12 julho 2013

Capas de revistas recortadas por Christopher Coppers

É de louvar a criatividade, a técnica e a pachorra de Christopher Coppers, que recorta as revistas de uma forma que as deixa com imagens completamente transformadas. Alguns exemplos, dos muitos que estão disponíveis aqui:




Doces ou travessuras



Pobres garotos…

Capinaremos.com

11 julho 2013

Experimenta outra forma de ver...

Três filmes («Cadeira», «Espelho» e «Secador») da campanha publicitária da Julyna de prevenção do cancro do colo uterino.







Adolescentes e pornografia: onde está o mal?

No texto «Ados et porno: où est le mal?» do Blog Les 400 Culs, Agnès Giard defende que "o romantismo dengoso é muito mais perigoso do que as representações explícitas de sexo. A cola piegas das novelas, a doçura sistemática dos nossos sonhos é que são os inimigos. No entanto, o que é censurado é o sexo, mesmo quando representado de uma forma inteligente e bonita. Porquê? Porque é preciso «proteger as crianças», dizem os legalistas. Em nome de quê se faz a «protecção à criança»? De uma censura moral para demonizar imagens explícitas (nudez, penetração) culpadas, segundo alguns, pelo impacto negativo sobre esses seres frágeis que são os menores de idade".
Continua a autora: "Se estão preocupados com isso, sabem que o que perturba as crianças é o espectáculo de violência, ou pior, a humilhação a que as submetem nas suas primeiras tentativas para amar os seus corpos e obter prazer? «Não é bom! Caca!» - dizem alguns pais perante um seu pequeno toque inocente. «Não toques aí!» - dizem outros falando sobre a masturbação. Acham que sujar o sexo, associá-lo às fezes e à urina, não são ainda o suficiente. Estas pessoas, não contentes por castrarem os seus próprios filhos, arvoram-se em protectores: querem que a visão das mulheres e/ou homens em busca de prazer seja removida da paisagem. Mesmo os órgãos genitais devem ser censurados. Nunca se sabe, pode traumatizar as crianças saberem a que se assemelha um ser humano".
E alerta: "A recusa de representações explícitas de sexualidade é muito mais um ponto de vista moral e político, o que reflecte uma intolerância no que diz respeito ao sexo pelo sexo. (...) mostrar o acto sexual é considerado pelos conservadores de direita ou de esquerda como um ultraje, uma falta de respeito para com o que deve ser, no seu ponto de vista, a sexualidade: um acto dissimulado no seio do casal".
Agnès Giard apresenta o ponto de vista do filósofo Ruwen Ogień, para quem "a censura é uma palavra enganosa. Em termos de sexualidade, não é «censura» e sim «convicção moral»". Estaria muito mais perto da verdade. Num artigo intitulado «A repressão moral e legal da curiosidade sexual», (...) Ruwen Ogień denuncia "esta censura que se destina, segundo ele, a suprimir o desejo de auto-conhecimento e de conhecer os outros, é uma forma muito insidiosa de «repressão»,porque está escondida sob a aparência de maior credibilidade. Todos os pais temem por seus filhos e este discurso dos censores explora lindamente esse medo". Um tal adolescente teria exigido sexo oral ao seu irmão mais novo, depois de ver pornografia. Uma tal menina, ao chegar a casa no regresso da escola, teria pronunciado palavras terríveis que aprendeu presenciando uma discussão entre adultos...
Ruwen Ogień explica a evolução desta censura: "Basta olhar para a história da censura para entender como estes argumentos são enganosos. Na nossa sociedade, a justificação da punição tem sido religiosa. Representações explícitas minariam algumas virtudes cristãs, como a castidade, a fidelidade, o amor, a caridade. A partir do século XIX, a repressão tornou-se mais secular e moral, isto é, feita em nome do trabalho, da disciplina, da autoridade, da temperança, da família, da casa, etc . Durante a segunda metade do século XX, uma importante mudança ocorreu: a justificação de controle de actividades sexuais e das suas representações deixou de ser dada com referência a estes conceitos abstractos que são as virtudes religiosas e os valores morais. Foi nessa época que seria imposta a ideia de que apenas o dano concreto, o dano psicológico ou físico para indivíduos particulares ou grupos específicos de pessoas (crianças, mulheres, crentes, etc.) poderia servir para justificar o controlo da actividade sexual e as suas representações".
Por outras palavras, "se houver censura, é apenas para justificar o fundamento antigo da moral religiosa. E essa censura, para sobreviver,para se adaptar às mudanças na consciência colectiva, continua a travestir-se da forma mais convincente em nome do interesse apresentado como legítimo: o bem público. Dois séculos atrás, as imagens obscenas foram consideradas «blasfemas», «sacrilégio», «ultrajantes» ou «subversivas» porque ameaçariam a ordem moral ou religiosa. Hoje, são consideradas «prejudiciais para a integridade física ou psicológica de pessoas ou grupos de pessoas claramente identificados: crianças, católicos praticantes, etc. O vocabulário mudou. Mas é sempre a mesma lógica".
Num artigo intitulado «Adolescentes e pornografia», Florian Voros disseca com ironia os mecanismos perversos dessa retórica infantilizadora: "Foi infelizmente impossível, com a mudança de civilização, manter sob tutela o «sexo frágil», o «proletariado» ou os «negros». Assim, aos censores não restam mais que as crianças para serem protegidas".
Mas o que é exactamente a lei? É aqui que Ruwen Ogień observa uma inconsistência curiosa: "Em França, hoje em dia, o consentimento é considerado o único critério sobre o que são práticas sexuais legais ou ilegais. Mas a idade em que os menores têm capacidade legal para consentimento é uma ficção legal que não leva em conta nem a sua capacidade mental nem os seus verdadeiros desejos, que são tão variados quanto os indivíduos. Agora assume-se a idade de 15 anos, mas pode ser aumentada ou reduzida de forma arbitrária. No entanto, mesmo que 15 seja a idade de consentimento, isto é, aquela em que pode fazer tudo, sexo oral e anal em série incluídos, ainda é proibido de assistir a filmes pornográficos representando os actos praticados até a idade de 18 anos. Aquele que não controlar exibições de filmes a menores nesta faixa etária deve, em princípio, ser punido por abuso em nome da protecção da criança. Por outras palavras, a partir dos 15 anos temos o direito de fazer qualquer coisa sexualmente consensual entre os jovens, mas não temos o direito de ver um filme. Mas de que queremos exactamente  proteger os jovens por esta censura? O mínimo que podemos dizer é que não é consistente. Não só esta lei é inconsistente mas absurda, porque é obviamente muito fácil para um adolescente obter essas revistas ou DVD que a lei o proíbe de ver". E questiona: "Devemos preocupar-nos? Muitos pais temem que os seus filhos possam ficar com uma visão mecânica do sexo". Do sexo sem amor, que eles acham que é muito triste, "esquecendo que isto é precisamente o que dá todo o interesse à pornografia: deve ser vista como uma espécie de documentário-ficção. Sem argumento, sem diálogo ou, se houver, muito pouco. O acto mostrado como se fosse à lupa, com alguma ênfase talvez um pouco clínica... e então? A pornografia não é mais perigosa para a saúde mental do que os desenhos em corte do aparelho genital, seja do ser humano ou das flores, pouco importa. Pelo menos tem a vantagem (em comparação com as ciências naturais) de ser excitante, ou pelo menos transgressora. A pornografia não é mais do que uma ferramenta, entre outras, ao serviço do conhecimento. E quando o porno não existia, havia outras maneiras de as pessoas se informarem... O que fizeram os nossos avós quando tinham 12, 14 ou 16 anos? Assistiam a pares que faziam amor no feno? Observavam a vida dos animais? Liam às escondidas livros proibidos? Sim, é mais do que provável e essas experiências não eram nem mais nem menos preocupantes do que as que consistem em assistir a um filme XXX".
Agnès Giard conclui: "Ver o sexo faz parte das necessidades, sobretudo numa idade em que se descobre o seu corpo". E é por isso que Ruwen Ogień diz que há uma e uma só pergunta que vale a pena ser feita, que é: «Qual é o mal?» "Se toda a influência da pornografia se resume a esta forma de relação consigo mesmo, como pode ser «imoral» ou «patológica»? O acto de depilar o púbis ou os testículos é um sinal de doença mental ou de um vício moral que é urgente combater?! A angústia sobre o tamanho do pénis ou do desempenho sexual apareceram com a primeira exibição de um filme porno no cinema?! Quais as evidências de que a sexualidade dos jovens sob a influência da pornografia é pior do que a dos jovens de antigamente, que supostamente nada sofreu?! Pode-se certamente criticar a estética porno, achá-la feia ou ridícula (e nem todos concordam quanto a este assunto). Mas por que fazê-la responsável por males psicológicos ou morais?!"

Texto «Ados et porno: où est le mal?» de Agnès Giard
com tradução livre minha

Amor... com amor...




Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)

10 julho 2013

«A esposa maria» - João

"Minha Maria e Esposa. Sinais de que um casamento está podre, ou de que um homem pretende que fique. Aceleradamente. Das piores coisas que um homem pode fazer é chamar à mulher com quem vive, tendo casado ou amigado que para este concreto é razoavelmente irrelevante, ”a minha maria” ou “a minha esposa”. Tenho dito, desde que me lembro e mesmo correndo o risco de me lembrar já muito pouco, que os homens precisam, nas suas fêmeas, de mães, amigas e putas. É a trindade sagrada de uma relação de longo prazo, nem sempre como vasos comunicantes que equilibram, mas com doses variáveis de alguma dessas qualidades conforme a hora do dia e do dia da semana. Chamar a uma mulher “a minha maria” é matá-la como puta e talvez mesmo como amiga. A minha maria é aquela que me limpa a casa e esvazia o cesto da roupa suja, aspira o cotão do chão e lava os pratos. A minha maria é aquela que me passa a roupa a ferro. A minha maria é, em suma, muito mais uma espécie de mãe do que qualquer outra coisa. As mães, já se sabe, não se fodem. Acarinham-se. Mas o carinho não faz ninguém feliz por si só ao longo de uma vida inteira. Tem de haver sempre algo mais.

As esposas também não servem. A esposa é porcelana no armário. A esposa é aquela mulher que se trata com luvas de silicone, sempre a uma distância segura. Uma esposa será porventura amiga, mas dificilmente puta. Talvez também sobretudo mãe. Uma esposa não se faz vir, vezes e vezes seguidas. A uma esposa concede-se uma foda de calendário, para marcar território. Mas as esposas não fazem vibrar. As esposas são assépticas, são universos de cheiro a éter, são seres quase assexuados. Quase, porque, bem se sabe, o tempo sobre o tempo que passa, de se ser maria e esposa, faz delas, um dia, mulheres de outros, e a nós, machos de outras fêmeas também.

Matilha, homens de tomates bravos, ouvi-me. As mulheres com quem se vive não são marias nem esposas. São mulheres. As vossas mulheres. São aquelas gajas que fodem contra as paredes, que vos chupam como se o amanhã estivesse condensado nos vossos falos, que vos cravam as unhas na pele sem medo de vos magoar ou arranhar, que vos mordem a boca quando vos beijam. São as mulheres que vos oferecem o corpo e vos dizem “anda cá” para entrarem nelas a gosto. E uma maria, ou uma esposa, nunca será isso, nunca vos levará daqui a acolá sem saberem como, nunca vos deixará com cara de idiota quando se sentem deslizar como faca quente em manteiga."

João
Geografia das Curvas

«conversa 2000» - bagaço amarelo

Ela - Estou completamente apaixonada!
Eu - A sério?! Fixe! Há muito tempo que não te via com essa luz.
Ela - Acho que vou fazer uma tolice!
Eu - Que tolice?
Ela - Perco o Amor a noventa euros e compro uns sapatos que vi hoje numa montra.
Eu - Espera aí. Estás apaixonada por uns sapatos?!
Ela - Claro. Achas que ainda me consigo apaixonar por homens?
Eu - Nem sei que te diga...
Ela - Uns sapatos, pelo menos, nunca desiludem...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Só pelas risadas

Não tem outra razão.



Acho que deveriam ser arqueólogos ai, mas tudo bem.

Capinaremos.com

09 julho 2013

Isto é que são poderes sobrenaturais!

Eva portuguesa - «Para mim...»

"Sentei-me à beira-mar
O sol batia-me no rosto
O vento fazia-me arrepiar...
Olhei em teus olhos
Vi-me reflectido em ti.
Suavemente tocaste na minha mão.
Estremeci... corei... sorri...
Ninguém controlava aquela situação
Ninguém sabia onde ia parar...
Um leve suspiro...
Uma momentânea troca de um olhar...
E tanto que te queria dizer...
Dei por mim na tua boca
Um toque... um beijo...
Nada mais ficaria por dizer
Sentias o meu desejo
Era mais do que podias saber...
Queria-te mais que tudo...
E ali ficámos... olhando o horizonte
Abraçados... longe do mundo
Entre beijos e olhares e carinhos
E palavras sinceras que saíam...
É assim que me fazes sentir
É assim que quero estar
Junto a ti... sentir-te... beijar-te...
Estarei a sonhar? Sim, estou...
Mas estamos quase a acordar
E um no outro vamo-nos saciar..."

Este texto foi uma dedicatória que me foi feita.
Quis partilhá-la convosco.


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Água» - Susana Duarte

________enxuga os dias sobre os olhos da noite____________

a noite aproxima os deuses da aragem madura
das amoras

e pernoita sobre o teu ventre

_______enxuga os dias sobre as lágrimas da noite________

e refaz as pedras de todos os passos alados
das aves

onde demoras a semente,
onde a foz se espraia na boca
e a boca se perde nas flores

da água

que tens nos olhos.


Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

Bastão com sexo oral

Que tal este bastão que chegou agora à minha colecção?





08 julho 2013

Sqweel 2 - a reinvenção da roda

«conversa 1999» - bagaço amarelo

Eu - Queres um bocado de chocolate?
Ela - Não, obrigado.
Eu - Não queres?! Eu não resisto a uns quadrados dum Cadbury, de vez em quando...
Ela - Estou um bocadinho gorda e entrámos na Primavera. Não posso.
Eu - O que é que a Primavera tem a ver com isso?
Ela - Vem aí o calor e as roupas mais curtas...
Eu - Ah! Percebo...
Ela - Percebes?!
Eu - Sim, queres poder usar umas t-shirts sem se notar o pneu da barriga...
Ela - Dá-me aí um bocadinho. Estou a ficar deprimida.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Luís Gaspar lê «O dia seguinte do amor» de Vicente Augusto de Carvalho

Aves fugidias que passais em bando
Pelo azul da tarde sobre o azul do mar,

Aves fugidias que passais cantando,
que fazeis? Passar.


De repente surgis. No vasto céu
Um turbilhão de alvura de repente cresce;
Passa, afasta-se, e ao longe, e como apareceu

Desaparece.
Brancura macia de plumas, rumor leve

De asas que ruflam devagar,

Passais como flocos de neve
Que sussurram no vento e se desfazem no ar.


De tudo isso que resta? Um quase nada: apenas
Em meu olhar distraído
A vaga impressão de uma alvura de penas,

E o eco de um rumor cantando em meu ouvido.

Vicente Augusto de Carvalho
(Santos, 5 de abril de 1866 — Santos, 22 de abril de 1924) foi um advogado, jornalista, político, abolicionista, fazendeiro, deputado, magistrado, poeta e contista brasileiro.

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

Pare de olhar meus peitos

Acontece também com homens.



homens mutantes.

Capinaremos.com

07 julho 2013

Nowness -«Rainbow Warrior»


NOWNESS: Rainbow Warrior from KT Auleta on Vimeo.

«Timidez em Coimbra» - por Rui Felício


Viam-se todas as manhãs...
Ele, segurando uma pasta de cabedal, a descer a Avenida Sá da Bandeira em direcção à baixa e ela, carteira a tiracolo, a subir a caminho da Praça da República.
O Carlos Marques, elegante, aprumado, bem vestido, era um jovem alto, bonito, bem parecido. Tinha acabado o curso de Direito há um ano, estagiando agora num escritório de advogados da Rua Ferreira Borges. Fazia-o apenas para ganhar tarimba, porque aguardava resposta a um requerimento que fez para ingressar num serviço público adequado à sua formação jurídica, porque era aí que desejava fazer carreira, longe dos holofotes de teatro que considerava ser uma sala de audiências de um tribunal.
Sofria de uma profunda e agoniante timidez, que o fizera passar obscuro pelos bancos da faculdade, fechado em casa às voltas com os livros, longe das folias e da boémia coimbrã. Achava que essa forma de ser o desaconselhava de abraçar a advocacia, profissão para a qual, segundo pensava, não estaria talhado.
A Marília, moça de olhos vivos, cheia de vida e sorriso cativante, olhava aquele belo rapaz ainda ele vinha longe, sempre à espera de um gesto seu, de um sorriso, algo que lhe mostrasse que também ele reparava nela.
Sentia-se atraída pela sua esbelta figura e estaria pronta a aprofundar o conhecimento com ele, talvez um relacionamento, um namoro até, mas os dias sucediam-se e nada da parte dele o proporcionava.
Por vezes os olhares encontravam-se, mas quando assim sucedia ele desviava propositadamente os olhos, parecendo envergonhado, incomodado, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito.
O que a Marília não sonhava é que o Carlos estava perdidamente apaixonado por ela e que só a timidez e a insegurança o impediam de o manifestar.
Uma noite, na solidão do seu quarto alugado na Rua Tenente Valadim, o Carlos encheu-se de coragem e decidiu escrever um bilhete que de manhã lhe entregaria quando passasse por ela.
Na manhã seguinte, afrouxou o passo sem parar, deu-lhe o papelinho, dobrado em quatro, quase sem olhar para ela e prosseguiu a marcha cabisbaixo, já intimamente arrependido de o ter feito.
Surpreendida a Marília, desdobrou a bilhete e leu as palavras cuidadosamente desenhadas. Era uma frase simples, mas agradavelmente reveladora: “Gosto muito de si. Desculpe!.”
Olhou para trás mas ele já ia longe. Nem sequer sabia o seu nome, nem onde trabalhava, nada! Especada, ficou a vê-lo desaparecer na curva da Escola Avelar Brotero.
No dia seguinte, a Marília esperou por ele nas escadas do Teatro Avenida, firmemente disposta a enfrentá-lo.
Quando ele se aproximou, colocou-se ostensivamente à sua frente barrando-lhe o caminho e disse-lhe com um sorriso:
- Obrigada pelo seu bilhetinho de ontem. Quero que saiba que também gosto de si.
Pareceu-lhe ver um ligeiro rubor na face quando ele se atreveu a dizer-lhe:
- Gostava que pudéssemos encontrar-nos para nos conhecermos e conversarmos.
- Também gostaria muito, respondeu-lhe a Marília, mas infelizmente, ainda esta noite, vou para as Termas de São Pedro do Sul e ficarei por lá durante um mês. O meu pai todos anos lá vai fazer tratamento a uma doença de varizes que o apoquenta.
- Combinaremos então quando regressar, se estiver de acordo, propôs-lhe o Carlos, pesaroso, mas esperançado.
- Está bem, respondeu a Marília. Até daqui a um mês então...
E seguiram cada um para o seu destino. Na atrapalhação do momento, nem ao menos se lembraram de perguntar um ao outro como se chamavam.
--------------
Uns dias depois o Carlos Marques recebeu um oficio do Ministério do Interior, a comunicar-lhe a sua admissão ao serviço a que concorrera.Era uma boa noticia!
Entretanto, em São Pedro do Sul, a Marília encontrou um antigo colega de escola que não via desde há muitos anos.
Era o Tibúrcio, agora médico a trabalhar nas Termas.
Todos os dias se encontravam e rapidamente a Marília esqueceu o tal rapaz de Coimbra. Começaram a namorar.
Não era um namoro de férias.
Estavam verdadeiramente apaixonados, a tal ponto que decidiram casar-se o mais brevemente possível.
Afinal já se conheciam desde crianças e não tinham quaisquer dúvidas sobre a firmeza do seu amor.
O Carlos é que, já no seu novo trabalho, não conseguia deixar de pensar na sua amada.
Contava os dias para o regresso dela a Coimbra, para a ver, para lhe confessar o delírio da sua paixão, já imaginando deleitado os beijos que um dia trocariam quando começassem a namorar.
Vivia ansioso, de coração apertado pela paixão quase doentia que o acometera.
Mas o mês passou, os dias e as semanas foram correndo, e a Marília nunca mais apareceu pela Avenida Sá da Bandeira.
E ele penalizava-se por, estupidamente, nem sequer lhe ter pedido a morada.
Agora, não fazia a mínima ideia de como a encontrar, de como a procurar.
Mal adivinhava o Carlos que ela deixara o emprego e por isso nunca mais passara na avenida como antes. Andava atarefada a tratar dos preparativos para o casamento com o Tibúrcio.
A data foi aprazada, trataram da papelada e, finalmente, no dia da cerimónia, a Marília e o Tibúrcio foram à Conservatória do Registo Civil para celebrarem o casamento.
Nervosos e irradiando felicidade, os noivos, as testemunhas, os convidados e familiares, entraram na salão de actos da Conservatória.
Esperaram uns minutos e a funcionária informou-os que o Dr. Carlos Marques, Adjunto do Conservador, estava quase a chegar e que seria ele a celebrar o matrimónio.

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido

Além mar

(Foto © J.P. Sousa, 2005, Ousadia)

O mar vivo na ponta de Sagres não dava para andar ali à vela mas que lhe importava isso agora que conhecera aquele pescador de Lagos, com o rosto tisnado pelo sol mas senhor de uma pele jovem e macia pela qual a sua língua aguava.

Aqueles glúteos eram o império que atraía e que era forçoso agarrar com ambas as mãos, espalmando-as para puxar à sua face o padrão das descobertas e dar azo ao prazer do céu da boca. E quando lhe sentia o corpo a ajoelhá-lo no chão e a empurrar-lhe as nádegas com as coxas em vagas altaneiras, toda a linha do horizonte se tornava uma praia paradisíaca.

Mais a mais que desde que contratara a bom preço escudeiros e homens de várias nações para irem rentinhos à costa à cata do Preste João das Índias, que bem lhe tinham ficado de emenda os balanços e os vómitos da vez que foi a Ceuta e depois a Tânger, tinha todo o tempo do mundo para conviver com os rapazes algarvios que eram todos bem apessoados e seguros e despachados no manejo dos mastros, como se fossem espadas como na tropa.

Não fosse estarem sempre a chamá-lo à corte para o retrato de família e seria senhor absoluto da sua vida como num castelo onde todos se prestavam a servi-lo com delícias. Embora tivesse de convir que aquele chapeirão de abas largas com aquela enorme e voluptuosa fita pendurada lhe dava um ar de verdadeiro conquistador, habituado ao exotismo e calores medievais das praças marroquinas.


Mais feministas...


Via Meus Nervos!

06 julho 2013

«Make Up Your Mind»


Make Up Your Mind from Steven Whore on Vimeo.

«conversa 1998» - bagaço amarelo

Ela - Olhas para as tuas mãos...
Eu - O que é que têm?
Ela - Estão secas. Será que nunca pões um creme nessa pele?
Eu - Não, nunca ponho.
Ela - Estás a gozar!
Eu - Não estou nada.
Ela - Nunca puseste um creme nas mãos?
Eu - Não.
Ela - Então como é que fazes para as hidratar?
Eu - Bebo coisas. Água, cerveja, vinho, leite, uísque...
Ela - Está explicado porque é que é tão mais fácil ser homem...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Poster do filme «Celles qu'on n'a pas eues»

Um mimo de cartaz de cinema francês, de 1981: «Celles qu'on n'a pas eues» (aquelas que nós não tivemos), de Pascal Thomas.
A partir de agora, esta na minha colecção.

Homens, mulheres, e decotes


Via Testosterona

04 julho 2013

Cuca mini - «Tarraxinha»

«Papo de peida» - Patife

Foi no final de um jantar com pessoas da classe alta que, após uns valentes copos de um maravilhoso vinho tinto, usei a expressão “peida”. A incómoda pausa que se sucedeu foi indicativa de que eu, tal como o Pacheco tantas vezes o faz, tinha ido longe demais. Mas confesso que não percebi o constrangimento. Não estava a falar de uma peida qualquer. Se estivesse a falar de uma peida descaída, cheia de pêlos, mal amanhada e com uma disseminação de celulite a tentar recriar um queijo suíço, até percebia. Mas sou um cavalheiro e não ia introduzir uma peida qualquer num jantar da primeira divisão da classe social. Dado o silêncio cortante achei que devia explicar isto. É que eu referia-me a uma peida de contornos perfeitos e não a um pacote com potencial para tirar o apetite de vosselências. Falava de um daqueles papos de peida que passados dois anos os dedos ainda ficariam erectos só pelo leve mencionar de tal pandeireta que, um dia, profanaram à bruta. E, gajo sabido, ainda me precavi explicando que não foi por qualquer fixação anal. Que não sou um fetichista da bilha. Foi mesmo por despeito, pois só reparei no papo de peida da moça depois de lhe ter tentado desonrar a senisga. E digo desonrar porque pelo aspecto devia ser considerada uma chona santa devido à falta de uso. Não tivesse ela uma bichana tão abandonada às traças e muito provavelmente nem teria reparado na bufa. É que até cheirava a mofo. Com isto lembrei-me da casa da minha tia avó e daí a imaginar um naperon a tapar-lhe a pachacha foi um tirinho, o que acabou por praticamente me obrigar a virar para a peida.

Patife
Blog «fode, fode, patife»

Belicismos

Para além da preocupação demonstrada pelos homens em relação ao tamanho do pénis, existe uma, mais esconsa e menos publicitada, mas não menos absorvente: a força com que é projectado o esperma.
Diz-me a minha vasta experiência que esta condicionante masculina não tem variantes múltiplas. Os tons cinza nesta paisagem a preto e branco, são escassos. Pelas minhas mãos passaram orgasmos masculinos que me fizeram pensar que, se não tivesse cuidado, ficaria com estalactites em todos os compartimentos. A força, o ímpeto, o impulso, a pujança e a energia com que era expulso o esperma humilhavam qualquer fonte luminosa com ambições de chafariz. Outros tive em que o espesso líquido quente e encorpado, escorria lento pelo corpo do pénis, depois de um primeiro jacto de potência pouco significativa.
Acredito que se torna mais interessante um disparo, abundante e de longo alcance. Todas as mulheres se consideram responsáveis pela quantidade e robustez da lava deste vulcão. No entanto, há fogos de artifício, elevados ao céu com a energia de foguetões da NASA, que não possuem a qualidade e o estranho e despudorado brilho do prazer do fogo preso. O deslizar lento e compacto, denso e grosso da massa leitosa que um pénis faz surgir enquanto lateja nas mãos de quem o manipula, pode ser bem mais sugestivo e capaz de despoletar manobras inolvidáveis que aproveitam esta quase seráfica forma de culminar um orgasmo.
É em nós que reside a capacidade de rentabilizar o modo como os machos se consomem na inconsciência de um orgasmo.
Não importa muito o ângulo e o alcance do míssil. O que interessa é sempre a arma que o dispara.
Camille

Quem é o melhor no sexo?

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03 julho 2013

«Croissant» - João

"Bom dia. Um croissant com queijo e manteiga. Um croissant com fiambre, sem manteiga. Um néctar de pêra e um galão por favor. Uma mesa. Gente. Barulho. Dois. Sentados com as mãos unidas por baixo da mesa, com as pernas juntas, entrelaçadas ou apenas numa pressão que diz “abre-me”. Seis vinte. Obrigado e até depois. Abre-me. Passeamos entre as gentes, os sapatos trilhando passos em calçada ou paralelo, a mão no rosto e um beijo. E o baloiço no ritmo. A ausência, alheamento, gotas que escorrem na pele até encharcar. Manteiga e cabelos colados. Mortes seguidas a mortes. Falta de juízo. Até aborrece.

E depois vieram os dias grandes, veio o calor, a roupa ficou mais curta e menos numerosa, mas os calores que aquecem os corpos, como fogueiras debaixo de lençois, estavam amarrados. Já não havia pedras de calçada num caminho nocturno, lento, para um miradouro, não havia o olhar trocado a uma mesa que insistia em dizer “abre-me”, não existiam as mãos cruzadas atrás do pescoço, as unhas cravadas, o agarrar fervoroso que grita abre-me, abre-me, abre-me. Nas voltas que o mundo deu, rodou demais, e atirou tudo para longe, dispersando os croissants com queijo e fiambre, roubando a manteiga e os néctares, separando o café do leite."

João
Geografia das Curvas

«conversa 1997» - bagaço amarelo

Ela - O meu marido manda-me calar várias vezes, sem sequer dar por isso.
Eu - Manda-te calar?
Ela - Sim, em conversas com amigos, por exemplo. De repente sai-lhe um "tá calada!" e depois continua como se nada fosse. Detesto isso. Ainda ontem me aconteceu num jantar...
Eu - Se dizes que ele nem dá por isso, talvez devesses avisá-lo de que ele o faz, se calhar inconscientemente...
Ela - Não percebes mesmo nada de mulheres, pois não?
Eu - Mas porquê?
Ela - O que me incomoda, precisamente, é ele nem dar por isso. É-lhe natural mandar-me calar e pôr-me para segundo plano. Acho que a única saída disto vai ser o divórcio.
Eu - Divórcio?! Não estarás a exagerar?
Ela - Está calado.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Frase publicitária


A minha versão disto.

A liberdade é questionável

O que é ser livre pra você pode não ser para o seu vizinho.



Você tem que aceitar e se adaptar a todas escolhas e liberdades dos outros, ou não.

Capinaremos.com

02 julho 2013

Ilustrações eróticas chinesas do início do século XIX

"Apesar de muitas ilustrações eróticas chinesas terem sido destruídas durante a revolução cultural, na minha humilde opinião são ainda mais belas e delicadas do que as ilustrações shunga japonesas. Acho que existem poucas referências à ilustração erótica chinesa em detrimento da japonesa - que também é muito bela... mas as chinesas conseguem ser mais explícitas e deliciosas"
MJC




Eva portuguesa - «De volta ao trabalho»

De volta ao trabalho.
De volta ao meu ninho, onde tenho sido feliz tantas vezes.
De volta aos "meus homens", que me fazem sorrir, ter prazer, sentir-me desejada e me permitem ter uma boa vida.
De volta aos que me querem, aos que sentiram saudades, aos que ainda não me conheceram mas querem fazê-lo.
Segunda feira estou de volta...
Para vos receber com um sorriso, um abraço, um beijo.
Para vos dar prazer e vos poder sentir.
Para vos oferecer um café e um chocolate.
Para tentar ser aquilo que esperam de mim.
Para poder dar, receber e partilhar... suspiros, gemidos, minutos, conversas, pedaços de vida e pedaços de nós, pessoas, homem e mulher numa busca conjunta de prazer, de pequenos prazeres.
Sou vossa e volto para vós...
A partir de segunda feira, das 11h às 20h no sítio de sempre...
Na minha cama, que só está completa quando vocês lá estão.
Eu volto para vocês... e vocês, voltam para mim?


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Seda» - Susana Duarte







caminho navegando as ondas
da tua serenidade alada, seda lavrada das noites
e dos olhares marginais das borboletas. sobre as asas
caminho, e sobre o caminho, perpetuo imagens de urdiduras

de mãos que se tocam.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

Mulher deitada e mulher sentada

Sou cliente, há muitos anos, de várias lojas de artesanato das Caldas da Rainha. Uma dessas lojas, de visita obrigatória quando posso ir àquela cidade (que adoro) é a «Artesanato Costa», na Rua de Camões, em frente ao parque da cidade e muito perto da Pastelaria Machado (onde também recomendo as pilas, em maçapão com chocolate nos... na base e calda de morango na ponta).
Como não vou a estas lojas com muita frequência, é natural que as pessoas não me identifiquem. Mas basta um pequeno diálogo para eles reconhecerem que "você é especialista na matéria".
Em 1997, comprei duas estatuetas em barro que achei deliciosas, da autoria de Manuel Rodrigues, um artista das Caldas da Rainha. Aqui estão elas... na minha colecção:



01 julho 2013

Que sonho...


The Dream from Jerome Genevray on Vimeo.

«conversa 1996» - bagaço amarelo

Ela - A tua cadela é tão gira!
Eu - É! Agora está gira, sim. Quando a fui buscar ao canil estava muito maltratada e nem eu próprio percebi que ela era tão gira.
Ela - O que é que lhe fizeste, então?
Eu - Nada. Dou-lhe água, comida e levo-a à rua de vez em quando. Uma vez por outra dou-lhe banho.
Ela - Pois... era o que eu precisava que alguém me fizesse.
Eu - O quê?
Ela - Que me dessem água, comida e me levassem à rua de vez em quando. O banho, uma vez por outra, também podia ser...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Luís Gaspar lê «Madrigal» de Sebastião da Gama

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

“Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta…”

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).

Sebastião da Gama

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

Brasil ganha a Copa das Confederações e mostra... como comemorar no futebol de forma interessante para as mulheres



Via Sweetlicious

... mas o Brasil também sabe cativar os homens para a bola:



Via Testosterona

O grande perigo

Se eu morrer, por favor venham apagar meu histórico, rápido.



O relacionamento nunca mais será o mesmo.

Capinaremos.com

30 junho 2013

«Poema da buceta cabeluda» - de Bráulio Tavares


Poema da buceta cabeluda from Pequenos Delitos on Vimeo.

«A turma dos matulões» - Quito Pereira


O professor de Geografia era bruto. Um grande bruto. Um dia, se não me baixava, quando sentado na carteira ouvia mais uma lição sobre os Montes Apalaches, levava com a cana na cabeça, arremessada com a força e a maestria de um lançador de dardo. Mas tinha razão o austero professor, descontando os seus acessos de fúria. Na verdade, os alunos deixavam muito a desejar. Namoradeiros, faltavam com frequência às aulas, para se embrenharem pelo Jardim da Sereia, onde faziam juras de amor às desprevenidas donzelas, que embarcavam desfalecidas na nau argumentativa dos farsantes.
Na realidade, a única disciplina que levavam a peito, até só era dada na Universidade: anatomia comparada.
Quando a professora de História Universal, apareceu vestida de preto no seu traje de viúva, houve um esgar de espanto na arena. Trinta e poucos anos muito bem conservados e um vestido justo que pôs o Pedro Chá-Chá a delirar de entusiasmo, enquanto descascava umas pevides com aquele barulho irritante que vinha lá do fundo da sala. Trac–trac-trac…
Ela, a professora, talvez já avisada que ao entrar na sala de aula era mesma coisa que embarcar num navio de corsários, quis impor-se logo de início. Hirta e solene na secretária, que por infelicidade dela e gáudio dos galfarros deixava ver as pernas bronzeadas e bem moldadas, a docente por decoro sentava-se de lado, como se tivesse um furúnculo na região glútea.
Descaradamente, a classe dos pardalões não disfarçava nada, com os olhos pregados no fundo da secretária, muitos mais interessados nos atributos da Senhora, que nas barbaridades jacobinas do Senhor Robespierre.
Foi então que a paciente professora, pediu um livro de História Universal para consultar. Azar o dela. Avançou então o compêndio do Francisco Mendes que, pacientemente, tinha recortado de um livro todas as caras das figuras de Walt Disney e colado nas imagens dos grandes vultos da Historia. Assim, Luís XVI com as suas sumptuosas vestes, com a cara de um dos irmãos Metralha, Maria Antonieta com a risonha simpatia da pata Margarida e Napoleão Bonaparte montado no seu cavalo rampante, com o rosto do avarento Tio Patinhas. Foi então, que aquele semblante carrancudo da viúva triste se desfez. Cada virar de página, uma gargalhada. Decididamente, a entusiasmante professora tinha perdido o controlo da nave dos loucos.
Porém, a turma dos matulões tinha por ela um certo carinho e consideração. Talvez por ser tão nova e desamparada de marido, embora se perceba que o que não faltava era ombros onde pudesse encostar a cabeça, ávida de uma palavra de conforto.
Mas a consideração que tínhamos por ela, nada a tinha a ver com o respeito que um padre idoso que um dia lá apareceu, também nos deveria merecer, para lecionar uma nova disciplina: MORAL …
O Padre Bento, diretor do Colégio, achou que os desvairados alunos precisavam urgentemente de umas lições que iluminasse o caminho dos desavindos. Achou mal. No dia em que um padre amparado numa bengala, recrutado no seminário, apareceu para a primeira aula, o grupo olhou-o com desconfiança e de sobrolho franzido. O velho padre, dialogante, quis pôr a turma à vontade. Perguntem o que quiserem meus filhos, até podemos falar das dúvidas e angústias que vos atormentam sobre a vida sexual – disse ele com a sua bonomia clerical estampada nas bochechas gordas e rosadas. Fez mal. Porque as perguntas e dúvidas eram de tal maneira escabrosas, que o ancião pediu a demissão. À segunda aula, acabou-se a disciplina de Moral.
Há tempos, encontrei o Valera, também ele ex - aluno do Colégio naquela época. É hoje general do exército angolano, terra onde nasceu e reside. Foi com emoção que nos abraçamos. Jamais o reconheceria de tão diferente que está. Mais de quarenta anos passados, o reencontro. E lembrámos as tropelias e diabruras de que também fomos cúmplices no Dom João de Castro. E rimos até às lágrimas…
Quito Pereira
Blog Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos

Swapa-me



HenriCartoon

Cartão cliente


Aquela relação de cartão cliente, com os papéis preenchidos na Conservatória Civil, funcionava para ambas as partes. Quanto mais uso, maiores eram os descontos. Um exemplo disso é que por vezes as duas meias pernas viam a sua depilação remetida para segundo plano por outros afazeres e ele enganchava as deles nas minhas, como se não estivéssemos a rechear um peru sem previamente o ter chamuscado. Noutras alturas, ele chegava a casa à beira de um ataque de exaustão e por manifesta carência de forças que quase só lhe mexiam os olhinhos, atirava-se derrotado para o sofá e eu acercava-me de mansinho, corria-lhe o fecho das calças e fazia saltar para as minhas mãos o pardalito atordoado alisando-lhe as penas em bicadinhas e lambidelas molhadas para o arrebitar.

É claro que estes cartões de fidelização nos iludem com os descontos e acabamos por insistir nas compras como uma obrigação ou carregamos com embrulhos que de outra forma não compraríamos como o tio chato como a potassa, a sogra intrometida como o bico de um aspirador ou um daqueles animais de estimação que desenham com rasgos de génio nos sofás e cortinados ou que nos obrigam a ir à rua três vezes ao dia faça sol ou faça chuva. Fora aqueles dias em que cada um ocupa todo o espaço dos expositores e o outro fica a mais em qualquer canto que seja.

Nada disto acontece no mundo perfeito das compras extraordinárias sem cartão, nos dias marcados em que os produtos se apresentam a 100% da atractividade como numa expo-qualquer-coisa, tanto mais que estes frescos têm um prazo de validade limitado. O único azarito é que se nesse dia falhar a temperatura ambiente não há desconto para ninguém.