19 outubro 2016

«coisas que fascinam (197)» - bagaço amarelo

O Amor deve ser das poucas coisas neste mundo que só acaba depois de já ter acabado. Ao contrário de um copo de vinho, de um prato de comida, de uma amizade ou de uma viagem, nunca damos pelo fim do Amor a não ser algum tempo depois dele já se ter ido. Ainda assim, o Amor é isso tudo: um copo de vinho, um prato de comida, uma amizade e uma viagem.
A diferença está na linha do horizonte que se desenha em tudo, mesmo que com traços indecisos, menos no Amor. Um copo de vinho satisfaz, um prato de comida também, uma amizade e uma viagem também. Um Amor não.
Bebo esse copo enquanto almoço na companhia de um amigo, numa curta viagem de fim de semana, e explico-lhe que talvez o Amor me tenha avisado do seu fim antes de ter acabado.
Ele ouviu-me, mas não reagiu. No televisor silencioso, alguns polícias americanos perseguem latino-americanos no vídeo duma música que não conheço nem passei a conhecer, o que dá um ar surrealista à conversa. Talvez esteja a pensar na hipótese do seu próprio Amor ter terminado.
Não sabemos muito bem onde a viagem nos vai levar, mas a descoberta do momento é que podemos repetir o vinho. Diz ele como se tivesse acabado de descobrir a pólvora. Pede mais uma garrafa, redesenhando com um copo vazio no ar e um "outra, por favor" um dos nossos horizontes.
Descobriu mesmo a pólvora. Talvez eu possa repetir-te também.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Fruta

Naquele dia, em plena horta, demos fruta um ao outro!



E vendia?


18 outubro 2016

«ME! ME! ME!» - TeddyLoid feat.DAOKO


ME!ME!ME! - TeddyLoid feat.DAOKO from keske hakamada on Vimeo.

Heróis do maaaaaaaar...

Ao longo de uma vida com histórias giras para contar conheci moças de diversas nacionalidades. Gosto mais quanto mais parecidas são com as tugas.

Sharkinho
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«Projeto Mulheres» - Carol Rossetti - 60

O livro «Mulheres - retratos de respeito, amor-próprio, direitos e dignidade», de Carol Rossetti, está em venda em Portugal, editado pela Saída de Emergência.






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Guarda-chuva contente...

A pega do guarda-chuva revela subtilmente o estado de alma do namorado...
Pequena taça em porcelana Rosenthal da série "amorosos" de Peynet, dos anos 60.
Mais uma peça a juntar a outras desta série, na minha colecção.






A colecção de arte erótica «a funda São» tem:
> 1.900 livros das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias;
> 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.);
> muitas ideias para actividades complementares, loja e merchandising...

... procura parceiro [M/F]

Quem quiser investir neste projecto, pode contactar-me.

Visita a página da colecção no Facebook (e, já agora, também a minha página pessoal)

16 outubro 2016

Luís Gaspar lê «Entro…» de Casimiro de Brito

Entro paciente e afundo-me no reino
da mãe. O barro mais antigo
brilha no teu sexo que se abre escuro
ao meu desejo — à ternura, ao furor que busca
o caos. Só em ti, que não temes a noite nem a saudade,
me encontro. Abres a húmida concha
e salto para dentro do lume
da primeira casa. Deixo à entrada
a angústia de quem vai morrer.

Casimiro de Brito
Casimiro Cavaco Correia de Brito (Loulé - Algarve, 14 de Fevereiro de 1938) é um poeta, ensaísta e ficcionista português.
Ouçam este texto na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

«mongólia e cova da piedade» - bagaço amarelo

A esta hora da noite a cidade parece abandonada. Caminho com a sensação de que todos os habitantes fugiram por causa duma súbita ameaça qualquer de que eu não me apercebi. Só ficaram as sombras. Há uma fininha lâmina de frio no ar a tocar-me as bochechas e sinto os meus sapatos a quererem deslizar nas pedras pequenas do passeio. Sinto-me frágil, tanto pelo desequilíbrio iminente como pelo eco dos meus passos ao fundo da rua.
Quando finalmente chego ao local combinado com um amigo croata que fiz uns dias antes, a lua surge cheia no céu. Veio espreitar, claro. Está curiosa com o facto de eu estar em frente a um bar de engate onde o sexo se paga a cada meia-hora. O porteiro é tão grande que me parece estar trilhado na porta. O seu corpo ocupa literalmente toda a entrada. Se fosse o guarda-redes duma baliza, eu não saberia por onde tentar meter a bola.
Recebo uma mensagem do Branimir a dizer que já está lá dentro. Não esperou por mim por causa do frio. O porteiro olha desconfiado para mim. Por cima dele, escritas em letras latinas pintadas por um fraco néon vermelho, as palavras "NON STOP". Não sei se isso quer dizer que o bar nunca fecha ou que o sexo nunca pára. A piada é estúpida. Ainda bem que a pensei mas não a disse a ninguém.
Afinal o porteiro não estava trilhado. Afasta-se e deixa-me passar.
O ambiente é escuro. Distingo nas paredes algumas pinturas eróticas e reparo que a maior parte das mesas estão vazias. Algumas delas estão em pequenos cúbiculos que se podem isolar facilmente com uma cortina preta. São iguais a algumas cabinas para experimentar roupa em lojas de pronto-a-vestir. Enquanto me interrogo como é que alguém consegue ter sexo ali dentro vejo alguém a acenar-me. É o Branimir. Está ao balcão e tem a mão esquerda no rabo duma mulher sentada ao lado esquerdo dele. Vou ter com ele o mais devagar possível para ter tempo de decidir o que devo fazer.
A música pára. Um som horrível e agudo que me lembra um ovni avariado fere-me os ouvidos. Do outro lado do balcão uma mulher dá uma pancada num leitor de cds e volto a ouvir os Duran Duran. O meu mais recente amigo cumprimenta-me e apresenta-me à mesma mulher que acabara de esmurrar a aparelhagem. É a dona. Diz-lhe que eu posso fazer tudo o que quiser e ele paga. No dia anterior ganhei-lhe uma aposta que eu próprio não levara a sério. Pensei ser apenas uma piada, mas quando o Manchester United chegou ao fim do jogo empatado com o Stoke ele mandou vir mais duas cervejas e prometeu-me a noite da minha vida.

- Nunca pensei que o Mourinho não ganhasse este jogo! - disse
- Nem eu. Na verdade só disse que não ia ganhar por dizer. Podia ter dito outra coisa qualquer...

Ele riu-se.
Pois bem. Pelos vistos a noite da minha vida é neste bar de miúdas, enquanto ele mantém a mão no rabo duma mulher com metade do tamanho dele e eu não faço a mínima ideia de como me hei-de comportar. A boa notícia é que há uma prateleira cheia de garrafas com marcas de uísque, algumas das quais nunca ouvi falar.

- Quais são os teus gostos? - Pergunta a dona.
- Bushmills, mas acho que hoje vou beber Hakushu. Nunca ouvi falar em Hakushu antes.
- Falo de mulheres... quais são os teus gostos?

Raios. Nunca na vida me tinham feito uma pergunta tão absurda. Sei lá quais são os meus gostos por mulheres. Só costumo gostar daquelas com quem consigo ter longas conversas e, mesmo intimamente, só me envolvi com mulheres depois de as conhecer e de ter gostado de partilhar algum tempo a falar seja do que for.

- Gosto de mulheres da Mongólia.

Na verdade, às vezes digo coisas só porque sim. Não sei bem porque é que me saem, mas sei que até ao momento nunca tinha pensado sequer em mulheres da Mongólia. Disse-o exactamente com a mesma certeza que tinha dito um dia antes ao meu amigo croata, durante o almoço, que o Manchester não ia ganhar. Quando digo coisas absurdas, penso sempre que ninguém me vai levar a sério, mas às vezes levam.
Estou a dar o segundo ou terceiro gole no uísque japonês quando uma mulher de olhos em bico me abraça e beija na face.

- Olá. Sou da Mongólia. De onde é que tu és?

É bastante baixa e muito bonita. O sorriso chega-lhe de orelha a orelha e puxa-me o braço como se me quisesse tirar dali.

- Sou de Portugal, duma terra chamada Cova da Piedade.

Mais uma vez digo uma coisa absurda, não sei bem porquê. Explico-lhe o que quer dizer Cova da Piedade, mas ela não parece nada interessada no assunto. Senta-me numa mesa daqueles cubículos pequenos e fecha o cortinado. Senta-se ao meu colo e beija-me a boca. Com jeito, afasto-a um pouco e sento-a ao meu lado. Dou mais um gole no uísque japonês. Não sei muito bem como, mas ela também tem uma bebida qualquer na mesa. Não vi ninguém trazê-la, mas o facto é que está ali.

- Quanto tempo é suposto estares aqui comigo? - Pergunto.

Os olhos dela abrem como se fossem ameijoas. São pretos, profundos e bonitos, mas também inquisitivos.

- Até meia-hora... meia-hora está bem.
- Okay. Eu não vou ter sexo contigo porque não me apetece. És muito bonita, mas eu nunca faço isto, percebes?
- Sim...
- Podemos ficar aqui meia-hora a falar?
- Sim...


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