"No momento em que me preparo para mergulhar o aparo no tinteiro, para chupar a tinta para o cartucho que me alimentará a escrita por algum tempo, aproximas-te de mim e colocas as tuas mãos nos meus ombros, e comentas divertida que lá está o senhor doutor de volta das suas canetas, e se não podia escrever com esferográficas como toda a gente. Sorri, e pensei na tinta, como ela flui do aparo, deste aparo, e se enamora do papel, como o impregna e deixa uma marca forte, e de como a minha mão deixa uma caligrafia mais arrastada, num traço onde nem sempre se percebe tão bem onde a tinta termina, enquanto penetra as fibras do papel. As outras tintas são coisas que se depositam no papel, ficam em cima dele. Mas esta não, esta casa-se com o papel, entra nele, funde-se. Amor, disse, escrever com caneta de aparo é como quando fodemos. Não sentes como quando fodemos ficamos unos? Como explode o céu à volta? Como deslizamos? É a mesma coisa entendes? Podias foder com qualquer um, eu poderia foder com qualquer uma, mas isso seria apenas foder, assim como uma esferográfica é apenas o despejo de umas letras num papel qualquer. O que nós fazemos é mais requintado, é mais profundo, ultrapassa tudo. Fodermo-nos, disse-lhe, é como escrever com uma caneta de aparo. Sim, eu sei, respondeu-me, com esferográficas qualquer um sabe escrever, mas foder assim, só nós."
João
Geografia das Curvas
05 janeiro 2015
«respostas a perguntas inexistentes (291)» - bagaço amarelo

Quase ninguém pensa no Amor que está a viver como o Amor que está a viver, mas sim como o Amor que quer viver a vida toda. Toda mesmo, até ao fim. É sempre um problema, porque uma vida toda não cabe no presente. É demasiado grande, e mesmo que às vezes custe perceber que é assim, ainda bem que o é.
É que o Amor é um pudim. Quando sabe bem, depois da primeira colherada não queremos que ele acabe nunca mais. À medida que o vamos saboreando vamos também sofrendo por ele estar cada vez mais pequeno.
Um Amor acaba, outro Amor começa. O sabor pode nunca ser o mesmo, mas a intensidade certamente que o é. O truque é saber aguentar o tempo entre um e outro pudim, como quando se vai lambendo os restos que ficaram entre os dentes. A imagem talvez não seja a melhor, é verdade. Ainda assim é a mais real, porque o Amor também é saliva, bactérias e restos de comida.
Dos pudins que se comem, no entanto, pode haver um que dure mais tempo do que o normal. Diria eu, pelo menos. Quando não se quer mudar, aprenda-se a cozinhar.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
04 janeiro 2015
Luís Gaspar lê «Confidência» de Manuel Bandeira
Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse o teu ouvido…
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.
Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso.
Manuel Bandeira
Ouçam este texto na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa
Falta de ram
Caixa de velocidades

Disse que a papava e papei. Sou um homem de palavra e levo sempre a minha avante. Já ela levou com a minha por trás.
Patife
@FF_Patife no Twitter
03 janeiro 2015
«Curriculum invejável» - por Rui Felício
Já fui mar já fui navio
Já fui chalupa escaler
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.
Zeca Afonso
O Pedro ia casar e o Eugénio, pai dele, falou com o seu grande amigo Polibio para o convidar para ser padrinho de casamento.
O Polibio ficou muito sensibilizado com a honra do convite mas disse-lhe que já tinha feito de quase tudo na vida e que padrinho de casamento já tinha sido e não queria repetir.
Preferia que ele escolhesse uma outra função que ele pudesse acrescentar ao seu longo curriculum de que tanto se orgulhava.
Na verdade, o Polibio começou a enumerar-lhe a lista de profissões e funções que já tinha exercido:
pedreiro, latoeiro, policia, ladrao, ladrilhador, escriturário, arqueólogo, mineiro, motorista, agricultor, desinfestador, enfermeiro, segurança, vendedor, militar, carroceiro, encadernador, ferreiro, pescador, carteiro, repórter, jardineiro, barman, empregado de mesa, terapeuta, tradutor, detective, treinador, jogador, politólogo, fotógrafo, electricista, bombeiro, locutor, cozinheiro, chulo, podador, mecânico, bate-chapas, coveiro...
No que respeita a funções específicas relativas a casamentos, já tinha sido padrinho, testemunha, escrivão, mestre de cerimónias, fotógrafo, organista, florista...
O Eugénio ouviu, matutou e raciocinou tentando conciliar a vontade do Polibio com o seu próprio desejo inabalável de que ele participasse destacado no casamento do filho.
Murmurando alto:
- Bem, não podes celebrar o casamento porque não és padre, não queres ser o padrinho porque já foste uma vez, transportares as alianças não dá porque é tarefa destinada a duas crianças.
Com o dedo espetado na testa e os olhos em alvo, rematou:
- Sobra apenas seres Dama de Honor.
O Polibio escutou-o com atenção, mas perante a conclusão a que ele chegou ripostou admirado:
- Oh pá, as Damas de Honor têm que ser mulheres.
- Não é bem assim, meu amigo.
O meu filho Pedro vai casar com o Paulo.
Ora, neste caso, parece-me que não fará diferença que vás de Dama de Honor...
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido
«A liberdade de imprensa é um valor de sempre»
Publicidade do Sindicato dos Jornalistas na revista Visão, nos anos 80.
Recorte de revista, emoldurado na minha colecção.
Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)
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02 janeiro 2015
Viktoria Modesta - «Prototype»
Viktoria Modesta chama ao seu corpo «Modelo do futuro» e está a redefinir o que é ser sensual.
A sua perna ficou ferida durante o parto e passou por 15 cirurgias para tentar corrigir isso. Aos 20 anos, ele fez uma amputação voluntária da perna para melhorar a sua mobilidade.
A sua perna ficou ferida durante o parto e passou por 15 cirurgias para tentar corrigir isso. Aos 20 anos, ele fez uma amputação voluntária da perna para melhorar a sua mobilidade.
Vai-lhe comer o cabelo?!
"Assim que toquei o teu cabelo fiquei com a certeza de que ia comer-te."
Quem disse que as mulheres não conseguem ter o nosso romantismo?
Sharkinho
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