lhe, sem se mover e como se o fizesse para adiar por uns instantes o despegar do nariz do vidro:
– A não ser que se importe. Importa-se?
– Não – assegurou Júlio, encolhendo os ombros. – Por mim é igual, doutor.
E seguiram, o homem conjecturando numa explicação para o sucedido e o advogado, com uma súbita expressão de profundo desalento, recolhendo-se na análise visual das pedras da calçada que a seguir pisava.
Beberam o café e voltaram para a Casa da Justiça, sem trocarem mais do que meia dúzia de palavras de circunstância.
Subiram, souberam que o impasse se mantinha e desceram para fumar um cigarro.
– Se calhar, há bocado ficou a pensar que eu era maluco – disse o advogado, entre duas passas no cigarro.
– Quando? – perguntou Júlio, surpreendido, percebendo, quando se ouviu, que não o havia negado como queria.
– Quando fomos tomar café – esclareceu o advogado. Júlio fez uma careta como se não percebesse. Ele continuou: – Quando lhe disse para irmos mais à frente e fiquei a olhar para a pastelaria como um miúdo para uma loja de doces.
– Ah… – Fingiu Júlio sem muita convicção e, convicto, mentiu: – Não.
O advogado riu-se.
– Não viu, pois não? – perguntou, abrindo um sorriso de quem sabe um segredo.
– Não vi o quê, doutor?
– Não viu – troçou, definitivo. – Se visse, sabia.
– Mas dentro da pastelaria?
O advogado chegou-se a ele e segredou:
– Atrás do balcão está a coisa mais apetitosa que consegue imaginar. – Levou as pontas dos dedos aos lábios e beijou-as ruidosamente. – Um docinho! Uma coisa fantástica!
Júlio hesitou na resposta mas, apreciando os trejeitos e expressões de lúbrica admiração e voraz cobiça que o advogado teatralmente fazia com cómico empenho, decidiu segui-lo:
– Então… – olhou-o com ar sentido. – Então e levou-me para o outro café?
– Aquilo faz-me mal em jejum – justificou o causídico. – É que você não está a ver, nem sequer a imaginar.
– O doutor não me deixou – queixou-se Júlio, forçando-se a dar um tom lamurioso de irreparável decepção que o causídico sentiu e aceitou sem duvidar.
Penalizado e arrependido, o advogado olhou-o sério e declarou solene:
– O problema são as calças.
Júlio, espantado, balbuciou:
– As calças, doutor?
– Sim, senhor, as calças – confirmou o causídico, movendo lentamente a cabeça na vertical, com o ar entendido de quem perdeu tempo a pensar no assunto. – As calças de ganga que a empregada da pastelaria usa, invariavelmente do mesmo modelo e que é, certamente, o que mais a favorece… E favorece muito! – Exclamou com um sorriso matreiro e um piscar de olho a pedir cumplicidade masculina. Aguentou a pausa até o interlocutor sorrir e recomeçou: – As calças que ela usa ajustam e modelam-lhe as nádegas de tal forma… – mordeu o lábio inferior. – Faz-nos acreditar que Deus existe, é verdade, mas é-me tão penoso beber café ao balcão… – arrastou a frase e terminou-a num suspiro teatral. Fez uma careta, abanou a cabeça e concluiu: – Faz-me mal… Muito mal. Tão mal que, às vezes, prefiro nem ver… Fico extasiado… É mesmo, fico extasiado como um parvinho.
– Estava enganado o Camilo – comentou Júlio, sorrindo.
O advogado olhou-o por um momento, apanhado de surpresa mas a processar a informação com crescente alegria, e respondeu, rindo:
– Estava, de facto, estava. É verdade, por vezes, a gente extasia-se! Extasia-se mesmo!
“– A gente não se extasia, minha senhora. Olha.”, de A Mulher Fatal, de Camilo Castelo Branco.
– Vamos aguardar – declarou a funcionária, olhando para o relógio de pulso e depois para o advogado e para ele.
– Mas faz-se? – perguntou o advogado, aproximando-se da funcionária.
– Em principio não, mas para já não lhe posso garantir. Têm de aguardar – completou, incluindo-o.
O advogado, aproveitando a inclusão, cumprimentou-o, apresentando-se como mandatário do arguido, por quem Júlio ali estava, e seguiu esticando imediatamente a conversa condenando de forma veemente a falta de informação quanto às consequências da greve.
A funcionária ouviu o causídico com um longo encolher de ombros, enquanto Júlio escutava sem opinar, sentindo-se cada vez mais contrariado por estar ali.
– Vamos aguardar – rematou a funcionária no fim do arrazoado do causídico, afastando-se.
Assustado com a perspectiva de ficar sozinho com o advogado, Júlio chamou a funcionária, perguntou-lhe se tinha tempo de ir beber um café e sorriu-lhe agradecido com a resposta positiva. Estava livre, pensou, cruzando acidentalmente o olhar com o do advogado.
– Quer ir tomar um café, doutor? – convidou, sem querer, por mera educação, dirigindo-se ao advogado.
– Pode ser – respondeu o causídico com inesperada convicção e prontidão, que a frase que transcrevo não revela, nem na forma nem no tom, mas que, a bem da verdade, mantenho nos seus precisos termos.
No caminho, curto, entre o tribunal e a pastelaria mais próxima, falaram do tempo e da justiça e de como ambos se encontram cinzentos e pouco recomendáveis. O advogado falava de dias de sol e de tempos mais prazenteiros. “Com outras formas de se fazerem as coisas e em que nos sentíamos melhor. Muito melhor”, sublinhava em tom grave e sério. Desconsolado, Júlio ouvia-o sem balir, balançando a cabeça a compasso.
Já junto à porta da pastelaria, o advogado travou-lhe o passo, tocando-lhe com a mão no braço:
– Vamos antes ali – disse, apontando para um café mais adiante, sem disfarçar a observação atenta e interessada que fazia do interior do estabelecimento que acabava de rejeitar.
– Por mim… – respondeu Júlio, apanhado de surpresa e tentando, debalde, perceber onde o homem fixava o olhar.
O advogado, mantendo um estado de enlevada contemplação do que se passava para lá da montra envidraçada da pastelaria, perguntou-lhe, sem se mover e como se o fizesse para adiar por uns instantes o despegar do nariz do vidro:
– A não ser que se importe. Importa-se?
– Não – assegurou Júlio, encolhendo os ombros. – Por mim é igual, doutor.
E seguiram, o homem conjecturando numa explicação para o sucedido e o advogado, com uma súbita expressão de profundo desalento, recolhendo-se na análise visual das pedras da calçada que a seguir pisava.
Beberam o café e voltaram para a Casa da Justiça, sem trocarem mais do que meia dúzia de palavras de circunstância.
Subiram, souberam que o impasse se mantinha e desceram para fumar um cigarro.
– Se calhar, há bocado ficou a pensar que eu era maluco – disse o advogado, entre duas passas no cigarro.
– Quando? – perguntou Júlio, surpreendido, percebendo, quando se ouviu, que não o havia negado como queria.
– Quando fomos tomar café – esclareceu o advogado. Júlio fez uma careta como se não percebesse. Ele continuou: – Quando lhe disse para irmos mais à frente e fiquei a olhar para a pastelaria como um miúdo para uma loja de doces.
– Ah… – Fingiu Júlio sem muita convicção e, convicto, mentiu: – Não.
O advogado riu-se.
– Não viu, pois não? – perguntou, abrindo um sorriso de quem sabe um segredo.
– Não vi o quê, doutor?
– Não viu – troçou, definitivo. – Se visse, sabia.
– Mas dentro da pastelaria?
O advogado chegou-se a ele e segredou:
– Atrás do balcão está a coisa mais apetitosa que consegue imaginar. – Levou as pontas dos dedos aos lábios e beijou-as ruidosamente. – Um docinho! Uma coisa fantástica!
Júlio hesitou na resposta mas, apreciando os trejeitos e expressões de lúbrica admiração e voraz cobiça que o advogado teatralmente fazia com cómico empenho, decidiu segui-lo:
– Então… – olhou-o com ar sentido. – Então e levou-me para o outro café?
– Aquilo faz-me mal em jejum – justificou o causídico. – É que você não está a ver, nem sequer a imaginar.
– O doutor não me deixou – queixou-se Júlio, forçando-se a dar um tom lamurioso de irreparável decepção que o causídico sentiu e aceitou sem duvidar.
Penalizado e arrependido, o advogado olhou-o sério e declarou solene:
– O problema são as calças.
Júlio, espantado, balbuciou:
– As calças, doutor?
– Sim, senhor, as calças – confirmou o causídico, movendo lentamente a cabeça na vertical, com o ar entendido de quem perdeu tempo a pensar no assunto. – As calças de ganga que a empregada da pastelaria usa, invariavelmente do mesmo modelo e que é, certamente, o que mais a favorece… E favorece muito! – Exclamou com um sorriso matreiro e um piscar de olho a pedir cumplicidade masculina. Aguentou a pausa até o interlocutor sorrir e recomeçou: – As calças que ela usa ajustam e modelam-lhe as nádegas de tal forma… – mordeu o lábio inferior. – Faz-nos acreditar que Deus existe, é verdade, mas é-me tão penoso beber café ao balcão… – arrastou a frase e terminou-a num suspiro teatral. Fez uma careta, abanou a cabeça e concluiu: – Faz-me mal… Muito mal. Tão mal que, às vezes, prefiro nem ver… Fico extasiado… É mesmo, fico extasiado como um parvinho.
– Estava enganado o Camilo – comentou Júlio, sorrindo.
O advogado olhou-o por um momento, apanhado de surpresa mas a processar a informação com crescente alegria, e respondeu, rindo:
– Estava, de facto, estava. É verdade, por vezes, a gente extasia-se! Extasia-se mesmo!
“– A gente não se extasia, minha senhora. Olha.”, de A Mulher Fatal, de Camilo Castelo Branco.
Carta aos Dragões-Poetas
Sob o teu túmulo nada existirá. Se morreste é porque gastaste até ao fim cada milímetro teu.
Porque és daqueles pássaros que desde tenra idade entregam o corpo à alma e a alma à vida e a vida consagram às linhas. Porque te viveste todo, inteiro, incompleto, até ao último grão. Porque lançaste o teu fogo às chamas, as tuas chamas ao fogo, as chamas e o fogo à vida e às páginas amarrotadas, torcidas se te apeteceu torcer; porque voaste para que o olhar pudesse ver do céu e desceste ao centro da Terra para que pudesse ver as quedas e o Mundo de quem se enterra cedo; porque te consumiste sem dó nem piedade da dor nos teus ossos; sob o teu túmulo nada existirá, tudo existiu acima dos teus ossos.
Sob o teu túmulo existirá o vazio, a imensidão do nada que te permitiste sobrar e tudo aquilo que nunca foste. Quando o Outono te trespassar os dias e o peito e te abrir a pele, poderás receber o Inverno de braços abertos na firmeza de quem nunca terminará frio - o frio inveja a noite que escurece o dia, não deseja a Luz - ele há-de-te encontrar fora de ti, muito além de ti, só terminarás nunca porque nunca será quando te terminares; nada de ti será ali, tudo de ti já se foi.
Os que te chorarem como um poema interrompido vão encontrar conforto nos braços sempre quentes das chamas que foste oferecendo; as chamas alimentadas pelo fogo serão eternas; os que não te conheceram chorarão apenas a sua ilusão, vão encostar-se à pedra fria que talvez lhes pareça irmã da vida que conhecem, talvez se apercebam do próprio vazio e o chorem.
Só a palavra pode tudo, não se prende nos impossíveis, não se detém nos limites da existência, não se acorrenta à realidade; a palavra já feriu de morte, já matou, já criou novas vidas, juntou amantes, quebrou paredes ou atravessou-as, saiu de si e voltou a entrar, voou e caminhou sobre as águas, destronou Reis e Rainhas, foi Cupido, Hermes, Vénus, alma, corpo, sede, medo, esperança, força de gigante e utopia; a palavra é um corpo Divino na Terra, único, tem pele de letras e não tem pele, corpo, sequer limites, pode ter e não ter ao mesmo tempo; a palavra é tudo e é nada e o seu poder, a sua magia, a sua força podem ser soberanos. É por isso que és um Dragão, porque escolheste a mais poderosa e mais arriscada de todas as armas, porque a palavra forjada a fogo é espada universal e eterna, é a lâmpada de Aladino, é a Magia de todos os Castelos e Reinos, exige-te a vida única, enche-te de vidas e arranca-te de ti.
Sob o teu túmulo nada existirá; a pedra não te encarcerará; já em vida te desencarceraste e desenterraste de ti.
Porque és daqueles pássaros que desde tenra idade entregam o corpo à alma e a alma à vida e a vida consagram às linhas. Porque te viveste todo, inteiro, incompleto, até ao último grão. Porque lançaste o teu fogo às chamas, as tuas chamas ao fogo, as chamas e o fogo à vida e às páginas amarrotadas, torcidas se te apeteceu torcer; porque voaste para que o olhar pudesse ver do céu e desceste ao centro da Terra para que pudesse ver as quedas e o Mundo de quem se enterra cedo; porque te consumiste sem dó nem piedade da dor nos teus ossos; sob o teu túmulo nada existirá, tudo existiu acima dos teus ossos.
Sob o teu túmulo existirá o vazio, a imensidão do nada que te permitiste sobrar e tudo aquilo que nunca foste. Quando o Outono te trespassar os dias e o peito e te abrir a pele, poderás receber o Inverno de braços abertos na firmeza de quem nunca terminará frio - o frio inveja a noite que escurece o dia, não deseja a Luz - ele há-de-te encontrar fora de ti, muito além de ti, só terminarás nunca porque nunca será quando te terminares; nada de ti será ali, tudo de ti já se foi.
Os que te chorarem como um poema interrompido vão encontrar conforto nos braços sempre quentes das chamas que foste oferecendo; as chamas alimentadas pelo fogo serão eternas; os que não te conheceram chorarão apenas a sua ilusão, vão encostar-se à pedra fria que talvez lhes pareça irmã da vida que conhecem, talvez se apercebam do próprio vazio e o chorem.
Só a palavra pode tudo, não se prende nos impossíveis, não se detém nos limites da existência, não se acorrenta à realidade; a palavra já feriu de morte, já matou, já criou novas vidas, juntou amantes, quebrou paredes ou atravessou-as, saiu de si e voltou a entrar, voou e caminhou sobre as águas, destronou Reis e Rainhas, foi Cupido, Hermes, Vénus, alma, corpo, sede, medo, esperança, força de gigante e utopia; a palavra é um corpo Divino na Terra, único, tem pele de letras e não tem pele, corpo, sequer limites, pode ter e não ter ao mesmo tempo; a palavra é tudo e é nada e o seu poder, a sua magia, a sua força podem ser soberanos. É por isso que és um Dragão, porque escolheste a mais poderosa e mais arriscada de todas as armas, porque a palavra forjada a fogo é espada universal e eterna, é a lâmpada de Aladino, é a Magia de todos os Castelos e Reinos, exige-te a vida única, enche-te de vidas e arranca-te de ti.
Sob o teu túmulo nada existirá; a pedra não te encarcerará; já em vida te desencarceraste e desenterraste de ti.
17 fevereiro 2011
Recordar é viver
Sábados, meia-noite. Numa semana era filme de karaté e na seguinte porno. O cinema já fechou, tem as janelas cimentadas e cheiro a urina nos recantos da fachada. O meu Cinema Paraíso onde, uma noite, quando as luzes do intervalo (sim, ainda havia intervalos) se acenderam, vimos o Peúgas, nosso amigo que tínhamos deixado em casa dez minutos antes da meia-noite, ainda o plano da noite era irmos comer qualquer coisa e antes de decidirmos ir ao cinema, porque "Amanhã tenho de me levantar muito cedo para ajudar o meu pai", duas filas à nossa frente a ficar embaraçado quando o chamámos. Depois teve aquela namorada que "Então Peúgas, quando é que a comes? Nem de mão dada andais." e ele "Ela não gosta muito de contacto físico" até a vermos em grande marmelanço na estação, beijos e apalpões, com outro gajo.
Foda-se, que saudades.
Uma revista pornográfica nunca se vende em 2ª mão...
... ou pelo menos ninguém pode garantir que não tenha já passado... sei lá... pela 37ª mão.



Capa e algumas páginas de um número da «revista Gina» - quem quiser ler esta história completa (para saber o interessantíssimo argumento) tem-na aqui. Aqueles textos sempre foram uma maravilha. Mas, ingloriamente, poucos os liam.



Capa e algumas páginas de um número da «revista Gina» - quem quiser ler esta história completa (para saber o interessantíssimo argumento) tem-na aqui. Aqueles textos sempre foram uma maravilha. Mas, ingloriamente, poucos os liam.
16 fevereiro 2011
São muitas horas de ponta
Sinceramente, malta, não sei o que se passa na blogosfera. Então a notícia do ano é divulgada pela Comunicação Social e nesta comunidade népia?
Sobretudo vocês, rapaziada, que estamos sempre a levar no lombo com as bocas farsolas delas quando nos vilipendiam (fónix, vilipendiam é bonito) por essa blogosfera fora e mainãoseioquê, não percebo como não sacam dos galões e metem o mulherio armado aos cucos no seu lugar…
É que não são as terceiras, nem as segundas. São as sexualmente mais satisfeitas, como o comprova um estudo de âmbito europeu!
Claro que para a malta com pila isso não é surpresa alguma, um gajo percebe a verdade dos factos por detrás da pala de que é tudo orgasmos fingidos e coitadinhas andam aí aos caídos e na volta quando confrontadas com a questão de forma directa são incapazes de esconder o que as distingue das restantes cidadãs desta Europa a várias velocidades onde os portugas assumem a liderança naquilo que verdadeiramente interessa.
Isto não há cá funfum nem gaitinhas: se as portuguesas são as sexualmente mais satisfeitas e as sex-shops até se safam melhor na terra das outras só há uma conclusão a extrair e essa está à vista.
Sim, somos muito bons nisso. E se tivermos em conta os que não a usam porque não conseguem ou porque não gostam ou porque não sabem como, we the few provamos chegar para as encomendas e na hora da verdade aí estão as parangonas que atraem as suecas, as holandesas e, olhando para estes resultados, as gajas da Europa toda e arredores que aí aterram em busca do sol e da paisagem e do que só não vê quem não quer.
Claro que por uma questão elementar de justiça temos que partilhar este sucesso colectivo com as nossas parceiras e amantes, é impossível negar que este brilhantismo macho está directamente ligado ao nível de exigência que nos confronta: compete-nos dar assistência às melhores mulheres de todo o mundo e isso dá muito traquejo à pessoa, é inegável.
Mas interessa sobretudo agradecer a todas elas, aproveitando a efeméride que hoje se celebra e nos impingiram nem sei de onde, a sinceridade com que arriscaram atrair a inveja e a cobiça por parte de tantas outras que agora ficaram a saber que não é só o tinto alentejano de 90 que justifica a deslocação a esta terra santa.
E pela parte que me toca não precisam agradecer. Tem sido literalmente um prazer contribuir com o meu quinhão para esta honrosa estatística.
Actos Deturpados
A pintura de telas não decora; ilustra o que se vê ou o que será visto dentro ou fora dos sentidos que a interpretam.
A pintura dá vida, suga respirações, revela ilusões, renasce, adormece, aquece, serena, agita, destrói, edifica...
É o pincel do pintor que determina o que será visto pelos olhos ou pelo sentir de quem lhe dá vida; quem para ela olha e sonha.
Mas apenas o arquitecto poderá decifrar as cores daquela tela; as cores com que gravou aquelas emoções.
Os motivos, as escolhas, os porquês de quem pinta, não são os mesmos, sequer semelhantes por vezes, de quem os interpreta.
A pintura dá vida, suga respirações, revela ilusões, renasce, adormece, aquece, serena, agita, destrói, edifica...
É o pincel do pintor que determina o que será visto pelos olhos ou pelo sentir de quem lhe dá vida; quem para ela olha e sonha.
Mas apenas o arquitecto poderá decifrar as cores daquela tela; as cores com que gravou aquelas emoções.
Os motivos, as escolhas, os porquês de quem pinta, não são os mesmos, sequer semelhantes por vezes, de quem os interpreta.
Dos amantes
Os amantes abraçam-se; são mais braços que pele, mais fundos que corpo. Os amantes abraçam-se; são o chão enquanto um comboio passa debaixo da terra e entregam-se, deitados, aos carris; trespassados acabam de morrer até à perda, até voltarem lentamente - quase sem querer - à vida. É um erotismo quase triste, como um ventre nu já sulcado pela ternura única do último passeio dos dedos.
Os amantes abraçam-se; são pássaros lentos feitos de cada pena que tomam do outro, curam-se da sua dor. Os amantes abraçam-se; são corpos sem som ou silêncio porque a música tem-lhes corpo e agora ouve-se com o olhar que a vai recolhendo na pele.
Falo dos abraços dos amantes porque é incomparavelmente mais difícil falar deles, não tenho palavras que respondam ao peito; a inexistência de cada um por si no corpo do afecto puro, demorado, transpôs-me as palavras e fechou o portão atrás de si, cada letra estupefacta e sempre aquém da verdade do mais ténue abraço. Se algum dia as tive, às palavras, devo-as ter largado, rendido, perdido todas e nem sequer as quero de volta.
Os amantes abraçam-se; são pássaros lentos feitos de cada pena que tomam do outro, curam-se da sua dor. Os amantes abraçam-se; são corpos sem som ou silêncio porque a música tem-lhes corpo e agora ouve-se com o olhar que a vai recolhendo na pele.
Falo dos abraços dos amantes porque é incomparavelmente mais difícil falar deles, não tenho palavras que respondam ao peito; a inexistência de cada um por si no corpo do afecto puro, demorado, transpôs-me as palavras e fechou o portão atrás de si, cada letra estupefacta e sempre aquém da verdade do mais ténue abraço. Se algum dia as tive, às palavras, devo-as ter largado, rendido, perdido todas e nem sequer as quero de volta.
15 fevereiro 2011
um marco para as forças de segurança ou nada a comentar?
"Agente que assumiu homossexualidade defende que casamento «é um marco para as forças de segurança»"
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito de qualquer cidadão. No geral, é esta a posição de representantes da Guarda Nacional Republicana (GNR) quando se lhes pede que comentem o primeiro casamento homossexual nesta força de segurança, entre uma capitã e uma cabo. Mas num fórum online de profissionais da GNR, há guardas que defendem que a instituição está a ser "enxovalhada" e quem gabe "a coragem" das colegas e lhes dê os parabéns. E há ainda quem diga que o casal irá "encontrar obstáculos".
A notícia veio a público no Correio da Manhã. Uma capitã, de 27 anos, a exercer funções em Santarém, e uma cabo, de 39 anos, formadora em investigação criminal na Escola Prática da Guarda, decidiram casar-se, oficializando o relacionamento que tinham há dois anos e pedindo os dias de licença a que têm direito. A cerimónia terá tido lugar [na semana passada], na Conservatória do Registo Civil de Lisboa. A decisão de vir a público não terá sido das próprias, que se recusaram a comentar a notícia.
Belmiro Pimentel, primeiro agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) a assumir a sua homossexualidade, não conhece as guardas, mas dá-lhes "os parabéns" na sua página da rede social Facebook. Ao PÚBLICO não hesita em considerar o casamento como "um marco para as forças de segurança. É importante a existência deste casamento dentro de uma instituição tão fechada como a GNR, mais do que a PSP", diz o agente que assumiu a sua homossexualidade em 2009 e entretanto fundou o Grupo Identidade XY, grupo de trabalho Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero, inserido no Sindicato Unificado da Polícia.
Belmiro Pimentel, que é agente numa esquadra do Porto, diz que seria "mais difícil de digerir se fossem dois homens a casar-se. Este é um mundo masculino", nota e "existe o fetiche heterossexual das mulheres lésbicas". Mesmo assim, afirma que "uma coisa é o politicamente correcto, outra diferente é a aceitação". O agente sabe que este tem sido o tema de conversa na GNR desde que se soube da notícia, na semana passada, e Belmiro Pimentel aponta um posto onde a notícia foi afixada com comentários menos elogiosos, mas também que tal comportamento foi criticado.
O fórum online da GNR espelha a divisão. Tanto se lê que as duas guardas "deveriam optar ou pela carreira ou pela sua exposição matrimonial, fora desta instituição", diz um segundo-sargento que não se identifica, como se escreve: "Acho muito bem e pela coragem que tiveram em assumir merecem toda a felicidade", diz um cabo-chefe.
César Nogueira, actual presidente da Associação dos Profissionais da Guarda, declara que o casamento "é um direito que lhes assiste, nada há a comentar", mas não duvida que "numa instituição militar" como a GNR "certamente vão encontrar obstáculos. Por mais que diga que existe a lei e que vão viver como outro casal, há preconceitos numa instituição que é conservadora. Vai ser difícil para as colegas". Mas o responsável espera que o facto de o assunto estar a ser falado entre os profissionais possa tornar "a instituição mais aberta".
"Nada temos a dizer. A questão da homossexualidade é uma questão que para nós é menor. Respeitamos mas consideramos que há coisas mais importantes, como a mortalidade nas estradas ou as condições de trabalho na GNR", afirma José Alho, presidente da Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda.
Para Helena Carreiras, socióloga do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, que estuda a questão do género nas forças militares, "as instituições não devem ter nada a dizer. É uma questão da esfera pessoal dos seus membros. Desde que não entre em colisão com a vida profissional, são esferas que não se cruzam". A investigadora considera que "é um passo corajoso", já que "as instituições militares têm sido mais resistentes a transformações". "É importante que numa sociedade democrática as expressões minoritárias vão aparecendo", mas, defende, o ideal seria que este passasse a ser "um não assunto" e não fosse motivo de notícias.»
in ILGA Portugal
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito de qualquer cidadão. No geral, é esta a posição de representantes da Guarda Nacional Republicana (GNR) quando se lhes pede que comentem o primeiro casamento homossexual nesta força de segurança, entre uma capitã e uma cabo. Mas num fórum online de profissionais da GNR, há guardas que defendem que a instituição está a ser "enxovalhada" e quem gabe "a coragem" das colegas e lhes dê os parabéns. E há ainda quem diga que o casal irá "encontrar obstáculos".
A notícia veio a público no Correio da Manhã. Uma capitã, de 27 anos, a exercer funções em Santarém, e uma cabo, de 39 anos, formadora em investigação criminal na Escola Prática da Guarda, decidiram casar-se, oficializando o relacionamento que tinham há dois anos e pedindo os dias de licença a que têm direito. A cerimónia terá tido lugar [na semana passada], na Conservatória do Registo Civil de Lisboa. A decisão de vir a público não terá sido das próprias, que se recusaram a comentar a notícia.
Belmiro Pimentel, primeiro agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) a assumir a sua homossexualidade, não conhece as guardas, mas dá-lhes "os parabéns" na sua página da rede social Facebook. Ao PÚBLICO não hesita em considerar o casamento como "um marco para as forças de segurança. É importante a existência deste casamento dentro de uma instituição tão fechada como a GNR, mais do que a PSP", diz o agente que assumiu a sua homossexualidade em 2009 e entretanto fundou o Grupo Identidade XY, grupo de trabalho Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero, inserido no Sindicato Unificado da Polícia.
Belmiro Pimentel, que é agente numa esquadra do Porto, diz que seria "mais difícil de digerir se fossem dois homens a casar-se. Este é um mundo masculino", nota e "existe o fetiche heterossexual das mulheres lésbicas". Mesmo assim, afirma que "uma coisa é o politicamente correcto, outra diferente é a aceitação". O agente sabe que este tem sido o tema de conversa na GNR desde que se soube da notícia, na semana passada, e Belmiro Pimentel aponta um posto onde a notícia foi afixada com comentários menos elogiosos, mas também que tal comportamento foi criticado.
O fórum online da GNR espelha a divisão. Tanto se lê que as duas guardas "deveriam optar ou pela carreira ou pela sua exposição matrimonial, fora desta instituição", diz um segundo-sargento que não se identifica, como se escreve: "Acho muito bem e pela coragem que tiveram em assumir merecem toda a felicidade", diz um cabo-chefe.
César Nogueira, actual presidente da Associação dos Profissionais da Guarda, declara que o casamento "é um direito que lhes assiste, nada há a comentar", mas não duvida que "numa instituição militar" como a GNR "certamente vão encontrar obstáculos. Por mais que diga que existe a lei e que vão viver como outro casal, há preconceitos numa instituição que é conservadora. Vai ser difícil para as colegas". Mas o responsável espera que o facto de o assunto estar a ser falado entre os profissionais possa tornar "a instituição mais aberta".
"Nada temos a dizer. A questão da homossexualidade é uma questão que para nós é menor. Respeitamos mas consideramos que há coisas mais importantes, como a mortalidade nas estradas ou as condições de trabalho na GNR", afirma José Alho, presidente da Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda.
Para Helena Carreiras, socióloga do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, que estuda a questão do género nas forças militares, "as instituições não devem ter nada a dizer. É uma questão da esfera pessoal dos seus membros. Desde que não entre em colisão com a vida profissional, são esferas que não se cruzam". A investigadora considera que "é um passo corajoso", já que "as instituições militares têm sido mais resistentes a transformações". "É importante que numa sociedade democrática as expressões minoritárias vão aparecendo", mas, defende, o ideal seria que este passasse a ser "um não assunto" e não fosse motivo de notícias.»
in ILGA Portugal
Mel
Hoje: um corredor em círculo e, no chão, um tapete
esse que foi nosso, tapete
de folhas secas caídas da noite.
Isabel sussurra que se deitou ali, diz que lhe sobrevive
o corpo à alma, sobrevive
quente no frio da espera, não existe.
Ontem: uma noite que se desfaz no lençol sobre a pele,
a manhã chega, tenta lavar, a pele
dói, já dói, mas a manhã ainda insiste.
Isabel grita que saía dali, que a seda nos braços já lhe arde
mas que as pernas se afastam, arde
também no ventre e o ventre consente.
esse que foi nosso, tapete
de folhas secas caídas da noite.
Isabel sussurra que se deitou ali, diz que lhe sobrevive
o corpo à alma, sobrevive
quente no frio da espera, não existe.
Ontem: uma noite que se desfaz no lençol sobre a pele,
a manhã chega, tenta lavar, a pele
dói, já dói, mas a manhã ainda insiste.
Isabel grita que saía dali, que a seda nos braços já lhe arde
mas que as pernas se afastam, arde
também no ventre e o ventre consente.
Já é Primavera
Os seios cálidos
dominam a atmosfera
sideral;
o encontro é
inesperado:
estremecem
e diluem-se maciços
no orgasmo
da noite.
Já é Primavera
quando tudo renasce.
Poesia de Paula Raposo


Já vos disse que adoro bengalas...
... e que só espero chegar a uma idade respeitável em que não precise mas que as possa usar?
Esta é feita artesanalmente, por um artista francês, C. Choquet. Tem um comprimento de 98 cm. A figura feminina é em resina e o cabo é em faia com acabamento de jacarandá.
Esta é feita artesanalmente, por um artista francês, C. Choquet. Tem um comprimento de 98 cm. A figura feminina é em resina e o cabo é em faia com acabamento de jacarandá.
14 fevereiro 2011
Pensar sem a pila?!
Um destes dias ouvi, num som abafado pelas calças e pelos boxers que me oprimem, o gajo agarrado a mim a afirmar que não pensa com a pila.
Não pensa com a pila? Então mas anda para todo o lado comigo sempre colado e só porque lhe dá jeito acha-se no direito de pensar sem mim?
Quer dizer, não pensa com a pila mas não se inibe de a usar conforme lhe dá na telha. Enfia-me onde quer e lhe apetece (e o deixam) sem me perguntar coisa nenhuma, farta-se de gabar o meu desempenho e depois dá ares de iluminado, de doutor, a reclamar apenas para si o mérito do raciocínio?
Pode ser que se flixe. E aí não conta comigo com toda a certeza...
Um Simples Rosto
Observo;
O rosto de conforto e felicidade que esperavas ter... que esperava dar.
Estar apenas a observar, sem pensar; e perceber que olho o infinito, o horizonte através do rosto, o firmamento como se a imagem se esbatesse num plano de fundo, apenas pintado, sem relevo e sem mácula.
Estar somente a observar, afinal, apenas o que aqui se passa atrás dos sentidos, aquém da visão e ver-te adormecer, e adormecer-te numa serenidade angelical.
Ficar a observar o rubor, o sorriso, o movimento dos olhos, o calor da pele, o respirar, a vida em paz... um simples rosto que de simples nada tem.
O rosto de conforto e felicidade que esperavas ter... que esperava dar.
Estar apenas a observar, sem pensar; e perceber que olho o infinito, o horizonte através do rosto, o firmamento como se a imagem se esbatesse num plano de fundo, apenas pintado, sem relevo e sem mácula.
Estar somente a observar, afinal, apenas o que aqui se passa atrás dos sentidos, aquém da visão e ver-te adormecer, e adormecer-te numa serenidade angelical.
Ficar a observar o rubor, o sorriso, o movimento dos olhos, o calor da pele, o respirar, a vida em paz... um simples rosto que de simples nada tem.
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