– Sabe do que eu gostava, Alice?
– Sabe?!
– Sabes do que eu gostava?
– Sim, assim está melhor. Do quê?
– Se calhar, vai… vais levar a mal.
– Diga, homem. Se não disser…
– É que eu gostava muito.
– O que virá daí…
– Se calhar ficas aborrecida.
– É provável…
– Que fiques aborrecida?
– Sim, é muito provável, sr. Cruz, é que o senhor ainda não me disse nada e eu já estou a ficar aborrecida.
– Ah!… Queres dizer que, seja como for, já não me escapo?
– Mas o senhor quer escapar?
– Não, não quero.
– Então o quer, sr. Cruz?… Olhe que o seu tempo está a acabar.
– Ao tempo que o meu tempo está a acabar.
– Eu não estava a falar desse tempo, sr. Cruz.
– Eu calculei… Está quase na hora, não é?
– É. E estou quase a acabar e o senhor ainda não me disse o que quer.
– Não levas a mal?
– Hum… mas o que é que irá sair daí? Devo ficar preocupada?
– Não, preocupada não, não há razões para isso.
– Menos mal… Pode-se virar para dobrarmos as pernas.
– Para dobrarmos não, para eu dobrar.
– Só se for hoje, seu preguiçoso!
– Mas as pernas são minhas.
– São, quanto a isso não há dúvidas, mas como sou eu que as dobro.
– Isso é verdade… Podes-me pôr a almofada debaixo da cabeça?
O homem virou-se de barriga para cima, a mulher pôs-lhe a almofada debaixo da cabeça e, sorrindo, dirigiu-se aos pés da cama, onde lhe agarrou os pés.
– Vamos lá! Vou-lhe só levantar e segurar os pés e o sr. Cruz vai tentar dobrar as pernas.
– Ah…
– Força!
– Mais?
– Baixe a cabeça… Encoste a cabeça à almofada.
– Eu…
– Boa! Está a ver…
– Agora não.
– Outra vez. Estique. Vamos lá. Agora não? Agora não o quê?
– Não estou a ver.
– Boa! Dobre. Dobre. Está quase, está quase… Não estou a perceber nada, sr. Cruz. Não está a ver o quê?
– Nada. Não estou a ver nada.
A mulher segurou-lhe os tornozelos e empurrou-lhe suavemente as pernas, dobrando-as. Levantou a cabeça e olhou para a cabeça do homem pousada na almofada. O homem tinha os olhos fixos no tecto e uma estranha expressão de resignada tristeza. Em silêncio, ela flectiu-lhe as pernas mais algumas vezes.
– Já está – disse, terminando o exercício e esticando-lhe as pernas, enquanto se endireitava. Olhou para os pés do homem e, quando levantava a cabeça, espantou-se com a clara visão dos seus volumosos seios apertados no soutien rendado branco entre o tecido da bata que tinha um botão aberto a mais e, repentinamente, compreendeu o sentido da conversa do homem e a expressão amargurada com que ele contemplava o tecto.
Nesse momento, o homem levantou a cabeça e os olhos de ambos cruzaram-se, antes dos deles descaírem, por um instante apenas, para o acidentalmente generoso decote da fisioterapeuta.
– E, afinal… – a mulher decidiu dar a entender que não tinha percebido o olhar guloso do velho artrítico e, enquanto ajeitava a bata e fechava o botão, tornou ao desejo inconfessado do homem: – O sr. Cruz não me disse o que queria.
Injuriando em silêncio os dedos ágeis da mulher que fechavam o relapso botão da bata e lhe trancavam a felicidade por trás de um pedaço de tecido, o velho sr. Cruz murmurou:
– Fica para a semana, Alice. Fica para a semana.
05 janeiro 2011
Poucos cogumelos, trálálálá?
Dúvidas houvesse de que o Mundo está prestes a acabar e a esta hora já os Cavaleiros do Apocalipse fecharam os cadeados protectores da castidade das suas respectivas e têm as malas feitas, ESTA notícia prova a intenção divina de acertar contas com esta terra pecadora.
Depois dos escândalos que brotaram como cogumelos (sim, freiras e cogumelos são uma combinação inevitável) no seio da Igreja Católica envolvendo os seus clérigos com pila, eis que a coisa (não a pila mas a perfídia) alastra aos símbolos de virtude que restavam (tirando os anjinhos ornamentais, mas esses são de madeira ou de pedra e seria batota arrastá-los para esta negra estatística).
Para quem não tiver pachorra para seguir o linque e ler a notícia, em causa está a acusação formal de abusos sexuais por parte das freiras responsáveis por um orfanato. Aberto já está o inquérito para apurar a sórdida verdade de mais estes factos que se vão acumulando em torno do pagode que se tem vivido em inúmeras instituições directamente ligadas à (cada vez menos) Santa Madre Igreja.
Chocante (montes de) é o relato angustiado de um cinquentão a quem terão enquanto criança as malvadas executado algumas mamadas mesmo durante o sono (the horror, the horror!), ao ponto de lhe provocarem problemas psicológicos (se calhar tinham pouca prática ou assim...).
Uma pessoa nem consegue imaginar o drama vivido na pele de quem acordava a meio de tais sessões de tortura, valha-lhes Ele...
Versos nus
Sei dos meus versos lentos, sonolentos,
que já não precisam de palavras;
escuta-me, agora, onde tu sopras
eles desenham os momentos,
chaves em portas que tu abras.
Sei dos meus versos lentos, minutos
breves em que tu me encontras
escuta-me, agora, quando tu entras
eles não querem ser escritos
dizem que as palavras são magras.
Sei dos meus versos lentos, tontos,
nus, eram demasiado pequenas, as letras;
tu entras, e os versos lentos, imperfeitos.
que já não precisam de palavras;
escuta-me, agora, onde tu sopras
eles desenham os momentos,
chaves em portas que tu abras.
Sei dos meus versos lentos, minutos
breves em que tu me encontras
escuta-me, agora, quando tu entras
eles não querem ser escritos
dizem que as palavras são magras.
Sei dos meus versos lentos, tontos,
nus, eram demasiado pequenas, as letras;
tu entras, e os versos lentos, imperfeitos.
Indulgência
Uma frase. Por vezes nem uma frase é, apenas uma palavra mal escolhida, ou sequer escolhida.
Mas uma expressão... uma daquelas que discursam monólogos de dor e destilam contundentemente dragões e monstros infernais que nos puxam às catacumbas do Universo, privando-nos da Luz que nos guia os dias e as noites... essas são as expressões que alimentam. Alimentam dor às almas que ainda têm espaço para conter, até que um dia vertam toda a mistura de fel encerrada.
Releva-se. Não adianta. Perdoa-se em expoente de virtude, expressões que nada caracterizam o Eu e apenas existem em plano de perspectiva dramática de insucessos consecutivos. Afinal não dói. Apenas fere por instantes. Absorve-se um pouco mais. Não custa. Guarda-se. Transforma-se para que possa usufruir em proveito de crescimento e concretização.
E essas expressões continuarão guardadas com restantes expressões de outras vidas, em cofre de betão, quase imutável para permitir olhares de felicidade e continuar a ouvir doces melodias, ver campos verdejantes e céus com estrelas e ocasos lunares...
Continuarão guardadas até que um dia o cofre não seja suficiente, ou algum tipo de segredo sirva na sinuosa e recôndita abertura, que libertará os demónios negros e barulhentos que assolam a noite e o sono, em entre-acto da radiante e serena Luz do dia.
Mas uma expressão... uma daquelas que discursam monólogos de dor e destilam contundentemente dragões e monstros infernais que nos puxam às catacumbas do Universo, privando-nos da Luz que nos guia os dias e as noites... essas são as expressões que alimentam. Alimentam dor às almas que ainda têm espaço para conter, até que um dia vertam toda a mistura de fel encerrada.
Releva-se. Não adianta. Perdoa-se em expoente de virtude, expressões que nada caracterizam o Eu e apenas existem em plano de perspectiva dramática de insucessos consecutivos. Afinal não dói. Apenas fere por instantes. Absorve-se um pouco mais. Não custa. Guarda-se. Transforma-se para que possa usufruir em proveito de crescimento e concretização.
E essas expressões continuarão guardadas com restantes expressões de outras vidas, em cofre de betão, quase imutável para permitir olhares de felicidade e continuar a ouvir doces melodias, ver campos verdejantes e céus com estrelas e ocasos lunares...
Continuarão guardadas até que um dia o cofre não seja suficiente, ou algum tipo de segredo sirva na sinuosa e recôndita abertura, que libertará os demónios negros e barulhentos que assolam a noite e o sono, em entre-acto da radiante e serena Luz do dia.
04 janeiro 2011
dos livros dificeis de encontrar
- Sim?
Atendi o telefone. Mais uma vez, enganava-me a mim própria. Pensei que fosses ligar por causa daquele assunto pendente. Tinha ficado de te procurar um livro. Certo? Ou melhor, arranjámos uma qualquer desculpa para nos falarmos. Um livro servia. E até dava um certo ar intelectual à coisa. A esta «coisa» que nos une. E que não pode, nem podia existir. Mas existe.
- Quero ver-te. Saber de ti. Saborear-te.
Engoli em seco. Fingi que não tinha percebido. Ruído na linha.
- Não tenho o que precisas.
Estava a falar do livro. Não o tinha encontrado. Acho que escolheste um daqueles títulos impossíveis de se encontrar. Assim, dilatávamos no tempo esta desculpa para nos encontrarmos. Ou, pelo menos, para falarmos.
- Tens – disseste – tens tudo aquilo de que preciso. Não sabes é como, nem quanto. Mas tens.
- Posso continuar a procurar.
E pronto. Lá o disse de novo. Assumi ali que não tenho qualquer hipótese, mas que quero continuar. Persistir «nisto».
A verdade é algo que dói. E é quase sempre seguida do silêncio ensurdecedor. Ele também sabia que era verdade. Que não havia hipóteses. Nem daquelas a que se chamam nulas. Mas ele preferia agir como se nada fosse.
Que assim seja. Eu até gosto de visitar livrarias. Mesmo que saiba que o livro é impossível. De encontrar.
- Tenho saudades tuas. – disse, desligando o telefone de seguida.
Eu também.
texto de Joana Sousa
desenho de Gonçalo Martins | Book of Erotica
para acompanhar com um Jeff Buckley
Publicidade apetitosa
Vinte
Tenho como certo
que o sexo rejuvenesce:
a pele alisa,
o cabelo toma brilho
e o vigor dos músculos
renova-se.
Sendo assim:
chegando aos 100
vou parecer ter 20.
Poesia de Paula Raposo


Natal é sempre que um palhaço quiser
Esta menina Natal é bem mazinha... e o palhaço «jack-in-a-box» gosta... pelo menos pelo que se vê do seu nariz.
Uma comprinha do Natal de 2010 para a minha colecção.
Uma comprinha do Natal de 2010 para a minha colecção.
03 janeiro 2011
A pornografia da religião pode combater-se com o humor?
Não sei. Mas recomendo-vos a leitura do texto «Por que sou um ateu?» de Rick Gervais, trazido e traduzido pela nossa AnAndrade.
Há Dias...
Há dias em que sem percebermos porquê, como nem de onde, o céu desaba sobre os nossos dedos.
Há dias em que escrever algo sobre qualquer tema é uma tarefa espinhosa, mas se esticarmos os dedos, delineamos linhas de tristeza à velocidade do olhar.
Há dias em que a tristeza é a melhor amiga do pensamento.
Há dias em que por mais que o Sol brilhe, só a chuva nos entra nos ossos e nos faz escorrer na cara pingos que se confundem com lágrimas.
Há dias em que o astros não permitem que o maior dos esforços sejam mais do que simplesmente inglórios, na reposição da verdade.
Há dias que começamos a pensar e acabamos a reagir.
Há dias em que a alegria esperada transforma-se em cinzento, depois em negro, depois a espera, a ansiedade e a angústia, a falta de resposta, o medo e o descontrolo.
Há dias em que simplesmente o Sol e a Lua não se alinham, quando habitualmente o estão.
Há dias em que o melhor se transforma em duvidoso, e o momento passa a ser mais importante que o todo.
Há dias em que o próximo está repleto de dúvida, de desconfiança, de incerteza e de medo.
Há dias em que o coração fica tão apertado que aí percebemos que o importante se sobrepõe ao urgente.
Há dias em que um singelo momento assume a importância de outras tantas dezenas de direcção oposta.
Há dias em que as pernas tremem sem prazer, o coração acelera sem excitação, as pálpebras piscam sem alegria, os olhos fecham sem sono, a expressão facial cai, as costas dobram, os braços ficam pesados, os movimentos lentos, o cérebro pára, a visão das coisas perde cor, o pescoço dói, o peito aperta, o cigarro abunda e uma discreta lágrima sofrida cai num sobressalto de tristeza.
Há dias...
Há dias em que escrever algo sobre qualquer tema é uma tarefa espinhosa, mas se esticarmos os dedos, delineamos linhas de tristeza à velocidade do olhar.
Há dias em que a tristeza é a melhor amiga do pensamento.
Há dias em que por mais que o Sol brilhe, só a chuva nos entra nos ossos e nos faz escorrer na cara pingos que se confundem com lágrimas.
Há dias em que o astros não permitem que o maior dos esforços sejam mais do que simplesmente inglórios, na reposição da verdade.
Há dias que começamos a pensar e acabamos a reagir.
Há dias em que a alegria esperada transforma-se em cinzento, depois em negro, depois a espera, a ansiedade e a angústia, a falta de resposta, o medo e o descontrolo.
Há dias em que simplesmente o Sol e a Lua não se alinham, quando habitualmente o estão.
Há dias em que o melhor se transforma em duvidoso, e o momento passa a ser mais importante que o todo.
Há dias em que o próximo está repleto de dúvida, de desconfiança, de incerteza e de medo.
Há dias em que o coração fica tão apertado que aí percebemos que o importante se sobrepõe ao urgente.
Há dias em que um singelo momento assume a importância de outras tantas dezenas de direcção oposta.
Há dias em que as pernas tremem sem prazer, o coração acelera sem excitação, as pálpebras piscam sem alegria, os olhos fecham sem sono, a expressão facial cai, as costas dobram, os braços ficam pesados, os movimentos lentos, o cérebro pára, a visão das coisas perde cor, o pescoço dói, o peito aperta, o cigarro abunda e uma discreta lágrima sofrida cai num sobressalto de tristeza.
Há dias...
Postalinho da Quinta da Água da... quê?!
"Olá São!
Placa toponímica no concelho de Chamusca.
Boas entradas e saídas.
JCL
É rata: A olhar com atenção para a placa, vejo agora que há um espaço maior entre o “da” e a “rata”.
Cabrões, rasparam uma letra e fintaram-me em primeira instância. Voltei a olhar com olhos de ver para a fotografia dado o carácter bizarro, improvável, desta conjugação de termos. E foi então que reparei. Se calhar, assim deixa de ter interesse erótico-etnográfico. Não vem mais vinho para esta mesa, eu sei."
Placa toponímica no concelho de Chamusca.
Boas entradas e saídas.
JCL
É rata: A olhar com atenção para a placa, vejo agora que há um espaço maior entre o “da” e a “rata”.
Cabrões, rasparam uma letra e fintaram-me em primeira instância. Voltei a olhar com olhos de ver para a fotografia dado o carácter bizarro, improvável, desta conjugação de termos. E foi então que reparei. Se calhar, assim deixa de ter interesse erótico-etnográfico. Não vem mais vinho para esta mesa, eu sei."

Subscrever:
Comentários (Atom)




