HenriCartoon
03 julho 2012
02 julho 2012
Homens, tomem lá um rebuçadinho para a vista
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«Assim vai ser difícil casar» - bagaço amarelo

O homem banal sentou-se mesmo à minha frente, no comboio, com cara de poucos amigos, e começou a praguejar por causa dum idoso qualquer que tinha demorado muito a comprar o bilhete na máquina automática. A mulher encantadora continuou a ler umas fotocópias que, suponho eu, teriam a ver com a sua actividade profissional ou académica. Eu continuei a ler o meu livro do Murakami. Acho que tanto eu como ela só queríamos silêncio, mas não o tínhamos.
Foi ela quem decidiu falar primeiro, e disse-lhe aquilo que é óbvio. Que as novas máquinas automáticas da CP podem ser complicadas para algumas gerações pouco habituadas às novas tecnologias, que o dever dele era ter ajudado primeiro e protestado depois. Evitei entrar na discussão, porque logo à partida percebi que não valia a pena, e foi isso mesmo que me encantou nela: insistiu. As mulheres encantadoras nunca desistem facilmente dum homem banal. É um dos seus encantos. Foram precisos, aliás, dez minutos para ela perceber aquilo que eu já tinha percebido. "Assim vai ser difícil casar", disse-lhe ele.
Os homens banais acham que uma mulher que argumenta não é boa para casar, por isso mesmo. A banalidade não consegue ser dialéctica. Não evolui. Um homem banal hoje é igual a um homem banal medieval. Nasceu, vive a protestar porque os idosos o fazem perder tempo, e depois morre. É isso que é ser banal. Ela encantou-me porque ainda luta contra essa banalidade. Eu não consigo. Sou banal.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
01 julho 2012
Às apalpadelas

Antes de lhe conhecer o físico nem lhe imaginava os traços, talvez na prevenção de que quando nada se espera, nada magoa e por muito que fosse a sua massa cinzenta a excitar-me havia um resquício infantil de mim que ansiava que a sua imagem mostrasse logo que ele era um dos bons, na linha maniqueísta da banda desenhada dos super-heróis americanos.
Combinada a blind date, sem nenhum sinal de reconhecimento para qualquer um dos lados, a não ser o conhecimento da idade que visualmente é sempre tão enganador como qualquer maquilhagem, finquei-me na porta do restaurante a divertir-me na triagem de quem passava porque era novo demais, porque era velho demais, porque não calçaria aqueles sapatos tão formais, porque ele não escolheria aquela cor de calças, porque só em caso de força maior vestiria um fato.
De repente, vi um enorme sorriso avançar direito a mim e catrapum, tive o baque da certeza de que só podia ser ele. O seu tamanho era proporcional à simpatia e fazia dois de mim de modo que quando se dobrou para me beijar quase tive medo de ser responsável por a Torre Eiffel se partir, tanto mais que naquele momento toda a cidade era mesmo Paris em ferro e asfalto. Espreitei-lhe os polegares para confirmar a simetria das formas e aumentou a minha satisfação.
De qualquer forma, num balãozinho de pensamento concluí que não valia a pena avolumar os receios que para arrulhar a posição deitada ou sentada costumam revelar-se as mais apropriadas e nessas circunstâncias, não se avaliam os homens e as mulheres pelas medidas de comprimento mas pelas de potência.
Combinada a blind date, sem nenhum sinal de reconhecimento para qualquer um dos lados, a não ser o conhecimento da idade que visualmente é sempre tão enganador como qualquer maquilhagem, finquei-me na porta do restaurante a divertir-me na triagem de quem passava porque era novo demais, porque era velho demais, porque não calçaria aqueles sapatos tão formais, porque ele não escolheria aquela cor de calças, porque só em caso de força maior vestiria um fato.
De repente, vi um enorme sorriso avançar direito a mim e catrapum, tive o baque da certeza de que só podia ser ele. O seu tamanho era proporcional à simpatia e fazia dois de mim de modo que quando se dobrou para me beijar quase tive medo de ser responsável por a Torre Eiffel se partir, tanto mais que naquele momento toda a cidade era mesmo Paris em ferro e asfalto. Espreitei-lhe os polegares para confirmar a simetria das formas e aumentou a minha satisfação.
De qualquer forma, num balãozinho de pensamento concluí que não valia a pena avolumar os receios que para arrulhar a posição deitada ou sentada costumam revelar-se as mais apropriadas e nessas circunstâncias, não se avaliam os homens e as mulheres pelas medidas de comprimento mas pelas de potência.
Bunda de gaveta
Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)
30 junho 2012
«foi só isso...» - bagaço amarelo

Ainda não estava apaixonado pela Teresa no dia em que fomos ver uma exposição de pintura em Lisboa, dum pintor qualquer de que já nem lembro o nome, mas acreditava que isso me ia acontecer em breve. Ela foi pousando brandamente os olhos dela, de quadro em quadro, e quando andava era como se o som dos seus saltos altos fosse uma espécie de crime. Aligeirou o passo e perguntou-me se eu estava a gostar.
- Mais ou menos... - respondi para não a desiludir totalmente - nenhum dos quadros é figurativo, então nenhum me diz nada.
- Ao menos fala baixo. - pediu ela de forma embaraçada.
Eu saí da galeria e esperei por ela lá fora e, enquanto passeava os meus olhos de forma discreta pelas mulheres que iam passando, decidi-me a não me apaixonar por ela. Às vezes, não Amar pode ser a melhor solução. Pelo menos foi o que eu pensei. A Teresa era bonita, mas também ela era uma espécie de galeria de arte. Nela, às vezes tinha que falar baixinho para não parecer estúpido. Outras vezes vezes era mesmo melhor calar-me.
Nesse mesmo dia inventei uma desculpa qualquer e apanhei o intercidades para Aveiro, onde acabei a noite sozinho a beber Bushmills num bar que também tinha nas paredes uma exposição de pintura. Sem sair da minha cadeira ao balcão, vi os quadros todos. Eram retratos de pessoas que provavelmente nem existiam. A dona do tasco reparou e perguntou-me se eu tinha gostado.
- Sim, todas as pessoas retratadas me parecem serenamente felizes, como se tivessem acabado de passar por uma qualquer contrariedade na vida e agora se sintam calmas e aliviadas.
- Obrigado, vou dizer isso à minha filha. - Ofereceu-me o terceiro copo de uísque, que agradeci.
Nessa noite cheguei à conclusão de que, pelo menos para mim, era melhor que todas as exposições de qualquer tipo de arte fossem em bares e não em galerias. Nas galerias, por norma, não interpretamos sequer o que vemos. Pelo contrário, submetemo-nos totalmente àquilo que é suposto perceber, ou então é melhor fecharmo-nos na nossa esmagadora ignorância.
Eu acredito, e gosto de acreditar, que o ser humano é criativo em praticamente tudo o que faz. A Amar também. O Amor é uma arte como outra qualquer, embora não tenha suporte físico. É como a música, por exemplo, e nesse dia desafinei de propósito para acabar de tocar uma canção que nunca me iria sair bem. Foi só isso.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
«O laço impenetrável do silêncio» - o livro fresquinho da Paula Raposo
Este exemplar já mora na minha colecção, a juntar-se a outros livros da Paula Raposo que, apesar de ela sempre ter contestado, combinam muito bem com os cortinados d'a funda São. Aliás, a Paula deu-nos o miminho de partilhar esse "segredo" na badana da contracapa deste livro:
Vários dos poemas deste livro foram publicados aqui. Esses e outros têm um toque erótico muito especial. Para aguçar o meu próprio apetite (o vosso, cada um sabe de si), escolho este, que penso que a Paula Raposo ainda não tinha publicado aqui:
Poderia falar da madrugada
- o tempo mágico -
e das vozes perdidas
entre gargalhadas
e sons inaudíveis.
Poderia falar da noite
que vem sempre
- inexorável e premente -
deitar-se connosco.
Mas, hoje, só posso falar
de saudade, de beijos;
imponderáveis e devaneios,
que me levam
- entre abraços e carícias -
ao fim do Mundo!
Podes encomendar o teu exemplar directamente à Paula Raposo. Basta que deixes o teu contacto nos comentários.
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