26 março 2012

«a marca salazar» - bagaço amarelo

Parecia-me que as mulheres davam muita importância a elas mesmas. Enquanto género, quero eu dizer. Não pessoalmente, que isso era lá com cada uma delas. Passei a minha infância e a minha juventude a ouvir que o que eu precisava era arranjar uma boa mulher. Era assim que eu podia expulsar da minha vida todos os males. Foram sempre mulheres a dizê-lo, nunca homens. A minha avó, que já não está entre nós, a minha mãe, uma das minhas tias e as amigas da minha mãe. Até aquela caladinha, que passava os dias a fazer carapins coloridos, um dia me desejou essa sorte. "Talvez um dia encontre uma boa mulher", disse. A minha mãe concordou abanando afirmativamente a cabeça.
Não percebia porque é que os homens, que eram supostamente quem precisava delas, nunca me aconselhavam o mesmo. Nem o meu pai, nem o meu avô, nem o meu tio, nem os amigos do meu pai. Nunca nenhum me disse que o que eu precisava era duma boa mulher. Um dos meus tios perguntava-me, às vezes, como é que eu estava de gajas, mas eu abanava sempre os ombros para lhe demonstrar que o tema nem sequer me interessava. Mais nada, nunca me deu nenhum conselho.
Precisei de crescer para perceber o que era uma boa mulher para as gerações anteriores à minha. Era uma mulher que soubesse cozinhar, lavar a roupa, passar a ferro e limpar/arrumar a casa. Já tinha desconfiado, na verdade, mas só com a idade é que tirei tudo a limpo. O Amor era uma mera formalidade entre as famílias portuguesas, para que cada homem pudesse arranjar uma boa mulher, ou seja, era pobre. Não o chegava a ser.
Dali, dum tempo que não era o meu, era o que vinha. Um país onde o Amor era todos os dias atirado para a valeta em nome da união entre um homem qualquer e uma boa mulher. E antes de qualquer outra formação política, passou a ser essa a minha marca Salazar.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Padre Paulo Ricardo: "Feminismo, o maior inimigo das mulheres"



Comentário da Libélula Purpurina:
"«Desculpem-me a franqueza» mas eu não tenho tanta paciência para o politicamente correcto. Quem é este tipo para tentar definir o que seja uma mulher se, dentro da sua perspectiva, ele próprio não chega a uma amostra do que seja um «Homem»? Para ser mais sintética, só recorrendo ao vernáculo... Em vez disso, vou citar:
«A cada um que passava dizia o Cristo de pedra: "Em vez de ter morrido numa cruz, por ti, antes tivesse pegado na lança que me abriu o peito, para com ela te rasgar os olhos da cara, para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos buracos dos teus olhos rasgados.
Tudo quanto eu te disse ficou escrito e é tudo quanto ainda hoje tenho para te dizer.
Se me fiz crucificar para to dizer porque não te deixas crucificar para saberes como eu to disse?
Não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, pregaram-mas bem, como se prega um crucificado; não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, para te sacudir a cabeça quando vieres ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz.
Se fosse o teu orgulho de joelhos, ainda era o teu orgulho, mas são as tuas pernas dobradas com o peso do ar.
Não tenho uma das mãos livres para te empurrar daqui da minha cruz até ao teu lugar lá em baixo na terra.
LEVANTA-TE, HOMEM! No dia em que tu nasceste, nasceu no mesmo dia um lugar para ti, lá em baixo na terra. Esse lugar é o teu! O teu lugar é a tua fortuna! O teu lugar é a tua glória. Não deixes o teu lugar vazio, nem te deixes p'raí sem lugar.»
Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro
(as maiúsculas são minhas... quem conta um conto...)
... e porque a malta é muito paciente... vou também citar um bocadinho de Fernando Pessoa, na voz do ilustre mestre Caeiro:
«Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.»
De resto... que raio de discurso o daquele senhor de saias... Já nem me lembrava de ouvir coisa tão cretina. Que doença esta, a deste monoteísmo mórbido, que põe os homens a atentar tanto contra a própria vida crendo que a defendem..."

Mensagem recebida do João:
"São Rosas,
Tinha pensado escrever o comentário abaixo no post sobre o feminismo, mas depois pensei para mim que é fútil. Quem quer ir embora, vai, e não faz disso publicidade. Faz publicidade quem espera que insistam "não vás". Não procuro isso. Mas também não me parece bem desaparecer sem uma satisfação, considerando a educação, simpatia e disponibilidade com que sempre fui tratado por vós.
Assim, embora disso não faça publicidade, entendo reproduzir abaixo o que seria o texto do comentário, sendo ele explicativo acerca da razão que me leva a não ter vontade de continuar a ser um membro d'A Fundi São.
Agradeço-te o convite, foi para mim um gosto muito grande poder estar convosco, vou-vos lendo, selectivamente, como sempre.
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É óbvio que escrevo, e penso, coisas que não são inteiramente concordantes com a doutrina da Igreja Católica. A vivência da sexualidade é o aspecto que considero mais difícil viver em concordância com essa doutrina, embora o entenda como limitação pessoal e não como imposição da fé. Dito isto, sou católico. Enquanto católico, é minha prerrogativa não estar onde não estou bem. Não imponho a minha fé, e não posso limitar a liberdade dos outros se exprimirem como entendem, já que não são obrigados a acreditar nas coisas em que eu acredito nem em manter reserva sobre as mesmas coisas acerca das quais eu me reservo. É muito frequente ler neste blog coisas que me agridem como católico. Não pode dizer-se que seja surpresa, porque ao chegar aqui rapidamente se percebe onde se está. Há gente muito divertida, é certo, o sexo é aqui discutido com uma naturalidade interessante, mas ainda assim em alguns momentos há comentários ou conteúdos sobre aspectos de fé em tom jocoso, apologia de "lifestyles" que não aprecio, ou mesmo ridicularização de símbolos ou valores em que acredito. Sois naturalmente livres de o fazer. Tanto quanto eu sou livre de não o fazer. Sem prejuízo para o muito que aqui me diverti, e sem prejuízo para o grato que sou por me terem, um dia, convidado a participar, o facto é que com o passar do tempo me fui questionando sobre se estava aqui bem. E hoje concluo que não estou. Em coerência, faço cessar a minha participação neste espaço. Não era já muita, convenhamos, pelo que a vós nada prejudica. Não excluo visitar o blog aqui e ali, mas não me apetece manter-me colaborador num espaço onde de quando em vez tropeço em insulto ou deliberada gozação com coisas com as quais me identifico. Sim, mesmo escrevendo e pensando o que escrevo e penso. É uma idiossincrasia, sim, mas é a minha idiossincrasia, eu me preocuparei com ela. A vós, tudo de bom, e obrigado pelo que de bom aqui tive.
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Obrigado,
João"

Nós é que te agradecemos, João. Serás sempre bem vindo aqui.
São Rosas

O ciclo sem fim… Oh... espera!

Os animais são uns bicho interessante…



Sexo de tartaruga é bem mais divertido do que eu imaginava, afinal.

Capinaremos.com

25 março 2012

Há-de ser um sucesso, levar este cão a passear!

Sexo seguro


Esta Páscoa Senhor Doutor, estive com o meu sobrinho, dezasseis anos de borbulhas e de escadote. E não é que o miúdo é telemóvel-dependente, Senhor Doutor ?!... Também posso ser eu que estou a ficar velha que até já o estou a tratar como garoto quando se a mim me chamassem isso nessa idade, eu mandava logo sentar num «bãoquinho», à moda do Porto.

Mas sabe o que me fez aflição?... O moço tem uma namorada, colega da escola e confidenciou-me que a artilharia da paixão dos dois é uma infindável lista de números de quatro dígitos para os quais se manda um sms e por alguns cêntimos se recebe a papinha feita, como se fosse uma pizza. Quer mandar um poema? Sms para o número tal e recebe uma quadrazita que reencaminha para a namorada. Quer mostrar o seu amor para com ela? Sms para outro número e recebe uma declaração pronta a consumir. Para ocasiões mais ousadas, sms com Kama Sutra para um outro número e aí vem um mms com uma posição.

Oh Senhor Doutor, eu pergunto-me é se estes moços vão chegar a vias de facto ou se vão escolher substituir o toque da pele por uma troca de mms de pedaços do seu corpo e comutar os gemidos para frases formatadas de sms.

Anúncio no Egipto à Coca-Cola com tampa de rosca

Sex in the Campus Party


Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)

24 março 2012

Homens, aprendam a embrulhar uma prenda

A posta numa cauda maior do tamanho do umbigo

Um dos maiores desafios que me foram colocados na adolescência foi o de conseguir chamar a atenção pela diferença (uma das abordagens mais radicais mas igualmente muito eficaz nessa fase, nessa época), algo que ficava bem a um jovem aspirante a rebelde, até porque a New Wave e o Punk introduziram no visual da rapaziada uma variedade de cortes e de cores suficientemente espalhafatosa para clarificar a postura.
E garanto-vos que não era fácil impor a tal diferença de forma passiva, com uma aparência quase normal a ombrear com franjas até ao umbigo, caracóis oxigenados até à raiz ou clones do último dos moicanos com um tufo de cabelo espetado como o de um piassaba a fazer de faixa central num crânio rapado à máquina zero all around.

Era esse o filme que nos esperava nas matinés do Beat ou do Porão da Nau nas quais urgia dar nas vistas perante as miúdas para ser possível a esperança de um engate, algo de muito significativo do ponto de vista do adolescente com pila naquela altura e espero que no de agora também.
Claro que ajudava ter um rosto apresentável mas era quase inevitável que elas se concentrassem nos pormenores que faziam a tal diferença que nos distinguia por entre os litros de acne e metros cúbicos de hormonas destrambelhadas espalhados pelas salas em busca do seu momento especial.
Aprendíamos depressa que mais importante do que uma cara bonita era a expressão que lhe colávamos que podia fazer a diferença entre as resmas de trombas de otários cheios de tiques de tanto sacudirem as carolas para tirarem as franjas dos olhos. A partir daí, desse instante mágico em que ela nos fixava com o olhar e fazia-se um clique qualquer que abria as portas ao curtir, que eram umas horas intermináveis de beijos na boca e pouco mais do que a promessa de algo mais que seria sempre algo marcado para amanhã ou depois logo se via.

Esses rituais de acasalamento acelerado à luz das psicadélicas ou em movimento retardado pelo estranho piscar do strobe eram o primeiro agitar das penas enfezadas na cauda de qualquer jovem pavão, assumindo-se assim vitais para a manutenção de um ego confiante e de uma atitude a condizer, numa guerra sem quartel pela quota de mercado disputada no mesmo território de gajos capazes de passarem uma hora ou mais na manutenção das suas cabeleiras espaciais e que julgavam sempre réplicas perfeitas das trunfas do Limahl ou dos gajos dos Duran Duran.
Mesmo admitindo que a essa concorrência feroz dei o mesmo tratamento que ainda hoje costumo aplicar, transformando aquelas superproduções capilares em sinais claros de desespero de causa por escassez de argumentação alternativa que, depois de refinado o paleio pela observação atenta dos discursos dos mais bem sucedidos no bairro ou na escola, servia de contraponto para a música com que abafávamos a que mal nos permitia trocar mais do que três ou quatro palavras seguidas, tenho que enfatizar a dificuldade enfrentada por quem queria marcar a diferença sem precisar para isso de seguir um padrão...

Tudo isto a propósito de como as coisas não mudam tanto assim com o tempo e continuam a dar cartas os gajos que mais investem no visual, seja porque se depilam ou porque vão ao ginásio dia sim dia também ou porque usam os óculos de sol que mais estiverem a dar nessa semana. E serão gajos igualmente capazes de utilizarem uma hora da sua existência para cuidarem de tudo ao pormenor, de abraçarem visuais extravagantes no limite do inenarrável ou de qualquer outro recurso numa guerra onde vale tudo menos arrancar olhos para dar nas vistas e ultrapassar assim a barreira inicial, a da indiferença, sem precisarem de outras armas para vencerem a primeira das batalhas.
Contudo, e também isso não muda com o tempo, o último a rir continua a ser o que ri melhor.

E na verdade o que interessa, quando a poeira assenta, é um gajo conseguir sempre saber onde estava afinal a piada.

«Bad taste bears» - ursinhos de mau gosto...

... mas que tiveram o bom gosto de vir para a minha colecção. Tenho outros, mas estes já chegam para terem uma ideia.

Um sábado qualquer... - «Após o grande momento»



Um sábado qualquer...

23 março 2012

Pronto a desabrochar

"Para a São Rosas
da Romicas"


«O meu cabeçalho é maior que o teu» - Patife

Gosto muito de nomeações. É pois a esgalhar o texugo que todos os anos assisto às nomeações para os Óscares. Mas gosto mais de distinções, por isso faço questão de ver a cerimónia de entrega dos ditos galardões enquanto uma moça me abocanha o trombone. Quando contei esta história à última que me mamou no pincel ela respondeu qualquer coisa como: Oh Patife, tu só dizes isso da boca para fora. No momento a seguir estava eu a ver os Óscares enquanto ela metia isto da boca para dentro. Isto tudo porque acabei de ser nomeado para um galardão que é a minha cara. Desde pequeno que ouço as pessoas dizer aqui do meu nabo: Eia pá, ca ganda cabeçalho que o gajo tem. Ou: Xi cum camandro tens um cabeçalho capaz de me rasgar a chona. Todos certamente já ouviram falar da fama do Pacheco, que é tido como o melhor cabeçalho da História dos cabeçalhos fálicos. É por isso com uma elevada dose de comoção e uma ainda mais elevada proeminência na cabeça do Pacheco que acabo de saber que estou nomeado para “Melhor Cabeçalho” pelo blog "Simão, Escuta". A votação está a decorrer aqui. Votem com cabeçalho.

Patife
Blog «fode, fode, patife»

«conversa 1881» - bagaço amarelo

(ouvida no metro do Porto)

Ele - Acho que a minha mulher me anda a pôr os cornos.
Ela - Como é que sabes?
Ele - Se ela descobriu que eu te ando a comer a ti e nem se importou, só pode andar a pôr-me os cornos.
Ela - Estou farta de te dizer que a gaja é uma vaca.
Ele - Mas eu descubro, eu descubro...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Simples...



Via Watermeloncolya

22 março 2012

«Introduzindo...»

Filme imagem-a-imagem de um casal desde o início de gravidez ao nascimento da filha, a que chamam "Our little 9 month project".

Exuberante

– Desculpe – pediu o homem dando a volta à secretaria e abeirando-se da doutora, que em passo rápido e sincopado atravessava o átrio em direcção às portas das salas de conferências.
– Vou para a sessão – disse a doutora, que parou a meio do átrio olhando para as quatro portas sem identificação que tinha à sua frente.
– Sim, senhora – apreciou o homem, com ar desconfiado, mirando sem pudor o ar demasiado preparado mas deslumbrante da mulher que tinha à sua frente.
– Em que sala é? – perguntou a mulher, fazendo de conta que não via o ar esgazeado do homem que a comia com olhos.
– A senhora vem para acompanhar algum dos engenheiros? – perguntou o homem, disfarçando um pouco o seu apetite.
A doutora arremelgou-lhe os olhos sem, no entanto, pensar realmente na pergunta.
– Que sala é? – repetiu, impaciente.
– A senhora é a acompanhante do Eng. Pimenta? – Tacteou o homem, olhando para o relógio, pois, o engenheiro tinha-lhe dito em segredo que viria uma senhora – aqui rira-se e piscara-lhe o olho – por volta das seis da tarde, e ainda eram só três e faltava a oradora da sessão de esclarecimento. A “senhora” estava muito adiantada.
A doutora respondeu-lhe com uma careta e um eloquente e sonoro:
– Pimenta, sim, é isso. Engenheiro Pimenta. Em que sala é?
– As acompanhantes dos senhores engenheiros não podem entrar – anunciou o homem. – Terá de aguardar pelo fim da sessão de esclarecimento. – E indicou com um gesto a porta de vidro que dava acesso ao bar do hotel. – Se fizer favor…
A doutora susteve a respiração para não desatar à gargalhada. Mordeu o lábio inferior e olhou para os sapatos do homem que, de pé, continuava à sua frente. Sem conseguir evitar as várias caretas com que ia suportando a paciente mas inquisitiva imobilidade e impassibilidade do homem, a doutora levantou a cabeça e olhou-o nos olhos, ou melhor, nas sobrancelhas, que era um truque que aprendera com o seu irmão mais velho que lhe ganhava sempre ao jogo do sério. O homem esboçou um ligeiro sorriso. A doutora não aguentou e abriu um sorriso de orelha a orelha que, esforçadamente, conteve para não rebentar a rir.
– Mas o senhor está à espera que eu vá para ali?
O homem encolheu-se ligeiramente e anuiu com a cabeça.
Fulminada com outra perspectiva da situação – que julgou ser a do homem que estava à sua frente –, a doutora enfureceu-se e sentiu a face enrubescer, o que a enfureceu ainda mais.
– O senhor não estava a brincar? – disparou.
O homem olhou para ela, olhou em volta mexendo apenas os olhos e fez um trejeito como se sentisse embaraçado com a pergunta. Não, definitivamente, não estava a brincar.
– Ah… – O homem sentiu a sua integridade física em risco e tentou emendar a mão, acompanhando o golpe de rins com um arremedo de riso que não medrou. – Estava, estava a brincar. Claro que estava – mentiu sem convicção.
– Eu… eu… – As palavras enrolavam-se na boca da doutora. – Mas quem é que o senhor julga que eu sou? – Acabou por conseguir perguntar.
O homem fechou-se num silêncio prudente e receoso que se viu obrigado, pelo olhar mortífero que doutora lhe lançava, a interromper, para deixar escapar um sumido e lamentoso:
– A oradora?
– Mas porque é que eu tinha de aguardar pelo fim da sessão de esclarecimento?
– É?
– O quê?
– A oradora?
– Isso não interessa. – A doutora riu-se: apesar de tudo continuava bem disposta. – Isso não lhe interessa, palhaço – murmurou com o sotaque apropriado.
O homem empinou-se como o garrano da estalagem de Bree e mudou a expressão para uma com que se propunha impor respeito e temor.
– Interessa – replicou o homem, aborrecido por perceber que a mulher à sua frente não o estava a respeitar nem a temer e o narrador o estava a comparar a um cavalo. – Eu tenho o direito de saber! – Exclamou melodramático.
– A Loretta também tinha o direito de ter direito a ter filhos e, no entanto…
O homem tornou a mudar a expressão, ainda que agora o fizesse involuntariamente e fosse ele a expressar o temor que antes queria incutir.
– Não os podia ter – sussurrou o homem completando a frase que a doutora deixara incompleta.
– Porque? – Perguntou a mulher, surpreendida e subitamente enlevada pela identidade de referências que a aproximavam do homem que estava à sua frente e lhe barrara o caminho.
– Porque era um homem – disse o ser do mesmo género de Loretta.
A doutora aproximou-se do homem e perguntou em tom conspirativo:
– Nunca pensou na coincidência da mulher do John Bobbit se chamar Loretta?
– Não… – respondeu o homem, sem levantar a voz, com ar pensativo e meneando a cabeça em contemplativa admiração.
– Toda a gente analisou o facto do homem se chamar John Wayne e, de alguma forma, o gesto da mulher ser uma metáfora do que estava a acontecer à América – dissertou a doutora junto ao ouvido do homem. – Ao cortá-lo ao John Wayne, ao John Wayne – reforçou – Loretta estava a capar a América. Não havia outra leitura. Deus estava a brincar com a América e estava-lhe a mostrar com um humor retorcido e gore o que lhe ia acontecer. O facto de se cortar o membro de alguém que se chamava John Wayne era um sinal. Não há coincidências, diziam os fanáticos – O homem meneava a cabeça cada vez mais entusiasmado, a doutora continuou: – E, no entanto, a referência era outra, o nome que contava era outro: Loretta. “From now on, I want you all to call me 'Loretta'” e a Loretta deu ao marido a possibilidade usar o seu direito de ser mulher, de ter filhos…
– Mas não lhe deu um útero – opôs-se o homem, lembrando-se das dúvidas fundadas de Reg.
– Isso não interessa – contrapôs a Doutora. – Loretta impunha o que a Loretta propôs: o direito a ter o direito de ter filhos.
O homem parou de oscilar a cabeça, deu um passo atrás para poder rodar a cabeça sem acabar a dar um chocho à doutora e comunicou:
– Se é a oradora pode entrar mas se não é – o homem olhou ostensivamente para as pernas quase nuas da doutora, para o decote cavado e para o longo colar de pérolas que dava duas voltas ao pescoço da mulher com a intenção de sublinhar os seus generosos e apetecíveis dotes mamários – tem de esperar pelo fim da palestra. Se vem para acompanhar algum dos senhores tem de esperar.
A doutora esticou o braço e afastou o homem da frente.
– Eu sou a oradora – anunciou. – E o senhor é um mal-educado. Um grosseirão!
– Estou a fazer o meu trabalho, doutora – justificou o homem. – Sala 3 – apontou.
– Qual é o seu nome? – Questionou a doutora em tom de ameaça, dirigindo-se à porta da sala onde era esperada.
– João Benvindo.
– Alguém falará consigo, senhor João Benvindo – disse a doutora, olhando-o com desprezo e más intenções, enquanto rodava a maçaneta da porta.
– Só uma coisa, doutora – rosnou Benvindo, fazendo com que a mulher parasse e o olhasse ainda com mais desprezo e ódio. – A mulher não se chamava Loretta, era Lorena.
A doutora mostrou-lhe a língua e desapareceu para dentro da sala.
O homem esticou o dedo médio para a porta fechada.

Anatomia facial

Quando a graça cai em desgraça

Crica para veres toda a história
Eh, láááááááá!...


3 páginas (cricar em "next page")

oglaf.com

21 março 2012

Kailua-Kona... sessenta e nove... euros

"Olá, São Rosas
Repara bem na 3ª oferta. No anúncio da Onion Home, até o preço coincide com o nome...
beijos
Suzana"