HenriCartoon
05 junho 2012
04 junho 2012
«totoloto» - bagaço amarelo

Foi assim que a vi fechar a porta de casa, sem conseguir combinar nenhum encontro com ela para o dia seguinte. Nem para a semana seguinte ou outro dia qualquer. Fui descendo os cinco andares do prédio dela pelas escadas, para que esse processo de me distanciar fosse o mais lento possível, repetindo no meu pensamento a sua última frase:
- Não vou combinar nada contigo nem quero que me telefones. Se gostarmos um doutro mesmo, de certeza que nos tornamos a ver um dia destes.
Depois beijámo-nos e ela fechou a porta.
Já me aconteceu muitas vezes, esta coisa de me zangar com o que uma mulher diz para depois acabar por lhe dar razão. O dia seguinte passei-o sozinho, com um copo de uísque ensonado como única companhia, e um livro do Haruki Murakami que não consegui começar a ler. Tinha saudades do corpo dela, dos lábios dela, da voz dela, do café dela. Enfim, de tudo dela menos, talvez, dela própria. Como um todo.
Amar é difícil, ser homem também. É que as mulheres são melhores nesta coisa de ficarmos sós. Corre-lhes no sangue o desejo duma solidão pontual. Nos homens não, e depois parecem cães abandonados. É preciso aprender. Estar só também é algo que se aprende.
Encontrei a Sónia duas semanas depois, mais coisa menos coisa, na fila duma papelaria para registar o totoloto. Perguntou-me como é que eu estava e eu abanei os ombros. Depois desejou-me sorte no jogo e eu abanei novamente os ombros. Não sabia o que lhe dizer. Segredou-me ao ouvido, enquanto arrumava os papelinhos na carteira, que eu lhe devia ter telefonado.
- Mas... tu é que disseste... - levantei a voz.
- Eu disse, mas tu não tinhas que me obedecer. - respondeu e sorriu.
Beijou-me, e o beijo dela ficou-me preso na face como um insecto irrequieto enquanto a vi sair da loja sem olhar para trás. Registei o meu boletim e pensei que a vida é mesmo assim. Às vezes acerta-se, outras não. Pelo menos aprendi a ficar sozinho.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
03 junho 2012
Lapidado

Era amigo de amigos meus e assustou-me logo aquela sua indumentária de fatinho, mesmo que talhado em bom corte, mais o guardanapo de seda pendurado no pescocito. Até quando usava vestuário desportivo aquele marmelo aparentava a formalidade de quem se tinha vestido de acordo com as indicações fornecidas no convite. Nem sei mesmo como conseguia ter sempre as faces impecavelmente barbeadas como se não lhe nascessem pêlos todos os dias ou isso fosse uma intimidade indigna de ser vista. Ainda por cima, aquele gajo era de Direito, o curso que imediatamente associo a lobotomia, logo abaixo do floreado económico de Gestão. Como se isto tudo não bastasse, para compor o ramalhete, aquela alminha apenas bebia cerveja para nos acompanhar, deixando-a morrer morna que era um dó de alma e apenas fumava das nossas baforadas.
Vá se lá saber porquê, insistia em comunicar comigo. Teimava em me interromper a qualquer hora do dia para me transmitir uma sensação que tinha tido, por exemplo, ao ver um Ferrari na rua, como se fosse mais importante a comunicação das emoções do que os objectos em si. Eu pagava-lhe da mesma moeda, telefonando-lhe às tantas da noite para falar de coisas comezinhas e ele alimentava a conversa como se não precisasse de dormir ou não tivesse quinhentos dvd's para ver. Até começou a arriscar a asneira de me dar anéis ou pulseiras que não uso, com o intuito irónico de me ver sorrir no rasgar da prenda, entalada entre o agradecimento e o protesto.
Somando dois e dois, bem lapidadozinhos, percebi que gargalhava mais com ele do que com qualquer outra pessoa e que ao contrário do material corrente que por aí circula em barda, aquele gajo era capaz de amar como se isso não fosse uma velharia absurda digna de museu. Corri a ligar-lhe e no final da tarde, na esquina do ponto de encontro, pulei para beijá-lo, esborrachando-lhe os lábios, esfregando-lhe o cabelo, esmifrando-lhe as orelhas, tacteando-lhe o pescoço, puxando-lhe as nádegas contra o centro das minhas ancas e recuperando o fôlego disse-lhe: Gasta-me!Vá se lá saber porquê, insistia em comunicar comigo. Teimava em me interromper a qualquer hora do dia para me transmitir uma sensação que tinha tido, por exemplo, ao ver um Ferrari na rua, como se fosse mais importante a comunicação das emoções do que os objectos em si. Eu pagava-lhe da mesma moeda, telefonando-lhe às tantas da noite para falar de coisas comezinhas e ele alimentava a conversa como se não precisasse de dormir ou não tivesse quinhentos dvd's para ver. Até começou a arriscar a asneira de me dar anéis ou pulseiras que não uso, com o intuito irónico de me ver sorrir no rasgar da prenda, entalada entre o agradecimento e o protesto.
[Foto © Emanuel Oliveira, 2008, Lolita]
02 junho 2012
«conversa 1892» - bagaço amarelo

Eu - Acho muito bem. Sou pelo Serviço Nacional de Saúde...
Ela - Eu também defendo a saúde pública, mas só em caso de doença. Agora para uma gaja pôr umas mamas maiores é que não.
Eu - Eu cá acho bem. Até porque quando uma mulher põe umas mamas novas está a contribuir, não só para ela própria se sentir melhor, mas também para que muitas outras pessoas sejam mais felizes.
Ela - Muitas outras pessoas?! Mas tu achas que as mulheres vão todas para a cama com muitas pessoas?
Eu - Não estou a falar de ir para a cama, estou falar só da parte visual da coisa.
Ela - Não acredito no que estás a dizer.
Eu - Porquê?
Ela - Mas tu passas a vida a olhar para as mamas das gajas?
Eu - Não foi isso que eu disse.
Ela - Acho que talvez pudéssemos gastar dinheiro público a aumentar o cérebro de alguns homens...
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
«Mulher viola», acrílico sobre tela, Janine Dupont, Canadá, 2001
Um dos 66 quadros da minha colecção que não estão expostos, até 5 de Junho, no Recordatório Rainha Santa Isabel, em Santa Clara (Coimbra).
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