29 maio 2013

Palavras para quê?

Olho nos olhos das palavras, atrevido. E elas punem-me pelo arrojo, conscientes do quanto não possuo aquilo, seja o que for, que me conceda o direito de olhá-las assim. Sorriem com desdém, fazem troça do meu atrevimento e ignoram em absoluto a minha veleidade de escriba amador e amante inferior das suas tentações demoníacas, das ilusões que estendem como um falso tapete vermelho neste branco imenso que desafia os atrevidos como eu.
Olho-as com respeito e tento usá-las a preceito mas as palavras jamais se deixam usar, rebeldes por natureza, independentes da vontade de quem se arvora capaz de as manobrar a seu bel-prazer, superiores a todas as vaidades humanas.
E a minha, ridícula aos seus olhos de fêmeas bem rodadas, de palavras muito usadas, experientes, apenas belisca ao de leve a fina cútis que as protege dos arremedos de insignificantes prosadores, elas que já serviram para descrever intensos amores ou prodígios da inteligência.

Olho nos olhos as palavras e esboço um sorriso patético, ciente da sua incomensurável superioridade que me esmaga mas não me impede de as confrontar. Absurdo, entrego-me às palavras e ofereço-lhes a rendição.

A Primeira Afunda São de Sempre...

Não foi apenas a feitura do fogo que foi descoberta por acidente..


28 maio 2013

«Tô de Pauduro» - Paródia à Danza Kuduro

Eva portuguesa - «A mulher do cliente»

Há pouco tempo aconteceu-me algo no mínimo curioso.
Tocou o telefone - um número identificado - e eu atendo.
Oiço uma voz de mulher dizer: "olhe, bom dia, pode-me dizer por que o meu marido comunica tantas vezes consigo?"
Como devem imaginar, fiquei momentaneamente sem resposta... 

Depois pensei para mim: OK, vai haver merda... mas tens que manter a calma.
Respondi-lhe que não sabia quem era o marido.
Disse-me um nome e eu mantive (porque até era verdade) que continuava sem saber quem era a pessoa em questão.
A senhora pergunta-me se o meu nome não é Mariana, se o meu apartamento não e na alta de Lisboa (e deu a morada correcta e completa) e aí eu começo a ficar verdadeiramente preocupada, com receio que a senhora me viesse fazer um escândalo à porta de casa...
Pergunta-me porque ando eu atras do marido dela e aí, alto e pára o baile, pois isso eu não faço!
E expliquei-lhe quem era e o que fazia, e que o marido dela, para estar comigo, só se pagasse. E que eram os homens que me procuravam e não ao contrário.
Contra tudo o que eu esperava, a senhora foi realmente isso: uma 
senhora!  Pediu-me desculpa por me estar a abordar assim, não sabia da situação e compreendia que esta era a minha profissão. Pasmei!
Se fosse ao contrário, eu não seria tão racional...
Chorou, pediu-me desculpa, perguntou-me o que havia de fazer, perguntou-me o que procurava ele... enfim, de repente já estava a ser a sua confidente... e
u, a prostituta a cujos serviços o marido recorria frequentemente!
Fiquei impressionada... com a situação e, sobretudo, com a atitude correcta da mulher do meu cliente...
Foi mais uma lição de vida para mim.


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Verbo» - Susana Duarte

Sobre uma foto de Michel Debruille

um dia, saberei conjugar todos os verbos
-mesmo os verbos de ser arriba
escarpada
sobranceira-
e, ao conjugá-los, saberei onde estás:

manhã orvalhada de todas as palavras
de antes, desfloradas em neblinas
onde gotas de geada quebram folhas
suaves, lentas folhas
de chuva antiga
que me acende (caminhos?)

conjugo o verbo-palavra mitigada
pelo bater de asas suave
da leve
ondulação das águas
e, ao dizer da eloquência
dos sons, procuro ainda.

procuro o abrigo das asas

rectrizes de todos os uivos,

voos lentos dos meus braços curvos.

Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

O feijão tímido

É das peças mais pequenas da minha colecção e uma das que eu mais gosto.
Foi-me oferecida, já há alguns anos, pelo meu amigo Tony Costa.
Os dois braços, que levantam e baixam, seguram um chapéu. As três pernas (sim, três) são também articuladas.
Se um dia a minha exposição estiver exposta ao público, o feijão tímido poderá proporcionar um excelente passatempo, se for colocado num sítio diferente em cada dia e os visitantes forem convidados a encontrá-lo.




27 maio 2013

«Ladies Open» (em português, «mulheres, abram!»)

Há dois anos, fizemos uma reportagem do torneio de ténis feminino «Cantanhede Ladies Open».
Na altura, sugeri que organizassem também uma prova de ténis feminino «Ladies Naked». Ficaram de estudar o assunto... só que ainda não foi desta.
Mas não se perde nada, pois o cartaz do evento é extremamente apelativo...


... com esta simpática tenista a ser atacada por bolas por todos os lados...


... bolas com excelente bom gosto, diga-se de passagem...


... e com olho para a coisa!


O ténis feminino é um regalo!

Peta - «Faz como eles»

«respostas a perguntas inexistentes (241)» - bagaço amarelo

- Um dia destes ainda havemos de jantar os dois! - disse-me ela.

Fiquei a pensar naquela fracção de tempo, "um dia destes", tão pequena quando comparada com a minha vontade estar com ela. Mais pequena ainda do que isso, já que nesse dia se reduziria a um jantar. Lembrei-me duma música que ouvira no carro uns minutos antes, numa rádio que só passa canções dos anos oitenta, e que dizia que "a culpa é da vontade que vive dentro de mim e só morre com a idade, a idade do meu fim".

- Um ano destes ainda havemos de nos Amar os dois! - respondi-lhe.

A partir desse momento perdi a coragem de a fitar nos olhos. Não porque me apetecesse fugir, mas sim porque passei a sentir-me um invasor. Estávamos a lanchar e ela escondera o sorriso tímido por trás duma chávena de chá fumegante. Esperei um pouco e passeei o meu olhar por todos as coisas desinteressantes daquele café de esquina até a ouvir dar sinal de vida.

- Uma vida destas ainda havemos de nos Amar os dois! - insistiu ela.

Foi a primeira vez que demos as mãos um ao outro e durante dois meses vivemos um Amor eterno.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Luís Gaspar lê «Requiem a um sentimento”» de Gigi Manzarra

Jogo através do vento, as dúvidas secretas do meu destino e como sombra sorrateira, procuro nelas a sina escrita do meu amor. Atravesso a ilusão da eternidade e descubro que a labareda ardente que nos consumia, não me queima mais.
 Metamorfose lenta e imperceptível de um sentimento quente embalado nos braços de uma amizade morna, que o reduziu a uma pequena brasa que agora agoniza chorando dentro do meu peito.
 Sopro com força a brasa incolor que ruboriza tímida, sem ter a certeza se quer acender.
 No espelho da alma, a saudade me culpa o coração inconstante de vontade rebelde que não sabe amar. 
Olhando o teu rosto, mergulho neste sentimento tépido e questiono o porquê da minha quente paixão ter-se esvaecido no balanço monótono do tempo.
 Sobressalto o meu coração para acordá-lo, mas é tarde demais e me rendo sem luta a esse sono profundo de um sentimento morno a que o condenei!

Gigi Manzarra

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

Cuidado com a bebida alcóolica

Ela pode fazer você desenhar linhas tortas.



Moral da história: transaram.

Capinaremos.com