14 abril 2013

Aquele...


Foto: Christian Coigny
 
 
Aquele beijo. Aquele que não resistimos. Aquele onde nos entregamos. Aquele beijo que leva tudo. Aquele onde nascemos. Aquele beijo onde morremos. Que leva a alma. Aquele beijo que nos ruboriza. Aquele ao qual fugimos por breves segundos para o poder prolongar. Aquele beijo. Aquele que nos entreabre ligeiramente os lábios. Aquele beijo que começa tépido, calmo e termina quente. Explosivo. Aquele beijo que nos leva as forças. Fechamos os olhos para o sentir inteiro naquele único sentido que é o da alma. Aquele beijo desmedido e interminável. Aquele que é doce e levemente molhado. Aquele onde depomos o desejo de o querer para sempre. Aquele beijo sôfrego e que marca conquistas e momentos como uma bandeira. Aquele beijo que apetece. Aquele onde nos sentimos morar quando o corpo levita. Aquele. 

«You've Got Talent - Ucrânia - 5 - Anastasia Sokolova de Kiev»

«Namoro de antigamente» - por Rui Felício


O Senhor Fachada era respeitado, por ser o homem mais rico da aldeia.
Era também, ao mesmo tempo, admirado e temido.
Admirado pelo carácter, pela figura imponente de possante estatura, pela respeitável barba grisalha, Temido, pelo pausado e duro tom de voz que lhe fazia sair as palavras da garganta como pedras certeiras que feriam mais o interlocutor desprevenido do que o magoaria uma evenual chibatada do pingalim que volteava na sua mão quando alguma coisa lhe desagradava.
Falava telegráficamente, nunca se sabendo quais as ideias ou sentimentos que se digladiavam na sua austera cabeça, antes de sentenciar em poucas palavras, depois de longa reflexão, o veredicto final, decisivo, irrevogável e inapelável.
O Fueiro, polícia que trabalhava em Coimbra, vivia na aldeia, perto da igreja, numa tosca casa de calhau rolado, onde a chuva se infiltrava pelo telhado velho em noites de temporal.
Depois de dias e dias de indecisão, encheu-se finalmente de coragem, montou-se na bicicleta e foi à Quinta pedir para falar com o Sr. Fachada.
Mandaram-no entrar na grande sala onde o dono da Quinta jantava, desbarretou-se e ficou de pé em frente da enorme mesa, à espera de autorização para falar.
Longos minutos depois, a um aceno imperativo do Sr. Fachada, articulou nervoso:
- Venho pedir a mão da sua neta e pedir a sua autorização para casar com ela...
O velho continuou a sorver a sopa com grande ruido, tirou o guardanapo de linho do pescoço, afiou com o canivete um pau de salgueiro, palitou os dentes com uma lentidão exasperante e mandou a criada chamar a sua neta.
A Conceição entrou pouco depois, olhou de esguelha o Fueiro e especou-se em frente ao avô.
- Então namoravas com o Sr. Fueiro e eu não sabia, disse-lhe o avô, inquisitivo, sem conseguir disfarçar um tique no nariz que era o único sinal visivel do seu incómodo.
-Eu? Nunca falei com ele! Deve estar doido! Alguma vez eu namoraria com este cepo?
O Fueiro argumentou:
- Mas eu passo ao pé do muro da Quinta todas as tardes de bicicleta e buzino-lhe várias vezes menina Conceição! Como a menina nunca me disse para eu não buzinar...
O polícia fitou o Sr. Fachada aguardando uma resposta, já este se levantava da mesa, endireitando os vincos das calças, sem nunca deixar de escarafunchar os dentes com o palito.
Já à porta, antes de sair da sala, voltou lentamente a cabeça, mirou o Fueiro que amassava o chapéu entre as mãos e ordenou à criada:
- Vai lá fora e fura a buzina da bicicleta do Sr. Fueiro!

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido

Trivialidades



Primeiro, Senhor Doutor, gostaria de lhe pedir o maior sigilo sobre a minha vinda aqui. Não é que não assuma o facto de o estar a consultar mas que necessidade tem toda a gente de o saber?... Uma coisa é dizer-lhe a si que é difícil aturar uma mulher como a Maria e outra, é contar os pormenores a toda a gente. Você é homem e entende-me que não fica bem comentar os defeitos de uma senhora.

Saiba o Senhor Doutor que quando alvitro que a refilisse dela se deve ao período, ela atira-me logo à cara que sou machista. Um gajo esforça-se e ela está sempre com detalhes. E depois, com aquela mania que ela tem de que a igualdade começa na cama e da porta de casa para dentro, o Senhor Doutor nem queira saber o que passo. Da última vez que lhe sugeri que estava na hora de fazer ski no Monte de Vénus completamente limpinho, não é que ela me disse que ia já fazer a marcação e de caminho arranjava também uma horinha para mim que estava farta de pêlos a meterem-se pelo nariz?... E ainda lhe digo mais; não é que um gajo está descansadinho a beber uma cervejinha e deixa a lata ou a garrafa vazia no sítio que está mais à mão e a Maria não perdoa e questiona-me logo se preciso de aumentar a graduação dos óculos para descobrir os ecopontos lá de casa, com o remoque adicional de que ambos sabemos que não são pilhões.

Sorte tinha o meu avô, Senhor Doutor, a quem a minha avó estava sempre a procurar o jeito. Agora a Maria exige-me que seja um expert na cama, um gajo bem humorado e com alguma cultura para conversar com ela e ainda quer que saiba fazer o mesmo que ela nas lides domésticas. O Senhor Doutor acha que é suposto um homem aguentar tanto?...

A diferença básica

E dizem que homens não fazem mais do que uma coisa de cada vez…



Homem super multiuso.

Capinaremos.com

13 abril 2013

Mulheres, aprendam a fazer uma salada

«respostas a perguntas inexistentes (231)» - bagaço amarelo

A Ana é uma mulher bonita. Como a conheço há alguns anos, já tinha reparado nisso muitas vezes. No entanto hoje, quando vi o seu reflexo na montra dum pronto-a-vestir, reparei duma forma diferente. Foi como se tivesse consciencializado pela primeira vez esse pensamento. Ali, do outro lado do vidro, a sua imagem misturava-se com a inquietante quietude dos manequins e ganhava vida.
Por um momento percebi o motivo pelo qual me costumo apaixonar por aí, de vez em quando, como quem bebe uma cerveja ou acende um cigarro na rua. Uma mulher faz com que todos os outros se assemelhem, por um momento que seja, a manequins. É ela quem ri, é ela quem chora, é ela a única que provoca no nosso corpo uma resposta emocional. Todos os outros são apenas bonecos que vestem uma roupa qualquer.
Ela estava a vestir o casaco e o reflexo dos nossos olhares cruzou-se por uma fracção de segundo. Vi-a sorrir. Tínhamos acabado de tomar o pequeno-almoço e eu só estava à espera de me poder despedir dela, numa despedida que fosse mais do que um simples acenar de mão ou um "até à próxima". Acabou de vestir o casaco e abracei-a.

- Com que então achas que é uma trabalheira... - disse eu enquanto abria os braços para a deixar fugir como se fosse um pássaro a fugir da gaiola.

Ela tinha comido uma torrada e bebido um sumo de laranja natural, eu tinha-me ficado por um café expresso sem açúcar. Mesmo assim demorámos mais ou menos o mesmo tempo a ingerir os pedidos. Ela ainda come e fala tão depressa como quando a conheci, há alguns anos atrás, e saímos juntos durante duas ou três semanas.
Esteve a explicar-me porque é que nunca mais saiu com ninguém. É que dá uma trabalheira envolver-se emocionalmente com um homem. É o trabalho de lhe conhecer o passado, o trabalho de enfrentar tudo aquilo vai descobrindo que não se gosta nele, o trabalho de desenhar o futuro a dois.

- Sozinha é tudo tão mais fácil! - concluiu

Ia perguntar-lhe qualquer coisa, mas desisti. Perante a prenda que era estar a vê-la a vestir o casaco, não me ia dar ao trabalho...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

«La Gaudriole - chansonnier joyeux, facétieux et grivois»

Edição revista (sem data mas provavelmente de 1849) de um cancioneiro francês publicado, pela primeira vez, em 1834.
São 545 páginas com canções "alegres, divertidas e atrevidas".
Autores: Béranger, Désaugiers, Colé, Gouffé, Festeau, Cabassol, Jacquemart, Gilles, Simon, Albert-M, Duapin, Moinaux, etc., etc.






Um sábado qualquer... - «Adão»



Um sábado qualquer...

12 abril 2013

Corações de Atum - Quando eu ganhar o totoloto

Prostituição - a minha história (VIII)

Verão de 1997... (...) Atendi o telefone novamente, disse que o cliente já tinha saído e que estava a arrumar. Tratei de mudar a cama, nervosa, apressada, bati com a perna numa esquina e... sangue no lençol, toca de mudar novamente, vesti-me e corri dali para fora. Entrei no escritório, uma confusão, um cliente em cada sala, à espera e um escondido no wc! Expliquei o que tinha acontecido e disseram-me que, quando assim fosse, para responder que era o porteiro cá em baixo que contava o tempo desde que alguém subia. Mais tarde percebi que enganavam um pouco no tempo se estavam clientes à espera de quarto. Não me lembro do resto do dia, somente que me doía a perna, que toda a gente parecia mais inteligente que eu e que estar sozinha naqueles quartos podia ser arriscado se um cliente se tornasse violento. No dia seguinte, quando cheguei, perguntaram-me se estava a atender menstruada porque um dos lençóis tinha sangue, expliquei que era sangue da minha perna. Aproveitaram para me explicar que, se estivesse menstruada, devia comprar umas esponjas especiais na farmácia que estancariam o sangue durante a relação. Aquilo não me convenceu muito e, para mais, uma das raparigas já estava, ao mesmo tempo, a explicar que era preciso cuidado, que, um dia, ficou com um pouco da esponja lá dentro sem perceber, e, só quando foi ao ginecologista porque não identificava o motivo do péssimo cheiro vaginal é que soube que aquilo lá estava. Outra das raparigas contou que lhe tinha aparecido o período a meio de um atendimento e que não reparou porque o quarto estava quase às escuras, quando acendeu a luz e viu sangue por todo o lado, ficou em pânico mas o cliente riu-se muito e disse que já tinha percebido e que adorava sangue menstrual. Nestas conversas dos entretantos é que fui descobrindo o "manual" da "acompanhante". Aprendi a expressão "fazer cabritos", descobri que era suposto gemer e fingir prazer durante o acto, sim, é verdade, tal não me tinha ocorrido numa relação em que o cliente sabe que não é por prazer mas sim porque pagou, descobri as mais diversas taras alheias e, sim, é verdade, descobri o prazer como ainda não o conhecia, os namorados da minha idade eram bonitos e apetecíveis mas os homens experientes sabiam muito bem o que faziam com o corpo de uma mulher. Ganhava dinheiro à velocidade da luz e gastava-o a igual velocidade. (Continua)

Boy is back


A Girl tinha tomado o seu primeiro de muitos cafés da manhã quando o telemóvel dá sinal de SMS. Uma palavra simples, apenas "Quickie?". "Sonofabitch", pensou ela. A resposta não tardou de volta para ele: "Fuck off". Ela sabia que ele não ia desistir. E não queria ir a correr. Pelo menos, não queria ir a correr naquele minuto, porque o coração e a excitação que começava a sentir abaixo do umbigo indicavam que não tardaria a mudar de ideias. Ele gosta de escrever SMS em inglês. Dizia que era mais directo. "I'll lick your soft  cunt like a God". Convencido. Segundo SMS dela: "Gofuckyourself". Ele não era tipo para desistir. As pernas dela começavam a fraquejar ainda mais depressa do que a vontade. "I'll make you come harder and harder", escreveu ele. "Bullshit", devolveu ela. "Just try me", sugeriu ele. Por essa altura ela queria-o ali, agora, naquele momento. "Onde, quando?", perguntou. "Olha pela janela", enviou ele. Ela olhou pela janela, e lá estava ele em baixo, com cara de gato que acabou de comer um pássaro. Ela balbuciou rapidamente uma desculpa perante o seu colega de escritório, pegou no casaco e saiu disparada. Ele abraçou-a sem dizer uma palavra. Ela disse-lhe ao ouvido: "Meu grande filho da puta". E assim as pazes foram seladas. Desceram a rua e entraram num hotel barato que já tinha a ficha deles e alguns outros vestígios de batalhas anteriores. Ele estava a abrir a porta do quarto e a desapertar a braguilha ao mesmo tempo. Ela começou a abrir o fecho da saia ainda no corredor. Ele atirou-a para cima da cama, sem cerimónia, afastou-lhe a calcinha para o lado e fez o que tinha prometido no SMS. Como um Deus. Como um "boss". Ela tomou-o na mão e sentiu-o túrgido, pulsante, urgente. "De quatro", ordenou ele, sem precisar. Quando ele entrou, ela deu um grito abafado. Duas, três, quatro estocadas com força. "Sentiste saudades minhas?", perguntou ele, arfante. "Quem pensas que és?", retorquiu-lhe ela, guturalmente. "Um gajo que te ama como um maluco e que te deseja, a cada hora, como um viciado." Uma entrada mais forte, e ela sentiu-o tão dentro que parecia que nunca mais conseguiria sair. "Agora", ordenou ele. Ela deixou-se obedecer e gritou. Os seus corpos tremeram em uníssono. Deve ter-se ouvido no outro lado do corredor. Que interessava? Eles estavam de volta. Segunda-feira. Dia do início da semana e do reinício. À noite teriam tempo de falar, como estão a fazer. Ele está a ver o texto à medida que é escrito,  enquanto vai dando os seus palpites. "Sonofabitch". "  Ela lavou-se rapidamente, compôs o cabelo, e com as pernas ainda a tremer voltou ao escritório. "Encontramo-nos à noite", disse ele simplesmente. No elevador ela verificou se se notava muito o rubor na cara. Um toque de perfume antes de entrar. Disfarçar, disfarçar.  O colega olhou para ela e, calmamente perguntou: "Ele voltou finalmente? Ainda bem. Já não aguentava o teu péssimo humor." Ela perguntou-se mentalmente o que a teria denunciado. "Who cares? Boy is back." A vida é boa e reabre hoje.