26 agosto 2017

«Tanto trabalho para nada!» - por Rui Felício

O retinir do telefone interrompeu-lhe o raciocínio daquele capítulo do novo romance que estava a digitar no computador.
Contrariada, esticou o braço para alcançar o telemóvel e atendeu com brusquidão.
- Estou!
- Está? Sou eu, o Eduardo. Não te queria incomodar, mas estou perto e gostava de ir ter contigo. Posso?
Com o coração descompassado, arrependeu-se de não ter sido mais simpática ao atender.
- Não incomodas nada. Podes vir, claro. Quer dizer, sim, vem...
Que ridículo! A Ana, nervosa, gaguejava, como se fosse uma adolescente.
- Cheguei agora a Coimbra e lembrei-me de te telefonar para saber se estarias por casa e se posso dar aí um salto.
A voz do Eduardo era segura, calma, pausada, autoconfiante. Isso ainda mais a fazia sentir-se uma idiota por ter gaguejado nervosamente daquela forma.
Reparou que estava vestida com um velho e um tanto sujo fato de treino, com o cabelo atado num carrapito, com madeixas mal amanhadas a despontarem sem nexo.
- Ana, estás aí?, inquiriu o Eduardo perante o prolongado silêncio.
- Oh sim, estou. Desculpa, pensei que tivesses ficado sem rede, mentiu a Ana para disfarçar a atrapalhação. Dá-me só um quarto de hora. Estou a escrever. Deixa-me só acabar a ideia antes que perca o fio à meada.
- Claro! Vou ao café tomar uma bica e daqui a um quarto de hora estarei aí.
......
«Jovem depois do banho»
Genya Kondratyeva, Ucrânia
Pastel e café sobre cartolina, 40x60cm, 1998
Colecção de arte erótica «a funda São»
A Ana desligou, inspirou profundamente, ansiosa. Saltou da cadeira e correu ao quarto. Tinha que se mostrar apresentável. Não podia receber o Eduardo em sua casa, naquele desleixo. Parecia que não tomava banho há dias.
Tirou a parte de cima do fato de treino, atirou as calças para longe com um pontapé e escolheu à pressa um top preto e uma saia justa em tons cinza. Correu à casa de banho, passou desodorizante nas axilas, perfumou os pulsos, o pescoço e os seios. Olhou para o relógio. Tinha ainda dez minutos. Pegou no secador, alisou os cabelos, colocou rimel nos olhos e um baton discreto nos lábios.
A campainha tocou. Foi abrir. Ainda bem que não se tinha maquilhado. Sentia o rubor a aquecer-lhe as faces. Devia estar corada, como sempre acontecia quando via o Eduardo.
Uma paixão dos tempos de estudantes que nunca frutificou mas que nunca esqueceram ao longo dos anos...
.........
O Eduardo gostava dela assim, livre, natural, fresca, sem maquilhagem. A beleza dela não necessitava de artificios.
Só era uma pena que hoje ela não estivesse vestida como ele mais gostava.
Adorava vê-la de fato de treino meio amarrotado, com o cabelo apanhado com elástico num carrapito tão engraçado que lhe dava um ar descontraido de adolescente simples e desprendida.

Rui Felício
Blog Encontro de Gerações
Blog Escrito e Lido

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