10 junho 2013
«Amor à porta duma casa de banho» - bagaço amarelo

Isto não é importante, mas penso muitas vezes como teria sido a minha vida se nessa noite não tivesse ido à casa de banho daquele café. Muito diferente, certamente. Não tinha passado dezasseis anos com ela e a minha filha não existia. Talvez nem tivesse filhos, mas se tivesse seriam outros.
Não acredito no destino, mas acho mesmo muito interessante a forma como a probabilística nos molda a vida. A maior parte do tempo nem pensamos nisso, mas pequenas coisas sem importância nenhuma podem mudar significativamente o rumo da nossa vida.
Estava a detestar a sensação de ver os assuntos entre nós morrer rapidamente. Eu dizia qualquer coisa e ela nunca tinha resposta. O mesmo se passava no sentido inverso. Era como se a nossa conversa fosse composta por peças de puzzles diferentes. Estava a detestar o facto, principalmente porque sabia que a Irina era mulher para se levantar e ir embora ao mínimo suspiro. É que a mim agradava-me estar perto dela, mesmo quando as conversas não passavam de meras tentativas de encontro, e aquele fim de tarde no café estava a saber-me bem.
Eu estava a folhear o mesmo jornal pela quinta ou sexta vez, apenas para justificar a minha presença ali. Assim, evitava estar a olhar para ela frente a frente, sem termos nada que dizer um ao outro. Acho que ela se apercebeu, porque a certa altura passei três ou quatro folhas sem sequer olhar para elas. Foi então que se referiu a um livro qualquer que andava a ler (não me lembro do autor nem do nome) em que duas pessoas se apaixonavam na porta da casa de banho dum café.
- Na porta da casa de banho dum café?! - Perguntei. - Foi assim que conheci a minha ex-mulher...
- Que lindo! E também decidiram fazer uma viagem os dois até um país distante?
- Não. Decidimos tomar café uns dias depois. Porque é que eu havia de fazer uma viagem com uma pessoa que eu mal conhecia?
Senti o peso do olhar desiludido da Irina por, mais uma vez, ter estragado uma conversa que estava a começar. A ela apetecia-lhe falar sobre uma surreal aventura amorosa qualquer, eu estava muito terra-a-terra nesse dia. Ela acabou, uns cinco minutos depois, por se levantar e despedir-se.
- Vou andando! - disse.
Pedi uma cerveja e fiquei ali mais uma meia hora sem fazer nada de interessante. Uma espécie de meia hora vegetativa a ter pensamentos que eu próprio não poderia descrever, como se não fosse eu a tê-los realmente e não passassem dum ruído de fundo qualquer. Do televisor, por exemplo.
Uma mulher entrou no estabelecimento e foi directamente à casa de banho. Ao abrir a porta bateu de frente num homem que ia a sair. Ficaram ali uns segundos a falar um com o outro e depois acabaram sentados ao balcão, lado a lado. Primeiro com um banco de intervalo entre eles, depois ele moveu-se para mais perto dela. Pareceu-me que era a primeira vez que estavam a falar, mas talvez já se conhecessem.
A minha coincidência desse dia foi outra. Se a Irina tivesse ficado mais algum tempo no café, talvez tivesse visto aquela cena e teríamos certamente motivo de conversa. Talvez ficássemos o dia todo um com o outro, jantássemos juntos, bebêssemos um copo num bar pouco frequentado ou fôssemos ao cinema. Não aconteceu. Acho que passei a vê-la com menos frequência desde esse dia.
Nunca consegui contar-lhe isto, principalmente porque sempre achei que ela ia pensar que eu estava a mentir.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
Luís Gaspar lê «A tua voz» de Gigi Manzarra
A tua voz é um néctar que eu bebo bem devagarzinho…
Melodia doce que me embala, levando meu pensamento por caminhos nunca desvendados.
Não quero teu corpo, nem teu amor!
Viajo no espaço, de olhos fechados, escutando o som doce e envolvente da tua voz, que desperta em mim todos os sentidos e me faz sonhar inarráveis loucuras.
Penetras no mais profundo do meu mundo e ocupas todos os vazios. São minutos de prazer e imaginação, quando te ouço…
Não preciso falar, muito menos te permitir saber o que sinto. És a fuga errada de um caminho sempre certo, a revolta calada da igual rotina, o segredo escondido na minha vontade que não podes alterar. Eu só quero a tua voz no meu pensamento, dentro da minha vida, por minutos, por horas, por tempo indefinido, o que isso importa?
Nada deve ser mudado, nada deve ser dito!
Te amo sem amar e te quero sem querer, misto de uma estranha paixão com sabor ao maior e mais gostoso pecado, irreal e passageiro que não merece nome, prisioneiro invisível da minha mente.
Proibido e incógnito, te dou o direito de existir dentro de Mim, mas nunca te libertarei para fora do meu misterioso mundo, para não existir a possibilidade de sermos Nós…
Gigi Manzarra
Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa
Gigi Manzarra
Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa
09 junho 2013
«Fantasia» - poema de Miguel Torga
"Canto ou não canto o limoeiro
aqui ao lado?
Ele é tão delicado!
Tem um jeito tão puro
de se encostar ao muro
onde vive encostado...
Canto ou não canto as tetas de donzela
que daqui da janela
vejo no limoeiro?
Elas são tão maduras...
E tão duras...
Têm uma cor e um cheiro...
Canto! Nem serei o primeiro,
nem eu sou nenhum santo!"
Miguel Torga
in «Diário III» - Coimbra, 20 de Outubro de 1945
aqui ao lado?
Ele é tão delicado!
Tem um jeito tão puro
de se encostar ao muro
onde vive encostado...
Canto ou não canto as tetas de donzela
que daqui da janela
vejo no limoeiro?
Elas são tão maduras...
E tão duras...
Têm uma cor e um cheiro...
Canto! Nem serei o primeiro,
nem eu sou nenhum santo!"
Miguel Torga
in «Diário III» - Coimbra, 20 de Outubro de 1945
Cruzeiro do Sul
Só sei Senhor Doutor, que perdi o meu norte. Fiz do gajo a minha bússola dos artigos de jornal, das secções da FNAC, das salas de cinema, do périplo das lojas de roupa citadinas, com os pés a muitos nós e o corpo à temperatura da linha do Equador, magnetizada na confiança que me dava como se fora eu própria.
Hoje, soergo-me com os braços cruzados e deixo as mãos espalmarem-se nos meus ombros. Quando desço às minhas coxas sei que continuo cá, com braços e pernas para abraçar, seios e vagina para atestar que sou mulher e que perdida está a esperança de com ele navegar no mar alto de uma sensualidade tempestuosa, implantada no topo da sua gávea para avistar terras de gemidos e gíria, areias de repouso de epidermes salgadas do suor e salpicadas no baixo ventre da espuma viscosa das marés.
Recordo-me da sua face onde uma barba crespa despontava todos os dias e de como me depositou na testa um beijo antes de mergulhar sofregamente na boca daquele gajo de caracóis, gírissimo por sinal, naquela noite de copos no Portas Largas.
Hoje, enrosco-me cada noite a sopesar se o vou arquivar como Gustavo, o gajo que eu gostava de ter comido em qualquer ponto do universo, se o astrolábio não indicasse que somos gémeos.
Hoje, soergo-me com os braços cruzados e deixo as mãos espalmarem-se nos meus ombros. Quando desço às minhas coxas sei que continuo cá, com braços e pernas para abraçar, seios e vagina para atestar que sou mulher e que perdida está a esperança de com ele navegar no mar alto de uma sensualidade tempestuosa, implantada no topo da sua gávea para avistar terras de gemidos e gíria, areias de repouso de epidermes salgadas do suor e salpicadas no baixo ventre da espuma viscosa das marés.
Recordo-me da sua face onde uma barba crespa despontava todos os dias e de como me depositou na testa um beijo antes de mergulhar sofregamente na boca daquele gajo de caracóis, gírissimo por sinal, naquela noite de copos no Portas Largas.
Hoje, enrosco-me cada noite a sopesar se o vou arquivar como Gustavo, o gajo que eu gostava de ter comido em qualquer ponto do universo, se o astrolábio não indicasse que somos gémeos.
08 junho 2013
«Eu sou melhor amiga da minha vagina agora»
«conversa 1985» - bagaço amarelo

Eu - Okay...
Ela - Diz-me a marca da última cerveja que bebeste...
Eu - Sagres.
Ela - Diz-me o nome do último vinho que bebeste...
Eu - Hum... Azinhaga de Ouro. É um Douro tinto.
Ela - Diz-me qual foi o prato da tua última refeição...
Eu - Esparguete à Bolonhesa.
Ela - Diz-me a marca do último café que bebeste...
Eu - Delta.
Ela - Diz-me a marca do último preservativo que usaste...
Eu - Hum... hum... hum... epá...
Ela - Pronto, a tua vida corre bem em quase tudo. Parabéns...
Eu - Isso não é justo.
Ela - Ninguém disse que a vida era justa.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
07 junho 2013
Prostituição - a minha história (XVI)
Outono de 1999... (...) E imaginou, imaginou, imaginou... No fim de toda a imaginação, só nos sobrou uma questão: onde? Pouco tempo depois, nem dois dias, e os nossos dedos e olhos percorriam a secção do mercado de trabalho do Correio da Manhã. É inacreditável aquilo a que se pode ter acesso, apenas por se comprar um jornal. Se na primeira vez estava inocente, desta vez entendi bem o que estava a ler, é sempre surpreendente, ainda hoje fico surpreendida com o número de anúncios a angariar colaboradoras, acompanhantes, massagistas, com ou sem experiência, em tempo parcial ou completo, quase todos referindo as excelentes remunerações ou os excelentes ganhos, outros que mencionam o alto nível dos clientes, lenocínio transparente, declarado, inconsequente, o retrato mais fantástico da tolerância. Se condeno? Não, o que condeno é a hipocrisia baseada neste deixa andar. É crime? Olha-se para o lado porque, afinal, existirá de qualquer forma e até tem o seu espaço e a sua função social, tem um papel no ecossistema social como as aranhas têm no ecossistema animal. Mas é crime, então finge-se que está demasiado escondido para ser regrado, finge-se que não se vê, a luz impõe consciência, no escuro do submundo tudo vale. Escolhemos um anúncio no meio de tantos, mais ou menos ou calhas, como saber o que está por trás? Escolhe-se o que soar melhor, como se soar bem fosse relevante para a boa escolha. Já na casa onde estive me tinham alertado, diziam que eu tinha muita sorte em ter ido parar ali, que me podia ter calhado um sítio terrível, que aquele Mundo não era todo assim. Marcámos o número e a voz que atendeu fez as habituais perguntas: idade, descrição física, experiência. Deu-nos uma morada e combinou a hora a que deveríamos aparecer. Era dali a pouco tempo, é um Planeta sempre imediatista, metemo-nos no meu carro, eu já certa de voltar a ter dinheiro para a gasolina cedo a esse luxo, e fomos até ao Sheraton, a rua era ali perto, segundo nos explicaram. Anoitecia e estávamos ligeiramente perdidas, encostei e perguntámos a um homem que passava onde era aquela rua, ele perguntou-nos que número de porta queríamos porque podia ser para um lado ou para o outro, dado que era uma rua grande. Dissemos-lhe o número que procurávamos e ele estacou. Olhou para nós, surpreendido, quase de alto a baixo, como se fossemos coelhinhos a querer entrar na jaula do leão e disse-nos apenas que aquela rua talvez não fosse muito adequada para jovens como nós, talvez fosse melhor desistirmos. Hesitámos mas ele apontou o caminho e acabámos por agradecer, constrangidas e comprometidas e seguimos em frente. Estacionei. A rua era escura e o número pertencia a uma porta assustadora de um mais assustador e velho prédio. Uma porta de madeira, pesada, lúgubre, na nossa frente. Uma campainha por andar, tocámos e a porta abriu-se. As escadas ainda eram mais escuros, o escuro naquelas circunstâncias ainda parece mais escuro, mais cheio de sombras, nada de elevador e lá trepámos, degrau a degrau, pelos nossos medos acima. (Continua)
Adoro as avós
Elas se preocupam somente com as coisas que realmente importam.

Viram? Alimentação é o que importa.
Capinaremos.com
Viram? Alimentação é o que importa.
Capinaremos.com
06 junho 2013
«Homenagem ao regresso do Patife» - nAnonima

«Se tu visses, Patife, a minha chona»
Se tu visses, Patife, a minha chona,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu delicado e entumescido rosto,
Às mais formosas não inveja nada:
Na sua entrada o meu dedo faz morada:
No olho o cupido as setas tem enfiado;
No clitóris faz a minha mão o seu bailado,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:
Se a blogosfera visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!
Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"
A nAnonima já tinha dedicado ao Patife uma adaptação do Pai Nosso:
Patife Meu que estais no Chiado,
santificado seja o Vosso Membro,
venha a mim o Vosso Leite,
seja feita a Vossa vontade
assim na cama como no sofá.
O pacheco meu de cada dia me dai hoje,
perdoai-me as minhas inabilidades
assim como eu perdoo
a quem me tem fornicado,
e não me deixeis sair da tentação,
mas livrai-me do Anal.
Amén.
... tal como esta "leve adaptação do poema de Fernando Correia Pina":
«Colchão eléctrico»
Que noite, Patifóide. Que noite memorável!
Vinte vezes me vim e tu sempre prestável,
sempre em cima de mim, o cu a dar a dar
e eu num gozo sem fim, com ganas de gritar.
Que noite, Patifóide. Foi assim como um choque
sempre a correr por mim, a cona num bitoque,
a pedir mais chinfrim, gulosa do caralho -
fogoso berbequim em ardente trabalho.
Que noite, Patifóide. Electrizante estado
de volúpia atingi até que te vieste
de cabelos em pé, ofegando ao meu lado
dizendo em confissão
com ar triste de fado -
a merda do colchão
estava mal isolado.
nAnonima
Blog «nAnonima»
(e podem visitar aqui o blog do Patife)
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