23 abril 2012

«Nada. Ou quase nada» - bagaço amarelo

Pasmo-me com a facilidade com que duas pessoas que se Amam são capazes de pôr fim a esse Amor por causa de nada. Ou quase nada, vá lá. Às vezes por causa duma gota de vinho que suja uma toalha, outras vezes por causa de um pequeno atraso num encontro ou umas cuecas usadas que ficaram esquecidas num escaninho da casa de banho. Depois pergunto-me se um Amor é sempre grande só porque parece grande, e a resposta que encontro é que não.
É como se o Amor fosse uma coisa maior do que aquilo que o sustenta, ou melhor, do que aqueles que o sustentam. Talvez por isso acabe sempre em derrocada. Não é que as pessoas em geral não queiram Amar e ser Amadas. Apenas não o sabem fazer nem são capazes. É uma pena quando não percebemos que o Amor também exige algum esforço, alguma coisa de nós.
As caricas, para quem não sabe, eram uma espécie de Playstation 3 para os rapazes da minha geração. Escolhíamos aquelas cuja abertura da garrafa não tinha danificado assim tanto, alisávamo-las durante largos minutos na pedra da calçada, e fazíamos corridas com elas em pistas desenhadas no cimento com os restos de tijolos das obras que iam ampliando o bairro. Quando o fim da tarde chegava, eu guardava as minhas melhores caricas no armário com o mesmo cuidado que o meu pai punha o carro na garagem.
Houve uma manhã qualquer da minha infância em que fui mais feliz que o normal por causa de nada. Ou quase nada. O Seabra, dono de uma taverna junta à Fonte dos Amores, tinha-me dado um saco de caricas de cerveja que tinha acabado de varrer do chão e eu, atónito pela enorme dádiva de quase nada, pulei o muro dum terraço onde sabia que as podia alisar melhor, aquele onde aos sábados à tarde eu e os meus amigos da rua fazíamos corridas perante o olhar amigo da mulher que lá vivia.
Ouvi um grito, depois uma espécie de choro que não consegui descortinar se era de tristeza ou de raiva, e percebi que todo aquele emaranhado de sons caminhava na minha direcção. Vi o puxador da porta rodar e saltei para debaixo do tanque mal ela começou a abrir. A mulher estava no meio da nossa pista tentando conter algumas lágrimas. O homem, que até então eu nunca tinha visto, gesticulava nervoso e empurrava-lhe a cabeça na direcção do chão. O problema era nada. Ou quase nada. Ele ralhava com ela por nos deixar riscar o seu próprio terraço quando ele ia de fim de semana.
Nunca percebi para onde é que ele ia de fim de semana, mas quando contei o que tinha visto aos meus pais, eles convenceram-me a não ir mais para lá brincar. A partir daí, convenci também os meus amigos a nunca mais saltar aquele muro que guardava horas e horas da minha infância e vim a saber, umas semanas depois, que ele tinha ido "de fim de semana" e nunca mais tinha voltado.
Hoje de manhã lembrei-me deste episódio da minha infância porque os vi aos dois, perto da estação de comboios, a caminhar lado a lado no que me pareceu serem os últimos passos duma vida inteira. Lentos, silenciosos, e acima de tudo contemplativos. Não sei a história da vida deles, mas sei que o terraço onde eu desenhava pistas de corridas de caricas, e que deu origem a tanta discussão entre eles, já nem sequer existe. Destruíram-no para fazer um condomínio privado. Talvez eles tenham feito o mesmo da vida deles. Destruíram-na e construíram outra. Por causa de nada. Ou quase nada.
Olhei para eles pelo canto do olho mas ela não me reconheceu. Curvados, como se o Amor das suas vida os tivesse esmagado durante demasiado tempo por não saberem lidar com ele. É verdade que o Amor acaba sempre por nada. Ou quase nada. O que a mim me custou a perceber, nesta vida, é que também é assim que ele começa. Por nada. Ou quase nada.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Varizes?



Je t'aime... moi non plus




HenriCartoon

O amor é lindo




Malditos hormônios.

Capinaremos.com

22 abril 2012

Porta-Curtas - «Mens Sana in Corpore Sano»

Diretor: Juliano Dornelles
Elenco: Flávio Danilo
Duração: 22 min
Ano: 2011
País: Brasil
Sinopse: Garra, disciplina, tenacidade, força física e obediência; Estes são os tesouros guardados para que tenhamos uma vida mais plena e saudável. O seu corpo agradece!

Suicida



Não cortara os pulsos que nunca conseguira matar sequer um coelho e enfiar uma faca pela sua carne adentro devia doer como o caraças. Tentou os comprimidos mas a meio da caixa engasgou-se e vomitou tudo de uma assentada. Era um fracasso como suicida mas se três é a conta que Deus fez e o número da Santíssima Trindade e da virgindade e dos copos de tinto das tascas ainda lhe restava uma tentativa.

Congeminou uma ideia prazenteira a terminar numa congestão. O óbice é que se os gajos podem encontrar com facilidade uma puta num mapa de esquinas conhecido para fazer o que tem de ser feito já uma gaja tem de procurar nos anúncios aqueles gajos que publicitam uma amizade com descrição ou tem uma agenda com números de telefones para encomendar quecas prontas a servir. Podia tentar engatar um gajo num bar ou discoteca mas com o azar que a caracterizava o fuso horário desses sítios ainda lhe fornecia a queca só passadas as três horas da digestão e perdia-se todo o fulcro da coisa.

Lembrou-se então de vestir um soutien-macaco para içar as mamas, uma mini saia mais berrante que um colete reflector e esticar pelas pernas acima umas daquelas meias de rede putérrimas e findo o jantar abalou para as esquinas do topo da Rua da Castilho que é sabido funcionarem 24 horas por dia. As que lá estavam puxaram dos galões de antiguidade e quiseram saber ao que vinha mas ela lá se desembrulhou a provar que não era concorrência desleal mas apenas um motivo de força maior, uma reportagem que tinha de concluir e até anotou os nomes de todas prometendo publicá-los em letra impressa o que lhe valeu o almejado sexto de esquina.

Às tantas, um dos engravatados pululantes lá veio apreçar a mercadoria e com a segurança das notas e cartões de crédito na carteira regateou que até pagava mais sem preservativo. Como isso até era para o lado que as intenções dela dormiam melhor descaiu-se na honestidade de que nem tinha de pagar mais e o energúmeno desatou num berreiro a atirar-lhe com nomes que considerava feios como puta, filha de outra e até sidosa que isso é que foi vergonhoso e lhe espantou toda a freguesia.


(Foto © Salvador Pozo, 2007, Robotica & cinturones)

Parla



Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)

21 abril 2012

Homens, aprendam a assar um peru

Alguns dos quadros da minha colecção vão estar expostos em Coimbra...

... mais propriamente no Recordatório Rainha Santa Isabel (Santa Clara, junto ao Portugal dos Pequenitos), entre os dias 24 de Abril e 6 de Junho.
Como a sala é pequena, vai ter apenas uma pequena amostra dos mais de 80 quadros a óleo, acrílico, serigrafias,... da minha colecção de arte erótica.
E aí está, divulgada na agenda de actividades de Coimbra, feita pela Câmara Municipal:




E aqui está o convite para a inauguração, dia 24 de Abril, às 18h00, extensivo (e intensivo) a todos [M/F]:


O Shark resume admiravelmente o evento: "Sexo no Recordatório"

O poder da vagina



Via Testosterona

Um sábado qualquer... - «Sonhos»




Um sábado qualquer...

20 abril 2012

Em discurso directo

Depois de três horas ininterruptas de sexo oral com ela fiquei com a certeza de que teria sido melhor fazê-lo do que verbalizá-lo.

Limites, limitações e preferências na primeira pessoa

Não me perturbam os conteúdos sexuais. Tenho as minhas preferências, mas para mim não há umas coisas e umas posições mais assim ou menos assado. Isso nem sequer me passa pela cabeça. Nem existe. O meu limite é a salvaguarda da minha integridade física (na qual incluo a saúde) e a do meu parceiro. Não gosto de dor. E se não gosto para mim, também não gosto de o produzir no outro. Quando o corpo se queixa lá tem as suas razões, e a mim me bastam as que me saem de borla na rifa. Pouca dor me basta para perder completamente o tesão. O que não significa que nalgumas situações não me agradem umas palmadinhas… e tal… pela dominação em si. Se noutras coisas o faço, por amor, amizade, ou apenas generosidade, no sexo sou pouco dada ao “sacrifício” ou a fingimentos de cortesia. Não o tolero por ser algo que interfere com a minha forma de educar o meu próprio corpo: considero nocivo “poluir” a minha sexualidade com momentos que não sejam de prazer.

Gosto de me sentir fêmea, gosto de rebolar, de me dar, de me entregar, de receber, gosto de ser possuída a sério, dominada a sério. Entrego-me a sério. E se volta e meia sou eu a dominar, também gosto de o fazer com intensidade, física e psíquica. Gosto de dar. Adoro! De forma activa, ou passiva. Ao ponto de ser uma espécie de “tara”. Fazer uma massagem oriental, excita-me. Quando sinto que estou a sair do domínio do “sexo” para entrar no domínio da “arte”, é o êxtase! Mas seja qual for a situação, o prazer do outro para mim é mesmo fundamental. Para o que quer que seja, não me basta o “consentimento”, preciso da vontade. Se sinto que a coisa não está a correr bem para o lado de lá, perco o interesse.

Não gosto de variar. Tenho dificuldade em encontrar um amante. Dificilmente me disponho a ter sexo com alguém sem averiguar se de facto temos hipóteses de encaixar bem… ou seja, sem que haja suficiente empatia potencial, física, psíquica e sexual. As excepções são feitas de interesses e de curiosidades muito específicos que raramente chegam ao que eu chamo de “sexo”. A “queca vadia” não me interessa. Não me interessa porque não me dá prazer. Mas claro que experimento o que tenho a experimentar, e nunca me ocorreu avaliar antes as disposições futuras de alguém para… Nem isso para mim faria sentido. Se me disponho à experiência, é pela experiência, e com vontade, alegria, e nenhuma expectativa. Mas, por preferência, não gosto de variar. Isto porque do que eu gosto é do corpo que investigo, que aprendo a conhecer, que reconheço, que farejo, o corpo para o qual desenho o meu prazer até ao último milímetro, o corpo no prazer do qual “trabalho” como um “projecto”, uma escultura, o corpo aonde aporto como um barco ao cais, onde sei já de cor todos os cantos onde haja tomadas a que ligar a minha “ficha”, o corpo a que aprendo a dominar o prazer ao limite da tangente, o corpo que transformo para mim própria no desafio de ir ainda mais além… o corpo ao qual agrada desafiar também os limites do meu prazer… é esse o corpo de que gosto… e um corpo assim, que seja capaz e que se disponha a chegar aqui, é difícil de encontrar e demora sempre algum tempo a “construir”… e a seguir… por isto ou por aquilo, às vezes é preciso recomeçar…