24 março 2013

Prostituição - a minha história (V)

Verão de 1997... (...) Tocaram à campainha, eu calma, estranhamente calma, espreitei pelo óculo para ver o que me calhava e... e... era um sapo! Um sorridente sapo! Um sapo com um sorriso de orelha a orelha, tão contente que quase saltitava ao perceber-me espreitar! Abri-lhe a porta. Entrou, contente, contente, agarrou-me, deu-me duas beijocas e disse-me o nome. Não sei como fomos parar à cama, não sei se tomámos banho, não me lembro. Sei que continuava com a estranha calma de quem está a ver um filme. Lembro-me do sapinho deitado em cima da cama, de barriga muito redonda para cima, de óculos na cara, sempre de sorriso feliz, feliz! Lembro-me das mãozinhas sapudas e desajeitadas que me agarravam o peito com a pontas dos dedos e o abanavam. Lembro-me de estar de quatro, ele a gemer muito, os lençóis escorregavam, terminou assim, feliz e contente. No fim, quando saí um pouco da sensação de filme, percebi: esqueci-me de usar preservativo!!! O homem, já vestido, estendia-me o dinheiro, agarrei-o na mão, deu-me duas beijocas e levei-o à porta. Fui tomar banho, vesti-me, tirei o lençol da cama, meti lençol e toalhas na roupa suja. O telefone toca, atendo, era a Glória a avisar que a hora tinha terminado. Contei o dinheiro, eram vinte cinco contos, lembro-me que pensei que era imenso dinheiro. Não ter usado preservativo ainda na minha cabeça, a cansar-me, o filme persistia e voltei a flutuar. Saí, voltei ao escritório das apresentações. Entreguei o dinheiro, sentei-me na sala e nem tive de pensar, "meninas, apresentaçããããão!", lá fui, desfile, sala, mais duas vezes quase seguidas se repetiu esta cena: "meninas, apresentaçããããããão!", "Joana, vem, rápido", chamava-me a Ana, é meia-hora no apartamento x, toma a chave, o senhor paga aqui, já vai lá ter. O autómato Joana agarrou na chave e na mala e lá foi. Porta do prédio, elevador, porta do apartamento, entro, não sei quem lá vem porque foram várias apresentações seguidas e não fixei nenhum dos homens, aliás, nem sequer os vi, tinha o olhar desligado. Batem à porta, espreito pelo óculo e...

Os 20 penteados mais incríveis de uma xana



Obscenatório
http://obscenatorio.blogspot.com.br/

23 março 2013

Homens, aprendam a instalar um termostato digital

«coisas que fascinam (155)» - bagaço amarelo

falta de ar

Estou parado numa estação qualquer entre Aveiro e Lisboa Santa Apolónia. Sempre que viajo de avião cedo facilmente o lugar à janela. Tirando a primeira vez que voei, ainda era bastante novo, nunca tive grande necessidade de ir a olhar para as nuvens lá fora. Já quando ando de comboio, adoro ir a ver as casas e principalmente as pessoas lá fora.
Alguns pingos de chuva, poucos, riscaram o vidro numa diagonal provocada pela velocidade da composição. Por trás deles surgem abraços e beijos entre os passageiros que acabaram de sair e aqueles que os esperavam. Acho piada. Imagino duas equipas de râguebi a correrem uma contra a outra para acabarem aos abraços e beijos. Afinal de contas, foi mais ou menos isso que aconteceu.
Depois as pessoas separam-se novamente e caminham, normalmente em grupos de dois, para o seu destino. Vejo muitas mãos dadas e ainda mais sorrisos. Sobra um abraço que ainda não se desfez. Um homem careca, de camisola vermelha, e uma mulher morena um pouco mais alta do que ele. Já tive daqueles abraços. São tão bons.
São os abraços de quem sabe que Ama e que é Amado, mas para cujo Amor o que se sabe não chega. Não é suficiente. Precisa-se do toque da mesma forma que se precisa de respirar. Por isso mesmo é que aquele abraço ainda não se desfez. É um abraço de que estava com falta de ar.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Milagre da Rosas

Anda por aí muita gente enganada com o milagre a que chamam "das Rosas"!
Já tive oportunidade de esclarecer aqui o que se passou na realidade, comigo e com a Rainha Santa Isabel:

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O verdadeiro milagre da Rosas

Um dia, o rei ia a cavalo pelo bosque. Encontrou a rainha, despenteada e com as roupas num desalinho. E algo parecia estar debaixo do manto:
- O que é isso que aí tens por baixo do manto, minha rainha?
- São Rosas, senhor!...
- Ah, bom!
O rei voltou para o castelo e a rainha pôde continuar o que estava a fazer com a Maria da Conceição Rosas.

Moral da história - Debaixo dos mantos havia papos-húmidos e não papos-secos...
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Veio-se isto a propósito da prendinha que recebi do Rafaelitolindo, uma peça em barro pintado que ilustra a lenda (falseando a realidade) e que passou a ser o único objecto não erótico da minha colecção:

Use o material adequado

Para sapatos, por exemplo, use couro.



O príncipe ficou com a morena e a ruiva mesmo.

Capinaremos.com

22 março 2013

Que fome!

"Podes vir para o pé de mim, que eu não te mordo" - disse-lhe ela com um ar sorridente e num tom quase desafiante.
"É precisamente por isso que não me aproximo mais" - retorquiu-lhe ele, encolhendo os ombros, mantendo-se à mesma distância.
Os pensamentos dele afastaram-se daquele espaço e daquele tempo e embrenharam-se noutros. A sua expressão tornou-se sombria, deixando subentender que o mundo onde o seu cérebro estava, para além de distante, não seria muito agradável, nem iluminado.
Lembrava-se de estar num espaço e num tempo onde o afastamento era nulo. Onde ambos estavam tão próximos que só a pele os mantinha afastados. Onde o toque da boca dela e dos respectivos dentes o tinham surpreendido. Onde as quase dolorosas marcas, sempre por ela negadas, eram exibidas com orgulho.
Num tempo que parecia ao mesmo tempo tão eterno e tão fugaz. Um espaço e um tempo tão afastados de si, cujo afastamento parecia tender para o infinito. Quase tão depressa quanto o seu sentimento. Sentimento que agora se aproximava de zero, contrariando toda a matemática e a lógica. Ou talvez tivesse sido a lógica contrariada desde o início. Desde aquele sistemático contestar e protelar da relação. Relação secreta, escondida. Quase inconfessável. Que muitos adivinhavam e tomavam como certa. E acertaram até certo ponto. Até ao ponto do não retorno. Um ponto que apesar de parecer de fuga apenas à vista, tinha sido de fuga inconsciente, mas definitiva. Onde a plasticidade da relação tinha sido levada longe demais, levada para lá do ponto de ruptura.
Durante meses os palavrões, as dentadas, os movimentos, os gemidos e o desejo não lhe tinham saído da cabeça. Martelavam-lhe o cérebro quase com o mesmo ritmo de passagem daqueles pensamentos recorrentes. Minuto a minuto, hora a hora, massacravam-no quase com a mesma intensidade dos momentos de prazer de que se recordava. E agora, nada.
"Estás cheio de fome?" - insistiu querendo ser agradavelmente simpática, enquanto olhava em redor para as mesas ainda repletas - "Eu tenho bastante".
"Tenho. Muita." - concluiu ele afastando-se para procurar algo onde ferrar os dentes.

Postalinho dos pinhais

"Boa noite,
Por acaso já atentaram numa pinha em formaSão?
Parece-vos algo familiar?
Pois a mim, sim…"
Luís Barreiro


Semen Up - «Lo estás haciendo muy bien»

Programa de TV "Música Golfa", 1988

Vida de ciclista



nadaver.com

21 março 2013

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Florbela Espanca (1894-1930)


Laure Albin Guillot, 1930s

blog A Pérola

«Diário do Patife IV» - Patife

Nesta rubrica, um dia do diário de notas do Patife é aqui transcrito todos os meses sem censuras.

20 de Outubro

Do outro lado do bar do hotel está uma mulher sozinha a fumar um cigarro. Pergunto-me qual seria a sua reacção se a mandasse sugar-me a trombeta com a justificação: É só um pénis. Não te fará pior que um cigarro.

Continuo a acreditar que o sexo anal é das coisas mais sobrevalorizadas do mundo. É isso e o sabor do caviar. Mas não é por isso que deixo de os comer.

A empregada de mesa do restaurante disse-me que o prato estava quente e que era melhor começar a tirar das bordas. Acabei de lhe entregar um bilhete a dizer que para tirar das bordas, primeiro tenho de o meter.

Hoje fizeram-me um bico enquanto eu estava a guiar o carro. Registo o momento de euforia interior quando passei por Pinheiro de Fora enquanto estava com o pinheiro dentro da goela da moça. É o facto de encontrar felicidade nestas pequenas coisas que me faz acreditar ser alguém especial e o sonho húmido de qualquer psicoterapeuta. Em particular esta última.

Não sei por que raio as mulheres são tão obcecadas por sapatos e penteados. É que os homens reparam em tudo o que está precisamente ENTRE os pés e os cabelos. Escutem-me bem: Não queremos saber das extremidades para nada. A não ser da extremidade do nosso pincel.


Patife
Blog «fode, fode, patife»

Estórias de um passado-presente (V)


Era chegado o dia em que eu já não tinha como arranjar subterfúgios para escapar. Tinha-me comprometido a estar ás 16h no apartamento, e além disso, tinha de começar a resolver a bola de neve que me levou lá e que se avolumava.
Passei a noite em claro, a ler tudo o que me aparecesse pela frente que pudesse preparar-me para o que seria aquele meu dia. De manhã preguicei entre roupa, cabelos, maquilhagem, e os atavios que achava necessários... Parecia que a minha indecisão em tudo o que eram pequenas escolhas era o reflexo mais óbvio da indecisão do propósito.
Pus pés ao caminho, e tentava não pensar. Tentava a todo o custo tornar-me uma folha em branco onde não se pudesse começar a escrever com algo a condicionar o rumo do texto.
Quando cheguei, fui apresentada à "fauna" local, que no dia anterior não estava por lá. Uma miuda bonitinha, cujo nome não recordo, e exageradamente simpática, com a qual não tive tempo de conversar por mais de dez imnutos seguidos porque estava num corropio de marcações e atendimentos. Uma tipa com o maior ar de janada da história, que se abandonava a não-sei-onde numa das espreguiçadeiras da sala de espera. E a madame...
Tentava articular perguntas que me parecessem coerentes com as minhas dúvidas. E lá me foram explicando o que queriam dizer cada vez que atendiam o telefone... E entretanto, uma hora volvida, a Madame achava que eu já estava suficientemente esclarecida e pronta para ser "largada" ás feras. Perguntou-me que nome queria que me chamassem, e eu - tonta - disse-lhe o meu. E ela pergunta-me qual era o meu nome de baptismo, ao que eu lhe respondo que tinha acabado de lho dizer. "Não pode ser, podes ter problemas... ninguém usa o nome verdadeiro!". Naquele momento, numa conjunção de acasos, começa a tocar na TV "Luís Represas - Mariana". Mariana era um nome com o qual eu vivia - no papel - desde há muito tempo. Fez-me sentido. E ficou...
A campainha toca... eram "clientes dos táxis". Três amigos, e duas meninas disponíveis. Lá me apresentei, a tremelicar e meia aparvalhada. Eram emigrantes no Reino Unido, e estavam de férias. Dois deles decidiram que partilhariam a mesma menina, e o outro calhou-me a mim.
Percebeu que eu estava terrívelmente desconfortável... Percebeu que estava assustada, e tentou acalmar-me. Foi simpático - acho -, e tentou dizer-me que se precisasse de ajuda para não continuar o procurasse. Ignorei tudo. Despiu-me, beijou-me o corpo, e seguiu... Recordo-lhe o rosto e as mãos ao ponto de o poder desenhar! Mas não me recordo de mais nada. Fiquei em choque, quando terminou, e acho que nem sequer o acompanhei à porta, despedi ou coisa que o valha. Fiquei ali, recém-nascida e sem saber o que estava sequer a sentir. Refugiei-me no cigarro, e desliguei a mente.
Sei que nessa noite saí de lá com a certeza que não voltava. Não para aquele sítio...

Mimi
blog «Sometimes It Happens...»