25 julho 2013

Viva a revista Cru! Vulva! E viva o Tio Putinhas! Vulva!

Recebi a minha encomendinha da revista CRU nº 49 (especial Ódio), ainda quentinha do forno, juntamente com a CRU nº 34 (um número antigo que está disponível para consulta on-line aqui, tal como outros números da revista).
Esta revista é editada pelo Esgar Acelerado, que os tocadores de flauta-de-um-buraquinho-só deverão reconhecer pelo menos nas ilustrações dos textos do Valter Hugo Mãe na Playboy (ou então passam essas páginas porque não têm fotos de gajas nuas... ou então ainda são as únicas páginas que ainda conseguem abrir, porque as outras estão todas coladas).
Impressionante foi saber que "com formas diferentes e sob diversas encarnações, a revista está em publicação há mais de 20 anos"!
Na Bedeteca encontram a lista de conteúdos da CRU nº 49.
Podem fazer encomendas da revista por aqui [no momento em que publiquei isto, este link não estava disponível, pelo que sugiro que, em alternativa, os contactem pela página da CRU no Facebook]. A revista custa 5 euros, com os portes incluídos.


A primeira página e a última tira do suplemento colorido gratuito da CRU nº 49: «Tio Putinhas Vs. Maga Putalógica», história de Walt Esgar

O pin do Tio Putinhas que a CRU ofereceu no lançamento da revista. E esclarecem que "para a criação das personagens e dos seus fartos falos foi necessário um estudo exaustivo de documentários da National Geographic sobre a vida sexual dos patos. Obrigadinho TV Cabo! O que seria do Walt Esgar sem ti!"
Um destes pins faz agora parte da minha colecção, tal como as duas revistas que encomendei.

«Mostra-me os teus boxers, dir-te-ei o que és!»
por Alice in Goreland, ilustrado por Zbigniev Koniek (um gajo com o traço chapado do Esgar Acelerado... por obra e graça da globalização) 

Para acabar em beleza - e com ódio por chegar ao fim - seleccionei, da secção «Ódiário – 16 ilustradores desenham o seu ódio de estimação», esta ilustração deliciosa de Susana Carvalhinhos.

Casio G'zOne Commando - «Yoga»

«A pornografia é boa para a sociedade» - Milton Diamond

"Pornografia. A maioria das pessoas já viu e defende fortes opiniões a seu respeito. Uns argumentam que um acesso fácil traz efeitos negativos à sociedade, como a degradação da mulher. Mas outros defendem que é uma expressão legítima de fantasias e que, não apenas permite a satisfação imediata do desejo, como também substitui a agressão sexual. Assim, evitaria outras actividades perigosas, prejudiciais e ilegais. Algumas feministas afirmam até que a pornografia emancipa a mulher, libertando-a das amarras do pudor e das restrições sociais.
Não faltam provas a confirmar esse ponto de vista. Ao longo dos anos, muitos cientistas investigaram a ligação da pornografia, tanto com crimes sexuais, quanto com o seu efeito na atitude dos homens em relação às mulheres. E, em todas as regiões investigadas, os pesquisadores descobriram que crimes sexuais ou diminuíram ou não aumentaram onde a disponibilidade da pornografia cresceu. E, dos poucos que viram correlação entre a disponibilidade de pornografia e comportamentos antissociais, nenhum encontrou uma relação de causa e efeito.
Pesquisas de escala nacional na Dinamarca, Suécia, Alemanha Ocidental e EUA observaram que, embora a presença de pornografia tenha aumentado consideravelmente de 1964 a 1984 nesses países, a taxa de estupros ou caiu ou permaneceu no mesmo nível. Estudos posteriores mostraram ainda resultados semelhantes em todos os outros países cientificamente examinados - entre eles, Canadá, China, República Checa, Finlândia, Japão e Polónia. Afinal, a pornografia oferece um substituto fácil e imediato para os crimes sexuais: a masturbação.
Ainda assim, é comum que a polícia sugira que uma grande percentagem de criminosos sexuais já usou pornografia. Isso é irrelevante, dado que a maioria dos homens tem, em algum momento da vida, acesso a conteúdos de sexo explícito.
Observando a questão mais de perto, pesquisadores descobriram algo surpreendente: presos estupradores têm maior probabilidade de terem sido punidos na juventude por verem pornografia do que os não estupradores. E mais. Presos não estupradores começaram a ver pornografia mais cedo e em maior quantidade que os estupradores. O que é realmente correlacionado com o crime sexual é ter tido uma educação religiosa rígida e repressora.
Estudos também mostram que homens expostos a filmes pornográficos são mais tolerantes com as mulheres que os não expostos. Nenhum pesquisador cientificamente sério provou que a exposição à pornografia tem uma relação de causa e efeito com sentimentos ou actos negativos contra mulheres.
É verdade que algumas pessoas afirmam sofrer efeitos adversos da exposição à pornografia - basta considerar testemunhos em cortes de divórcio. No entanto, não há nenhuma prova de que a pornografia tenha sido a causa do abuso. Acima de tudo, não há liberdades que não possam ser usadas de forma sem equívocos. Mas o acesso à pornografia é uma das que parecem oferecer mais bem do que mal."
Milton Diamond
Director do Centro do Pacífico para Sexo e Sociedade, associado à Universidade do Hawai
in «Revista Super Interessante» (traduzido por mim do brasilês)

Imagine só



Imagine só, pensar assim todas as vezes que ficarmos com vergonha do público

Capinaremos.com

24 julho 2013

«O céu, perto» - João

"Gostava de estar sentado ao teu lado num avião. Fazer-me à pista e dar-te a mão. Não temer o rugir dos motores enquanto ganham momento para descolar. Sentirmos o chão sair debaixo de nós e deslizar entre as lâminas de ar olhando as coisas pequenas lá fora pela janela, mais pequenas e mais longe, enquanto ganhamos altura. Apetecia-me estar contigo dentro de um avião, fosse qual fosse o destino. Podias pedir uma manta, ou apenas ler um jornal, enquanto a minha mão deslizava por entre as tuas pernas, para te aquecer, para, de uma forma um pouco menos figurada, te fazer ir ao céu (novamente). Uma vez ou duas. E depois disso, ou até em vez disso, deixar-te dormir encostada ao meu ombro enquanto avançávamos no escuro, com as asas cortando ar, os dois sozinhos num tubo cheio de gente, cada um com a sua história. Mas apenas tu, e apenas eu, com sorrisos cúmplices, de uma transgressão partilhada.

Gostava de estar contigo na cama, contigo a ler uma revista e eu a ler os meus e-mails e notícias. Terias a tua cabeça sobre a minha barriga, as pernas dobradas, eu tocaria as tuas coxas e trocaríamos ideias sobre as coisas do mundo, sobre as coisas das revistas, e sobre as coisas dos e-mails. E quando o cansaço fizesse pesar as pálpebras, deslizaríamos para baixo dos lençóis e faríamos promessas de uma noite reparadora de sono. Promessas falsas, porque a pouco e pouco desapareceriam os centímetros entre nós, e pouco depois os corpos estariam já colados, e o calor seria tanto que nada restaria fazer senão agitá-los, destapando a pele.

Gostava de passear contigo pelas ruas. Que me agarrasses o braço. Caminharíamos por aqui e por ali. Visitaríamos locais icónicos, ou outros desconhecidos. As ruas passariam por nós, as pessoas seriam uns borrões indefinidos, o espaço seria curto, uma bolha à nossa volta. O meu sorriso e o teu. Fotografias. E as mãos juntas, os dedos entrelaçados, ao ar ou dentro do meu bolso quando viesse o vento cortante. Gostava de não conhecer o significado da saudade por não precisar dela. Por ser uma coisa estranha, nunca vivida nem sentida. Talvez mais pobre, com menos conhecimento, mas mais leve, sem o peso profundo de uma ausência. Gostava que estivesses aqui, ou eu aí, ou os dois em parte incerta, distante."

João
Geografia das Curvas

a redacção da Papel e o momento ptui ptui



a revista Papel está em modo silly season: é verão e a redacção também sofre, como todo e qualquer ser humano, de calores e transpirações e afins
a Margarida resolve questionar a redacção sobre as suas preferências e eis que o silly tomou conta da season. sem dizer nomes, senhoras e senhores, eis o best off dos comentários dos papelenses ao quizz da Margarida:

«Nunca fiz. Se é por referências geográficas, ainda sou do tempo em que se mantinha o triângulo das Bermudas.»

«Eu voto a favor da proposta, mas com reservas.»

«Só falo perante exemplos concretos. Visíveis, portanto. Dizer palpáveis, neste contexto, é... complicado.»

«oh pah evita o momento ptui ptui, pronto era isto.»

[e eis que a Lucy Pepper nos avisa que vai ilustrar o artigo com base no ptui ptui. e partilha a ilustração connosco]

«I warn you all, it's going to be either revolting, or clinical.... or maybe even ptui ptui....»

«Eu nessas coisas sou muito prática. Começo a preocupar-me com o ptui ptui alheio quando alguém se preocupar com o meu.»

«Acho que do lado, digamos... sem "ptui-ptui", deveria haver uma tatoo com a bandeira do Brasil.»  

«DON'T BEHAVE!»    

«que emoção! umas partes pudendas no meu texto!!!»

«Também gosto de "partes pudendas". Aliás... eu, em pudendo... gosto sempre.»

«Oh, I don't know. Things started going (literally) downhill afyer joana's ptui ptui.»

« now it's my fault? ( oh mãaaaaaaaae olháqui as 'ssoas da papel a dizer mal de mim)»

«Eu cá acho que isto tem sido a ptui da loucura»

«olhem q para evitar o ptui ptui há mto auch! envolvido no processo. ñ é fácil, galera, ñ é fácil»

«queria ver os homens a auchAR!»

POWER to the people, 
POWER to PAPEL 
and... 
POWER TO CERA QUENTE! 


- já agora, podem ler o artigo da Margarida... AQUI!   
     


«conversa 2004» - bagaço amarelo

(ao telefone)

Eu - Vamos beber um copo?
Ela - Até ia, mas estou tão cansada que só me apetece dormir. Aliás, isto é sempre assim. Trabalho tanto durante a semana que passo os fins de semana a dormir. Quando finalmente me sinto em forma, já tenho que ir trabalhar outra vez.
Eu - Dito assim, é como se a vida te estivesse a passar ao lado.
Ela - E está mesmo. Não faço mais nada senão trabalhar, dormir e...
Eu - E quê?
Ela - E...
Eu - E sexo?
Ela - Não.
Eu - Ir ao cinema?
Ela - Não.
Eu - Ir às compras?
Ela - Nem por isso. É mesmo limpar a casa.
Eu - Desisto.
Ela - Eu também desisto.
Eu - Desistes?! Então bebemos um copo?
Ela - Não. Vou dormir.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Postalinho das ilhas gregas

"Lai lai laiii
O túnel que desemboca em..."
Manuel Boavida

23 julho 2013

«Solidão de novo»


Again Solitude from Sol Lang on Vimeo.

Eva portuguesa - «Maldade»

Telefonemas e mensagens obscenas e ofensivas,faltas de educação e de respeito, roubo (como já me aconteceu) e marcações falsas, são situações que, infelizmente, acontecem cada vez mais por parte de quem usa falsamente o título de cliente.
Mas, acreditem, há coisas que ainda me conseguem surpreender.
Há pessoas tão, mas tão ressabiadas, mesquinhas, pequeninas, que devem passar noites acordadas a tentar inventar novas e elaboradas formas de nos prejudicarem...
São pessoas tão reles que se alimentam da dor e infelicidade alheias...
Mas algumas, de se julgarem tão espertas, até merda fazem mal, pois deixam rasto (foi, por exemplo, o caso do cliente que me roubou e, como foi apanhado, veio devolver o dinheiro com o rabinho entre as pernas).
Aconteceu-me agora uma brilhante. Reparem. Até gravei o mail para verem que não é mentira...
Recebido dia 19/6/2013 às 15.17, de B. F. [com nome por extenso e e-mail, no texto original] escreveu:
«Eu vou ficar em Genebra cinco dias, estando por aí vou querer uma companhia agradável.Presumo eu que seja contigo. Estou um bocado cansado de solidão. Há opções na vida que se põem em marcha e nós pensamos que sejam as melhores devido à ganância do ser humano mas depois uns anos mais tarde percebemos que há coisas bem mais importantes. O problema é que o tempo não volta atrás.
Eu vou ficar no Hotel Mandarim Oriental (é um hotel de 5 estrelas absurdamente caro - isto é nota minha), podemos ficar por lá se assim o quiseres. Assim que me for possível vou fazer-te a transferência de 2000€ e quando chegar entrego-te o restante valor e ficas comigo o tempo que achares justo para os dois.
Regards
B.»

Este texto é a citação à letra do email enviado.
Visto estar no estrangeiro e não ter acesso à conta com o NIB que lhe dei (está em nome de uma amiga, por motivos que agora não interessam), não tinha como confirmar a transferência.
Ficou marcado encontrarmo-nos na 3ª, dia 25 para jantar e depois ficar com ele.
Escusado será dizer que nunca mais tive notícias da pessoa.
Fui então ao google procurar pelo endereço de email, que me remete para um anúncio no custo justo, a vender uma moto e com o seguinte número de telefone para contacto 966 XXX XXX,sendo a região indicada XXXXX [completo no texto original].
Agora digam-me: para que foi isto tudo (entretanto trocamos outros emails a combinar pormenores)?....
O que é que este anormal ganhou com isto?
Chega a ser maquiavélico... no primeiro email que me mandou disse que se tinha deparado com o meu blog e que eu seria mesmo aquilo que ele precisava e, torno a citar: «culta, bonita e inteligente. Ao ler o seu blog identifiquei-me com muitas coisas que lá escreveu...» e ainda acrescentou: «proposta séria, Eva».
E a vida é tão madrasta e a maldade tão grande, que até a nível pessoal tive assim uma «proposta séria» que teve o mesmo resultado...


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Procura» - Susana Duarte







desfolha-me de nuvens
onde as acácias tremem suaves abraços
e, no abraço suave das palavras,

encontra-me.



Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

Papa no Sambódromo



HenriCartoon

Gárgulas eróticas do Mosteiro da Batalha

Já tinha visitado tantas vezes o Mosteiro da Batalha, um monumento que adoro...
Desta vez, numa loja de artesanato junto ao Mosteiro património da humanidade, encontrei uma série de ímans de frigorífico com réplicas de gárgulas do Mosteiro. E, entre essas, havia esta, que comprei para a minha colecção:





Tive que dar uma volta a todo o monumento para localizar esta gárgula. E lá está ela, junto à entrada principal, do lado direito:



Continuei a pesquisa e, do lado oposto (junto às capelas imperfeitas) encontrei esta maravilha, um animal a segurar num falo erecto:



... e como não há duas sem três, apreciem bem esta mulher, com os seios expostos por aberturas no vestido, também junto às capelas imperfeitas. Alguém me sabe dizer o que esta mulher, com as mãos nos joelhos, está a fazer?



Depois desta descoberta, ainda fiquei a gostar mais do Mosteiro da Batalha!

22 julho 2013

Fundaseno - «Consulta no médico»

«conversa 2003» - bagaço amarelo

Ela - Hoje apetece-me ter sexo.
Eu - Caramba! Dizes-me isso assim, porquê?
Ela - Desculpa. Estava a pensar alto. Acho que vou mandar uma mensagem ao meu namorado.
Eu - A dizer que hoje te apetece ter sexo?
Ela - Sim. É que quase nunca me apetece e ele anda um bocado chateado, mas hoje apetece-me.
Eu (silêncio)
Ela - Na verdade até anda amuado


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Luís Gaspar lê «Amor em visita» de Herberto Hélder

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
A tona da sua face se moverão as águas.
Dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeia o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
Imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra
e tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da rua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de paredes nuas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar.
Teus olhos se transfiguram, tuas mãos descobrem
o sumo da minha face. Agarro ‘tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo-
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então me sento à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ‘ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas crescerem como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal. E tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
por teu poder angélico e fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma Imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao
teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes!

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa gratidão.

Felizmente estás na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada ,em sua pungência e castidade!
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite,
- o que se perde de ti minha voz o renova
num estilo de angústia e prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra. E tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim, como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca. E serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no arco de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-lhe para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face, para que a tua
se encha de um minuto sobrenatural.
Devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo,
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso deserto, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto,
- no amor mais impossível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Corre em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde estará o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.

Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E eu peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Ó amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, inponderável-
em cada espasmo eu morrerei comigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
horto e a água – e eu caminho pelas ruas frias com
lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Hélder
Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

Aparelho de entrar nos sonhos dos outros

Um aparelho bacana e coisa e tal, mas…



Pô amigo, não pensou direito nessa.

Capinaremos.com

21 julho 2013

«The Seven Sisters» (as sete irmãs)

"Visão erótica dos sete pecados mortais"

projecterosion.com
com Elena Bathory
Música de The Null Collective - «On the 7th Day»


The Seven Sisters from Starflower Media on Vimeo.

Epígrafe

(ou porque as letras também se despem)


Quando há para aí resmas e resmas de gajos que colocam a epígrafe no frontispício das calças perante a visão de uma lingerie preta e uns cabelos apenas a orlar o rosto, havia logo de me tocar um que assim não é. E uma gaja já não está habituada a que os gajos não sejam previsíveis.

Este deve ter uma omoite aguda ou então é accionista de uma multinacional de lexívias já que arrebita com lingerie branca o que é uma maçada das antigas porque não realça o meu tom de pele que nasci branca e nem gosto de torrar ao sol e tenho o ar daquelas mulheres dos postais de mil novecentos e vinte e caramba, prefiro mesmo a lingerie escura e acetinada.

O meu cabelinho à Betty Boop também não ajuda à função e apesar disso irrita-me que os cabelos se colem ao cachaço a fazer camadas e a impedir-me de sentir a suavidade e o calor da pele de outras mãos no pescoço para já não falar quando se interpõem entre os bicos dos meus mamilos e a boca do outro, tanto mais que tenho para mim que o cabelo a tapar o frio das orelhas basta.

E perante estas minhas dificuldades de polivalência para encarnar a personagem da fantasia dele ou lavar as minhas e pô-las a secar, subscrevi-me amavelmente com os melhores cumprimentos , também pessoais e encerrei este ofício.


«Olhares de Coimbra» - por Rui Felício


Foi há muitos anos, fins de Maio..., mas não esqueço... Meio da tarde, sol abrasador, entro no Mandarim para saciar a sede.
Logo que entro, em frente, reparo numa miúda sozinha numa mesa com um copo de laranjada à sua frente.Procuro um lugar do lado oposto e peço um fino.
Observo que a sala estava quase cheia, muitos de capa e batina, livros espalhados pelas mesas. Ela contrastava pela quietude, pela calma, pelos olhos verdes, melancólicos.Enquanto aguardo para ser atendido, tento evitar, mas não consigo resistir a procurá-la com o olhar, por entre a azáfama constante de estudantes a entrar e a sair.Quando os nossos olhares se cruzaram, dissimulámos ao mesmo tempo.Ela desviou o olhar em direcção à parede como quem admira os azulejos do Vasco Berardo, e eu a partir desse momento, encantado com a beleza do seu rosto não consigo mais desviar, embora disfarçando, o meu olhar da sua direcção.

Por várias vezes os nossos olhares se cruzaram.

Criou-se entre nós uma emoção incontida da qual eu e ela éramos cúmplices, sem que mais ninguém o soubesse.O tempo foi passando, quando de repente chamou o empregado e pediu a conta.Ficou em pé, junto ao balcão, esperando pelo troco, entre o sol que entrava pela porta e o meu olhar.Observo a sua silhueta perfeita, coada pela luz solar, sob um vestido leve que contornava as suas formas e parecia acariciar-lhe o corpo. O cabelo dourado reflectia os raios do sol.Com delicadeza e elegância dirige-se para a porta, corre o olhar deixando-o fixar-se por um segundo no meu e sai.Lentamente desaparece na rua...Permaneço no meu lugar, estático, indeciso, a pensar no sublime momento acontecido.Outras pessoas foram chegando, mas já não havia motivo para eu permanecer ali.Saí também. Corri a Praça da República com o olhar, a Sá da Bandeira a Tenente Valadim, mas nem rasto dela...

Uns meses depois vi-a na Praça 8 de Maio a um domingo de manhã...Vinha acompanhada da sua irmã gémea e de um casal que pareciam ser os seus pais, a sair da Igreja de Santa Cruz.Uma das gémeas olhou-me, sorriu levemente..Era ela, porque a outra nem me notou...Durante algumas semanas fui à Igreja de Santa Cruz, ao domingo, mas nunca mais a vi. Até hoje...

Mas não esqueço...

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido
Imagem - parte do painel de azulejos de Vasco Berardo (1960) no café «Mandarim» (agora «McDonald's»), na Praça da República, em Coimbra.

Postalinho vadio

"Cerveja Artesanal «Vadia», produzida por Essência D'Alma, Lda - Rua de Selores, 353 - 3720-191 Ossela, Oliveira de Azeméis.
Esta é a de trigo. Mas há mais versões.
Dizem-me que esta malta tem uma carrinha de distribuição com a figura da gaja de um dos lados. E que há uma data de mulheres que se coloca lá ao lado para tirar fotos. Ou seja, aparecem na pose da gaja e surge o nome «Vadia»."
Marco António

20 julho 2013

Homens, aprendam! - «Qual seria a sua desculpa para não me beijar?»

«conversa 2002» - bagaço amarelo

Ela - Já nem me lembro da última vez que me apaixonei...
Eu - Não?! Eu lembro-me das vezes todas que me apaixonei. Desde a escola primária até aos dias de hoje...
Ela - Sim, também me lembro. O que eu queria dizer é que já não me apaixono há anos.
Eu - Ah!
Ela - Os homens com que me tenho cruzado parecem-me desenxabidos. Não sei explicar muito bem... mas não há nenhum que me interesse.
Eu - Hum... e tens conhecido muitos?
Ela - Na verdade quase nem saio de casa, a não ser contigo uma vez por outra.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Casal abraçado

Estatueta em metal com base em acrílico.
Origem desconhecida... mas fica muito bem na minha colecção.


Um sábado qualquer... - «Sexo»



Um sábado qualquer...

19 julho 2013

Sleepchamber - «Kiss The Whip» (ao vivo) [beija o chicote]


SLEEPCHAMBER~ "Kiss The Whip" (Live) from JOHN ZEWIZZ on Vimeo.

«Déjà Sue» - Patife

Era mais bonita que as outras e isso, de certa forma, mexeu comigo. Não tanto como o seu ganda par da mamas ou os lábios a prometerem chupalhanço da corneta ao modo dos anos 80. Mas mexeu. Eu também mexi, mas isso foi depois. Primeiro meti conversa. Sou um tipo educado e sei perfeitamente que é de mau tom começar a mexericar-lhes no berbigão antes de trocar umas palavrinhas de cortesia social. Elas tendem a ligar a essas convenções e eu respeito. Não percebo a necessidade, é certo. Mas respeito. Chamava-se Sue e era holandesa. Fornicámos há 15 anos mas lembro-me como se tivesse sido há 15 minutos. E foi dos momentos mais bonitos da minha picha. Ontem encontrei uma rapariga que pinava exactamente da mesma forma que a Sue. Tinha idêntica técnica superior de abocanhamento da lentrisca, a mesma profundeza de olhar e uma pachachinha tão ou mais ginasticada que a da terra tulipas. E até fez semelhante expressão naquele segundo que antecede a avalanche orgástica, precedida de um gemidinho repleto de graciosidade. Foi uma queca que me deu uma sensação de Déjà Sue. Que no minuto a seguir passou a Déjà Cu. E só por isso, foi cu cá cu lá pela noite dentro.

Patife
Blog «fode, fode, patife»

Quisto não é só crise no pilim!

Todos para a rua exigir uma revolução nos métodos de mamografia e de exame à próstata, já!

Pura sedução

Se prometer, tem que cumprir.



Quero passear, não quero médico.

Capinaremos.com

18 julho 2013

Mais forte (e prático, pelos vistos) que o Viagra

Adolescentes e pornografia - a opinião dos visitos

A propósito do texto «Adolescentes e pornografia: onde está o mal?», de Agnès Giard e traduzido por mim, tivemos estes comentários:

"Não creio que o problema se trate da moral religiosa, da estética, e sim de se ter a maturidade suficiente para ver a pornografia e saber distinguir o que se vê nos filmes da realidade, o que duvido que um adolescente consiga, quando há muitos adultos que não conseguem.
O crescimento sexual, respeito pelo outro, educação, maturidade e responsabilidade levam o seu tempo a adquirir e bem sabemos que os adolescentes em regra geral não possuem nenhuma destas qualidades.
O mal na pornografia é nas mentes que não estão prontas a distinguir que as cenas de violação, seja em grupo ou não é apenas uma encenação e não pode ser visto como uma possibilidade da realidade e que realmente as mulheres gostam de serem violadas.
Distinguir que as mulheres que nas cenas usam totós, roupa de menina de escola e estão depiladinhas são realmente mulheres adultas e não crianças.
E há que ver que ao contrário de antigamente, por exemplo anos 80, a pornografia mudou muito [infelizmente, o texto ficou truncado a partir de aqui]"
Pedro Ferreira

"Interessante o tema e o seu tratamento. Valeu bem a pena o teu esforço de tradução!
Na verdade, a violência e esta associada à sexualidade, essas sim são perniciosas no desenvolvimento harmonioso de qualquer ser humano.
Dos filmes ditos pornográficos, o que pode lamentar-se é, em tantos casos, a sua idiotia argumentativa - que como qualquer outra pode atrofiar os cérebros, mesmo os dos adultos.
Quanto ao resto, haja pais ou educadores ou tutores que acompanhem, formativamente, como lhes é devido, os tais «menores»... e nada será tabu. O resto é hipocrisia e, como se diz no texto, resulta em castração e criação de frustrados, recalcados e coleccionadores de ressentimentos - o que não é nada salutar para a espécie humana."
OrCa

"A pornografia....
Ça n'existe pas.
A noção de pornografia não existia na Antiguidade onde a iniciação sexual era celebrada em grandes festividades com carácter em simultâneo lúdico e religioso. As representações do sexo eram normais em todos os locais públicos e privados e o erotismo era plano e aberto estando presente na vasta mitologia.
O que há na pornografia é precisamente o atavismo humano para transgredir as regras que ele próprio cria.
Dito de outro modo: à medida que o Homem atribuía cada vez mais um carácter sagrado ao sexo, este ia-se tornando mais e mais digno de especial veneração e respeito até ao ponto da sua inefabilidade, o que conduz a prazo, pela rotação de valores, à diabolização do seu símbolo. Ao diabolizar o sexo -tornado pecado original pela corrente religiosa dominante- a pulsão que determina todo o comportamento humano, sofre necessariamente as distorções de que a pornografia é apenas uma das suas manifestações mais perturbante. É sem dúvida uma forma de arte baseada na necessidade de transgressão: fosse o sexo visto de forma aberta e jamais faria qualquer sentido. Apenas esta noção separa a pornografia do erotismo."
Charlie

Diferenças


Via Testosterona

17 julho 2013

«Ao que sabemos, pode não haver amanhã» - João

"Estamos deitados, os dois, sobre um estrado bastante comprido que serve de cais, e se agita com as águas, varridas pelo vento. Solidários, deitados de costas, ondulamos também nós, suavemente, olhando o céu, que ali vai de um extremo a outro, em 180 graus quase completos, de mãos dadas. Sabes se o amanhã vai chegar? Não sabia. Atiraste a pergunta para o ar, enquanto os teus dedos passeavam os meus. Não sei, disse-te. Não sei se há amanhã. Divido-me sobre o que pensar. E tu, queres um amanhã? Eu gosto de coisas sem amanhã, gosto do momento, da intensidade, gosto da ideia que me transmite o fazer-se algo como se não houvesse amanhã. Disseste-me que só querias um amanhã se fosse comigo. Se não fosse, bastava-te o agora. O hoje. Que se esticasse, alongasse, que o Sol nunca desaparecesse a Oeste, que as águas nunca deixassem de ondular ao vento. Viraste a cara para mim, falando-me ainda mais ao ouvido e disseste-me que, vendo bem, se as águas nunca deixassem de ondular ao vento, se o cais sobre o qual nos deitávamos nunca parasse de ondular, era um embalo para os nossos corpos. Podiamos ficar colados, apenas, ondulando em conjunto, tudo ao mesmo ritmo, ondulando e ficando, entrando, molhando.

Então decreto que não exista amanhã! E tu sorriste, apertando-me ainda mais a mão, virando a cara para longe de mim, sussurrando, mas eu quero que amanhã estejas comigo."

João
Geografia das Curvas

Moldar a coisa

Ontem fiz o amor.
Foi com plasticina e ficou muito parecido.

«pensamentos catatónicos (291)» - bagaço amarelo

É uma pena que os balcões dos bares estejam em vias de extinção. O balcão do café, com aqueles pequenos bancos giratórios, eram o melhor amigo do Homem, mas actualmente vivemos na ditadura das mesas de café.
Um homem quando está só, precisa tanto dum balcão de um bar como do ar para respirar. É que o balcão engrandece a solidão, uma mesa reprime-a. Um balcão é um tapete de boas-vindas a quem anda sozinho pelas ruas, uma mesa é um dedo acusador. "Estás sozinho e aqui só se sentam pessoas acompanhadas", diz-nos. É triste, mas é assim.
Quando um homem está sentado ao balcão de um café, está assumidamente só. Quando está numa mesa de café, não é possível perceber se está à espera de alguém, mas mesmo que não esteja, a tristeza é o ar que se lhe dá. As mesas de café, com uma só pessoa sentada, são um deserto de emoções.
O balcão sim, é uma verdadeira instituição de engate. O empregado de balcão, aliás, é outra. Um cliente pede uma cerveja mas compra também uma conversa sobre seja o que for, nem que seja o estado do tempo, e de repente tod@s @s solitári@s ali sentad@s estão a conversar através dele.
Foi assim que conheci a Luísa há alguns anos atrás. Sentei-me ao lado dela, deixando um lugar vazio entre nós para não parecer mal. Através do empregado, um tipo simpático de bigode ruivo, acabei por falar directamente com ela e saltar, em apenas alguns segundos, essa enorme distância dum pequeno banco giratório que nos separava. Ainda somos amigos e, uma vez por outra, ainda falamos desse dia com um misto de nostalgia e júbilo.
Hoje disseram-me que o Refúgio, o café com o maior balcão da cidade de Aveiro, já não existe. O tempo chamou-lhe velho e fechou-o. Resta-nos as trincheiras do café Ramona e da sala interior do Convívio. É uma pena. Hoje seria difícil conhecer a Luísa.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Ah… o amor



Ah, o amor é lindo, S2

Capinaremos.com

16 julho 2013

Há tanto tempo que não se fala em flexisegurança (ou flexigurança)... e ela aqui está

Eva portuguesa - «Acredito»

Acredito que nada acontece por acaso.
Que não há coincidências.
Acredito que mais tarde ou mais cedo a razão nos será revelada.
Acredito que somos nós que fazemos o nosso destino.
De uma forma ou de outra, directa ou indirectamente, num passado mais ou menos longínquo, fomos nós que contribuímos para o presente...
Talvez nem sequer tenhamos consciência disso, mas eu acredito que assim é.
Se não, onde estaria o nosso livre arbítrio?...
Onde estaria a nossa liberdade e responsabilidade pelos nossos actos?...
De que serviria fazermos fosse o que fosse para alterar as nossas condições, lutarmos pelos nossos sonhos, tomar qualquer decisão?...
Sim, é verdade que estamos condicionados por uma série de factores, internos e externos, mas podemos sempre agir e reagir de diferentes maneiras e isso é uma escolha, uma decisão nossa.
Podemos dar o nome de justiça divina, de energias, de auto-conhecimento, de espiritualidade, até de bruxaria mas a verdade, aquela à qual muitas vezes tentamos fugir com desculpas vãs, é que a nossa vida é a forma como a vivemos, depende apenas de nós...
Há uma frase que na minha opinião define bem a nossa liberdade de escolha mediante adversidades externas: "a dor é inevitável,o sofrimento é opcional".
Ou seja, ninguém está isento de lhe acontecer algo mau e a dor que tal provoca não pode ser evitada. Agora cabe-nos a nós decidir se enfrentamos essa dor ou se nos deixamos abandonar ao sofrimento que ela nos causa. É por isso que duas pessoas reagem de forma diferentes a uma adversidade.
Mas mesmo esse acontecimento negativo tem certamente uma finalidade... mesmo que a mesma só se veja ao fim de anos ou mesmo só no leito de morte.
Acredito que as pessoas não se cruzam por acaso. Todas aquelas que passam na nossa vida, fazem-no por um motivo...
Aquele encontro que devíamos ter tido mas que nunca aconteceu, aquela pessoa que pensamos ser "a tal" mas que nos deixa, aquele emprego que devia ser nosso mas que nos foge à última hora, etc. - tudo isto acontece por alguma razão...
Tenho uma amiga que sofria bastante pelos seus relacionamentos não darem certo. Perguntava, entre lágrimas, o que tinha ela de errado para tal acontecer... Bem, acontece que entretanto obteve a resposta: aquela que foi a grande paixão da sua vida reapareceu e agora, mais velhos, mais sábios e com as lições que a vida entretanto lhes foi ensinando, estão juntos, felizes e ela agradece por nunca ter ficado com nenhum dos seus anteriores namorados...
Por isso, sim, acredito que nada acontece por acaso e que o nosso destino está nas nossas mãos, mesmo que por vezes as circunstâncias sejam tão más que sentimos que não temos sorte, que o mundo é injusto (e é) e que nada fizemos para sofrer dessa maneira...


Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado

«Monólogo de uma lua» - Susana Duarte

falo-te de ti, e falo-te de mim. falar de ti, é falar das noites claras da procura, e das luzes incendiadas pelo retorno. falar de mim é falar do sabor e do saber feito de dores paridas pelos joelhos da solidão. falar das sombras desfraldadas pelas flores, é procurar, nelas, as vozes que são tuas, as vozes que são nossas. e é percorrer amargas colinas de amendoeiras cujas flores ficaram aquém das aves. falo-te de ti, e falo-te de mim. e nomeio as luzes das coisas estranhas. nomeio as levadas de águas fugidas do musgo onde deitei os braços. agarrei-me ao invisível, ao sagrado, ao noturno, para reencontrar as linhas de ferro de todas as partidas. falo-te dos prados e das ruas ascendentes do esvozeamento da voz. e do enchimento da mágoa. e do espanto sereno de te procurar sempre, nas ruas desavindas dos espectros e dos saberes das feiticeiras. saberes dos dias, nada te ensinou sobre as noites. saberes das noites, nada te iluminou os dias. permaneceste água fugidia e mar revolto em contradança. os passos das bailarinas são vozes sem cor. entregas-me as mãos. de súbito, tremem as nozes no ventre da terra. e voam aves ao núcleo do sagrado. depositas flores nos lábio, e entregas lábios ao vento. vento. voa. sê. desflora as florestas encandeadas por tremores ocultos de outras eras. falo-te de ti, e falo-te de mim. não sabes que a cor dos olhos é a mesma das dúvidas. não sabes, ainda, que a cereja que comes, é a rubra transição do sangue sobre mágoas milenares. mas sabes que as noites, e os dias, sucedem-se na imensa perturbação do tempo, e na perpétua vontade de sermos aves, e na inscrição deixada nos nenúfares, e no sol de todas as palavras que, antes, dissemos. palavras. estranheza no ventre. desassossegada inevitabilidade. sofreguidão dos dias de sol. ser, em cada um de nós, o som de todas as primaveras anteriores.



Susana Duarte
Blog Terra de Encanto

Casalinhos a divertirem-se

Estes dois casalinhos da Indonésia, esculpidos em madeira, já me fazem companhia, na colecção, há mais de 10 anos. E que rica companhia...



15 julho 2013

Quando as mãos estão ocupadas...

«conversa 2001» - bagaço amarelo

(na minha casa)

Ela - Qual é o lugar da casa mais importante para ti?
Eu - Não sei... não faço ideia.
Ela - És um sortudo, então.
Eu - Porquê?
Ela - Para mim é a casa de banho. A sanita propriamente dita.
Eu - Porquê?
Ela - Porque é o único sítio onde consigo estar longe do meu marido, e mesmo assim tive que o proibir de entrar quando lá estou. Há mínimos...
Eu - Mas queres estar longe do teu marido? Até pensava que se davam bem...
Ela - E damos, mas preciso estar longe dele na mesma. Ainda hoje lhe pedi, muito simplesmente, para tomar conta da sopa que estava a fazer enquanto eu ia à casa de banho. Acreditas que me foi bater não sei quantas vezes à porta para fazer perguntas?!
Eu - Que perguntas?
Ela - "Onde é que está a colher de pau?", "A sopa está a ferver. Desligo ou diminuo o lume?", "Passo tudo com a varinha mágica?", "Como é que se tempera a sopa?". Coisas do género...
Eu - Qual é o problema?
Ela - O problema é tu estares a perguntar-me qual é o problema. Desisto!
Eu - Não percebo.
Ela - Não percebes porque de certeza que a tua namorada não te vai fazer perguntas desnecessárias sempre que estás na casa de banho. Não percebes porque sabes o que é ter tempo só para ti, sem ninguém a chatear. Isso porque as mulheres sabem fazer tudo e os homens não sabem fazer nada.
Eu - Pronto, tem calma!
Ela - Posso ir um bocadinho à tua casa de banho sem ninguém me chatear?
Eu - Podes, podes...


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Luís Gaspar lê «Ouve, meu anjo» de António Botto

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assassino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

António Botto
António Tomás Botto (Concavada, Abrantes, 17 de Agosto de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) foi um poeta português. A sua obra mais conhecida, e também a mais polémica, é o livro de poesia "Canções" que, pelo seu carácter abertamente homossexual, causou grande agitação nos meios religiosamente conservadores da época.

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa

Ares da vida

Um sopro e tudo se vai.



Cada vez mais ar.

Capinaremos.com

14 julho 2013

The Iron Maidens tocam no Show Namm 2012 - «The trooper» dos Iron Maiden

Cover de «The Trooper» dos Iron Maiden, por uma banda de tributo formada só por mulheres.
Nunca duas guitarras tocaram tão aconchegadinhas!...

Escultura do olhar



Esquadrinhar-me era o seu passatempo favorito e de cortinas afastadas avaliava o meu corpo despido. Traçava a bissectriz das minhas curvas com o indicador levantado a focar a perspectiva e ajeitava-me as mamas como se o calor das suas mãos e o frio da saliva da sua língua compusessem o modelo perfeito.
Media o ângulo exacto do desenho dos meus pêlos púbicos, pintava-os de espuma e depois, em gestos precisos removia-os até nada mais restar que um risco vertical que aplainava a cuspo em pinceladas de língua. Lavava a ponta dos dedos na minha furna enquanto eu lhe enchia os godés das orelhas de água com enzimas e era impossível não estremecer ao contacto do seu escopro latejante nas minhas virilhas.
A intensidade do sol baixava no horizonte enquanto ele prensava o seu corpo contra o meu numa técnica de colagem dos poros mas queixava-se que sem luz nada mais podia fazer e eu, numa recta definida em que lhe agarrei o cinzel e comprimi mais as suas nádegas contra mim, aleguei que não transformasse o momento numa norma da TLEBS já que até de olhos fechados podia vir acabar a pintura, espremendo até à medula a arte que tinha em si.

(Foto © JR, Axis of Symmetry)

Como seria se os homens fossem sinceros


Via Dançando sem Cesar

13 julho 2013

Entrevista de Kong a malta (M/F) na Marcha do Orgulho Gay (San Francisco, 2013)

«respostas a perguntas inexistentes (248)» - bagaço amarelo

Quando se Ama, o Amor do outro nunca chega. Vai chegando, quando se é correspondido, o que é completamente diferente. Ir chegando é isso mesmo. Quer dizer que se vive com a permanente sensação de que se gosta mais do que se é gostado. É um desequilíbrio que se sente permanentemente, mesmo quando a razão nos diz que não é assim.
É por isso que ansiamos sempre por um qualquer sinal que respire Amor (um toque numa mão, um sorriso transparente, uma palavra suave ou um abraço prolongado) e, assim que ele acontece, ficamos à espera de outro que nunca mais chega. Assim que se sobe às nuvens por uns segundos, cai-se vertiginosamente na terra. De novo.
Quando o Amor perde isto, deixa de ser Amor, ainda que possa ser outra coisa qualquer desigualmente boa, ou desigualmente má. Igual, igual, não há nada.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

Sapo e mulher dançam o tango

Pequeno azulejo da autoria de Bela Silva.
Um dos vários azulejos da minha colecção.


Capa da revista Bloomberg Businessweek da semana de 15 a 21 de Junho de 2013