18 setembro 2018

«afluentes da noite» - Susana Duarte

os afluentes da noite são ecos
soltos sobre mim. de ti, nada mais resta,
senão a imagem que guardei no corpo.
os rios que me navegavam eram, apenas,
ecos das águas, e o meu corpo
guardou-te, para te perder depois.

sobram ecos esquálidos das vozes
com que me preenchias. não ficaste e,
todavia, esperei por ti. lívida, cadáver vivo
que se desfaz em cada uma das tuas palavras,
eco adiado dos meus anseios. os afluentes
da noite são rios sem voz. perdeste os meus gritos. perdeste a foz.

nada te resta, senão olhar-me de longe.
sabes que habito outro plano, o do dia
e da luz com que prossigo, todavia,
sobre as flores submarinas. nada te resta, senão as lágrimas e o arrependimento. talvez possas ressurgir, noutras vestes,
noutros seixos. mas serás sempre a sombra,
a vida incompleta que se declina
nos lugares que já não procuro.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto
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De empreitada

A colega gira também precisava de ir tratar dos documentos relativos a um terreno no mesmo concelho, mas não tive coragem de perguntar-lhe "queres ir comigo para a Câmara?".
#ossosdooficio


Sharkinho
@sharkinho no Twitter

A engolidora de espadas

LP «Adentro» em vinil branco da cantora chilena La Entropica, com ilustrações da capa e das etiquetas do disco de Apollonia Saintclair.
Veio do Chile para a minha colecção, pela genial arte da capa e da etiqueta.











A colecção de arte erótica «a funda São» tem:
> 2.000 livros das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias;
> 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.);
> muitas ideias para actividades complementares, loja e merchandising...

... procura parceiro [M/F]

Quem quiser investir neste projecto, pode contactar-me.

Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)

17 setembro 2018

«Quarenta e dois Norte» - João

"Nunca havia passado a norte dos lados de Coimbra, dizia. Era um provável contorno involuntário da verdade, porque certamente já o tinha feito em trabalho, mas não era de trabalho que se falava então, era de emoção, e essa, repetia, a norte de Coimbra não existia. Como podia isso ser, pensava, se é a norte, no Norte, que está a alma (para quem a tem lá). Era preciso corrigir isso.

O ponto que separa Portugal da Galiza é necessariamente diferente daquele que o separa da Andaluzia, não só porque são dois rios diferentes, porque num se quebram os ossos ao entrar na água e no outro sempre se tolera melhor, ou porque as nuvens e a chuva são de outra espécie. São diferentes porque as pessoas são outras, porque o vento é outro, as cores e os montes são outros, como a areia que a praia tem. O Minho, esse Norte, é um Norte diferente, é cardeal, definidor, o Minho das águas geladas, da nortada agreste que salpica a pele com a areia, e do calor tórrido que se sente quando se deixa o mar e se entra nas serras, dos povos com sacholas em terra dura de seixos, as mulheres com bigode, nas feiras com collants por cima dos pêlos das pernas e por cima destas as meias brancas com raquettes e as socas de madeira. A vender pitos, ovos, e couves, entre alfaias agrícolas, facas e panelas, grelhas e loiças.

O Minho das princesas carregadas de ouro – o ouro disfarça as outras jóias que lhes habitam o corpo, porventura menos peludas que as das mulheres das feiras – nas procissões da Agonia, dos gigantones e dos bombos, das bolas do Natário, do Minho dito rio, do Lima, do Cávado, dos enormes penedos da Peneda, a desolação de Castro Laboreiro, no planalto, naquela estrada que segue sozinha até acabar num estendal isolado de algum eremita.

O Minho da Arga, onde as nuvens que chegam do Atlântico nos tocam o nariz, o vale do Lima se abre de um lado, e do outro Caminha, Cerveira, e o rio que nos separa da Galiza, espaço natural de namorados, uma teimosia da água a separar duas terras tão parecidas, de gente tão igual.

Como podia isso ser, de não passar a norte de Coimbra? Se foder no Minho é sempre tão diferente de foder aqui em baixo?"

João
Geografia das Curvas

Postalinho de Praga - 6

"Sex Machines Museum (museu das máquinas do sexo), em Praga.
Como acontece com outros museus do erotismo, tem muitas peças que eu gostaria de ter... mas a colecção de arte erótica «a funda São» também tem muitas peças que este museu não tem.
Mecanismos e apetrechos. Na primeira foto, um «esticador de pénis»... sem garantia de funcionamento."
São Rosas








Vitralhos


16 setembro 2018

«O fiel Black» - Rui Felício

Celibatário por opção, durante anos, o Dr. Mário de Castro, era, sempre foi, um homem de rotinas. Há trinta anos atrás, quando se empregou no Banco de Portugal comprou casa no Jardim da Parada em Campo de Ourique, onde ainda vivia.
Todos os dias saía de casa as sete e meia da manhã, tomava o pequeno almoço na Pastelaria Doce Camélia, na esquina da Rua Almeida e Sousa com a Tomás da Anunciação.
Apanhava o eléctrico na Ferreira Borges que o levava até ao Chiado, descendo depois a pé até ao Banco na Rua da Conceição, onde chegava pontualmente a um quarto para as nove.
Há meia dúzia de anos adoptara o Black, um fox terrier nervoso e agressivo com qualquer estranho que se aproximasse da porta, mas meigo e completamente fiel ao seu dono.
No ano passado o Dr. Castro finalmente foi atingido pelo cupido e casou-se com a Candida, empregada da Doce Camélia que o atendia todas as manhãs.
Trinta anos mais nova, a Candida era uma rapariga bonita, de olhos negros profundos. O corpo esbelto revelava o viço da juventude, a sensualidade, que se adivinhava incendiar-se ao mais pequeno toque, ao mais leve roçar.
Deixou o emprego quando se casou, ficando em casa com o Black que aos poucos se foi habituando à sua nova dona.
A agora respeitável D. Candida rapidamente percebeu que a solidão e placidez da sua nova situação social e de desafogo financeiro colidiam com a azáfama de empregada da pastelaria.
O Carlos, estudante no Instituto Superior de Economia, a São Bento, e frequentador da Doce Camélia, encontrou-a um dia no Jardim da Parada. Reconheceram-se, ela contou-lhe que tinha casado e, apontando com o dedo para um quarto andar, disse-lhe que era ali que morava agora.
- Quer conhecer a minha casa?
O Carlos acompanhou-a mas, ao transpor o portal, o Black rosnou-lhe, ladrou-lhe, mostrou-lhe os dentes raivoso.
Nos dias seguintes, aos poucos, o Carlos levava uns mimos para o cão, afagava-o, foi conquistando a sua confiança.
Agora, o Black, abanava o rabo quando ele entrava, lambia-o, mostrava o seu contentamento.
Estava conquistado!
Adormecia no sofá, enquanto o Carlos e a Candida, no quarto, se entregavam aos prazeres do amor de dois jovens sedentos, apaixonados.
Um dia, a Candida, como um suicida que se deixa atrair pelo abismo, insistiu com o Carlos que gostaria que ele conhecesse o marido.
Queria que se tornassem amigos, tanto mais que ele estudava Economia, o mesmo curso do Dr. Castro.
- E assim a vizinhança não estranhará as tuas vindas cá a casa, explicou ela, perante alguma relutância do Carlos.
Combinaram um encontro falsamente casual na pastelaria, onde ela lhe apresentaria o marido.
Depois desse encontro, o Dr. Castro disse à mulher que tinha gostado muito do rapaz. Pareceu-lhe educado, bem parecido, conversador e inteligente.
Fiquei encantado, sabes?
- E se o convidássemos para almoçar cá em casa um dia destes?, sugeriu-lhe o marido.
- Acho uma óptima ideia, meu amor, respondeu-lhe a D. Candida, com um beijo.
Ficou aprazado para o sábado seguinte.
Ao meio dia desse sábado, lá estava o Carlos.
Veio abrir-lhe a porta o próprio Dr. Castro, desculpando-se antecipadamente, com um aviso:
- Temos cá em casa um cão um bocado agressivo com estranhos. Não se assuste, meu amigo, que eu ponho-o na ordem.
Estupefacto, o Dr. Mário de Castro, viu o Black, arfando de contentamento, saltar para o colo do Carlos, lambendo-lhe as mãos, feliz, quase sorrindo...
Inteligente, percebeu tudo.
Desfez o casamento. Voltou ao celibato...

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido


Postalinho de Praga - 5

"Sex Machines Museum (museu das máquinas do sexo), em Praga.
Como acontece com outros museus do erotismo, tem muitas peças que eu gostaria de ter... mas a colecção de arte erótica «a funda São» também tem muitas peças que este museu não tem.
Aqui, a entrada e algumas das máquinas do museu."
São Rosas







Q.E.D. - Quod Erat Demonstrandum

Crica para veres toda a história
Idade da descoberta


1 página

15 setembro 2018

«de todos os momentos que foste» - Susana Duarte

de todos os momentos que foste, talvez não saibas ainda que o mais belo foi o momento que antecedeu o beijo. foi o momento que antecedeu, e não o beijo, que mudou de lugar as madrugadas, moveu o ar das noites e o luar das minhas manhãs. de todos os momentos que foste, o mais belo foi a antecipação do futuro, ainda que, depois, se tenham perdido todas as madrugadas das mãos. de todos os momentos que foste, o mais belo foi aquele em que o abraço antecipava amoras, e as amoras eram beijos rubros tingindo a manhã. de todos esses momentos, foste apenas um raio de sol perdido entre os meus olhos. nada mais foste, pois não soubeste raiar de luz as escolhas da tua vida. de todas elas, a mais fácil foi partir. de todas elas, a mais imperdoável, foi partir. dos teus dedos, nada mais ficou dos momentos que antecipavam o beijo, senão a mágoa das noites sem dia, e dos dias em que te foste. de todos os momentos, a maior mágoa é não teres sabido ser. de todas as madrugadas, esta será a mais triste.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto
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«Have I told you lately that I love you?» - Mário Lima



"Disse-te ultimamente que te amo?"

Mário Lima

Erotic Blues - Chants érotiques Afro-Américains - Afro-American erotic songs

CD com compilação de blues de teor erótico, entre 1920 e 1950.
Um interessante CD a juntar-se a muitos outros na minha colecção.


A colecção de arte erótica «a funda São» tem:
> 2.000 livros das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias;
> 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.);
> muitas ideias para actividades complementares, loja e merchandising...

... procura parceiro [M/F]

Quem quiser investir neste projecto, pode contactar-me.

Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)

14 setembro 2018

Postalinho da Ribeira do Porto

"Do Porto vêm(-se) sempre bons conselhos!"
Fernando Oliveira



DiciOrdinário - aproveita o desconto até 15/9

Pois... amanhã esta promoção acaba!
Para comemorar os 5.000 seguidores atingidos na minha página no Facebook, as encomendas que me forem feitas até 15/9 terão um preço especial de € 12 (com portes de envio grátis em correio normal) ou € 15,85 (se preferires o envio por correio registado). Basta que indiques, nas observações da encomenda, o código MAMILO (que é aquilo a que o Facebook tem mais alergia).
E, se quiseres, posso enviar-te o DiciOrdinário com uma dedicatória.


#bestismo - Ruim

Quando perguntam a uma mulher se gostava de ser homem:

"Adorava. São mais práticos e não perdem tempo com minhoquices e guerrinhas. Trabalham melhor em equipa e dão duas guinadas e estacionam o carro em marcha atrás. E era giro poder esmurrar alguma coisa ou mijar de pé. São umas bestas mais inteligentes do que pensamos, mas nós gostamos deles."

Quando perguntam a um homem se gostava de ser mulher:

"Puto, só pedia 24 horas. Eu era a maior VACA da zona. Primeiro, ia olhar-me para um espelho de perna aberta e depois ia enfiar tudo o que pudesse dentro de mim. Saía de casa, ia atacar para uma esquina, mas era eu a pagar para que me comessem. Ya, era espectacular!"

Ya. "Inteligentes."

Ruim
no facebook

13 setembro 2018

Postalinho de Montreal (Canadá)

"O banco dos amantes.
Esta escultura apresenta-nos um casal nu na sua intimidade, enquanto que uma terceira pessoa vira o olhar projectando a sua tristeza e solidão. Podem-se ler grafitos de frases sobre o amor de pessoas célebres como Menahem Begin, Indira Gandhi e a Madre Teresa : «lembrarmo-nos todos os dias que somos irmãos», «o amor é o ritmo da vida», «amor com paixão para sempre». Estas pessoas de tamanho maior do que o normal, contrastam com o seu tema um pouco provocador. Enquanto o casal representa uma alegria de vida, a terceira pessoa transmite-nos a rejeição e o isolamento dando-nos a ideia de concepções de vida diferentes."
Chico Torreira



«Depressão? Ansiedade?» - Adão Iturrusgarai


Nin: naked for no reason

Revista brasileira bilingue de arte erótica.
Nº 1 - Cicciolina
Nº 2 - Camila Ribeiro - Come as you are
Nº 3 - Débora
Um projecto interessantíssimo do nosso povo irmão, do Brasil para a minha colecção.




A colecção de arte erótica «a funda São» tem:
> 2.000 livros das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias;
> 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.);
> muitas ideias para actividades complementares, loja e merchandising...

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12 setembro 2018

Filhos de branco 4 - «A esteira» - Mário Lima

Dormir na esteira é tipicamente africano. Quando os "defensores de causas" se referem ao facto do africano dormir na esteira e o caucasiano dormir numa cama e veem nisso um motivo discriminatório, é porque não percebem nada das culturas dos povos. É como confundirem uma cubata feita de folhas, palha, coberta de barro de uma aldeia africana, e as casas de cimento de uma aldeia caucasiana.

Quando ia de patrulha levava também a minha esteira. Três/quatro dias na floresta do Maiombe, à noite deitava-me debaixo dos cafeeiros, de uma árvore de grande porte, estendia a esteira, colocava o poncho (impermeável) por cima, fazia do saco, que transportava as rações de reserva, o meu travesseiro e ali dormia, muitas vezes enregelado e a chover.

As casas da aldeia onde estive na tropa, eram quase todas típicas. Aqui e ali, viam-se algumas em cimento mas a maioria não.

Assim era o local onde dormiam. Umas já tinham camas com colchão de palha, mas a maioria dormia na esteira.

O chão era de terra. As lavadeiras era ali que recebiam os seus companheiros para mais um momento de sexo.

Nessa noite estava de piquete como sargento de guarda. Tinha como missão percorrer o quartel e, com palavras passe, saber se as sentinelas estavam em alerta ou dormiam.

Antes da porta de armas encerrar, lá iam alguns tropas até a aldeia, para mais uma noite passada na esteira.

Aquele furriel tinha chegado há pouco ao quartel. Lá arranjou uma lavadeira e era essa a primeira noite que ia passar com ela.

Sentado na cadeira em frente à messe dos sargentos, olhava para aquele céu estrelado. O gerador já há muito que tinha deixado de funcionar. Esse gerador também fornecia energia à aldeia. O silêncio era absoluto.

De repente ouço alguém chamar-me: «Lima, vem aqui». A voz vinha da porta de armas.

Quando lá cheguei, com as cautelas devidas, era o nosso furriel que regressava da aldeia. Estranhei pois, não era costume aparecer alguém àquela hora e ainda por cima ele que ia fazer o seu batismo na esteira.

- «Já de regresso»?

E então contou-me ele.

- «Sabes, deitei-me na esteira mais a lavadeira, e pá, depois de uma primeira vez, ela ainda não satisfeita, enroscou-se de novo e eu, embora já cansado, lá consegui. O pior foi depois. Estava já quase a dormir, quando comecei a sentir algo a subir pelo corpo e comecei a ter uma tremenda comichão. Eram bichos que faziam do meu corpo o seu pasto. Era tanta a bicharada, que eu até pensava que podia vir algum lacrau que me mordesse e ali ficava.»

- «E a a lavadeira?! - perguntei eu.

- «Essa dormia e bem. Deve estar habituada e nem conta estava a dar da bicharada. Então levantei-me e ela acordou. Onde vais? perguntou-me. Vou para o quartel. Não consigo dormir com estes bichos todos por cima de mim»

E assim fez. E às tantas, eu, perdido no silêncio da noite, ouvia o meu camarada de armas a contar-me a história da sua primeira noite passada numa esteira.

A meu lado, o cão que me acompanhava nas rondas, dormia.

Mário Lima
Blog «A tua vontade é a tua vitória»

foto: Ademar Campos