"Preparas uma cama para nós, e eu contorno paredes num silêncio felino até estarmos, frente a frente, num espaço secreto e longínquo, que se encheu de nós, que criaste com carinho para amar, e depressa nos despojamos das vestes, depressa nos colamos com a pele na pele, depressa estamos nessa cama que fizeste apenas para se desfazer em pouco tempo quando nos misturamos um no outro, quando dizes que sim, quando no caos dos nossos corpos dizes que me amas, que és minha, e nessa cama, nesse espaço escuro contrariado por uma luz nocturna citadina que detalha as sombras, somos um no outro, exaustos na nudez, juntos no calor que nunca se explica, e noites passadas quase em branco, com as tuas cores, os teus cheiros, a viagem solitária na estrada vazia a galgar alcatrão e traços interrompidos como contínuos da velocidade, a cidade a nascer e nós já mortos de saudade, de um amanhã tão tardio, de um hoje tão longo. Dás-me comida para o caminho, e um beijo. E eu faço-me à chuva. A evaporar o teu cheiro, embalado e preenchido. E dizemos que sim, que é isso."
João
Geografia das Curvas
22 fevereiro 2016
Luís Gaspar lê «Corpo Moreno» de Francisco José Tenreiro
Se eu dissesse que o teu corpo moreno
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.
Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos e há frutos
na geografia de teu corpo.
Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safú
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.
És tu minha Ilha e minha Africa
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.
Francisco José Tenreiro
Francisco José Tenreiro foi um geógrafo e poeta são-tomense. Foi docente no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina, atual Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. (Wikipédia).tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.
Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos e há frutos
na geografia de teu corpo.
Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safú
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.
És tu minha Ilha e minha Africa
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.
Francisco José Tenreiro
Ouçam este texto na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa
21 fevereiro 2016
«coisas que fascinam (183)» - bagaço amarelo

Não sei quantas vezes, num café ou noutro sítio qualquer, me apetece meter conversa com uma mulher. Não estou a falar de engate, estou mesmo a falar sobre conversar. É que há mulheres que têm qualquer coisa que me dá vontade de as conhecer. Há quem lhe chame uma questão de pele, mas eu não. Não tem a ver com a pele, tem a ver com o que nos falta naquele momento. É isso, é uma questão de falta.
Claro que eu nunca meto conversa com ninguém ou, pelo menos, é mesmo muito raro. Sou tímido que chegue e, por isso, costumo ficar na expectativa que venham falar comigo. O que, convenhamos, também quase nunca acontece.
Aconteceu-me agora mesmo.
Tudo porque entrei numa pastelaria às oito da manhã e recusaram-se delicadamente a servir-me uma cerveja. Explicaram-me que só servem bebidas alcoólicas depois das onze, o que eu compreendi. Ainda assim, expliquei que no meu caso não eram oito da manhã. Vinha do trabalho e, antes de ir para casa dormir, apetecia-me beber um copo.
A senhora acabou por me deixar beber duas cervejas Sagres e comer uma empalhada. A mim e a uma mulher que também estava na minha situação e aproveitou a coisa para, também ela, beber um copo. Sentou-se na minha mesa e disse que precisava de falar com alguém que, como ela, ande ao contrário no mundo.
Naquele momento foi isso que nos uniu, o ritmo da vida. Todos os que entravam naquele espaço queriam ler o jornal durante um galão e uma torrada ou um café e uma nata. Só nós é que queríamos espairecer duma jornada de trabalho.
Gostei da expressão "ao contrário do mundo", porque é exactamente assim que me sinto. Não é que me sinta mal. É mais sentir-me numa órbita qualquer do que devia ser a vida, como um satélite que ronda um planeta mas nunca lhe toca. Quando é assim, se dois satélites se cruzam no espaço, porque não beberem uma cerveja juntos?
Despedimo-nos depois de trocarmos números de telefone, para um dia destes repetirmos uma cerveja matinal (o que provavelmente nunca vai acontecer). Ela foi-se embora e eu vim para casa. Acho que foi sempre assim que me apaixonei... no estado satélite a rondar a vida. Apenas hoje não aconteceu.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
20 fevereiro 2016
Varinha mágica...

Patife
@FF_Patife no Twitter
«Até à eternidade» - por Rui Felício
Moravam na Estrada da Beira junto ao Café Vitrice.
O Sr. Olímpio trabalhava perto, a cinquenta metros, no escritório da Escola de Condução do Zé Pais.
A mulher, a D. Virgínia, era doméstica.
Deviam andar na casa dos cinquenta anos de idade e eram casados há uns trinta.
Ela passava o tempo na lide da casa, passajava as meias do marido, costurava, cozinhava.
Às vezes conversava com a sua única amiga, a D. Leopoldina que morava do outro lado da rua e que, quando calhava, lhe batia à porta.
O Sr. Olímpio, de ar circunspecto e desconfiado, almoçava sempre em casa e depois regressava ao escritório. Pelo caminho, curto, palitava os dentes e escarrava uma vez ou duas para o meio da estrada.
Ciumento em último grau, há muito que proibira terminantemente a sua mulher de sair de casa sem ser acompanhada por ele. Nem para ir ao café, mesmo ao lado, ou sequer para atravessar a rua para estar à conversa com a D. Leopoldina.
Não tinham filhos.
Da única vez que ela engravidou, o Sr. Olímpio tinha-a obrigado a fazer um aborto porque se lhe encasquetou na cabeça dura que o filho não seria dele. Acusou-a sem fundamento de ter ido ao Café Vitrice sem consentimento dele e que o dono certamente se tinha enrolado com ela.
Com o aproximar do Verão, quando os dias começavam a ficar maiores, depois de sair do escritório, levava-a a passear na baixa, resmungando quando lhe parecia que ela olhava descaradamente para algum homem com quem se cruzassem.
Durante a viagem, no trolley, a D. Virgínia sentava-se sempre junto à janela, ia observando as árvores e as casas, sob o olhar de esguelha, fiscalizador e intimidatório do marido sentado estrategicamente ao seu lado.
Certo dia a D. Virgínia adoeceu gravemente. Era visitada diariamente por uma médica que a dada altura confidenciou ao marido que ela não iria durar muito.
Pouco mais de um mês depois morreu, placidamente e silenciosa, como sempre vivera.
No dia do funeral, o Sr. Olímpio chorava copiosamente, pesaroso, inconsolável, porque na verdade ele amava-a.
Quando levaram o caixão para a carreta, o marido ficou de rastos. De tal forma que um amigo o veio consolar aconselhando-lhe calma. E, naquele estado, o amigo perguntou-lhe se ele se sentia em condições para acompanhar o féretro até ao cemitério da Conchada.
O Sr. Olímpio empertigou-se, fez das tripas coração e respondeu-lhe.
- Claro! Nunca saiu sem mim. Não seria agora que o faria pela primeira vez!
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido
O Sr. Olímpio trabalhava perto, a cinquenta metros, no escritório da Escola de Condução do Zé Pais.
A mulher, a D. Virgínia, era doméstica.
Deviam andar na casa dos cinquenta anos de idade e eram casados há uns trinta.
Ela passava o tempo na lide da casa, passajava as meias do marido, costurava, cozinhava.
Às vezes conversava com a sua única amiga, a D. Leopoldina que morava do outro lado da rua e que, quando calhava, lhe batia à porta.
O Sr. Olímpio, de ar circunspecto e desconfiado, almoçava sempre em casa e depois regressava ao escritório. Pelo caminho, curto, palitava os dentes e escarrava uma vez ou duas para o meio da estrada.
| «Mulher e a Morte» Estatueta em resina Colecção de arte erótica «a funda São» |
Não tinham filhos.
Da única vez que ela engravidou, o Sr. Olímpio tinha-a obrigado a fazer um aborto porque se lhe encasquetou na cabeça dura que o filho não seria dele. Acusou-a sem fundamento de ter ido ao Café Vitrice sem consentimento dele e que o dono certamente se tinha enrolado com ela.
Com o aproximar do Verão, quando os dias começavam a ficar maiores, depois de sair do escritório, levava-a a passear na baixa, resmungando quando lhe parecia que ela olhava descaradamente para algum homem com quem se cruzassem.
Durante a viagem, no trolley, a D. Virgínia sentava-se sempre junto à janela, ia observando as árvores e as casas, sob o olhar de esguelha, fiscalizador e intimidatório do marido sentado estrategicamente ao seu lado.
Certo dia a D. Virgínia adoeceu gravemente. Era visitada diariamente por uma médica que a dada altura confidenciou ao marido que ela não iria durar muito.
Pouco mais de um mês depois morreu, placidamente e silenciosa, como sempre vivera.
No dia do funeral, o Sr. Olímpio chorava copiosamente, pesaroso, inconsolável, porque na verdade ele amava-a.
Quando levaram o caixão para a carreta, o marido ficou de rastos. De tal forma que um amigo o veio consolar aconselhando-lhe calma. E, naquele estado, o amigo perguntou-lhe se ele se sentia em condições para acompanhar o féretro até ao cemitério da Conchada.
O Sr. Olímpio empertigou-se, fez das tripas coração e respondeu-lhe.
- Claro! Nunca saiu sem mim. Não seria agora que o faria pela primeira vez!
Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido
19 fevereiro 2016
Maltinha, temos nova (e excelente) companhia!
A partir da próxima semana, passamos a contar com Veneno Cor de Rosa na equipa da fundiSão: Pink Poison.
São Rosas - Já tenho o pito todo molhadinho.
Pink Poison - Acalma lá o pito...
São Rosas - Pito e repito.
São Rosas - Já tenho o pito todo molhadinho.
Pink Poison - Acalma lá o pito...
São Rosas - Pito e repito.
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