05 agosto 2013

Luís Gaspar lê «Adeus» de Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhos

eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas
.
Adeus.

Eugénio de Andrade
pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005). Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

Ouçam este poema na voz d'ouro de Luís Gaspar, no Estúdio Raposa