Sempre que a olhava percebia o privilégio. Sempre que a deixava cometia um sacrilégio e cumpria penitência, perturbado pela sua ausência, abrindo o peito aos requintes da maldade de um algoz chamado saudade que o consumia na câmara lenta, uma sensação que atormenta, um relógio imaginário com os ponteiros em sentido contrário, em rota de colisão com o caminho do coração acelerado pelo tempo quase parado, paradoxal, numa ansiedade fora do normal que o agitava por dentro e lhe baralhava as reacções.
Sempre que a pensava incutia mais tentações na vontade que já sentia de a tocar de verdade e de a arrepiar como se sabia capaz. Sempre que a deixava para trás, no seu ponto de partida, sentia a despedida como um castigo, a saudade sem abrigo exposta no olhar que a revelava, a imagem de um calendário com os dias em sentido contrário, no beijo demorado que anseia o tempo parado, contra-senso, e dessa forma acaba por anunciar, intenso, a chegada de um outro tempo que tanto custa a passar.
29 março 2010
Pétalas do meu desejo

Toma os meus seios perfeitos
Que cabem inteiros nas tuas mãos
Passa tuas mãos no meu corpo cansado
Sente os meus seios gelados
Que são mais teus do que meus
Beija meu peito inquieto
Tal como a asa procura a flor
Empresta-me o doce trago da tua boca
Da tua língua humedecida
Onde se esconde o teu mel
Chamo-te com as mãos
E abro-te meu peito
Desce de onde estiveres, meu amor
Sorve de meus beijos, regatos tranquilos
Onde se abrem nenúfares brancos e perfumados
Fecha tuas asas de luz
Nas pétalas do meu desejo
Amado da minha Alma
Desejada visão que me acompanha
Como um sonho de amor
Tu, minha espiga de oiro
Que o sol beija pela manhã
Sente meus seios macios e rijos
Prova a doçura da minha boca
Fecha esta porta tão aberta como meu peito
No meu leito não há muros
Nem meus braços se cruzarão
Quando tocares meu corpo
Pois que tu és meu senhor
E eu a escrava que te espera
Guarda meus seios
Nas palmas das tuas mãos
Meu desejo é que me desejes
Agarrada à tua carne
Selo meu para que não me percas
Maria Escritos
© Todos os direitos reservados
http://escritosepoesia.blogspot.com
28 março 2010
A prostituta azul
O homem tinha sido azul, nos tempos em que tinha sol que o aquecia. Agora, o azul empalideceu de cinzento. Agarrava todos os bocadinhos dessa cor que ainda lhe sobravam; nos cinzentos doía sempre uma dor vestida de prata aguçada, vestida da vida que sonhou um dia e que agora tinha e não sentia. Disse-lhe que lhe queria o corpo. Deu-lhe muitos daqueles papéis coloridos de feio que tinha na carteira. Deitou-a na cama e procurou os pedacinhos de azul que moravam no calor do sol dela.
Rimas
Daqui em diante
a tua palavra será muda
e surdos seremos,
porque nos teremos
em breve voz aguda.
Não voltes, não fales
(dirás coisas sem nexo)
cala-te, desaparece
deixa, esquece
e atira-te ao sexo.
Um dia não são dias
(já os avós diziam),
levemos de bem a vida
na linha enriquecida
dos romances que nos liam.
Nestas rimas tão simples
aflorou o sexo (por acaso),
era bom que assim fosse
um luar e um doce:
e adeus… acabou o prazo!
Foto e poesia de Paula Raposo
Vila Mimoza
Documentário de 2001 de Felipe Nepomuceno (6 minutos) sobre a Vila Mimoza, tradicional área de prostituição no Rio de Janeiro.
Outrora a Zona, o Mangue, o Baixo Meretrício. Cantada por poetas e sambistas de antanho, a mais tradicional área de prostituição do Rio de Janeiro agora ganha um documentário.
» Orquídeas do despudor - Património Erótico do Brasil
Link directo para o filme aqui.
Outrora a Zona, o Mangue, o Baixo Meretrício. Cantada por poetas e sambistas de antanho, a mais tradicional área de prostituição do Rio de Janeiro agora ganha um documentário.
» Orquídeas do despudor - Património Erótico do Brasil
Link directo para o filme aqui.
Porno para toda a família, mas desta vez mais perfeitinho
27 março 2010
Amor de puta: depois de mil "alguéns" ama alguém (II)
Claro que uma mulher que se prostitui também se apaixona. Que pergunta! Aliás, sempre se soube que o amor tem essa característica, a ironia e, se por todo o lado vai dando um ar de sua graça, nos lados a que não é chamado, quando se torna completamente inconveniente, quando tem nódoas de impossibilidade, dá um furacão de sua graça. Depois? Olhamos para ele, perfeita criatura, e perguntamos-lhe se, por acaso, não dará para guardar para tarde? Ri-se e, duas gargalhadas depois, instala-se na primeira fila e contempla entusiasmado. Claro que não se comove, segue de olhar atento, faminto de angústia apaixonada, o amante que agora se entrega ao descontrole cardíaco com que se confessa perdido e que, de vontade racional ajoelhada, (se) tenta convencer que sim, que é possível, que pode e conseguirá aceitar a partilha física da mulher amada, que é só a parte física, que os afectos são dele e que, vendo assim, se se concentrar muito nisso, até pode concluir que é o único que toca, verdadeiramente, a mulher querida. Vai tentar abstrair-se, não atribuir peso ou importância, ela é ela e ele ama e isso é o que realmente importa. Depois... talvez seja na primeira chamada não atendida. Que estará ela a fazer? E a imagem assalta, furiosa, nítida, com cheiro e som. Ciume. Dor. As perguntas rodopiam na cabeça. Quer saber. Não quer saber. Quer. Não quer. Ela chega ao fim da tarde. Um "como-foi-o-teu-dia-querida-?" é agora um drama. Sai disso, sai disso, sai disso. Não posso. Não posso. Não posso. Não quero. Não quero. Não quero. Não importa, nada me interessa, só tu. Não importa, nenhum me interessa, só tu. O amor cresce bem alimentado de afecto inchado de intensidade dramática, a carga emocional bem densa, tão típica dos amantes que se têm que agarrar com muita força. Ah, belo amor, diz-me, quanta pancada aguentas? Quantos corpos, quantos quartos alheios sugeridos à tua imaginação? Quantos corpos reais, surgidos por acidente, perante ti como amigos e familiares, já conhecem a mulher amada? E as dúvidas... Algum dia? Demora muito? Chegaremos lá? Voltará atrás? No meio de tantos, poderá conhecer um melhor? E o medo, o medo que nos descubram, que chegue a ouvidos alheios? Por isso, se ficares aí bem quietinho, senhor amor, não sou eu quem te vai buscar, não devo, não posso, não tenho promessas para fazer nem direcções para mostrar; nada, mesmo nada na mão que poderia estender. Posso, mas não devo, era tremendamente injusto. Se vieres sozinho, poupa-me a consciência o saber que tais coisas de tão grande vontade alheia a nós, não se permitem - mesmo que eu peça - guardarem-se para mais tarde, dominam o aqui e agora.
Museus do Sexo no Brasil
Descobri um blog brasileiro - museologando - onde a sua autora, Maíra Dias, mostra o resultado da sua pesquisa de museus do sexo no Brasil:
Museu da Sexualidade da Bahia (conhecido como Museu do Sexo) - "Funcionando provisoriamente na sede do Grupo Gay da Bahia desde 1999. O acervo conta com mais de 500 peças, sendo composto basicamente por cerâmicas eróticas do Nordeste, coleções de canecas oriundas de diversas partes do mundo, terracotas provenientes do Peru e México, de inspiração nas culturas Incaica, Asteca e Maia, esculturas em bronze e ferro da África Ocidental, porcelanas e metais da Holanda, França e outros países europeus, esculturas em metal e baixos relevos da Índia, cópias perfeitas de esculturas italianas das cidades de Pompéia e Herculano".
Há um "projeto da arquiteta Paula Posser, criado na sua monografia, do Complexo de Arte Erótica. Que incluiria, é claro, o Museu do Sexo!"
Museu Erótico de São Paulo - "funciona numa mansão nos Jardins (!) juntamente com uma locadora de vídeos e uma sex-shop".
"E finalmente descobri que o «Museu do Sexo» brasileiro é virtual! Idealizado pela Professora Carmita Abdo e bancado pela Pfizer! Em funcionamento desde 2003 tem um conteúdo interessante. Não gostei muito do layout da página, o que é compreensível por já ser um site «antigo». Mas o que não consegui entender de jeito nenhum foi usarem a Monalisa como símbolo... será que o mistério da Monalisa era outro?!"
Obrigada pelas dicas, Maíra Dias. Se um dia vieres a Portugal, estás convidada a visitar a minha colecção de arte erótica.
Museu da Sexualidade da Bahia (conhecido como Museu do Sexo) - "Funcionando provisoriamente na sede do Grupo Gay da Bahia desde 1999. O acervo conta com mais de 500 peças, sendo composto basicamente por cerâmicas eróticas do Nordeste, coleções de canecas oriundas de diversas partes do mundo, terracotas provenientes do Peru e México, de inspiração nas culturas Incaica, Asteca e Maia, esculturas em bronze e ferro da África Ocidental, porcelanas e metais da Holanda, França e outros países europeus, esculturas em metal e baixos relevos da Índia, cópias perfeitas de esculturas italianas das cidades de Pompéia e Herculano".
Há um "projeto da arquiteta Paula Posser, criado na sua monografia, do Complexo de Arte Erótica. Que incluiria, é claro, o Museu do Sexo!"
Museu Erótico de São Paulo - "funciona numa mansão nos Jardins (!) juntamente com uma locadora de vídeos e uma sex-shop".
"E finalmente descobri que o «Museu do Sexo» brasileiro é virtual! Idealizado pela Professora Carmita Abdo e bancado pela Pfizer! Em funcionamento desde 2003 tem um conteúdo interessante. Não gostei muito do layout da página, o que é compreensível por já ser um site «antigo». Mas o que não consegui entender de jeito nenhum foi usarem a Monalisa como símbolo... será que o mistério da Monalisa era outro?!"Obrigada pelas dicas, Maíra Dias. Se um dia vieres a Portugal, estás convidada a visitar a minha colecção de arte erótica.
26 março 2010
Encomenda-me uma noite
Um restaurante quase vazio. Fim de almoço. Uma mulher e um homem.
– Mas as coisas são simples.
– Achas?
– São, acabam por poder ser: tu podes-me ter, é só quereres.
– Eu não te quero assim.
– Não?
– Não, assim não.
– Não me queres?
– A questão não está no querer. Eu quero-te. Quero-te ter. Quero beijar-te, sentir a tua pele, o teu calor, o teu cheiro... Sim, na verdade quero tudo isso e quero mais... Quero… Quero dar uma…
– Não digas!
– O quê?
– Isso.
– Mas eu quero-te. Quero-te.
– Não é isso.
– Não? Então é o quê?
– Queca, ias dizer queca. Ias dizer, quero dar uma queca contigo, não ias?
– Ia. Não me soou bem mas ia, pareceu-me que era menos…
– Queca soa-me a favor.
– A favor?
– Sim, a favor. Não gosto. Não gosto da palavra queca. Não me diz nada, queca é a palavra mais assexuada, mais desenxabida, mais desinteressante que há e o acto de dar uma queca é igual. É uma palavra triste e feia.
– É menos forte.
– É menos tudo.
– Posso voltar atrás?
– Podes.
– Eu quero foder contigo. Que me fodas. Que te foda.
– Sim… Então, se me queres, tens-me.
– Eu não te quero assim. E não é o querer, é a circunstância, a forma, o modo.
– Estás a complicar o que não necessita de complicações. Sabes o que faço. Sabes o que sou.
– Sei.
– Sempre soubeste.
– Sim.
– Nunca ficou nada por dizer, nem nada por perceber, pois não?
– Não, foi o que combinámos.
– Queres-me…
– Quero.
– Então, encomenda-me uma noite. Encomenda-me por uma noite e tens-me.
– Não te posso ter assim… Nunca te terei assim.
– Não me queres ter…
– Quero… Quero mas não assim, não te quero a pagar, não te quero comprar. Não quero pagar para ter o teu corpo. Quero ter-te. Quero ter-te inteiro. Quero ter-te como tu me terás a mim, toda!
– Mas… mas…
– Diz! Diz! Diz o que tens a dizer, diz! Não fomos nós que instituímos que nada ficaria por dizer? Que nada omitiríamos um ao outro? Que... Diz! Diz.
– Não digo nada, Carmen. Digo que tudo isto foi um erro. Um estúpido erro que ambos sabíamos que estávamos a cometer. Uma brincadeira de adolescentes que não podíamos ter, que não íamos aguentar.
– Eu aguento. Tanto aguento que estou aqui contigo. E sou eu que tenho coisas a perder. Sou eu que sou casada, Raul, sou eu que tenho marido e filhos e sou eu que estou a almoçar com um acompanhante. Contigo, Raul, contigo.
– Foste tu que quiseste. Foste tu que, sabendo o que eu faço, o que eu sou, te quiseste aproximar de mim. Foste tu que disseste que não ias trair o teu marido, que só me querias conhecer, que me querias conhecer como outra pessoa qualquer.
– E tu quiseste a realidade, a realidade de uma mulher real, de uma mulher diferente das mulheres que te pagam para as foderes…
– Todas as mulheres são reais, Carmen, e se me procuram é porque precisam de mim…
– De ti, do teu corpo, do teu caralho…
– Estás enganada. As mulheres que me pagam precisam que eu as deseje, precisam que eu as queira, precisam que eu, enquanto estamos juntos, me preocupe com elas, com os seus desejos, com os seus gostos e vontades. Precisam do meu sorriso, da minha atenção…
– E que as fodas…
– E que as foda, claro. Que as foda bem, que as foda como não as fodem. É o meu trabalho, Carmen, é o meu trabalho e tu sempre o soubeste.
– Mas nós…
– Não há nós, Carmen. Ou melhor, há nós aqui, nós a tomar café, nós a lanchar, a conversar, a trocar mensagens. Nós a rirmo-nos de nós, nós… mas não há mais nós do que isso. Não há esse nós, não pode haver.
– Não queres que haja.
– Não quero.
– Não queres mas se eu quiser, comp… Encomendo-te por uma noite, não é?
– Não. Agora não. Não ia ser bom para qualquer de nós. Era mais um erro sobre o erro que já cometemos.
– Não me fodias mesmo que eu te pagasse?! Sou assim tão repulsiva?
– Não, não tem nada que ver com isso.
– Não?! Como é que explicas que homem não queira uma mulher?! Como é que explicas que um homem não queira uma mulher que lhe paga para a comer?
– Porque…
– Não digas que é por gostares de mim ou por me respeitares ou… ou o caralho! Não me digas nada, foda-se! Não me digas nada!
– Tenho que dizer, Carmen…
– Eu não me chamo Carmen.
– O quê?!
– Eu não me chamo Carmen.
– Não?!
– Tal como tu não te chamas Raul.
– Não?!
– Chamas-te?
– Raul?
– Sim.
– Não.
– Chamas-te António.
– E tu?
– Eu não.
– Tu não, o quê?
– Não me chamo António.
– Não pensava que te chamasses António.
– Chamo-me Ana.
– Ana?! Ana?! Não te chamas mesmo Carmen?
– Não, chamo-me Ana, Ana Maria.
– Ana Maria?!
– Sim, Ana Maria.
– Ana Maria?!
– E tu, foda-se?! Mas que merda de nome é esse? Achas que Raul é mais macho, é?
– Ana Maria… Raul é o meu nome… é o meu…
– É o teu nome artístico.
– Pois, não gosto de António. Nunca gostei. Nem de Ana Maria, se queres saber.
– Não quero mas já tinha reparado… Uma careta bastava…
– Uma careta?
– Sim, bastava uma, não era preciso fazeres uma careta de cada vez que repetias Ana Maria.
– Eu… Eu não…
– Não interessa… Não interessa nada… Não interessa mesmo nada… Sabes, acho que afinal eu… Afinal eu era, eu sou!, uma mulher como as outras. Uma mulher como todas as outras.
– Eu não acho isso.
– Eu também queria a tua atenção, o teu sorriso. Eu também queria que tu me quisesses, que te lembrasses de mim, que te preocupasses comigo enquanto estás comigo, que tivesses atenção aos meus gostos, aos meus desejos… Sou igual.
– Não és.
– Não?!
– Não.
– Não quis, ou melhor, não quero. Não quero eu também o teu corpo, o teu caralho dentro de mim?... Estúpida! Sabes o que eu sou?
– Não és.
– Sou. Sou estúpida. Sou estúpida e tenho a mania que é o meu cérebro que manda…
Um empregado aproxima-se, todo vénias e mesuras, pede desculpas, pergunta se querem mais alguma coisa, repete as desculpas, agradece a resposta negativa e informa que vai tirar a conta. Afasta-se.
Ela segura na mala, que pousa nas pernas, hesita sem se mover e decide:
– Adeus, Raul. Obrigado.
Ele olha-a, sem reacção, vê-a levantar-se, rodear a mesa, beijá-lo no rosto e despedir-se:
– E obrigado pelo almoço, Raul. Adeus.
– Mas as coisas são simples.
– Achas?
– São, acabam por poder ser: tu podes-me ter, é só quereres.
– Eu não te quero assim.
– Não?
– Não, assim não.
– Não me queres?
– A questão não está no querer. Eu quero-te. Quero-te ter. Quero beijar-te, sentir a tua pele, o teu calor, o teu cheiro... Sim, na verdade quero tudo isso e quero mais... Quero… Quero dar uma…
– Não digas!
– O quê?
– Isso.
– Mas eu quero-te. Quero-te.
– Não é isso.
– Não? Então é o quê?
– Queca, ias dizer queca. Ias dizer, quero dar uma queca contigo, não ias?
– Ia. Não me soou bem mas ia, pareceu-me que era menos…
– Queca soa-me a favor.
– A favor?
– Sim, a favor. Não gosto. Não gosto da palavra queca. Não me diz nada, queca é a palavra mais assexuada, mais desenxabida, mais desinteressante que há e o acto de dar uma queca é igual. É uma palavra triste e feia.
– É menos forte.
– É menos tudo.
– Posso voltar atrás?
– Podes.
– Eu quero foder contigo. Que me fodas. Que te foda.
– Sim… Então, se me queres, tens-me.
– Eu não te quero assim. E não é o querer, é a circunstância, a forma, o modo.
– Estás a complicar o que não necessita de complicações. Sabes o que faço. Sabes o que sou.
– Sei.
– Sempre soubeste.
– Sim.
– Nunca ficou nada por dizer, nem nada por perceber, pois não?
– Não, foi o que combinámos.
– Queres-me…
– Quero.
– Então, encomenda-me uma noite. Encomenda-me por uma noite e tens-me.
– Não te posso ter assim… Nunca te terei assim.
– Não me queres ter…
– Quero… Quero mas não assim, não te quero a pagar, não te quero comprar. Não quero pagar para ter o teu corpo. Quero ter-te. Quero ter-te inteiro. Quero ter-te como tu me terás a mim, toda!
– Mas… mas…
– Diz! Diz! Diz o que tens a dizer, diz! Não fomos nós que instituímos que nada ficaria por dizer? Que nada omitiríamos um ao outro? Que... Diz! Diz.
– Não digo nada, Carmen. Digo que tudo isto foi um erro. Um estúpido erro que ambos sabíamos que estávamos a cometer. Uma brincadeira de adolescentes que não podíamos ter, que não íamos aguentar.
– Eu aguento. Tanto aguento que estou aqui contigo. E sou eu que tenho coisas a perder. Sou eu que sou casada, Raul, sou eu que tenho marido e filhos e sou eu que estou a almoçar com um acompanhante. Contigo, Raul, contigo.
– Foste tu que quiseste. Foste tu que, sabendo o que eu faço, o que eu sou, te quiseste aproximar de mim. Foste tu que disseste que não ias trair o teu marido, que só me querias conhecer, que me querias conhecer como outra pessoa qualquer.
– E tu quiseste a realidade, a realidade de uma mulher real, de uma mulher diferente das mulheres que te pagam para as foderes…
– Todas as mulheres são reais, Carmen, e se me procuram é porque precisam de mim…
– De ti, do teu corpo, do teu caralho…
– Estás enganada. As mulheres que me pagam precisam que eu as deseje, precisam que eu as queira, precisam que eu, enquanto estamos juntos, me preocupe com elas, com os seus desejos, com os seus gostos e vontades. Precisam do meu sorriso, da minha atenção…
– E que as fodas…
– E que as foda, claro. Que as foda bem, que as foda como não as fodem. É o meu trabalho, Carmen, é o meu trabalho e tu sempre o soubeste.
– Mas nós…
– Não há nós, Carmen. Ou melhor, há nós aqui, nós a tomar café, nós a lanchar, a conversar, a trocar mensagens. Nós a rirmo-nos de nós, nós… mas não há mais nós do que isso. Não há esse nós, não pode haver.
– Não queres que haja.
– Não quero.
– Não queres mas se eu quiser, comp… Encomendo-te por uma noite, não é?
– Não. Agora não. Não ia ser bom para qualquer de nós. Era mais um erro sobre o erro que já cometemos.
– Não me fodias mesmo que eu te pagasse?! Sou assim tão repulsiva?
– Não, não tem nada que ver com isso.
– Não?! Como é que explicas que homem não queira uma mulher?! Como é que explicas que um homem não queira uma mulher que lhe paga para a comer?
– Porque…
– Não digas que é por gostares de mim ou por me respeitares ou… ou o caralho! Não me digas nada, foda-se! Não me digas nada!
– Tenho que dizer, Carmen…
– Eu não me chamo Carmen.
– O quê?!
– Eu não me chamo Carmen.
– Não?!
– Tal como tu não te chamas Raul.
– Não?!
– Chamas-te?
– Raul?
– Sim.
– Não.
– Chamas-te António.
– E tu?
– Eu não.
– Tu não, o quê?
– Não me chamo António.
– Não pensava que te chamasses António.
– Chamo-me Ana.
– Ana?! Ana?! Não te chamas mesmo Carmen?
– Não, chamo-me Ana, Ana Maria.
– Ana Maria?!
– Sim, Ana Maria.
– Ana Maria?!
– E tu, foda-se?! Mas que merda de nome é esse? Achas que Raul é mais macho, é?
– Ana Maria… Raul é o meu nome… é o meu…
– É o teu nome artístico.
– Pois, não gosto de António. Nunca gostei. Nem de Ana Maria, se queres saber.
– Não quero mas já tinha reparado… Uma careta bastava…
– Uma careta?
– Sim, bastava uma, não era preciso fazeres uma careta de cada vez que repetias Ana Maria.
– Eu… Eu não…
– Não interessa… Não interessa nada… Não interessa mesmo nada… Sabes, acho que afinal eu… Afinal eu era, eu sou!, uma mulher como as outras. Uma mulher como todas as outras.
– Eu não acho isso.
– Eu também queria a tua atenção, o teu sorriso. Eu também queria que tu me quisesses, que te lembrasses de mim, que te preocupasses comigo enquanto estás comigo, que tivesses atenção aos meus gostos, aos meus desejos… Sou igual.
– Não és.
– Não?!
– Não.
– Não quis, ou melhor, não quero. Não quero eu também o teu corpo, o teu caralho dentro de mim?... Estúpida! Sabes o que eu sou?
– Não és.
– Sou. Sou estúpida. Sou estúpida e tenho a mania que é o meu cérebro que manda…
Um empregado aproxima-se, todo vénias e mesuras, pede desculpas, pergunta se querem mais alguma coisa, repete as desculpas, agradece a resposta negativa e informa que vai tirar a conta. Afasta-se.
Ela segura na mala, que pousa nas pernas, hesita sem se mover e decide:
– Adeus, Raul. Obrigado.
Ele olha-a, sem reacção, vê-a levantar-se, rodear a mesa, beijá-lo no rosto e despedir-se:
– E obrigado pelo almoço, Raul. Adeus.
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