16 setembro 2018

«O fiel Black» - Rui Felício

Celibatário por opção, durante anos, o Dr. Mário de Castro, era, sempre foi, um homem de rotinas. Há trinta anos atrás, quando se empregou no Banco de Portugal comprou casa no Jardim da Parada em Campo de Ourique, onde ainda vivia.
Todos os dias saía de casa as sete e meia da manhã, tomava o pequeno almoço na Pastelaria Doce Camélia, na esquina da Rua Almeida e Sousa com a Tomás da Anunciação.
Apanhava o eléctrico na Ferreira Borges que o levava até ao Chiado, descendo depois a pé até ao Banco na Rua da Conceição, onde chegava pontualmente a um quarto para as nove.
Há meia dúzia de anos adoptara o Black, um fox terrier nervoso e agressivo com qualquer estranho que se aproximasse da porta, mas meigo e completamente fiel ao seu dono.
No ano passado o Dr. Castro finalmente foi atingido pelo cupido e casou-se com a Candida, empregada da Doce Camélia que o atendia todas as manhãs.
Trinta anos mais nova, a Candida era uma rapariga bonita, de olhos negros profundos. O corpo esbelto revelava o viço da juventude, a sensualidade, que se adivinhava incendiar-se ao mais pequeno toque, ao mais leve roçar.
Deixou o emprego quando se casou, ficando em casa com o Black que aos poucos se foi habituando à sua nova dona.
A agora respeitável D. Candida rapidamente percebeu que a solidão e placidez da sua nova situação social e de desafogo financeiro colidiam com a azáfama de empregada da pastelaria.
O Carlos, estudante no Instituto Superior de Economia, a São Bento, e frequentador da Doce Camélia, encontrou-a um dia no Jardim da Parada. Reconheceram-se, ela contou-lhe que tinha casado e, apontando com o dedo para um quarto andar, disse-lhe que era ali que morava agora.
- Quer conhecer a minha casa?
O Carlos acompanhou-a mas, ao transpor o portal, o Black rosnou-lhe, ladrou-lhe, mostrou-lhe os dentes raivoso.
Nos dias seguintes, aos poucos, o Carlos levava uns mimos para o cão, afagava-o, foi conquistando a sua confiança.
Agora, o Black, abanava o rabo quando ele entrava, lambia-o, mostrava o seu contentamento.
Estava conquistado!
Adormecia no sofá, enquanto o Carlos e a Candida, no quarto, se entregavam aos prazeres do amor de dois jovens sedentos, apaixonados.
Um dia, a Candida, como um suicida que se deixa atrair pelo abismo, insistiu com o Carlos que gostaria que ele conhecesse o marido.
Queria que se tornassem amigos, tanto mais que ele estudava Economia, o mesmo curso do Dr. Castro.
- E assim a vizinhança não estranhará as tuas vindas cá a casa, explicou ela, perante alguma relutância do Carlos.
Combinaram um encontro falsamente casual na pastelaria, onde ela lhe apresentaria o marido.
Depois desse encontro, o Dr. Castro disse à mulher que tinha gostado muito do rapaz. Pareceu-lhe educado, bem parecido, conversador e inteligente.
Fiquei encantado, sabes?
- E se o convidássemos para almoçar cá em casa um dia destes?, sugeriu-lhe o marido.
- Acho uma óptima ideia, meu amor, respondeu-lhe a D. Candida, com um beijo.
Ficou aprazado para o sábado seguinte.
Ao meio dia desse sábado, lá estava o Carlos.
Veio abrir-lhe a porta o próprio Dr. Castro, desculpando-se antecipadamente, com um aviso:
- Temos cá em casa um cão um bocado agressivo com estranhos. Não se assuste, meu amigo, que eu ponho-o na ordem.
Estupefacto, o Dr. Mário de Castro, viu o Black, arfando de contentamento, saltar para o colo do Carlos, lambendo-lhe as mãos, feliz, quase sorrindo...
Inteligente, percebeu tudo.
Desfez o casamento. Voltou ao celibato...

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido


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