Tudo começou na sexta-feira quando ouvi uma notícia sobre um desgraçado de um funcionário público do Algarve, que para curar as desventuras da sua profissão se dedica à fotografia como hobby. Eu percebo-o muito bem, porque só não tenho esse hobby, porque não tenho tempo, e, reparem, não sou funcionário público.
Voltando à história, estava o desafortunado muito bem a tirar fotos numa festividade lá para baixo, quando foi levado para a esquadra, confiscaram-lhe o material fotográfico e saiu 4 horas depois com termo de identidade e residência. Tudo porquê? Porque na festa, como em todas as festas, havia menores que foram fotografados. Vai daí o homem, a que já não chegava a desgraça de ser da função pública, passou logo a suspeito de ser pedófilo!
Sinceramente isto mete-me nojo. Hoje em dia se alguém cai na tentação de fazer uma festa numa criança, arrisca-se a ser arrastado por um grunho de bigode, a passar o dia na esquadra e a ser capa do 24 Horas.
Por isso lembrei-me dos tempos da Rádio Nova, e do Dia dos Senhores, o programa que tínhamos com o Sérgio Sousa, quando os mais mediáticos casos ainda estavam no segredo. Pelo dia da criança fizemos esta aberração que (como já aqui contei) valia sempre um almoço de domingo com os pais, cheio de censura por parte dos anciãos e pleno de arrependimento do filho pródigo. A minha mãe não perdoava (e ainda não perdoa) estas brincadeiras idiotas e lança sempre a pergunta 'porquê, meu filho?'. Pois não sei… a verdade é que hoje achei que isto ficava muito bem aqui. Boa semana.
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Joca"
Publicado originalmente no blog dos Vozes da Rádio








"Nos inícios dos anos 80 em Aveiro, o Cine-teatro Aveirense, agora elevado à categoria de local para exibição de peles e pseudo-sensibilidades artísticas, exibia à meia-noite de sábado sessões de cinema porno. A vossa padeira andava pelos vinte anos e morava mesmo ao lado, e um dos seus passatempos preferidos era ir para a janela assistir ao movimento espontâneo dos apreciadores. Em mais nenhuma ocasião se via (e ouvia) tanta Famel Zundapp e Casal Boss junta, parecia uma convenção. Surgiam em hordas de todos os subúrbios desconhecidos, na maioria dos casos homens sozinhos mas também alguns casais, elas no lugar do pendura. Invariavelmente, os últimos a chegar já não arranjavam bilhete porque os 900 lugares não eram suficientes para todos os fãs do género e lá vinham eles de volta à motorizada largando audíveis “foda-ses” de frustração. Já depois do filme começar e reposto algum sossego, havia lugar à segunda parte do espectáculo: Passava o camião do lixo da Câmara pela estreita rua inundada de motas e os trabalhadores vinham à frente, batedores improvisados, desviando veículos para permitir a passagem. Ouvia-se “um, dois, três… vai!” e por vezes até um ou outro carro era desviado em peso. Mais tarde acabava o filme. A inspiração acumulada durante a sessão obrigava os pequenos motores de 50cc a arrancar de súbito e mais estridentes do que antes. Vistos de cima, pareciam um enxame de zangões em fúria. Até que o último desaparecia e a rua estreita voltava a dormir pachorrentamente até à manhã seguinte. Só nessa altura eu ia dormir, depois de apreciar e me divertir com todos os detalhes.