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11 fevereiro 2024

Carnaval à portuguesa - Jorge Castro

E vivó Carnaval! 
Cá fica uma brincadeira carnavalesca, em forma de poema, que fiz, já há uns anitos, mas que me parece não ter perdido muita actualidade: 

Carnaval à portuguesa 

Lucinda veio a terreiro 
trouxe um corpete ligeiro - saia curta - perna ao léu 
no treme-treme da dança 
treme o seio - treme a esperança 
treme quanto Deus lhe deu 
e no mar de lantejoulas entrevê o seu Honório 
exibindo as ceroulas do avô que já morreu
 - que em acabando a folia hão-de tratar do casório 
 tal qual ele lhe prometeu – 

e a turba já se atordoa c’o trio eléctrico à toa 
num espavento de som 
que vindo lá dos brasis espanta os nossos civis 
que aquilo sim é que é bom 

Lucinda agita este corso
 seio à mostra mostra o dorso - dá à pernoca com alma 
haja calma – haja calma 
grita o agente aflito agarrando um expedito 
que corria no asfalto p‘ra tomar Lucinda a salto 
 que pernoca assim mostrada perturba a rapaziada 
no desvendar do mistério 
deixem lá que é Carnaval ninguém leva nada a mal 
nem nada é caso sério 

Lucinda toda ela vibra mostrando bem de que fibra
é o corpetinho de lã 
e no cume do collant onde a saia acaba a racha
por lá se perde e se acha a rendinha da cueca 
que desponta em cada passo queimando qual alforreca 
um olhar sem embaraço 

pretinha assim rendilhada no contraforte da meia 
meia-volta volta e meia deixa a malta entusiasmada 
quais brasis nem qual Veneza 
assim sim à portuguesa 
uma coxa bem mostrada 

e as plumas do pavão em frente ao seu coração 
vibram mais porque afinal 
 em tempos de Carnaval no tempo amargo de crise 
o que o corpete desvenda é dádiva – não está à venda 
dá de si o que ela entenda 
enche um olhar que precise. 

18 setembro 2023

«Entardecimentos» - António F. de Pina

Nada há de mais jubiloso que o desabrochar do amanhecer
Por detrás da cortina enternecida e pendente da neblina.

Nada há de mais sublime que uma tarde esvoaçante de amor
Rejuvenescido e cristalizado no silêncio enigmático do olhar.

Já o entardecer amadurece na superfície morna da pele
E nas simetrias suculentas e rubras de cada beijo partilhado.

Ao anoitecer já os dedos cansados perdem a luminosidade
Na carícia estagnada e leve na planície do teu rosto.

Há sombras subtis do meu olhar caramelizadas e frias
Sobre as águas que brotam do brilho dos teus olhos.

Depois só o orvalho da palavra emerge do sentir
E mil sóis mil sons mil flores nos envolvem e nos exaltam.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados

11 setembro 2023

«Suspende» - António F. de Pina

Suspende o teu voo e deixa-te ficar
No ar ascendente planando a meu lado
Num abraço denso
Num olhar intenso.
Suspende a viagem e deixa-te ficar
À tona de água nadando a meu lado
Num arrepio de pele
Que a boca debele.
Suspende o levante e deixa-te ficar
No leito macio arfando a meu lado
Num tangível sonho
Marcante e risonho.
Suspende a fadiga e deixa-te ficar
No silêncio aberto sonhando a meu lado
A limar lentamente
As arestas da mente.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



04 setembro 2023

«Sentir-te» - António F. de Pina

Olho-te como nuvem clara
Neste imensurável e sombrio sentir
Onde o tom se tinge de carmim
E se desdobra em mil ecos transparentes
Mas palpáveis mesmo sendo tão distantes.

Abraço-te como raiz sedenta
Que mostra a flor da dor de quem se ama
Que cinge e cala a voz que se assume
Como um suspiro em vez de súplica
Em vez de farpa em vez de garra.

Beijo-te como pétala ao vento
Rubra e evidente em pleno Maio
Que assoma e sente o toque macio
Numa efervescência subtil e submersa
 Na bruma que desliza dos teus olhos.

Amo-te como águia alvoroçada
No planalto mais soalheiro deste sonho
Com o querer enraizado em assombros
Os olhos estacados nos escombros
Humedecidos com a lágrima de um sorriso.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



28 agosto 2023

«Liberta-te» - António F. de Pina

Vieste de longe com olhos incandescentes
Plenos de sol de sal e de incertezas.
Tinhas os sonhos e os remos quebrados.

Entre a serra e o mar apenas o aço forjado
Modelava com afinco o teu destino
Num rubro crepitar de forja acesa.

Agora tens o pôr-do-sol no teu semblante
Que eu contemplo embevecido e inebriado
Da janela itinerante dos sentidos.

Estás nívea assim despida da bruma ofuscante
Que te envolveu nesse obscuro percurso
E sentes-te luzente e leve e livre.

Mas trazes ainda acorrentado ou indeciso
O gesto imprescindível da carícia.
Liberta-te! Liberta-te em mim!

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



14 agosto 2023

«Rumorejam os sentidos» - António F. de Pina

Rumorejam os sentidos
Pela folhagem da pele
Como pássaros coloridos
Pousados no teu cabelo
Ou como pluma que passa
Pelas frestas da memória.
Meu amor é o momento
Das águas aquietadas
No brilho do teu olhar
Na planície da razão.
Não sei se é dia se é noite
Se é teu ou meu o arfar
Sei que sinto a tua pele
Pela minha a vaguear.
Rumorejam os sentidos
Neste mar neste esplendor
Nesta euforia de vida
De abraçar até à dor.
Meu amor é o momento
Do fluir das intenções
De navegar as marés
Numa canoa ou num beijo
Entre vagas e tufões
Sem remos e sem amarras
Ao infinito do tempo
Ao infinito do ser
Meu amor este é o momento
De te querer... querer... querer...

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



07 agosto 2023

«Quero-te» - António F. de Pina

Quero-te nas sílabas doces
Que alicercem palavras de luar
Nas prosas de silêncio e madrugada.

Quero-te nas asas da aventura
Que sustentem a leveza e a lisura
Nas planícies mais claras do pensamento.

Quero-te com o corpo afogueado
Quebrando as cruas geadas da ilusão
Na mais serena brandura e volúpia da paixão.
Quero-te tal como te imaginei
E conheci:
Plena e resplandecente.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



31 julho 2023

«Carícia» - António F. de Pina

Carícia
Planta suculenta plantada na aragem nua
Dos dedos simples que afloram da alvorada.
Despojo ardente nascido do fluir das mãos
Nos olhos mesclados de brilho e de ternura.

Carícia
Arfar crescente no aveludar urgente dos lábios
No silêncio inesperado que a razão ordena.
Ave planante que roça a languidez da voz que clama
Prece de quem chama pela chama atiçada de sentidos.

Carícia
Estilhaçar estridente no resplendor do olhar
Num som envolvente que se ata ao beijo.
Derme dormente na branda aragem do toque
Da emoção da plenitude e da paixão.

Carícia
Palavra gravada na ânsia urgente do querer
Lágrima inocente a deslizar lenta no rosto
Mergulhando na luminosidade natural
Que brota da fonte clara do amanhecer.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



24 julho 2023

«Lóbulo» - António F. de Pina

Gomo vivo de ternura
De um claro amanhecer orlado de neblina.

Curva generosa e suculenta
No horizonte crepuscular de uma tarde amena.

Vermelho arredondar do gesto
Arrepio no toque labial segredando a noite urgente.

Fonte luminosa e refulgente
Que subestima a sombra e a penumbra do encanto.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



17 julho 2023

«Amor» - António F. de Pina

Amor:
Achaque
Permanente
De euforia.
Maré alta
Choque
Espuma
Dueto som
Que aves renovam.
Toque de brisa
Beijo
Pássaro
Voo
Flor
Sorriso
Abraço
Madrugada
Crepúsculo
Lábios candentes
Fusão.

Fusão branda
De todos os sentidos
Reinventados.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



10 julho 2023

«Traços de nanquim» - António F. de Pina

Já não há pôr-do-sol crepuscular
Nem rubro olhar de cravos soerguidos
Nem verdes rosas esvoaçando no olhar
Neste lento entardecer dos meus sentidos.
Apenas noite e a força desprendida da coragem.

Já não há alvas cortinas no meu amanhecer
Nem refulgentes alvoradas de ternura
Só a cálida e dolosa esperança de te ver
Só um contorno esfumado de amargura
Um branco gear de mãos e mais nada.

Já não há cores que acariciem a existência
Nem cavaletes que o seu peso suportem
Estigma que nos assola a existência.
Só traços de nanquim que escurecem
Dolorosamente a alvura de viver.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



03 julho 2023

«Saber-te assim» - António F. de Pina

Saber-te assim desmesurada
Na planície ilimitada deste sonho
É sentir-me presente no horizonte claro dos teus olhos.

Saber-te assim tão destemida
Na escalada severa da falésia dos sentidos
É sentir-te em mim tão decidida e afogueada.

Saber-te assim tão dissolvida
Nas aragens que afluem da ausência
É sentir-te envolvente numa carícia aveludada e urgente.

Saber-te assim tão delicada
Num simples toque labial apelativo
É sentir-me com leveza de ave planadora e infinita.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



25 junho 2023

«Dantes» - António F. de Pina

Dantes
Todos os pássaros eram coloridos
Que pousavam em mim silenciosamente
E eu nunca reparava.

O amanhecer era acutilante e soltava sons
Pelos poros crepusculares e orvalhados
Que eu não entendia.

Tinhas no olhar um brilho intenso
Que as candeias acesas veneravam
Enquanto eu reacendia.

E tinhas os cabelos claros alisados
Que eu nunca ousei despenteá-los
Por desconhecer essa magia.

Dantes
Os búzios lançavam maresias
Nas tardes mornas e arenosas
E nas noites remoçadas e sombrias.

O horizonte nunca entardecia
Nos devaneios que eram o meu espaço
E eu respeitava-os por tanto.

Havia sempre azul para além da noite
Quando o teu abraço imperava
E eu orgulhosamente correspondia.

Dantes
Tudo reverdecia à nossa volta
Quando as horas previsíveis
Enlaçavam a nudez imprevisível.

Agora
Apenas consigo entender
O súbito entardecer no silêncio
Das horas nunca rejuvenescidas.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



18 junho 2023

«Ao nascer o dia» - António F. de Pina

O lusco-fusco matinal
Dissipou-se repentinamente.

Rarefeito e sonolento
Adejava luzidio ao longe
Um pequeno aceno no balanço
Que a brisa lhe imprimia ao passar.

Se era uma carícia ou um beijo
Não sei.

Mas sei que eras tu a sua autora
Pela inebriante claridade 
Difundida no teu sereno olhar.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



11 junho 2023

«Das zonas inóspitas» - António F. de Pina

Ama cada zona inóspita
Do que queiras
Como se fosse a mais bela
A mais pura
E sente-lhe no toque
O macio da entrega
E aromas que despertem
Os sentidos adormecidos
Depois
Sente o êxtase
Imperativo e mavioso
No limiar indefinido e fortuito
Do transcendente.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



04 junho 2023

«Dos espaços» - António F. de Pina

No feixe do teu olhar há um espaço que me ocultas
Mas que eu anseio
Porque é o único que faz refulgir o meu ocaso
E se tudo o que na vida fulge é consumado
Fica apenas o sal que o sol da água não retira
Tornando crespo o branco sentir onde me espraio
Aquém da sombra desse espaço que me ocultas
Mas que eu anseio.

(No meu olhar há um feixe que alvorece
Que se ergue neste tempo de baixeza
E desse alvor quando quando a neblina esmaece
Surge o fulgor esbraseado da incerteza.)

Esse é o espaço que me liberta outra visão
No sossego brando e fascinante do teu rosto
Mesmo na sombra mais lilácea e entardecida
E eu pasmo de espanto neste canto sem acordes
Enquanto o silêncio cerra lento as cortinas
Do espaço que eu anseio e que eu preciso
E que tu me ocultas com tenacidade rigorosa
Por detrás desse meigo e enigmático sorriso.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



28 maio 2023

«Mãos pendulares» - António F. de Pina

Foram as mãos esdrúxulas e graves
Que inventaram palavras agudas
As únicas que sobreviveram
Ao silêncio.
Tinham arestas vivas e gumes no silabar
Que nem a candura do teu olhar
Amaciou.
Na Na estrutura delas só pétreas e frias colunas
De textura rugosa e maciça
Permaneceram.
No pulsar dinâmico e febril dentro do peito
Apenas a morte navegava num périplo
Repetitivo e infinito.
As palavras tinham tronco e membros e alicerces
E raízes intravenosas de sofrimento e de amor
A deslizar entre os dedos.
Se eram mãos pendulares ou não
Não sei.
Mas sei que se ergueram num repentino desabrochar
De cravos rubros e cardos estelares
Numa luminosidade alva e nua
Como um grito um som um sentimento.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



21 maio 2023

«De mim falo» - António F. de Pina

De mim falo de mim falas de mim falam
De mim sentes o que eu sinto nas palavras
Das que entram pelos espaços das ameias
E pelas frestas das muralhas que tu espalhas
De mim espalho só olhares que não te ferem
Sobre as ondas cristalinas do teu ma
Nos balanços que lhe incutes com segredos
Na carícia que flutua na consistência do olhar
Por isso irrompem alvoradas pelos poros
Na luz difusa que os lábios febris contêm
No beijo crepuscular de pétalas ruborizadas
E abrem-se puros horizontes de neblina
Nos destroços destes tempos conturbados
Onde os pássaros sobrevoam divertidos
Deixando vivos filamentos nus e alados
E assim eu sinto que tu sentes este querer
Que enraíza nos meus sonhos já cansados
E que cresce destemido a florescer
Entre os cactos os granitos e os luares
E como se não bastasse essa ilusão
Quero erguer-me deste chão não por vencido
Mas para acordar e provocar a agitação
O alvoroço de águas quietas nos meus sonhos
Que na sua leveza tímida apenas enchem
A serena e suave concavidade das tuas mãos.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



07 maio 2023

«Intensidades» - António F. de Pina

A intensidade existe
Na palavra crespa que tormenta
O despertar dos meus sentidos.
Na plúmbea névoa que condensa
O querer estar aqui de pé
Tenaz mas nunca contrafeito.
A intensidade existe
Na miragem real deste planalto
E descompassadamente
Neste pulsar louco
De contentamento.
Existe no poder hipnótico dos teus passos
Na flagrante leveza do passar.
A intensidade existe
Na labareda irrequieta dos teus olhos
Na tua pele expectante e pálida
No teu gesto simples e aveludado
No arrepio do toque.
A intensidade existe
No sublime som que sai do peito
Em torvelinho intenso embora efémero.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados



30 abril 2023

«Alvuras» - António F. de Pina

Amei-te como quem trinca
Um pomo rubro e reluzente de vontade
Sentindo sempre o saciado insaciado.

Amei-te como quem tacteia
O crescente crepitar dos poros claros
A incendiar o macio da pele nua
Em cada gesto de dedos estelares.

Amei-te como quem ouve
O eco do grito linear desse desejo
O som efervescente de um beijo
E o som do brilho vertical do teu olhar
A deslizar
Pelas paredes desmaiadas do meu rosto.

Amei-te como se fosse
Um pavio esbraseado e solto
Na morfologia complacente do teu corpo
Entre cortinas de crepúsculo e luar.

Só não sei
De onde vieram todas as asas livres
Que nos fizeram emergir e planar.

«O silêncio e o gume da palavra», 2022
© todos os direitos reservados