Era, entre todas, a mais bonita.
As faces tenuemente ruborizadas, os contornos firmes e esculturais do corpo que mão divina desenhara em momento de suprema inspiração, a pele lustrosa, aveludada, a fragrância sensual do perfume discreto, a sua luminosidade ofuscante, distinguiam-na das restantes que, na sua presença, se quedavam numa sombria penumbra.
Irresistível aos olhares masculinos, era por todos desejada e admirada.
Houve um, talvez o mais desinteressante, que se destacou entre os outros e se atreveu a declarar-lhe o seu amor. Compensando a falta de atributos com a melancolia das palavras escolhidas.
Amor que ela, estranhamente, não rejeitou totalmente.
Paulatinamente, ele foi penetrando no mais recôndito do ser da sua amada.
E quanto mais a amava, maior era o seu ciúme, maior era o medo de a perder.
Não suportava que ela sorrisse sequer para os admiradores, nem mesmo para os amigos de sempre.
Questionava-a pelos mais ínfimos pormenores, dava largas às suas suposições, aos seus delírios, tomando como real aquilo que mais não era que o produto de imaginação doentia e patológica.
Ferindo-a com as suas garras, devorando-a por dentro
Ela sofria, perdia o viço, adoecia, à medida que ele lhe corroía as entranhas com injustas e ferozes investidas.
Apesar disso, ela ainda era a maçã mais bonita do pomar.
E ele, o mais horrendo verme que a destruía por dentro.
Ela, a maçã, era o amor.
Ele, o verme, era o ciúme.
Moral da história:
O verme nunca amará. Porque não é da sua natureza.
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido
20 junho 2014
19 junho 2014
Dominadora e duas mulheres - estatuetas em resina
Estatuetas em resina dos anos 1990, da minha colecção.
Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)
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18 junho 2014
«conversa 2083» - bagaço amarelo

(ao telefone)
Ela - Anda cá a casa beber um copo, que eu estou farta de beber sozinha.
Eu - Estás farta de beber sozinha?!
Ela - Sim.
Eu - Então pára.
Ela - Não consigo. A única forma é vires cá a casa.
Eu - Para parares de beber?
Ela - Não, para beber acompanhada.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
«Vem já» - João
"Vem. Viro-me para ti com o braço esticado, a mão na tua direcção, e repito, vem, vem comigo, vem comigo que vou levar-te. Vou levar-te onde nunca ninguém, jamais, te levou. E tu, que levo, para onde me levas, do que preciso, é longe? Levas-me para longe? Para onde nunca estive? Não, não é longe, vou levar-te até onde nunca ninguém te levou dentro de ti, vamos andar os dois aí dentro, vais comigo, eu ajudo, eu apoio-te, e vamos, vamos depressa puxar esses lençóis que te tapam, e vamos mergulhar, mergulhar aí dentro, limpar o pó desses livros, abrir as janelas, deixar entrar o sol, deixar-me entrar, e vais fechar-me dentro de ti com os teus braços, esses braços apertados em mim, vais escrever-me no coração, e viajamos assim, e vais ver que é diferente, vais ver que é novo, que há mais, que é mais, e nunca lá estiveste, são sítios que nunca viste, é ar que não conheces, vem, vem já."
João
Geografia das Curvas
João
Geografia das Curvas
17 junho 2014
Eva portuguesa - «Grandes amores»
Só os pequenos amores resistem com pequenas palavras e pequenos gestos.
Basta um "amo-te" ou "és linda".
Grandes amores não cabem aqui.
Grandes amores não são abarcados pelas palavras já existentes. Essas são pequenas demais para a sua dimensão.
Para estes são precisas palavras que ainda não foram inventadas. Palavras demasiado grandes e intensas para caberem no nosso vocabulário.
E é por isso que grandes amores têm palavras próprias, grandes, incomuns. Palavras inventadas em todos os momentos em que se amaram e os corpos se uniram, levando ao aprisionamento das almas. E foram tantos esses momentos... e tantos esses lugares.
Estas são palavras aparentemente absurdas, de amores tão grandes que não cabem em palavras doces nem pequenas.
Esta é a maneira, ainda assim incompleta, de grandes amores se traduzirem em palavras.
Palavras que revelam intensidade, loucura, pertença e ausência.
Palavras contraditórias dos eternamente apaixonados.
Palavras inexistentes para amores impossíveis.
Mas para que merda serve o possível?...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
Basta um "amo-te" ou "és linda".
Grandes amores não cabem aqui.
Grandes amores não são abarcados pelas palavras já existentes. Essas são pequenas demais para a sua dimensão.
Para estes são precisas palavras que ainda não foram inventadas. Palavras demasiado grandes e intensas para caberem no nosso vocabulário.
E é por isso que grandes amores têm palavras próprias, grandes, incomuns. Palavras inventadas em todos os momentos em que se amaram e os corpos se uniram, levando ao aprisionamento das almas. E foram tantos esses momentos... e tantos esses lugares.
Estas são palavras aparentemente absurdas, de amores tão grandes que não cabem em palavras doces nem pequenas.
Esta é a maneira, ainda assim incompleta, de grandes amores se traduzirem em palavras.
Palavras que revelam intensidade, loucura, pertença e ausência.
Palavras contraditórias dos eternamente apaixonados.
Palavras inexistentes para amores impossíveis.
Mas para que merda serve o possível?...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
«no negro dos lábios, a vida» - Susana Duarte
no negro dos lábios, a vida
toda. na boca dos cabelos,
a imensidão das noites.
sem querer, conto as auroras
perdidas de quem sou.
na leitura das linhas, perdida
foi a boca. o que se excede
não é nada. apenas a sombra:
ave sem rectrizes. onda. eu.
Susana Duarte
Blog Terra de Encanto
toda. na boca dos cabelos,
a imensidão das noites.
sem querer, conto as auroras
perdidas de quem sou.
na leitura das linhas, perdida
foi a boca. o que se excede
não é nada. apenas a sombra:
ave sem rectrizes. onda. eu.
Susana Duarte
Blog Terra de Encanto
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