12 abril 2010
divulgando um poeta brasileiro: Glauco Mattoso
Vítima de glaucoma, cegou. E descobriu o seu nome artístico pela ironia cruenta. Há mais de trinta anos que vai fazendo poemas... Aqui vos deixo um, da sua antologia Poesia Digesta, de 1974 a 2004:
Soneto 192 Flatulento
O peido, mais que o arroto, inspira o riso
gostoso, desbragado, gargalhado,
da parte de quem pode ter peidado
enquanto os outros fazem mau juízo.
Com base no meu caso é que analiso,
pois, mesmo estando a sós, enclausurado,
gargalho após os gases ter soltado
e aspiro meu fedor, feito um Narciso.
Me ponho a imaginar a reacção
de alguém afeito a normas de etiqueta
colhido de surpresa ante o rojão...
Meu sonho era peidar fumaça preta
na mesa de um banquete, para então
deixar que a gargalhada me acometa...
Soneto 192 Flatulento
O peido, mais que o arroto, inspira o riso
gostoso, desbragado, gargalhado,
da parte de quem pode ter peidado
enquanto os outros fazem mau juízo.
Com base no meu caso é que analiso,
pois, mesmo estando a sós, enclausurado,
gargalho após os gases ter soltado
e aspiro meu fedor, feito um Narciso.
Me ponho a imaginar a reacção
de alguém afeito a normas de etiqueta
colhido de surpresa ante o rojão...
Meu sonho era peidar fumaça preta
na mesa de um banquete, para então
deixar que a gargalhada me acometa...
11 abril 2010
John & John numa tira com animação
Querer
Querer: é um verbo demasiado forte;
gostar ou desejar: é mais suave.
Eu, hoje, gostaria de te ter aqui;
desejaria abraçar-te,
deixar-me levar nesse entusiasmo
(que sempre pões no que fazes)
no gosto frutado de um sonho
ou no desejo premente de sexo.
Gostaria de te mimar,
desejaria querer-te,
gostaria de te saber presente,
desejaria um beijo.
Não quereria amar-te.
Foto e poesia de Paula Raposo
Silvia: conto da cegueira
Dá-me a mão. Vês-me noite, amor. Está no tracejado que te sublinha o olhar - quando me olhas, contornas-me o vulto a lápis de mundo. Depois, quando fica muito escuro - como ficou - sente-se o mundo parar. Foi a tristeza intermitente que entrou pelos ouvidos - ensurdece! -, colou os lábios - emudece! - e sublinhou o olhar pelo lado de dentro - cega!. É quando essa surdez de ti escorre que a minha voz adormece porque as palavras acordam estanques - emudeço. É quando essa mudez te habita que não te respondo; ouço uma voz parecida com a tua, uma voz que diz coisas, coisas que eu não entendo - mas eu bem sei que tens os lábios colados; é uma coreografia de movimentos desengonçados - os meus -, pesados do pasmo, os braços na cabeça, as mãos nos ouvidos, largaste a minha - ensurdeço. Mas não ceguei, meu amor; ainda não ceguei. Pois que chames o escuro, se achas que a cegueira te poupa que eu, meu amor, eu chamo a tua imagem, ela contorna-me os olhos e poupa-me da cegueira.
10 abril 2010
Sorri porque estás
Observa desse teu canto isolado, desse teu canto sossegado onde te recolhes para cuidar de quem mais te interessa. Vê e orgulha-te do que deixaste como rasto, recorda o seu rosto no tempo em que não pensavas sequer em poderes um dia observá-lo a envelhecer.
Sorri porque sabes como é irrelevante essa transformação, essa etapa de uma mera transição para onde te encontras agora. E sabes porque não te foste embora, percorres o espaço, invisível, numa dimensão impossível de explicar. Sabes porque estás, embora reprimas a custo a intervenção quando tudo em ti apela a que tentes secar uma lágrima ou influenciar de alguma forma o rumo dos acontecimentos que sintas menos bons.
Sorri, pois sabes interpretar o amor num olhar e acreditas, porque és, que isso é tudo quanto uma alma precisa para descobrir o caminho para a luz.
E para alguém ser feliz.
Sorri porque sabes como é irrelevante essa transformação, essa etapa de uma mera transição para onde te encontras agora. E sabes porque não te foste embora, percorres o espaço, invisível, numa dimensão impossível de explicar. Sabes porque estás, embora reprimas a custo a intervenção quando tudo em ti apela a que tentes secar uma lágrima ou influenciar de alguma forma o rumo dos acontecimentos que sintas menos bons.
Sorri, pois sabes interpretar o amor num olhar e acreditas, porque és, que isso é tudo quanto uma alma precisa para descobrir o caminho para a luz.
E para alguém ser feliz.
2010
Afecto? Terceira porta à esquerda. Sexo? Segundo andar, terceiro corredor, porta vermelha; antes de se deitar com a sua boneca respectiva, dirija-se ao balcão e indique as posições que pretende à recepcionista. Amor? Preencha o formulário; na parte final, descreva como o pretende num mínimo de duas linhas e num máximo de seis; sente-se no sofá e aguarde a sua vez. Paixão? Profunda? Desça à sub-cave número dois, inspire e expire profunda e rapidamente ao longo da descida. Amizade? Suba ao telhado e aguarde a sua vez junto aos restantes ingénuos. Poema para pôr ao peito? Fique aqui, não se mova; a Tragédia virá brevemente ajudá-lo. Ego para remendar? É na fila que dá a volta ao quarteirão. Beijos e abraços e outras coisas simples? Dirija-se a uma das marionetas em qualquer canto da repartição. Pedidos especiais são sujeitos a análise prévia, utilize o e-mail que consta do formulário número quatro. Não danifique as semi-pessoas que o vão assistir. Identifique o que pretende antes de se dirigir à repartição. Não nos responsabilizamos por mentiras que conte a si próprio. Não nos responsabilizamos por mentiras que nos conte. As infracções serão severamente punidas com coimas elevadas. Se ainda existir uma pessoa dentro de si, sugerimos que salte do telhado; sentir-se-á muito melhor junto dos outros assim que quebrar e matar a alma.
09 abril 2010
«Não sei se confie em ti» - pela Ana Andrade
"A bem dizer, mal te pus a vista em cima no último meio ano.
Tinhas muito que fazer noutras paragens, aposto, sempre foste um rapaz muito ocupado.
Tenho medo de amores de Verão que arrefecem com o tempo e não julgues que é por me andares a rondar há uma semana que vou cair na tua esparrela. Já me enganaste muitas vezes, já me deixaste à espera outras tantas e uma gaja pode não nascer ensinada mas aprende com as cabeçadas que dá. Ou julgas que não sei que, nas tuas inexplicadas ausências, andavas a aquecer outros corpos?! Bem sei que não temos um compromisso para a vida mas, que diabo!, gosto de te ter por perto, não minto.
Para já, estou a testar-te. A ver se, desta vez, vieste para ficar. Só depois te me entrego, ainda que saiba que, mais mês menos mês, terei de encarar nova despedida.
Por isso, ó sol d'um raio, vê lá se te decides, sim?!
AnAndrade"
Uma excelente Câimbra Mental
Tinhas muito que fazer noutras paragens, aposto, sempre foste um rapaz muito ocupado.
Tenho medo de amores de Verão que arrefecem com o tempo e não julgues que é por me andares a rondar há uma semana que vou cair na tua esparrela. Já me enganaste muitas vezes, já me deixaste à espera outras tantas e uma gaja pode não nascer ensinada mas aprende com as cabeçadas que dá. Ou julgas que não sei que, nas tuas inexplicadas ausências, andavas a aquecer outros corpos?! Bem sei que não temos um compromisso para a vida mas, que diabo!, gosto de te ter por perto, não minto.
Para já, estou a testar-te. A ver se, desta vez, vieste para ficar. Só depois te me entrego, ainda que saiba que, mais mês menos mês, terei de encarar nova despedida.
Por isso, ó sol d'um raio, vê lá se te decides, sim?!
AnAndrade"
Uma excelente Câimbra Mental
Escolha Múltipla
"És parvo!" lembras-te? Foste tu que me disseste e eu respondi qualquer coisa no mesmo tom e a conversa descambou e parvos fomos os dois. Mas eu fiquei a pensar naquilo, nas tuas razões, nas minhas razões e no fundamento da minha qualificação. Aquela frase, tão simples, tão banal, tão pouco atentatória, tornou-se um pesadelo, um estigma, uma dor permanente. Uma dor permanentemente a crescer.
"És parvo!"
"Parvo porquê?"
E eu passava os dias em auto-análise, a censurar os meus gestos, a condenar as minhas palavras.
"És parvo!"
"Parvo porquê?"
E o pior é que nunca mais nos falámos, nunca esclarecemos um episódio menor que cresceu e que, pelo menos eu, já nem consigo identificar, e que no fim nos matou. A nós, vê tu bem, a nós!... E eu amava-te tanto…
"És parvo!" e, se calhar, tinhas razão. Sou parvo. Mesmo parvo.
Só pode.
É porque só pode ter sido isso ou o álcool que me levou a comer a tua prima.
"És parvo!"
"Parvo porquê?"
E eu passava os dias em auto-análise, a censurar os meus gestos, a condenar as minhas palavras.
"És parvo!"
"Parvo porquê?"
E o pior é que nunca mais nos falámos, nunca esclarecemos um episódio menor que cresceu e que, pelo menos eu, já nem consigo identificar, e que no fim nos matou. A nós, vê tu bem, a nós!... E eu amava-te tanto…
"És parvo!" e, se calhar, tinhas razão. Sou parvo. Mesmo parvo.
Só pode.
É porque só pode ter sido isso ou o álcool que me levou a comer a tua prima.
Subscrever:
Comentários (Atom)