25 julho 2017

Gaiteiros de Lisboa - «Roncos do Diabo»

Esta letra está um espectáculo. Mereceu o tempo que gastei a transcrevê-la, já que não a encontro disponível por aí. Se houver alguma gralha ou imprecisão, agradeço correcções e, em especial, que me digam o que eles cantam em latim.

Roncos do Diabo

Com três paus faz-se um bordão
Com mais um faz-se um ponteiro
Por anónima a função
Encarnado num gaiteirooooo

O Diabo já é velho
Mas é grande folião
Na festa mete o bedelho
P'ra animar a bailação

P'ra aquecer o bailarico
Abre a torneira ao tonel
O cura dá-lhe um fanico
Lá se vai o hidromel

Essa bebida dos anjos
Que agrada tanto ao demónio
Já tentou S. Cipriano
S. João e Santo Antóniooooo

Santo António milagreiro
Fez um pacto com o demónio
O Diabo era gaiteiro
E o santo tocava harmónio

S. João tocava caixa
Com dois paus de marmeleiro
Mas o delírio das moças
Era a gaita do gaiteiro

Inchava como um leitão
Quando se lhe puxa o rabo
Pela copa do bordão
Jorravam roncos do Diabooooo

Era a gaita do demónio
Que soava endiabrada
Afinava com o harmónio
Mas não estava homologada

Estava fora das medidas
Saía da convenção
Tinha veias no ponteiro
E dois papos no bordão

Criação de Belzebu
Diabólica magia
Nas voltas da contradança
Quem dançava enlouqueciaaaaa

E nas voltas da loucura
As almas em desatino
Saltavam de corpo em corpo
Errando de seu destino

O gaiteiro arreunia
Como se junta um rebanho
Fê-las descer ao inferno
No fogo tomaram banho

E já os corpos em brasa
Iam fazendo das suas
As vestes esfarrapadas
Mostravam as carnes nuaaaaas

Inocenciam absolutio... [e mais umas quantas coisas em latim macarrónico]

Com três paus faz-se um bordão
Com mais um faz-se um ponteiro
Por anónima a função
Encarnado num gaiteirooooo

As fêmeas eram lascivas
Ondulantes de paixão
Corroídas p'lo desejo
Contorciam-se no chão

No terreiro da função
Os corpos se confundiam
Seguidores de Belzebu
Das almas santas se serviam

Foram pela noite fora
Perdidos no bacanal
Ao som desta banda louca
Até ao Juízo Finaaaaal

Inocenciam absolutio...

«Arribas» - Susana Duarte

(...)


fosses próximo da lava, e seriam de fogo, as tuas palavras. mas elas são do vento que ondula os oceanos, e flui, invisível, como invisíveis são as memórias, e, do vento, são as palavras. as tuas.


no vento das palavras, morrem arribas: encostas do ventre. fósseis, e nuas.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto
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(excerto do poema "Arribas", do livro "Pangeia", de Susana Duarte, a publicar (?!) pela Alphabetum Editora)

Isso, disfarça...


Finge-te amante enquanto recebes, distante, os beijos dados com promessas de paixão que retribuis por obrigação sem esconderes a repugnância.

Sharkinho
@sharkinho no Twitter

«Aux iris» (aos lírios) - Ito Ittosan

Desenho original em lápis de cor Caran D´Ache, pastéis aquareláveis (não aquarelados) e tinta sobre papel colorido Éléphant, assinado no verso pelo autor. O título joga com o nome da deusa Osíris.
Belíssima arte erótica... na minha colecção.








Comentário do A. Pimpão e a minha resposta:

A. Pimpão - É bíblico: "Olhai os lírios do campo que não fiam nem tecem e nem Salomão com todo o seu esplendor se despiu como um deles"

São Rosas (oui, c'est moi) - Lá tive que ir estudar. Isso é do Sermão da Montanha, relatado nos evangelhos de Mateus (Mateus 6:28-30) e Lucas.
Mas o Cântico dos Cânticos (uma das minhas leituras preferidas e que, obviamente, faz parte da minha colecção) tem várias passagens em que se invocam os lírios. Por exemplo:

Ela:
Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.
Ele:
Sim, como o lírio entre espinhos
é, entre as jovens, a minha amada.
(...)
Ela:
O meu amado é todo meu, e eu sou dele.
Ele é um pastor entre lírios.
(...)
Ele:
Teus seios são como duas crias,
gémeos de gazela, pastando entre lírios.
(...)
Ela:
Seus lábios são como lírios,
a destilar um fluido de mirra.
(...)
Ela:
O meu amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros de bálsamos,
para apascentar nos vergéis e colher lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é todo meu.
Ele é um pastor entre lírios.
(...)
Ele:
Teu ventre é um monte de trigo, cercado de lírios.


A colecção de arte erótica «a funda São» tem:
> 1.900 livros das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias;
> 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.);
> muitas ideias para actividades complementares, loja e merchandising...

... procura parceiro [M/F]

Quem quiser investir neste projecto, pode contactar-me.

Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)

24 julho 2017

Veneziana ou Espanholada?


«Sobre os meus primeiros 3 meses!» - Cláudia de Marchi

Eu não poderia deixar de, na data de hoje, escrever sobre o que aprendi nestes dias.
E é por conta do conteúdo que este texto segue remetido ao link “Social” bem como ao de “Tutoriais e Crônicas”. Creio que exista, nas minhas experiências, algo de socialmente “útil”.
Enfim, faz 3 meses que passei a integrar uma classe minoritária e vitima de constante preconceito. Vitima da sociedade hipócrita, obviamente, onde se vender para casar com marido rico é interessante, mas ser dona do seu nariz, do seu corpo, do seu gozo, do seu sexo e de seu dinheiro assumindo para o mundo que eu gosto demais de sexo e que unir o agradável ao útil foi uma opção madura.
Uma opção bem pensada e, portanto, sensata. Eu penso assim, a pessoa que mais me ama no mundo e a única que me importa (minha mãe), concorda, portanto eu afirmo: conhecendo-me bem, sabendo do meu fogo e do quanto eu gosto de homem e de contato imediato (as pessoas desconhecidas sempre são muitíssimo interessantes!) está foi, sim, a minha melhor e mais corajosa decisão.
Posso escrever, estudar, ler, interagir quando quero e com quem desejo e, ainda, ganho para ter e dar prazer! Não vejo, realmente, nada de criticável ou feio nisso. Feio mesmo é o preconceito, é a atitude dos paladinos da moral e dos bons costumes conservadores que atiram pedra no telhado alheio. Miseráveis! Esta palavra lhes define.
Aprendi nestes meses que a postura que escolhi desde o primeiro dia foi a melhor que eu poderia ter. Atraio clientes agradáveis, preocupados com o meu prazer, educados, cheirosos e gentis. Obviamente, não sou procurada apenas por estes. Existem os tolos que são incapazes de achar uma foto num site, os coitados pechincheiros, os ricos sem cultura que não sabem conjugar direito verbo com sujeito, os “manés” cheios de lábia que acham que vão agradar, existem os ignorantes, mas estes todos apenas me abordam e são, na “sequencia”, rechaçados e bloqueados, ou seja, não são e jamais serão atendidos por mim.
Não atendo cliente que liga após a meia noite e antes das 07h30min da manhã. Sou acompanhante e não medico plantonista. Exijo respeito e só dialogo com quem age com respeito e educação para comigo.
Pelo fato de eu não atender ligações de quem não conheço após a meia noite (posso atender tal horário apenas e tão somente se o cliente tiver marcado anteriormente comigo e tiver uma boa razão para poder me ver apenas em tal horário) nunca tive nenhuma experiência com homens alcoolizados ou drogados. Menos ainda, violentos!
Ademais, atendo à noite apenas em hotéis, o que me dá segurança. Não vou a motéis com clientes estranhos à noite, apenas me sujeito a ir se o cliente já é meu conhecido e “fiel”.
Não vou a clubes de swing, não procuro clientes em bares ou em boates. Economizo-me ao máximo da exposição desnecessária e, nem sempre, lucrativa. Exposição está que, não raras vezes, impõe riscos: homens bêbados, alterados, mal intencionados, etc..
É triste dizer o que lhes direi, mas é verdade: a gente ganha o respeito que se dá. Ninguém precisaria impor aos outros o que é seu por direito, mas na sociedade machista e, sobretudo, no “universo” de preconceito e até de depravações que circunda o sexo enquanto profissão, nada mais franco do que admitir: a gente ainda precisa lutar, aberta ou silenciosamente, para obter o que é um direito inerente a todo ser humano pelo simples fato de existir, a respeitabilidade, o trato educado e gentil.
Eu vou além, exijo o fino trato. E, assim, posso lhes dizer que, conclui em três meses, que eu nasci para ser acompanhante. Eu nasci para fazer sexo e receber por isso. Eu nasci para gozar e fazer gozar sem me preocupar com amor, ligação no dia seguinte, futuro, comodismo, cotidiano e etc..
Na medida em que os relacionamentos evoluem o sexo amorna, a amizade domina e o empenho para dar prazer ao outro diminui. É a rotina, é o cansaço, é o sentir-se amado e achar que isso é tudo, que é o suprassumo do relacionamento. Eu não preciso me sentir amada, eu me amo e me basto, eu preciso mesmo é me sentir cuidada. Eu gosto mesmo é de ver o outro tentando me dar prazer. Eu gosto mesmo é de ver a excitação do homem ao meu olhar, ao enxergar eu abocanhando seu pênis e corpo com vontade e desejo. Eu gosto mesmo é de sentir-me desejada na cama! Claro, adoro ser intelectualmente admirada, mas, para isso, não preciso de “trabalho” algum. Cultura e inteligência eu tenho, simples, é um fato!
Enquanto inúmeras mulheres românticas transam esperando romance, eu faço sexo por prazer e recebo ao término. E isso não impede que surja uma relação de amizade, bom dialogo e até admiração mutua. Enquanto inúmeras moças fazem sexo por prazer com quem desejam sem esperar afeto ou futuro, eu faço o mesmo, mas ganho por isso! Ou seja, não faço nada de anormal, apenas agreguei um “plus” ao que sempre gostei!
A minha profissão não colide com minha postura feminista. A minha profissão se coaduna com ela, porque eu sou livre. Livre para ter decidido por este caminho, livre para usar o meu dinheiro com quem amo e com aquilo que amo, livre para me amar, livre para pensar como penso sem ter que dar satisfação a ninguém.
Livre de alma, pois não preciso seguir a cartilha da sociedade conservadora e hipócrita para ser feliz! Não preciso parir, porque sou livre para fazer o que desejo com meu ventre. E eu decidi que ele não irá gerar vida alguma, jamais. Livre para não precisar de um marido pra me sentir completa.
Livre para não precisar de um namorado no dia dos namorados. Livre para sambar na cara da sociedade e dizer: eu não tenho nada a esconder de ninguém, eu não digo que “amo”, eu não sou infiel, eu não iludo, e você? Eu não faço ao outro o que ele não deseja para si, e você?

Simone Steffani - acompanhante de alto luxo!

Ainda hoje devem estar a cavar!

Crica para veres toda a história
Educação sexual para piratas


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23 julho 2017

«Desafio Efeito Dominó» - Puro êxtase

Com Sara Rosa

«um coala e uma árvore» - bagaço amarelo

Éramos miúdos, umas vezes mais do que outras. Ela tinha uma saia verde que roubara à irmã mais velha e lhe ficava mal, mas que eu gostava. Eu quase que tinha um bigode onde o que tinha realmente eram borbulhas e espinhas. Se as pernas dela pareciam palitos naquela saia tão grande, a minha cara parecia a superfície da lua, de tanta cratera aberta. E foi assim que nos apaixonámos, num Domingo em que chovia a cântaros e por uma vez nos molhámos juntos.
Com excepção das andorinhas, que faziam os ninhos nos beirais dos telhados e por isso estavam protegidas, eu não sabia para onde iam os pássaros quando chovia na Primavera. Perguntei-lhe se sabia e ela olhou para as árvores do parque à procura da resposta. Não vejo nenhum, respondeu. Eu, na verdade, também não via. Depois trovejou e ela agarrou-me o braço com força. Foi a primeira vez que fui cavaleiro andante. E a última também, creio.
Estava à espera que nunca mais parasse de chover nem de trovejar, que nunca mais saíssemos dali, com ela a agarrar-me o braço e eu à procura de pássaros na copa da maior árvore que a minha vista alcançava. Mas saímos. Ela largou-me o braço e correu para debaixo da paragem de autocarro. Eu corri atrás. Foi a primeira vez que tive ciúmes duma paragem de autocarro. E a última também, creio.
Estávamos encharcados. A saia dela pontilhada pela lama e a minha cara por um Amor serôdio. Devia ter aprendido nesse dia que não se corre atrás de uma mulher que nos larga o braço e se afasta sem dizer nada, mas não aprendi. Talvez por ela ter dito que estava frio e se ter tornado a agarrar ao meu corpo, como se fosse um coala numa árvore.
A chuva finalmente parou, não sei bem quanto tempo depois. Talvez duas horas, talvez dois beijos. Sei lá. Às vezes tenho a sensação que ainda lá estamos, ela feita marsupial e eu feito uma árvore erecta na Austrália.
Foi isso que nos sobrou da vida.
Somos adultos, umas vezes menos do que outras. Ela tem uma saia preta que diz que é de Inverno e eu tenho a barba por fazer. Para além disso temos trinta anos desde esse dia e muitas histórias que gostávamos de conseguir contar um ao outro, mas não conseguimos. É incrível como as pessoas crescem e envelhecem, mas não perdem o olhar da juventude. É preto, o olhar dela. Tão preto que me anoitece. É ele que me sorri. Não os lábios.
Rasga o pacote de açúcar vermelho num dos cantos e põe apenas metade num galão fumegante. Parece neve a ser engolida por um vulcão. Tudo o que ela faz provoca alterações no mundo. Ora anoitece, ora neva num vulcão. Dou o primeiro gole na minha cerveja e pergunto-lhe se se lembra da molha que apanhámos no parque. Os lábios também lhe sorriem agora. Que bom.
Se ela tornasse a ser coala, eu tornava a ser árvore.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Calendário da fruta


Mas olha que as farras podem ter muitas vulvas...


“Muita farra, pouca vulva”. Pelo menos foi assim que aprendi.

Patife
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