17 abril 2013

«conversa 1961 e respostas a perguntas inexistentes (232)» - bagaço amarelo

Não sou, por norma, muito falador. Pelo menos é o que eu acho. Como costumo dizer a mim mesmo, falo de menos e escrevo demais. Até me considero uma pessoa tendencialmente tímida. Há, no entanto, uma excepção: as conversas a dois.
Na verdade, considero que a minha sanidade mental depende muito das conversas a dois. Prefiro conversas a dois do que a três, quatro ou cinco. Não sei porquê, mas a capacidade que eu tenho de me concentrar numa conversa e, portanto, de me interessar por ela, é muito maior quando tenho apenas um interlocutor.
É por isso que adoro receber uma visita em casa ou, por outro lado, tendo a visitar mais os meus amigos que vivem sozinhos. Um amigo, uma garrafa de vinho ou de uísque e algum pão ou chocolate, e tenho uma noite por bem dada.
É verdade que esta minha característica, que não é boa nem má, também teve sempre uma enorme importância nos meus relacionamentos amorosos. Uma relação com uma mulher que gosta de falar a dois, por mim, é normalmente mais fácil do que com uma que até pode ser mais social e, por isso, não dispensa uma noite sem um grande grupo de amigos à sua volta. Acreditem, sei-o por experiência própria.
Isto quer dizer também que, na idade que atravesso, considero-me um privilegiado por ter feito e mantido alguns amigos que são exactamente como eu neste aspecto. Não são muitos, mas são os suficientes para eu manter equilibrada a balança da solidão e do convívio. Há uns dias, por exemplo, visitei uma amiga minha que quase nunca sai de casa por opção própria. Visito-a mais a ela do que ela a mim, talvez por isso mesmo. Depois duma noite inteira a conversar, deviam ser umas três da manhã quando ela me pediu silêncio.
No princípio até pus a hipótese dela se estar a sentir mal. Observei-a com atenção enquanto ela dividia irmãmente o que restava duma garrafa de Vila Ruiva Reserva 2010 (ela só bebe vinho alentejano) e cheguei à conclusão que não. Dei um gole no copo e encostei-me para trás no sofá.

- Eu acabei de te explicar porque é que me divorciei do meu marido. - disse ela.
- Acabaste, sim. - confirmei.
- Disse-te que passámos quatro anos, eu e ele, a tentar apaixonarmo-nos um pelo outro e que, passado esse tempo, chegámos à conclusão que não tínhamos conseguido.
- Eu percebi. - confirmei de novo.
- És a primeira pessoa a quem conto isto e que não faz nenhuma observação parva, do género: "tanto tempo para perceber que não estavam apaixonados?!".
- Não acho que seja assim tanto tempo. Além disso, acho perfeitamente normal insistirmos em tentar uma paixão com aqueles de quem gostamos muito. Já aconteceu a todos... - observei, numa tentativa de tornar o mais normal possível a coisa.
- Eu acho que só nos entendemos assim tão bem porque nunca há mais ninguém quando conversamos. - concluiu.

Fiquei a pensar naquilo para além daquela noite, até agora, momento em que escrevo este texto. É que às vezes, para alinhavar o meu pensamento, tenho que o escrever. Senão não sou capaz. Acho que ela tem razão e, sem o saber, explicou-me uma característica que eu tinha como minha.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Pânico no tabuleiro

Quando o peão foi promovido a rainha e o xeque-mate ficou iminente,
o rei adversário berrou: "Meu Deus, vou ser derrotado por um travesti!"

Gato sado-brincalhão


Cartoon de Temel

16 abril 2013

«Mulher livre!» - por Zuleta


Na edição 2013 do World Press Cartoon, Zuleta, cartoonista colombiano, conquistou o terceiro prémio na categoria de desenho de humor com o desenho «Mulher livre!», publicado na revista peruana «El Mundo de Karry»

Tutti Rouge lingerie - Primavera/Verão 2013

Eva portuguesa - «Oração 2 - o regresso»

"Senhores passageiros, estamos a começar a descer em direcção ao aeroporto de Lisboa, Portugal" - dizia o comandante no intercomunicador do avião.
Nunca fiquei tão feliz em ouvir o nome do meu país e da minha cidade!...
Sim, era um regresso súbito e bem mais cedo do que o planeado... e talvez por isso mesmo muito mais desejado....
Lisboa aparecia por baixo das nuvens e eu sorria de felicidade.
Lembrava quando, há bem pouco tempo, tinha feito exactamente a viagem oposta.
Ainda sábado deixava saudosista, mas tambem esperançosa, a minha casa e, contra todas as previsões, já estava de volta...
Não vim com mais dinheiro mas vim mais rica, mais crescida. Cresci por ter observado e recusado a entrar num mundo que não é meu...um mundo de drogas, bebida, clubes nocturnos e prostituição barata... Nunca, como nestes quatro dias, dei tantas graças pela (inesperada e não reconhecida) dignidade do meu trabalho, tal como o pratico aqui...
Obrigada, meu Deus, por me teres protegido, por me permitires regressar em segurança e paz, pela possibilidade de manter alguma dignidade e tranquilidade naquilo que faço!
Obrigada por me trazeres de volta a casa, à minha gente e aos meus clientes!
Obrigada por me teres mostrado a degradação e me manteres afastada dela!
Obrigada pela paz, saúde, alegria. 

Obrigada pela minha casa, o meu carro, a minha cadelinha, o meu filho e os meus amigos.
Obrigada pelo meu trabalho, pelos meus clientes, pela minha vida... 
Obrigada!
E, no fim desta pequena mas sentida oração, aterro em Lisboa, de onde, sei agora, nunca devia ter saído...
E agora retomo o meu trabalho cá, ainda com mais dedicação, grata por tê-lo....


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Despida» - Susana Duarte

Tenho os sentidos despidos de ti,
e de ti vestidos
na montanha de luas antigas,
na sáfara atravessada de rugas,
na territorialidade das névoas,
e na eternidade dos olhos.

De ti, retenho em mim a pele,
e na pele
dispo as cátedras do que sabia antes,
em dias que não sei,
em tempos e lugares onde fui outra,
em tempestades que retive na sombra
dos tecidos
do corpo.

Do corpo, despi-me na neve
e na neve das noites
enchi-me de ar,
volteei em ondas de som
e deixei-me encantar pelas nuvens
da mente.

Resido nas pontas feiticeiras
de um saber antigo
e dispo-me dos sentidos:
olhar,ainda que despida dos olhos;
sentir, ainda que sem tocar;
escutar, ainda que os ouvidos
alados
se tenham tornado viajantes
onde torres caem e mistérios
se levantam
nos dias
que sou.

Despi-me de tudo.
Prossigo em ti.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

Bengala pirilau

Bengala em madeira, com 80 cm de altura, com correia em cabedal e um pequeno aro em latão, na parte superior.
A partir de agora, é  da minha colecção.





15 abril 2013

Parece ser um anúncio a t-shirts mas não é

Empresa de telefonia da Polónia lançou em 2012 um anúncio sensual para comemorar 7 milhões de utilizadores

Luís Gaspar lê «Goles de paixão» de Gigi Manzarra

Embriago-me com o néctar do teu corpo nu!
 Como num cálice valioso, encosto os lábios quentes e sorvo aos poucos, bem devagar, o sabor tão doce que se desprende de ti.
 Permito sem lutar, que os efeitos etílicos se espalhem sem pudor por todos os meus inebriados sentidos.
Perdida no lascivo mergulho…e já bêbada de ti, em êxtase, prisioneira e algoz, te uso e me entrego a esse mágico encantamento de uma insidiosa e desmedida paixão, que transforma o vermelho do meu sangue no precioso néctar que roubo de ti.

Gigi Manzarra

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

«conversa 1959» - bagaço amarelo

(na casa dela)

Eu - Ena! Tens este vinil?! Não acredito!
Ela - Não acreditas, porquê?
Eu - Este disco é raríssimo. "10000 anos depois entre Vénus e Marte", do José Cid... espectacular. Consegues vender isto por uns cem euros...
Ela - Não é meu, é do meu ex-marido e ele está farto de mo pedir.
Eu - Ah! Então e não lho dás? Se eu fosse o teu ex-marido já tinha cá vindo buscá-lo.
Ela - Eu até dava, mas estou com medo.
Eu - Medo de quê?
Ela - Há uns tempos precisava duma base para a mesa, para pousar a panela quente do jantar, e usei esse disco. Ficou um bocado estragado...
Eu - Fizeste o quê?!?!?!?!
Ela - Eu sabia lá... um disco do José Cid... pensei que fosse mais uma porcaria dessas que ele se esqueceu cá em casa quando se foi embora.
Eu - Fizeste o quê?!?!?!?!
Ela - Estás a ver? É dessa reacção que eu tenho medo...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Tenha cuidado

Planeje melhor suas atitudes.



Malditas janelas reflexivas do inferno.

Capinaremos.com

14 abril 2013

Aquele...


Foto: Christian Coigny
 
 
Aquele beijo. Aquele que não resistimos. Aquele onde nos entregamos. Aquele beijo que leva tudo. Aquele onde nascemos. Aquele beijo onde morremos. Que leva a alma. Aquele beijo que nos ruboriza. Aquele ao qual fugimos por breves segundos para o poder prolongar. Aquele beijo. Aquele que nos entreabre ligeiramente os lábios. Aquele beijo que começa tépido, calmo e termina quente. Explosivo. Aquele beijo que nos leva as forças. Fechamos os olhos para o sentir inteiro naquele único sentido que é o da alma. Aquele beijo desmedido e interminável. Aquele que é doce e levemente molhado. Aquele onde depomos o desejo de o querer para sempre. Aquele beijo sôfrego e que marca conquistas e momentos como uma bandeira. Aquele beijo que apetece. Aquele onde nos sentimos morar quando o corpo levita. Aquele.