Saíste há pouco da minha cama mas ainda sinto o teu cheiro nos lençóis...
Esse cheiro agridoce, másculo, que tem nome de prazer e de pecado...
Qual abelha procurando o pólen, enfio o meu nariz na tua almofada, fecho os olhos e recordo toda a loucura vivida momentos antes naquele que foi o nosso mundo, o nosso tempo...
E sinto ainda o teu calor na minha pele, arrepiando-me, excitando-me, fazendo com que te queira ainda mais...
A tua língua percorreu caminhos proibidos, abrindo autoestradas de prazer no meu corpo sedento de ti...
Quero-te!
Quero sentir a tua respiração no meu pescoço, o teu suor misturado com o meu, o teu sabor na minha boca, a tua masculinidade forte e doce ao mesmo tempo enterrada em mim...
Quero contigo dançar a dança dos sentidos, embalando nossos corpos numa viagem sem retorno...
Quero que em mim te esqueças de ti e que faças dessa forma única, que só tu sabes, que me esqueça de mim...
Beijos, suspiros, gemidos,dentadas, lambidelas, arranhões... a viagem ao nosso mundo... Prazer tão forte que chega a doer... lágrimas, não de dor, nem felicidade, simplesmente a derradeira manifestação de uma intensidade que se desconhecia, que não se acreditava existir...
E porque só tu és o meu capitão nesta viagem, só tu conheces este caminho, preciso que voltes, que me tornes tua de novo...
Porque eu...
Quero-te!
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
28 fevereiro 2012
Pequenas figuras do Japão esculpidas e pintadas à mão, em marfim
Se forem medidas pelo peso ou pelo tamanho, são certamente das figuras mais caras da minha colecção. Além destas, tenho outras em marfinite (pó prensado de marfim) e em osso.

27 fevereiro 2012
«por gestos» - bagaço amarelo

A festa devia-se, pelo menos pelo convite que me tinha sido feito, ao seu divórcio. O seu casamento tinha sido uma união violenta de quase quatro anos, e portanto o seu fim significava verdadeiramente um princípio. Era esse princípio que se festejava, embora ainda não se soubesse muito bem do quê. Talvez, pelo menos, duma vida melhor.
O irmão queria que esse princípio fosse rodeado por muitas e diversas pessoas, e por isso até a mim me pediu para participar. Eu, que era apenas um seu conhecido colega de trabalho com quem nunca trocara mais do que um "bom dia" ou "boa tarde". Às vezes podemos gostar muito de alguém com quem nunca falamos, disse ele justificando o convite inesperado.
E foi assim que me apaixonei por ela. Sem palavras e sem sons. Apenas um olhar tão profundo como um poço e um gesto tão universal como o de levar a minha mão ao peito dela. Corei. Toquei-lhe. Afastei-me e passei o resto da noite a segui-la disfarçadamente com os meus olhos nervosos.
Propositadamente fui ficando para o fim, e enquanto a porta daquele pequeno apartamento ia pingando para o exterior os convidados, eu ia ganhando espaço para o que o nosso olhar se pudesse tocar de novo, tal como a minha mão tocara no seu peito. Era o meu objectivo da noite, para depois poder adormecer aninhado nesse sentimento.
Há muitos anos que eu não dormia tão bem, que é como quem diz, tão perto dum Amor tão longínquo. No dia seguinte passei as horas do trabalho a pensar no que podia dizer ao irmão para me conseguir aproximar dela. À saída da fábrica cruzei-me calculadamente com ele e anunciei-lhe que, por coincidência, tinha começado a frequentar aulas de linguagem gestual. Era mentira, mas uma mentira inofensiva se eu começasse mesmo a fazê-lo num dos dias seguintes. Aliás, uma mentira que funcionou, porque ele convidou-me para ir lá a casa treinar com a irmã. Se eu quisesse, claro. Sorri-lhe.
Nessa mesma noite investiguei todas as possibilidades que havia na cidade para aprender a nova linguagem da minha vida. Fiz uma lista que percorri com o meu dedo indicador ao som do meu ritmo cardíaco, acabando por escolher um curso duma associação qualquer sem fins lucrativos. Inscrevi-me por email e compareci à primeira aula nessa mesma noite.
Primeiro bati à porta e ninguém abriu. Depois carreguei num interruptor e percebi, através dum vidro fosco, que uma luz vermelha se acendia lá dentro. Ouvi passos e senti a maçaneta rodar. Era ela, a Sónia, a professora. A mesma que me tinha ensinado que me podia apaixonar por gestos e na enormidade dum silêncio. Trocámos um olhar, ela pegou na minha mão e levou-a ao seu peito. Toquei-lhe, corei, entrei.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
Poesia de Maria Teresa Horta lida por Luís Gaspar

Modo de amar – I
Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura
usa-me as coxas
devasta-me o umbigo
abre-me as pernas põe-nas
nos teus ombros
e lentamente faz o que te digo:
Modo de amar – II
Por-me-ás de borco,
assim inclinada …
a nuca a descoberto,
o corpo em movimento …
a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo …
Por-me-ás de borco; Digo:
ajoelhada …
as pernas longas
firmadas no lençol ..
e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos
como quem consome …
(Por-me-ás de borco,
assim inclinada …
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)
Modo de amar III
É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas
já dentro do meu
Ambos piscinas que a nado
atravessamos
de costas tu meu amor de bruços eu
Modo de amar – IV
Encostada de costas
ao teu peito
em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado
ambos de pé
formando lentos gestos
as sombras brandas
tombadas
no soalho
Modo de amar – V
Docemente amor
ainda docemente
o tacto é pouco
e curvo sob os lábios
e se um anel no corpo é saliente
digamos que é da pedra em que se rasga
Opala enorme e morna
tão fremente
dália suposta
sob o calor da carne
lábios cedidos
de pétalas dormentes
Louca ametista
com odores de tarde
Avidamente amor
com desespero e calma
as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala
Ferozmente amor com torpidez e raiva
as ancas descendo como cabras tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas que se abrem
E logo os ombros descaem
e os cabelos
desfalecem as coxas que retomam das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam
Suavemente agora velozmente
os rins suspensos os pulsos
e as espáduas
o ventre erecto enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas
Modo de amar – VI
Inclina os ombros e deixa
que as minhas mãos avancem na branda madeira
Na densa madeixa do teu ventre
Deixa
que te entreabra as pernas docemente
(... e, tal como os modos de amar VII a XV, podem todos ser ouvidos no Estúdio Raposa)
26 fevereiro 2012
Semana especial LGBT no Porta Curtas - «Doce e Salgado»
Ficção de Chico Lacerda - 2007 - 8 min
Dois adolescentes, amigos de colégio, descobrem o desejo.
Muitas vezes a amizade desperta desejos. A descoberta que revela é a mesma que confunde.
Link directo para o filme aqui.
Dois adolescentes, amigos de colégio, descobrem o desejo.
Muitas vezes a amizade desperta desejos. A descoberta que revela é a mesma que confunde.
Link directo para o filme aqui.
Já tenho o dever cumprido!

Aquilo era escuro e cheirava à mesma terra do chão que impregnava as nossas tendas. Ela estava deitada sobre uma esteira tecida e soergueu-se à minha entrada. Fixei-me naquelas mamas espetadas em forma de cone. Pedi que se levantasse e se virasse para lhe apreciar o traseiro que felizmente era em forma de pêra e dava rijos tecidos à palpação. Ficava-me à altura do peito mas já tinha pago e não me queria inquietar com a sua idade, aliás porque todos no pelotão diziam que em África as mulheres o eram mais cedo.
Abracei-a e ela manteve os braços ao longo do corpo o que me irritou e de pronto lhe ordenei que se deitasse o que ela cumpriu no segundo imediato jazendo de pernas abertas e mamas à apontar ao céu. Baixei as calças de camuflado e deitei-me sobre ela como na parada para encher e fui dando estocadas regulares até sentir que a pressão aliviava e a minha querida arma ficava oleada pelo rompimento. Então acelerei por ali fora e só parei quando a minha outra cabecita falou mais alto e me esvaí todo num ah fundo e vitorioso. Missão cumprida, foda-se!
O régulo vinha regularmente vender cabaças aos militares de patente ou aos que considerava terem os escudos necessários para gastar nessa relíquia, evitando cuidadosamente os bravos que abafavam a palhinha e eu só podia considerar uma honra ele ter-me escolhido.
Abracei-a e ela manteve os braços ao longo do corpo o que me irritou e de pronto lhe ordenei que se deitasse o que ela cumpriu no segundo imediato jazendo de pernas abertas e mamas à apontar ao céu. Baixei as calças de camuflado e deitei-me sobre ela como na parada para encher e fui dando estocadas regulares até sentir que a pressão aliviava e a minha querida arma ficava oleada pelo rompimento. Então acelerei por ali fora e só parei quando a minha outra cabecita falou mais alto e me esvaí todo num ah fundo e vitorioso. Missão cumprida, foda-se!
O régulo vinha regularmente vender cabaças aos militares de patente ou aos que considerava terem os escudos necessários para gastar nessa relíquia, evitando cuidadosamente os bravos que abafavam a palhinha e eu só podia considerar uma honra ele ter-me escolhido.
Turma de 84
Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)
25 fevereiro 2012
Um sábado qualquer... - «Origens» (por Carlos Ruas)
Banda desenhada do brasileiro Carlos Ruas, que recomendo. Aqui, o Diabo aproveita uma ideia de Deus:

Um sábado qualquer...
Um sábado qualquer...
24 fevereiro 2012
Homens, tomem lá serviço púbico!
nina hartley teaching to eat pussy brought to you by Tube8
Merci beaucoup, mon ami
«Asneira da grossa» - Patife

Patife
Blog «fode, fode, patife»
«conversa 1874» - bagaço amarelo

Eu - Costumam?
Ela - Costumam. A histeria é uma máscara de felicidade.
Eu - Não sei se é.
Ela - Estou a falar daquela histeria festiva, em que uma pessoa faz a festa, lança os foguetes e ainda vai apanhar as canas.
Eu - Ah! Talvez...
Ela - Não é talvez, é de certeza. Eu sei porque também sou assim.
Eu - Histérica?
Ela - Sim.
Eu - Mas és infeliz, tu?
Ela - Sim, sinto-me infeliz.
Eu - Tem piada, nunca me pareceste uma mulher infeliz. Muito pelo contrário.
Ela - Lá está, isso é porque sou histérica. Tu és lento das ideias, não és?
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
23 fevereiro 2012
O doutor
O doutor repetiu, simplificando:
– Se são casados em separação de bens, caso se divorciem, os bens dele são dele e os seus são seus.
– Mesmo os que tivermos comprado durante o casamento?
– Sim, desde que efectivamente se comprove quem os comprou…
– Bonito serviço!... Eu não posso ter nada em meu nome, nem tenho conta nem nada. Está tudo em nome dele. Foi tudo comprado em nome dele, com cartão ou cheques em nome dele, por isso é tudo dele, é isso?
– Em principio…
– Em principio e no fim!
– Provavelmente.
– E se ele morrer?
– Tem de o enterrar.
– Ah! Não é isso! – A mulher deu uma gargalhada nervosa. – O doutor está a brincar mas até nisso ele é do contra: o homem não quer ser enterrado. Diz que quer ser cremado e que as cinzas têm de ser lançadas no jardim da casa dos pais.
– Da casa dos pais? Qual é a casa dos pais?
– Não é dele! – A mulher abanou a cabeça com veemência, desesperada por antecipação. – Calhou em partilhas a um tio com quem ele não se fala há mais de trinta anos. Não fala com ninguém dessa parte da família!
– E quer as cinzas lá?
– Mesmo por isso! – A mulher riu-se. – Ele é um retorcido do pior, doutor, até já me disse que quer que eles saibam que ele está lá. E acho que também já disse ao filho. – A mulher recolocou a expressão séria e formal do início da reunião e, pousando as mãos na mesa, fixou o advogado com um olhar vítreo, concentrado, e disse: – Mas isso agora não interessa nada, doutor, o que eu preciso de saber é se ele morrer quais são os meus direitos. Tenho direito a alguma coisa ou, como estamos casados em separação de bens, não vejo nada?
– Se ele morrer é herdeira dele…
– De todos os bens?
– Sim.
As pálpebras afastaram-se e os olhos da mulher brilharam mas o rosto continuou tão formalmente impassível como antes.
– Mas se me divorciar não? – perguntou, com a voz ligeiramente trémula de comoção.
– Se se divorciar deixa de ser herdeira.
– Sim e não apanho nada. – Os olhos da mulher continuavam a brilhar e os dedos entrelaçavam-se e separavam-se em movimentos nervosos, calculistas.
– Para usar a sua expressão, sim, não apanha nada.
– Mas se ele morrer, herdo tudo! – A mulher não conseguiu disfarçar um sorriso, que camuflou com um providencial ataque de tosse e consequente movimento da mão a tapar a boca.
– Tudo não. O seu marido tem um filho, não é?
– É, tem um.
– Então são os dois herdeiros.
– Eu e ele…
– Sim.
– Quer dizer que o doutor é da opinião de eu não me divorciar.
– Eu não sou de opinião nenhuma. Isso é uma decisão pessoal e, parece-me, nem deve ser uma decisão exclusivamente económica.
A mulher soltou uma gargalhada genuinamente divertida.
– Desculpe mas essa foi boa!
– É o que eu penso.
– E se o casamento tiver sido uma decisão económica? – A mulher lançou a pergunta ainda acompanhada do anterior ar de riso e satisfação que, no entanto, se começou a esbater logo que se ouviu fazê-la e, ainda a sorrir, acrescentou: – Dos dois.
– Sendo assim…
– Foi assim – interrompeu a mulher, concludente, enquanto lhe passava uma sombra pela expressão que lhe levou o sorriso e o brilho no olhar. Depois de uma pausa, ela disse como se se confessasse: – Eu queria mudar de vida e ele queria ter-me com exclusividade. Achámos os dois que ficávamos a ganhar. E… – A mulher falava para as mãos, entrelaçadas pelos dedos e pousadas em cima da mesa. – E, na realidade, naquela altura, eu gostava dele e ele de mim. – A mulher levantou a cabeça e cruzou o olhar com o do advogado, procurando aferir da expressão dele o que dizer e o que calar. Calou-se: – Mas isso não é importante.
O doutor ensaiou um sorriso que não chegou a estrear, percebendo, na frase curta e no olhar duro da cliente, que esta tinha captado a expressão de entediado desinteresse que deixara escapar enquanto ela falava. Censurou-se por ter sido apanhado e isso poder influir nos honorários a pedir, e decidiu remediar a situação:
– A nossa vida, para nós que estamos dentro dela, é sempre importante. Muito importante. – O doutor gostou do som cheio com que dissera uma frase tão vazia e continuou: – Todavia, por vezes, temos de tomar decisões… – Lembrou-se a tempo das dúvidas que assaltavam a mulher para quem falava e acrescentou: – De fazer ou não fazer. Decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na verdade, é isso que fazemos…
E o doutor continuou, com empáfia e presunção, a martelar frases como se as fizesse ressoar num bombo, frases com tanto conteúdo como o instrumento. Deixara a lei, a doutrina e a jurisprudência e seguia deleitado a ouvir-se falar sobre a vida e o seu sentido. A mulher ouvia-o apenas por cortesia, decidida não só a não lhe dizer mais nada, como em deixá-lo masturbar-se à vontade à sua frente com o seu longo e oco monólogo – quanto mais o ouvia e via mais lhe parecia que ele estava a ter prazer físico em ouvir-se falar.
Dormente, a cliente esperava apenas que ele concluísse as redondas e ocas “alegações finais” e não lhe cobrasse o tempo extra que estas estavam a demorar, no entanto, não se conseguiu conter quando, depois de arengar mais uns minutos, o advogado repetiu:
– E é isso, há decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na realidade, é isso que fazemos. São decisões difíceis, quantas vezes incompreendidas…
– Se é isso que realmente fazemos – interrompeu a mulher, ácida –, então não estamos a decidir nada. – O advogado olhou para ela, incomodado pela interrupção. A mulher pensou que ele não tinha percebido mas que a estava a ouvir e explicou: – Se as decisões se parecem com a ausência de decisões e, na realidade, como o doutor disse, foi isso mesmo que fizemos, então o que fizemos foi não decidir e a aparência e a realidade são uma e a mesma coisa, apesar de nós próprios podermos depois imaginar a não decisão como uma decisão por uma razão qualquer, de conforto ou de auto-ilusão, ou outra, e, provavelmente, sem termos sequer a noção disso. Não decidimos ponto final mas como a vida não espera pelas nossas decisões…
– Ah! – O doutor olhou para o relógio que lhe ocupava o pulso todo e ainda sobrava. A mulher achou o relógio apalhaçado mas não disse nada. – A nossa conversa… – o advogado riu-se – sim, porque isto já não é uma consulta, nem sequer uma reunião, é uma conversa – o doutor tornou a olhar para o relógio, que fez questão de mostrar explicitamente de forma sub-reptícia em todo o seu esplendor. – A nossa conversa alongou-se e eu tinha uma outra reunião às seis e já são seis e catorze. Não sei se ainda a posso ajudar em mais algum assunto.
– Não, estou esclarecida, doutor.
O advogado levantou-se e ficou em pé a olhar para o decote da cliente que, ainda sentada, guardava o telemóvel e a carteira na mala.
– Muito bem, muito bem – apreciou o doutor. A mulher olhou-o e ele completou, subindo um palmo o alvo do seu olhar: – É sempre importante que as pessoas tomem decisões esclarecidas. Sempre importante. E pode contar com os meus serviços para o que entender… Para o que entender.
A mulher levantou-se, abanando a cabeça para cima e para baixo. O doutor sorriu e deu-lhe passagem, procurando vê-la de outros ângulos, o que fez com milimétrico cuidado. Satisfeito, passou-lhe à frente, roçando-se descaradamente no seu braço e, agarrado à maçaneta da porta que não abriu, chilreou:
– A sua situação não é nada fácil: há questões pessoais, claro que há, mas também há questões legais de fulcral e decisiva importância; por essa razão parece-me que há uma manifesta e aguda necessidade de ponderação e de um acompanhamento abrangente que permita enquadrar, a todo o tempo, as várias vertentes em conflito. A precipitação é um erro trágico e, muitas vezes, irremediavelmente caro mas que se pode prevenir com um mero telefonema ou um mero encontro… Mesmo fora de horas. – O doutor largou a maçaneta e tirou um cartão e uma caneta do bolso do casaco. – Vou-lhe dar o meu número pessoal e a senhora não hesite em contactar-me. – O doutor escreveu no cartão e entregou-o à cliente, com um sorriso oleoso, peganhento. – Podemos encontrar-nos quando quiser. Quando quiser.
A mulher recebeu o cartão e o sorriso com o mesmo asco. Agradeceu como se realmente agradecesse e estendeu a mão para se despedir.
– Liga-me? – insistiu o doutor, sem lhe largar a mão, enquanto abria a porta. – Eu gostava muito… – A mulher não conseguiu esconder uma careta de espanto e reprovação. O doutor, com o sorriso mais angelical que conseguiu, completou: – De a ajudar, claro… Eu gostava muito de a ajudar.
– Se são casados em separação de bens, caso se divorciem, os bens dele são dele e os seus são seus.
– Mesmo os que tivermos comprado durante o casamento?
– Sim, desde que efectivamente se comprove quem os comprou…
– Bonito serviço!... Eu não posso ter nada em meu nome, nem tenho conta nem nada. Está tudo em nome dele. Foi tudo comprado em nome dele, com cartão ou cheques em nome dele, por isso é tudo dele, é isso?
– Em principio…
– Em principio e no fim!
– Provavelmente.
– E se ele morrer?
– Tem de o enterrar.
– Ah! Não é isso! – A mulher deu uma gargalhada nervosa. – O doutor está a brincar mas até nisso ele é do contra: o homem não quer ser enterrado. Diz que quer ser cremado e que as cinzas têm de ser lançadas no jardim da casa dos pais.
– Da casa dos pais? Qual é a casa dos pais?
– Não é dele! – A mulher abanou a cabeça com veemência, desesperada por antecipação. – Calhou em partilhas a um tio com quem ele não se fala há mais de trinta anos. Não fala com ninguém dessa parte da família!
– E quer as cinzas lá?
– Mesmo por isso! – A mulher riu-se. – Ele é um retorcido do pior, doutor, até já me disse que quer que eles saibam que ele está lá. E acho que também já disse ao filho. – A mulher recolocou a expressão séria e formal do início da reunião e, pousando as mãos na mesa, fixou o advogado com um olhar vítreo, concentrado, e disse: – Mas isso agora não interessa nada, doutor, o que eu preciso de saber é se ele morrer quais são os meus direitos. Tenho direito a alguma coisa ou, como estamos casados em separação de bens, não vejo nada?
– Se ele morrer é herdeira dele…
– De todos os bens?
– Sim.
As pálpebras afastaram-se e os olhos da mulher brilharam mas o rosto continuou tão formalmente impassível como antes.
– Mas se me divorciar não? – perguntou, com a voz ligeiramente trémula de comoção.
– Se se divorciar deixa de ser herdeira.
– Sim e não apanho nada. – Os olhos da mulher continuavam a brilhar e os dedos entrelaçavam-se e separavam-se em movimentos nervosos, calculistas.
– Para usar a sua expressão, sim, não apanha nada.
– Mas se ele morrer, herdo tudo! – A mulher não conseguiu disfarçar um sorriso, que camuflou com um providencial ataque de tosse e consequente movimento da mão a tapar a boca.
– Tudo não. O seu marido tem um filho, não é?
– É, tem um.
– Então são os dois herdeiros.
– Eu e ele…
– Sim.
– Quer dizer que o doutor é da opinião de eu não me divorciar.
– Eu não sou de opinião nenhuma. Isso é uma decisão pessoal e, parece-me, nem deve ser uma decisão exclusivamente económica.
A mulher soltou uma gargalhada genuinamente divertida.
– Desculpe mas essa foi boa!
– É o que eu penso.
– E se o casamento tiver sido uma decisão económica? – A mulher lançou a pergunta ainda acompanhada do anterior ar de riso e satisfação que, no entanto, se começou a esbater logo que se ouviu fazê-la e, ainda a sorrir, acrescentou: – Dos dois.
– Sendo assim…
– Foi assim – interrompeu a mulher, concludente, enquanto lhe passava uma sombra pela expressão que lhe levou o sorriso e o brilho no olhar. Depois de uma pausa, ela disse como se se confessasse: – Eu queria mudar de vida e ele queria ter-me com exclusividade. Achámos os dois que ficávamos a ganhar. E… – A mulher falava para as mãos, entrelaçadas pelos dedos e pousadas em cima da mesa. – E, na realidade, naquela altura, eu gostava dele e ele de mim. – A mulher levantou a cabeça e cruzou o olhar com o do advogado, procurando aferir da expressão dele o que dizer e o que calar. Calou-se: – Mas isso não é importante.
O doutor ensaiou um sorriso que não chegou a estrear, percebendo, na frase curta e no olhar duro da cliente, que esta tinha captado a expressão de entediado desinteresse que deixara escapar enquanto ela falava. Censurou-se por ter sido apanhado e isso poder influir nos honorários a pedir, e decidiu remediar a situação:
– A nossa vida, para nós que estamos dentro dela, é sempre importante. Muito importante. – O doutor gostou do som cheio com que dissera uma frase tão vazia e continuou: – Todavia, por vezes, temos de tomar decisões… – Lembrou-se a tempo das dúvidas que assaltavam a mulher para quem falava e acrescentou: – De fazer ou não fazer. Decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na verdade, é isso que fazemos…
E o doutor continuou, com empáfia e presunção, a martelar frases como se as fizesse ressoar num bombo, frases com tanto conteúdo como o instrumento. Deixara a lei, a doutrina e a jurisprudência e seguia deleitado a ouvir-se falar sobre a vida e o seu sentido. A mulher ouvia-o apenas por cortesia, decidida não só a não lhe dizer mais nada, como em deixá-lo masturbar-se à vontade à sua frente com o seu longo e oco monólogo – quanto mais o ouvia e via mais lhe parecia que ele estava a ter prazer físico em ouvir-se falar.
Dormente, a cliente esperava apenas que ele concluísse as redondas e ocas “alegações finais” e não lhe cobrasse o tempo extra que estas estavam a demorar, no entanto, não se conseguiu conter quando, depois de arengar mais uns minutos, o advogado repetiu:
– E é isso, há decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na realidade, é isso que fazemos. São decisões difíceis, quantas vezes incompreendidas…
– Se é isso que realmente fazemos – interrompeu a mulher, ácida –, então não estamos a decidir nada. – O advogado olhou para ela, incomodado pela interrupção. A mulher pensou que ele não tinha percebido mas que a estava a ouvir e explicou: – Se as decisões se parecem com a ausência de decisões e, na realidade, como o doutor disse, foi isso mesmo que fizemos, então o que fizemos foi não decidir e a aparência e a realidade são uma e a mesma coisa, apesar de nós próprios podermos depois imaginar a não decisão como uma decisão por uma razão qualquer, de conforto ou de auto-ilusão, ou outra, e, provavelmente, sem termos sequer a noção disso. Não decidimos ponto final mas como a vida não espera pelas nossas decisões…
– Ah! – O doutor olhou para o relógio que lhe ocupava o pulso todo e ainda sobrava. A mulher achou o relógio apalhaçado mas não disse nada. – A nossa conversa… – o advogado riu-se – sim, porque isto já não é uma consulta, nem sequer uma reunião, é uma conversa – o doutor tornou a olhar para o relógio, que fez questão de mostrar explicitamente de forma sub-reptícia em todo o seu esplendor. – A nossa conversa alongou-se e eu tinha uma outra reunião às seis e já são seis e catorze. Não sei se ainda a posso ajudar em mais algum assunto.
– Não, estou esclarecida, doutor.
O advogado levantou-se e ficou em pé a olhar para o decote da cliente que, ainda sentada, guardava o telemóvel e a carteira na mala.
– Muito bem, muito bem – apreciou o doutor. A mulher olhou-o e ele completou, subindo um palmo o alvo do seu olhar: – É sempre importante que as pessoas tomem decisões esclarecidas. Sempre importante. E pode contar com os meus serviços para o que entender… Para o que entender.
A mulher levantou-se, abanando a cabeça para cima e para baixo. O doutor sorriu e deu-lhe passagem, procurando vê-la de outros ângulos, o que fez com milimétrico cuidado. Satisfeito, passou-lhe à frente, roçando-se descaradamente no seu braço e, agarrado à maçaneta da porta que não abriu, chilreou:
– A sua situação não é nada fácil: há questões pessoais, claro que há, mas também há questões legais de fulcral e decisiva importância; por essa razão parece-me que há uma manifesta e aguda necessidade de ponderação e de um acompanhamento abrangente que permita enquadrar, a todo o tempo, as várias vertentes em conflito. A precipitação é um erro trágico e, muitas vezes, irremediavelmente caro mas que se pode prevenir com um mero telefonema ou um mero encontro… Mesmo fora de horas. – O doutor largou a maçaneta e tirou um cartão e uma caneta do bolso do casaco. – Vou-lhe dar o meu número pessoal e a senhora não hesite em contactar-me. – O doutor escreveu no cartão e entregou-o à cliente, com um sorriso oleoso, peganhento. – Podemos encontrar-nos quando quiser. Quando quiser.
A mulher recebeu o cartão e o sorriso com o mesmo asco. Agradeceu como se realmente agradecesse e estendeu a mão para se despedir.
– Liga-me? – insistiu o doutor, sem lhe largar a mão, enquanto abria a porta. – Eu gostava muito… – A mulher não conseguiu esconder uma careta de espanto e reprovação. O doutor, com o sorriso mais angelical que conseguiu, completou: – De a ajudar, claro… Eu gostava muito de a ajudar.
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