(crica na imagem para confirmares)
07 setembro 2011
Mulheres e entrevistas
Um profissional de Recursos Humanos masculino deve ser imparcial.

Mulheres de peito dificilmente ficam sem emprego.
Capinaremos.com
Mulheres de peito dificilmente ficam sem emprego.
Capinaremos.com
06 setembro 2011
Do eu para o tu...
Hora após hora,
dia após dia,
ano após ano,
uma vida esgota-se;
mas não faz mal:
vida após vida,
Deus há-de colocar-te
ao alcance das minhas acções
e eu saberei quem és
mesmo que ainda não te conheça
porque verei pele
onde antes só encontrei roupa,
porque verei rosto
onde antes só encontrei máscara
e o céu há-de reflectir-se da mesma forma
azul e gigante no teu olhar
porque os homens mudam o Mundo
mas ninguém consegue mexer no céu
e no espelho de uma alma.
No início dos tempos
um homem nasce de dentro para fora;
no início da nossa vida em cada vida
saberás quem sou
porque não te posso dar à luz
mas posso dar-te toda a luz que encontrar
(hei-de procurá-la para ti)
e tu hás-de nascer ou talvez renascer
desta vez, de fora para dentro
de fora para dentro de nós.
dia após dia,
ano após ano,
uma vida esgota-se;
mas não faz mal:
vida após vida,
Deus há-de colocar-te
ao alcance das minhas acções
e eu saberei quem és
mesmo que ainda não te conheça
porque verei pele
onde antes só encontrei roupa,
porque verei rosto
onde antes só encontrei máscara
e o céu há-de reflectir-se da mesma forma
azul e gigante no teu olhar
porque os homens mudam o Mundo
mas ninguém consegue mexer no céu
e no espelho de uma alma.
No início dos tempos
um homem nasce de dentro para fora;
no início da nossa vida em cada vida
saberás quem sou
porque não te posso dar à luz
mas posso dar-te toda a luz que encontrar
(hei-de procurá-la para ti)
e tu hás-de nascer ou talvez renascer
desta vez, de fora para dentro
de fora para dentro de nós.
Postalinho de Florença
O Pedro Concertinas foi visitar o museu Galleria degli Uffizi di Firenze (Florença - Itália) e ficou estarrecido (seja lá o que for que isto queira dizer) quando se deparou com o que estavam a fazer ao Cristo neste quadro «Pietà di San Remigio», de Giottino (1320-1369):



Quase perfeito...
... e tu me fazes escrever,
pelo teu olhar impune,
pela tua voz musical,
pelo sexo que a língua
transmite.
E, eu escrevo pelos teus dedos
o último orgasmo.
Uns breves segundos bastam
para o poema quase perfeito...
Poesia de Paula Raposo
«Nuit de Noces» (noite de núpcias) - de Félix Steyne (1887)
Livrinho recebido de fresco (apesar dos seus 124 aninhos) para a minha colecção.
«Nuit de Noces» - Félix Steyne
Illustrations de FAU, GALICE et STEIN
EDITIONS MONNIER et Cie - 1887 - Livre relié demi-cuir - dimensions: 18 cm x 12 cm - 324 pages
Referenciado na «Revue des livres nouveaux», de Janeiro de 1887: "O que resulta deste casamento? Oh! Uma coisa que nós todos já vimos no Palácio Real ou em Cluny, uma caça ao marido que desaparece na noite de núpcias."
«Nuit de Noces» - Félix Steyne
Illustrations de FAU, GALICE et STEIN
EDITIONS MONNIER et Cie - 1887 - Livre relié demi-cuir - dimensions: 18 cm x 12 cm - 324 pages
Referenciado na «Revue des livres nouveaux», de Janeiro de 1887: "O que resulta deste casamento? Oh! Uma coisa que nós todos já vimos no Palácio Real ou em Cluny, uma caça ao marido que desaparece na noite de núpcias."
05 setembro 2011
04 setembro 2011
Bebe-me
Bebe-me
que eu sirvo-te estremeções
que eu sirvo-te a dor
que eu sirvo-te rasgões
por uma gota de amor
que eu sirvo-te estremeções
que eu sirvo-te a dor
que eu sirvo-te rasgões
por uma gota de amor
«Jogo do Burro» - por Rui Felício

Chamava-se Albino, mas pouca gente sabia o seu nome. Era tratado e conhecido por todos como o Binão. Na década de sessenta, devia andar na casa dos 50 anos de idade.
Morava na Rua do Teodoro, numa minúscula casa térrea decrépita e era visto amiúde na zona das paragens dos trolleys do Calhabé a caminhar, bamboleante, umas vezes em direcção à Rua dos Combatentes ou outras a caminho de uma taberna que havia antes de se chegar ao Café Aquário. Gostava de jogar ao burro, no quintal da tasca, debaixo de uma parreira. Talvez por estar muito treinado ou talvez porque era baixa e, por isso, mais adequada à sua estatura, a bancada de madeira carcomida onde era preciso acertar com as malhas de chumbo nos quadrados do tabuleiro, facilitava-lhe o arremesso dos discos, e ganhava com frequência as partidas, emborcando de graça os copos de tinto que constituíam as apostas do jogo.
De cabeça quadrada e disforme, desproporcionada do corpo, pernas curtas, grossas e arqueadas, a sustentarem um tronco largo e musculado, de onde emergiam dois braços fortes que lhe chegavam aos joelhos, era senhor de uma força hercúlea que assustava quem se atrevia a ridicularizar a sua grotesca figura.
Nunca o vi rir, certamente pelo natural complexo da sua estatura anã de pouco mais do que 1,40 m. Quando enclavinhava, como uma tenaz, a sua mão no braço de alguém mais desprevenido, que tivesse tido a desdita de lhe dirigir alguma piada de mau gosto, rangiam-se-lhe os dentes e os ossos da vítima estalavam como cartilagens.
Curiosamente, neste jogo, disputado aos pares, o seu parceiro habitual era o enorme Calmeirão, conhecido mandador das fogueiras dos Santos Populares.
O Binão vivia pobre, sobrevivendo da paga de esporádicos recados que fazia.
Mas já tinha sido muito rico!
Na década de quarenta, ainda jovem, tinha-lhe saído a sorte grande na lotaria. Seiscentos contos, segundo se dizia! Uma fortuna!
Foi então que finalmente convencera a Alzira, por quem andava apaixonado há anos, a namorar e a casar com ele. Passando ele a ser dono daquela enorme fortuna, a Alzira, que até aí sempre lhe recusara os intentos, espantando-o de forma grosseira e sugerindo-lhe que “se medisse”, acabou por ceder às suas insistências.
Casaram na antiga igreja de S. José, perante os sorrisos dos convidados e a chacota de quem assistiu à cerimónia. Ela, elegante e bonita suplantava-o do alto do seu 1,70m e ele, de olhos em alvo e pescoço esticado, parecia fitar o céu quando a olhava.
Constava que o casamento não durara mais do que dois ou três meses, porque a Alzira, de quem se desconhecia o paradeiro, pela calada de uma noite, enquanto ele dormia, fugiu com uma mala cheia com todo o dinheiro que o Binão ganhara na lotaria e que escondia religiosamente debaixo do colchão.
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações

03 setembro 2011
Dos teus beijos
A dança segue
e tu reencontras o meu olhar;
eu deixo-me ir
porque te vejo sempre
reflectido lá onde é azul.
A dança continua
nas palavras
que ainda digo
ou no segredo - de mim -
que guardo dos teus beijos.
Poesia de Paula Raposo
02 setembro 2011
Série canadiana da TV5 sobre a sexualidade nos diferentes países
São 493 minutos em 19 videos (em francês) excepcionais.
Não demorem a ir lá, porque daqui a algumas semanas deixam de estar disponíveis.
Não demorem a ir lá, porque daqui a algumas semanas deixam de estar disponíveis.
01 setembro 2011
Sinfonia (in)completa

A tua mão passeia-se no meu corpo
enquanto a minha pele pede que lhe escrevas
poemas com a tua boca
uma pintura de Klimt no planalto dum seio
um nocturno de Chopin no declive do dorso
um intermezo molto lento na ogiva das minhas coxas
ensaio um adágio num ritmo frenético
e leio-te a pauta numa progressão harmónica
onde importam mais os acordes
do que a fórmula do compasso
marcas o ritmo com uma clave
e suplicas um interlúdio...
ensaio uma tocata e fuga
breve, semibreve, alternando confusa e semifusa
retomamos a sinfonia
que culmina num opus ensemble
enquanto a minha pele pede que lhe escrevas
poemas com a tua boca
uma pintura de Klimt no planalto dum seio
um nocturno de Chopin no declive do dorso
um intermezo molto lento na ogiva das minhas coxas
ensaio um adágio num ritmo frenético
e leio-te a pauta numa progressão harmónica
onde importam mais os acordes
do que a fórmula do compasso
marcas o ritmo com uma clave
e suplicas um interlúdio...
ensaio uma tocata e fuga
breve, semibreve, alternando confusa e semifusa
retomamos a sinfonia
que culmina num opus ensemble
«Insubmissa» - o novo livro da nossa Paula Raposo
«Insubmissa - o lado errado numa linha imaginária - poesia de final do Verão entre romãs e açucenas»... é o título (com subtítulo e subsubtítulo que até nos obriga a respirar a meio) do sexto livro da Paula Raposo, a menina que sempre achou que não escreve poesia erótica... e aqui n'a funda São já vai em mais de 200 (sim, duzentos) poemas publicados.
A vertente masoquista da Paulita levou-a a convidar-me para escrever o prefácio deste livro, publicado agora de fresco pela Chiado Editora, na colecção «Prazeres Poéticos». Lá fiz o que pude (muito pouco, mas com muita boa vontade). Para vos açuçar o apetite (ou tirá-lo, sabe-se lá), deixo-vos aqui alguns excertos desse meu prefácio:
" (...) – Os meus poemas, eróticos?! Para mim, nada daquilo tem erotismo algum... – responde-me sempre ela. Mesmo depois de o Luís Gaspar lhe dedicar um dos programas da sua Poesia Erótica. Ai, não?! "Imprevisível, apeteces-me / e nesse apetite (voraz) / deixo sempre um pouco de mim" («Amarrotada») e "das palmas das mãos / saem as palavras / mais belas" («Sexo»).
Nem preciso de fazer eu a introdução que esta Mulher Real, quase "transparente", encarrega-se disso: "Trago-te comigo / lança cravada fundo" («Dias»), "reviramos / o desejo na volta / de uma serra" («Feliz») e "quero (...) / que me dedilhes / incessante / todos os poros / que se abrem às tuas mãos" («Amor Que Faço»).
Sempre vi na poesia da Paula um erotismo melancólico, claramente biográfico. E aqui aparece também, em cada esquina entre versos: "a memória e o sonho / imortais de um desejo" («As Vidas»)... "deixarei o meu cheiro: / reconhecerás o caminho" («Barro»)...
(...)"
O livro pode ser encomendado à autora para o seu e-mail: mapaularaposo@gmail.com. O custo é de € 10 + portes.
Situações constrangedoras
Acontecem com todo mundo, às vezes.

Não se pode nem fazer putarias necrófilas sem ser julgado.
Capinaremos.com
Não se pode nem fazer putarias necrófilas sem ser julgado.
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31 agosto 2011
Patrícia Mamona desclassificada
A desilusão provocada pela desqualificação desta atleta sobe exponencialmente em função do aumento exagerado das naturais expectativas que são criadas por uma pessoa com tal nome.
Sentença
Lamento
mas faz tempo que já sei
tu nunca hás-de beijar o meu ombro
tu nunca hás-de afagar o meu cabelo
Porque, esse dia em que o fizesses, ao chegar
significaria que este meu amor que tenho
aqui, agora
este que me beija o ombro
este que me afaga o cabelo
já aqui não estaria
e, se esse dia chegasse,
eu não quereria existir
e, se por alguma tragédia medonha, macabra,
se por algum castigo impiedoso dos Deuses
eu continuasse a existir
ainda assim
não permitiria que mais ninguém
afagasse o meu cabelo
beijasse o meu ombro
não permitiria
que algum dia espantassem
o que sobra dele, do meu amor,
ainda que tudo o que sobre
de um amor eterno
seja a mais triste solidão.
Por isso, nunca mais me digas
que, um dia, ainda hás-de beijar o meu ombro
nunca mais me digas
que, um dia, ainda hás-de afagar o meu cabelo
porque eu ouço as tuas palavras doces
como a mais terrível, a mais cruel sentença,
o mais horrível destino
que alguém me poderia desejar.
mas faz tempo que já sei
tu nunca hás-de beijar o meu ombro
tu nunca hás-de afagar o meu cabelo
Porque, esse dia em que o fizesses, ao chegar
significaria que este meu amor que tenho
aqui, agora
este que me beija o ombro
este que me afaga o cabelo
já aqui não estaria
e, se esse dia chegasse,
eu não quereria existir
e, se por alguma tragédia medonha, macabra,
se por algum castigo impiedoso dos Deuses
eu continuasse a existir
ainda assim
não permitiria que mais ninguém
afagasse o meu cabelo
beijasse o meu ombro
não permitiria
que algum dia espantassem
o que sobra dele, do meu amor,
ainda que tudo o que sobre
de um amor eterno
seja a mais triste solidão.
Por isso, nunca mais me digas
que, um dia, ainda hás-de beijar o meu ombro
nunca mais me digas
que, um dia, ainda hás-de afagar o meu cabelo
porque eu ouço as tuas palavras doces
como a mais terrível, a mais cruel sentença,
o mais horrível destino
que alguém me poderia desejar.
30 agosto 2011
Premonition
Que mais quero?
Que mais posso querer:
amar o teu amor
que da tua boca
me transcende.
Que mais quero?
Um delírio
e um sentimento
apaixonado;
eu quero-te.
Quanto mais te quero,
mais te perco
nas rotas indefiníveis
de tantos caminhos
por traçar.
Poesia de Paula Raposo
29 agosto 2011
28 agosto 2011
Tradução da Lua (II)
Eu gosto da lua
que se esconde atrás dos prédios.
Eu gosto da lua
que se esconde atrás das árvores.
Eu gosto da lua
que é uma mulher da rua
na esquina espera e enrola
os caracóis nos dedos.
Eu tenho uma lua
que se esconde atrás do peito.
De vez em quando ouço-a cantar.
Quando canta um dó chama-se angústia.
que se esconde atrás dos prédios.
Eu gosto da lua
que se esconde atrás das árvores.
Eu gosto da lua
que é uma mulher da rua
na esquina espera e enrola
os caracóis nos dedos.
Eu tenho uma lua
que se esconde atrás do peito.
De vez em quando ouço-a cantar.
Quando canta um dó chama-se angústia.
27 agosto 2011
Como tu (ainda) sabes fazer
Depois de me acariciares
(como tu sabes fazer)
trazes-me os dedos
para que eu sinta
o meu sabor de mim.
Chupas-me e
...faltam poucos minutos,
muito pouco tempo,
para tudo o que (ainda) temos a fazer;
lambo-te a boca - agora -
e tu sabes do teu sabor
por mim.
Poesia de Paula Raposo
26 agosto 2011
Neste querer...
Neste querer, tanto a alma quer
que nos desalma e vai
que nos desalma e sai
de nós e vai aprender a viver
sai e vai beijar onde nos doer
foge-nos das pernas nuas e doridas
foge-nos das mãos frias e cansadas
foge, se a pele nos quer endurecer.
Neste querer, da alma faz-se mulher
e alma menina que, assim, também sou
fugida do corpo meu que não me abraçou
tenho abraços que não obrigam a crescer
basta ser, deixam-me ser
e as nossas almas, pela doçura tocadas,
consertam mãos e pernas quebradas
não deixam a nossa pele morrer.
que nos desalma e vai
que nos desalma e sai
de nós e vai aprender a viver
sai e vai beijar onde nos doer
foge-nos das pernas nuas e doridas
foge-nos das mãos frias e cansadas
foge, se a pele nos quer endurecer.
Neste querer, da alma faz-se mulher
e alma menina que, assim, também sou
fugida do corpo meu que não me abraçou
tenho abraços que não obrigam a crescer
basta ser, deixam-me ser
e as nossas almas, pela doçura tocadas,
consertam mãos e pernas quebradas
não deixam a nossa pele morrer.
25 agosto 2011
Ponto de vista
Encontraram-se numa rua de Lisboa. Cumprimentaram-se e foram tomar café. Falaram disto e daquilo. Da curiosidade de se encontrarem e de se verem de vez em quando, por acaso. Riram-se de episódios passados do tempo em que trabalharam juntos. Era tarde e foram jantar.
Jantaram, conversaram e decidiram ir beber um copo.
No passeio à porta do restaurante, enquanto decidiam onde e como ir, António pôs um ar sério e perguntou, coçando a barba de três dias que lhe emoldurava a face:
– Posso dizer-te uma coisa?
António fez a pergunta olhando em frente e manteve-se assim. Alice fixou-se no perfil dele; estranhou-lhe o tom e o olhar perdido mas abanou afirmativamente a cabeça em resposta, ainda que sem grande convicção, pois, para mais, tinha a certeza que ele não a estava a ver.
– Podes – acabou por verbalizar Alice, continuando a estudar-lhe o recém-adquirido e inesperado perfil seráfico. A mulher aguardou ainda mais um momento para que ele dissesse o que queria dizer ou para que, pelo menos, se virasse para ela mas como nada aconteceu disse, ainda com um sorriso na voz: – Podes, desde que seja qualquer coisa boa.
Alice viu-lhe as pálpebras semicerrarem por um instante, como se ele estivesse a analisar a conformação entre o que lhe queria dizer e o pedido dela, e, sem saber porquê, não gostou.
– Não sei – confessou António, virando-se para ela. Os olhares cruzaram-se e Alice não conseguiu evitar franzir o sobrolho. António explicou: – Há coisas que nós não sabemos se as outras pessoas gostam de ouvir, apesar de nós termos de as dizer.
– Se tens de dizer deixa de ser importante a minha vontade, não é? – disse Alice, desconfortável.
António voltou a olhar em frente. Alice procurou ver o que ele estava a ver.
– Sim – anuiu António. – Se eu acho que tenho mesmo de o dizer nem te devia perguntar nada. Dizia-o e pronto.
– Diz.
– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – perguntou António, em tom declamatório.
– O quê?
– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – repetiu António.
– Tu é que sabes. – Respondeu Alice, surpreendida, sem saber do que estavam a falar. – Andas atrás de mim?
– Ando – reconheceu António, ainda olhando em frente. – Ás vezes procuro-te nos sítios por onde andas, ainda que normalmente não te veja.
– Isso não é normal. – Não havia censura na voz dela mas também não havia espanto, o que a espantou.
– Pois não. Mas passo lá, dou voltas que não precisava, invento caminhos para cruzar as ruas em que te podia encontrar…
– Mas procuras-me ou passas?
– Passo à tua procura.
Ele olhou para ela, os olhares cruzaram-se e ambos os mantiveram.
– Mas não paras? Não ficas à minha espera? Não me procuras ver?
– Não, não e nim. – António acompanhou a resposta com um sorriso, que se esbateu por si quando concluiu: – Procuro ver-te mas na verdade não te procuro para te ver.
– Isso é tudo muito estranho. Não é normal, pois não? Tens consciência disso?
– Tenho.
– Mas às vezes encontramo-nos.
– Sim.
– Ah… Mas não é por acaso…
– Não, não é por acaso, é porque eu procuro cruzar-me contigo…
– Ah…
– E procuro-te no facebook e em blogues.
– Porquê?
António cerrou os lábios e arqueou as sobrancelhas.
– Isso é que é o pior.
– O quê?
– A resposta ao porquê – disse ele. Ela ficou a olhar para ele, interpelando-o com uma expressão quase cómica de triste perplexidade e desencanto. Ele continuou sério e solene como se o que dissesse fizesse sentido: – Porque eu não sei bem… – hesitou. – Porque eu não sei porquê – corrigiu. – Não sei mesmo, nem bem nem mal – concluiu.
– Tu és um mar de dúvidas e incertezas, não és? – perguntou ela, omitindo o “continuas” que pensou que a frase devia ter.
– Nem sempre. – António encolheu os ombros com um sorriso agarotado e disse: – Hoje dei o passo em frente.
Ela abanou a cabeça, pensou por um momento e lançou-lhe:
– Vamos ser francos e directos um com o outro?
Ele concordou de pronto:
– Sim.
– E definitivos?
Ele cerrou os lábios numa expressão convicta e empenhada e anuiu com a cabeça:
– E definitivos.
Ela deu-lhe um beijo na face, agradeceu o jantar, disse-lhe adeus e foi-se embora.
Ele ficou em silêncio a vê-la afastar-se, contemplando embevecido o seu andar, congeminando razões e ocupações que a levavam a despedir-se assim, certo que a coisa correra bem.
Jantaram, conversaram e decidiram ir beber um copo.
No passeio à porta do restaurante, enquanto decidiam onde e como ir, António pôs um ar sério e perguntou, coçando a barba de três dias que lhe emoldurava a face:
– Posso dizer-te uma coisa?
António fez a pergunta olhando em frente e manteve-se assim. Alice fixou-se no perfil dele; estranhou-lhe o tom e o olhar perdido mas abanou afirmativamente a cabeça em resposta, ainda que sem grande convicção, pois, para mais, tinha a certeza que ele não a estava a ver.
– Podes – acabou por verbalizar Alice, continuando a estudar-lhe o recém-adquirido e inesperado perfil seráfico. A mulher aguardou ainda mais um momento para que ele dissesse o que queria dizer ou para que, pelo menos, se virasse para ela mas como nada aconteceu disse, ainda com um sorriso na voz: – Podes, desde que seja qualquer coisa boa.
Alice viu-lhe as pálpebras semicerrarem por um instante, como se ele estivesse a analisar a conformação entre o que lhe queria dizer e o pedido dela, e, sem saber porquê, não gostou.
– Não sei – confessou António, virando-se para ela. Os olhares cruzaram-se e Alice não conseguiu evitar franzir o sobrolho. António explicou: – Há coisas que nós não sabemos se as outras pessoas gostam de ouvir, apesar de nós termos de as dizer.
– Se tens de dizer deixa de ser importante a minha vontade, não é? – disse Alice, desconfortável.
António voltou a olhar em frente. Alice procurou ver o que ele estava a ver.
– Sim – anuiu António. – Se eu acho que tenho mesmo de o dizer nem te devia perguntar nada. Dizia-o e pronto.
– Diz.
– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – perguntou António, em tom declamatório.
– O quê?
– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – repetiu António.
– Tu é que sabes. – Respondeu Alice, surpreendida, sem saber do que estavam a falar. – Andas atrás de mim?
– Ando – reconheceu António, ainda olhando em frente. – Ás vezes procuro-te nos sítios por onde andas, ainda que normalmente não te veja.
– Isso não é normal. – Não havia censura na voz dela mas também não havia espanto, o que a espantou.
– Pois não. Mas passo lá, dou voltas que não precisava, invento caminhos para cruzar as ruas em que te podia encontrar…
– Mas procuras-me ou passas?
– Passo à tua procura.
Ele olhou para ela, os olhares cruzaram-se e ambos os mantiveram.
– Mas não paras? Não ficas à minha espera? Não me procuras ver?
– Não, não e nim. – António acompanhou a resposta com um sorriso, que se esbateu por si quando concluiu: – Procuro ver-te mas na verdade não te procuro para te ver.
– Isso é tudo muito estranho. Não é normal, pois não? Tens consciência disso?
– Tenho.
– Mas às vezes encontramo-nos.
– Sim.
– Ah… Mas não é por acaso…
– Não, não é por acaso, é porque eu procuro cruzar-me contigo…
– Ah…
– E procuro-te no facebook e em blogues.
– Porquê?
António cerrou os lábios e arqueou as sobrancelhas.
– Isso é que é o pior.
– O quê?
– A resposta ao porquê – disse ele. Ela ficou a olhar para ele, interpelando-o com uma expressão quase cómica de triste perplexidade e desencanto. Ele continuou sério e solene como se o que dissesse fizesse sentido: – Porque eu não sei bem… – hesitou. – Porque eu não sei porquê – corrigiu. – Não sei mesmo, nem bem nem mal – concluiu.
– Tu és um mar de dúvidas e incertezas, não és? – perguntou ela, omitindo o “continuas” que pensou que a frase devia ter.
– Nem sempre. – António encolheu os ombros com um sorriso agarotado e disse: – Hoje dei o passo em frente.
Ela abanou a cabeça, pensou por um momento e lançou-lhe:
– Vamos ser francos e directos um com o outro?
Ele concordou de pronto:
– Sim.
– E definitivos?
Ele cerrou os lábios numa expressão convicta e empenhada e anuiu com a cabeça:
– E definitivos.
Ela deu-lhe um beijo na face, agradeceu o jantar, disse-lhe adeus e foi-se embora.
Ele ficou em silêncio a vê-la afastar-se, contemplando embevecido o seu andar, congeminando razões e ocupações que a levavam a despedir-se assim, certo que a coisa correra bem.
24 agosto 2011
De pau feito
É fácil de adivinhar a razão do enorme sucesso do Pinóquio entre as raparigas de várias gerações.
Inventei...
Inventei
o teu beijo no meu ombro,
sim, eu ainda procuro
memórias que não inventei
da tua mão no meu cabelo.
No teu colo sosseguei
e inventei,
e da minha casa fiz castelo,
sim, inventei uma verdade
para enganar esta saudade,
um corpo molhado de pesadelo
que no teu rosto acalmei.
Inventei-te
num sussurro de peito aberto,
num suspiro intenso, nu, descoberto,
e canoas nos meus olhos
inventaram mar nos teus dedos,
mas não veio a onda e chorei.
Inventei-te,
e tanto que te esperei,
meu amor, que já nem sei
se apenas te inventei.
o teu beijo no meu ombro,
sim, eu ainda procuro
memórias que não inventei
da tua mão no meu cabelo.
No teu colo sosseguei
e inventei,
e da minha casa fiz castelo,
sim, inventei uma verdade
para enganar esta saudade,
um corpo molhado de pesadelo
que no teu rosto acalmei.
Inventei-te
num sussurro de peito aberto,
num suspiro intenso, nu, descoberto,
e canoas nos meus olhos
inventaram mar nos teus dedos,
mas não veio a onda e chorei.
Inventei-te,
e tanto que te esperei,
meu amor, que já nem sei
se apenas te inventei.
23 agosto 2011
Axiomas avulsos
Uma das razões que leva os homens a comprar sexo é que eles preferem sexo sem romance, coisa que as mulheres, de um modo geral, não estão dispostas a proporcionar-lhes gratuitamente.
Uma das razões que leva as mulheres a comprar sexo é que elas preferem sexo com romance, coisa que os homens, de um modo geral, não estão dispostos a proporcionar-lhes gratuitamente.
Em tempos de crise, se calhar valia a pena pensar nisto… é que se a malta arranjasse maneira de se entender, era mesmo uma grande poupança…
[blog Libélula Purpurina]
Gargalhada
Confunde-se a gargalhada
com a inevitabilidade
premente
de te reforçar
as palavras:
esforço sem sucesso,
tomada a voz
pelo calor exausto
do sexo do dia antes
de hoje.
Adormeço por fim,
tomando a tua boca
em 12 graus e meio
de saudades!
Poesia de Paula Raposo
Colecção «Afrodisíaco» da Revigrés
A Revigrés criou esta série de decorações sobre grés porcelânico... e são peças deliciosas da minha colecção.
22 agosto 2011
21 agosto 2011
Tradução de Banho-Maria
Outra vez que não vieste,
e eu dizia-te adeus,
mas tu não te despedias
meu amor, um beijo, adeus,
mas tu não me ouvias
Se afinal nunca chegaste,
diz-me, meu amor, porque não partias?
e eu dizia-te adeus,
mas tu não te despedias
meu amor, um beijo, adeus,
mas tu não me ouvias
Se afinal nunca chegaste,
diz-me, meu amor, porque não partias?
20 agosto 2011
O rio
Não é muito fácil querer
ultrapassar o tempo
se o tempo é o que julgamos.
Mas, mesmo assim:
porque o tempo não tem tempo, eu
ainda te beijo junto à foz do rio.
Quando o rio é grande
e tu te perdes
nos seus braços.
Poesia de Paula Raposo
19 agosto 2011
Banho-Maria (II)
Se ainda tenho o meu amor
é no eco das palavras
sussurradas,
ampliei-as no meu peito.
Se ainda tenho o meu amor
é no ninho das madrugadas
passadas,
enganei-as no meu leito.
Se ainda tenho o meu amor
é no segredo das carícias
abandonadas
recolho-as quando me deito.
Ao menos, meu amor
esse beijo será eterno;
esse, subi-o ao céu
e não o desço ao inferno.
O resto que se perdeu,
como o calor no Inverno,
era um milagre tão terno
que nos esqueceu.
E foi por isso que chorei
e, mesmo assim, foi muito pouco
talvez o grito fosse demasiado rouco
ou talvez a lágrima sulcada de espanto
tudo se perdeu no pranto,
e eu não te alcancei.
Se ainda tenho o meu amor
é nas ilusões perfeitas,
vendadas,
entrancei-as no meu cabelo.
Se ainda tenho o meu amor
é nas pernas despidas,
enroladas
na doçura aguda, cruel, do teu novelo.
é no eco das palavras
sussurradas,
ampliei-as no meu peito.
Se ainda tenho o meu amor
é no ninho das madrugadas
passadas,
enganei-as no meu leito.
Se ainda tenho o meu amor
é no segredo das carícias
abandonadas
recolho-as quando me deito.
Ao menos, meu amor
esse beijo será eterno;
esse, subi-o ao céu
e não o desço ao inferno.
O resto que se perdeu,
como o calor no Inverno,
era um milagre tão terno
que nos esqueceu.
E foi por isso que chorei
e, mesmo assim, foi muito pouco
talvez o grito fosse demasiado rouco
ou talvez a lágrima sulcada de espanto
tudo se perdeu no pranto,
e eu não te alcancei.
Se ainda tenho o meu amor
é nas ilusões perfeitas,
vendadas,
entrancei-as no meu cabelo.
Se ainda tenho o meu amor
é nas pernas despidas,
enroladas
na doçura aguda, cruel, do teu novelo.
Uma arma em riste exige prevenção.
Em tempo de Verão deve ter-se sempre a arma em condições. Para isso aqui ficam alguns cuidados a ter para que se esteja pronto a disparar.
"O soldado guardar-se há de tomar banho depois de ter comido; não usará de mulher, pelo menos nas primeiras três horas
(...)
As mulheres matriculadas oferecem mais segurança do que aquelas que o não são Pág. 36 e 37)"
"O soldado guardar-se há de tomar banho depois de ter comido; não usará de mulher, pelo menos nas primeiras três horas
(...)
As mulheres matriculadas oferecem mais segurança do que aquelas que o não são Pág. 36 e 37)"
Cartilha de higiene (1912)
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18 agosto 2011
Coabitação e um gato
Deitada na cama, Ana terminou o primeiro parágrafo da página 214 do livro que estava a ler e marcou-o com o indicador direito. Conferiu as horas no seu relógio de pulso, vinte e cinco para as dez, e decidiu que eram horas de parar de ler. Tacteou a cama com a mão esquerda à procura do marcador, que estava parcialmente debaixo da sua nádega esquerda, virou-se um pouco para o lado contrário e tirou-o. Abriu e fechou o livro, depois de deixar o marcador entre as páginas onde antes estivera o indicador, e pousou-o na cama, com a intenção de voltar a ler quando se deitasse – estava a gostar. Afagou o gato deitado ao seu lado, que arqueou as costas para melhor sentir a mão da dona, e levantou-se. Olhou para o computador portátil, ligado mas em modo de suspensão, que estava numa mesinha preta ao lado da cama, confirmou as horas no relógio da mesa-de-cabeceira, 21:34 e tornou a olhar para o computador, hesitando entre conferir os e-mails e o facebook ou ir comer imediatamente. Na dúvida, rodou a cabeça e olhou para o gato como se lhe pedisse ajuda para tomar uma decisão. O animal percebendo o olhar da dona, saltou prontamente da cama para o chão e dirigiu-se à porta encostada, transmitindo claramente os seus desejos. Ana sorriu, achava que mais do que desejos o gato transmitia ordens. Olhou para o computador como se se justificasse à máquina, apagou a luz do candeeiro e seguiu o animal. “Tens razão, já são mais do que horas de comermos”, transmitiu-lhe telepaticamente quando abriu a porta do quarto e o deixou passar.
O gato correu para a sala e ela olhou para aí de esguelha, sem ver mais do que a televisão acesa na Fox. “Como é que ele vivia antes de haver tantos canais? De haver séries e filmes a toda a hora?”, pensou Ana referindo-se ao marido, de quem se esqueceu imediatamente quando o gato a ultrapassou vindo da sala mas já sem correr. A mulher achou graça aos passos decididos e à cauda empertigada do animal, como se ele fizesse questão que ela o visse e a obrigasse a segui-lo, e ficou a pensar no descaramento aristocrático do animal e na sua sorte por ter comer já feito e até quem o servisse, ao contrário dela que não fazia ideia do que ia preparar e comer ou pior, deu um risinho que não passou de um suspiro, sem saber sequer se tinha alguma coisa em condições para preparar.
Inventariando mentalmente o conteúdo do seu lado do frigorífico, sem deixar de seguir a cauda do gato, Ana foi apanhada de surpresa quando viu os pés do marido junto ao fogão quando o animal se enroscou neles. Parou na ombreira da porta, puxando instintivamente para trás o pé direito que já estava dentro da cozinha.
Inventariando mentalmente o conteúdo do seu lado do frigorífico, sem deixar de seguir a cauda do gato, Ana foi apanhada de surpresa quando viu os pés do marido junto ao fogão quando o animal se enroscou neles. Parou na ombreira da porta, puxando instintivamente para trás o pé direito que já estava dentro da cozinha.
– Ah… Estás aí? – soltou Ana sem querer, incomodada pela presença do marido e pela ligeireza interesseira do gato; afinal estivera a ler para lá da hora de jantar para não se cruzarem e tinha vindo naquele momento principalmente por causa do gato.
O marido não lhe respondeu, não a ouviu ou fez que não a ouviu. Ela hesitou, voltou-se para trás mas olhou para o relógio e rodou sobre os calcanhares voltando-se de novo para o interior da cozinha, ainda sem entrar. Suspirou e esboçou um sorriso enfastiado na direcção do marido, que se voltara para ela sem expressão.
Alexandre, o marido, sem largar o cabo da frigideira, onde fritava dois ovos mexidos com um tomate e uma pequena cebola cortados em quartos, um dente de alho esmagado e folhas de orégãos frescos e pimenta preta, que agarrava com a mão esquerda, nem a espátula de madeira com que mexia o cozinhado, alternou, por segundos, o olhar entre os ovos e a mulher que parecia ter de vencer um campo de forças que ele emanava para entrar na mesma divisão da casa.
– Ainda não jantaste? – questionou Ana, sem se mexer nem disfarçar a censura que lhe moldava o tom, servindo-se de uma pergunta de resposta óbvia para esconder o aborrecimento de ver o gato enrolar-se nas pernas dele pedindo-lhe descaradamente mimo e comida, não necessariamente por essa ordem, e o facto de não ter voltado para trás enquanto tinha podido fazê-lo em silêncio.
Ana e Alexandre, casados, sem filhos mas com um gato, um sacaninha que parece ter verdadeiro e consciente prazer em provocá-los sempre que os apanha juntos, vivem num apartamento pequeno, com dois quartos, uma sala, uma cozinha, uma dispensa e uma casa de banho, que agora parece ter encolhido e em que eles parecem esbarrar continuamente um com o outro, apesar de não se quererem ver, como se a casa se voltasse contra eles e os quisesse levar ao confronto e ao fim do último dever conjugal que ainda cumprem: a coabitação.
Alexandre tornou a olhar para a mulher, baixando ostensivamente o olhar para os pés dela que não se moviam. Não conseguiu evitar um sorriso mas, quando se apercebeu que não o conseguiria esconder, virou-se para o fogão, evitando que Ana o visse. Então, apagou o lume, retirou a frigideira para um bico frio, baixou-se para afagar o gato ganhando tempo e perguntou com ar de quem não ouviu bem a pergunta da mulher:
– Se eu já jantei?
O casal olhou-se com ar sério, ela em pé junto à ombreira da porta, ele agachado ainda a fazer festas ao gato. Ana manteve a pergunta deixando descair a cabeça e proferindo um sim sumido. O marido olhava-a calado como se esperasse qualquer coisa. O gato parecia rir-se para ela, ainda que ela estivesse certa e segura que o gato não se ria para si mas de si, o pérfido.
– Sim, ainda não jantaste? – reforçou Ana, comprimindo o silêncio que a enervava.
– Já – mentiu Alexandre, passando uma última vez a mão pela cabeça do gato, antes de se levantar e se virar para o fogão, agarrar a pega da frigideira e completar a mentira em tom neutro: – Estava a fazer estes ovos para ti.
Ana, que recomeçara a andar lentamente, procurando, sem conseguir, desviar os olhos do gato, falhou um passo, o que ele percebeu pelo som dos chinelos no chão da cozinha. Alexandre sorriu e, satisfeito, imaginou-lhe a expressão surpreendida.
– Ainda não jantaste, pois não? – perguntou o homem, prolongando a farsa.
Ela aproximou-se do fogão e ficou ao lado dele, observando os ovos mexidos. Há muito tempo que não estavam tão próximos um do outro. O gato roçou-se na perna direita de Ana e na perna esquerda de Alexandre.
– Tem bom aspecto – reconheceu Ana, a quem a súbita visão da comida cozinhada, pronta a ser servida e a comer agravou a sensação de fome e vazio no estômago.
Entediado, faminto e desesperado, o gato esticou a cauda na horizontal e entrelaçou-se caprichosamente entre as pernas de ambos, levando-os a sorrir um para o outro, agoniando-o de tal maneira que, se pudesse, o gato lhes retraçava as pernas todas até chegar aos ossos e fazer um mar de sangue no chão da cozinha.
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