28 junho 2019

«Ensaio sobre a minha palestra no Rio de Janeiro» - Cláudia de Marchi

A palestra ou, mais especificamente, o café filosófico que fiz no Rio de Janeiro na linda manhã do dia 02/05 foi restrita a um grupo de pessoas, todavia, acho interessante compartilhar aqui alguns dos assuntos abordados, de forma, claro, a ser acessível aos leitores sem elidir a confidencialidade entabulada com o estimado público que comigo interagiu.
Começo, pois, pelo final, quando um dos ouvintes perguntou-me qual seria a forma mais “eficaz” para as mulheres libertarem-se das barreiras educacionais e psicológicas que as impede de vivenciar plenamente a sua sexualidade e de ter, com o sexo, todo o prazer possível:
- “L-E-I-T-U-R-A!”; foi a minha resposta.
Sei que é bastante difícil falar sobre a importância da leitura e da busca por bons cérebros para “seguir” nas redes sociais atualmente, quando, ainda, musas fitness, coaches de qualquer coisa, modelos e nutricionistas “modinha” são o público alvo de muitas mulheres que insistem em ter, apenas na aparência física, um fator “empoderador” em suas vidas.
Ler bons livros, ler mulheres, ler e buscar na leitura algo que abale as suas mentes é um mote para a evolução feminina e, logicamente, masculina. Como disse Franz Kafka: “Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?”.
Falo aqui das mulheres, pois não podemos negar que o gênero que possui um clitóris com 8 mil terminações nervosas[1]destinado exclusivamente ao prazer e que, em pleno 2019, ainda é carente de conhecimento acerca da própria sexualidade e tem dificuldades para atingir o orgasmo, precisa atentar-se para a libertação de culpas e conceitos religiosos que limita o seu, praticamente, ilimitado potencial de ter prazer.
E é por essa e por outras razões que eu escrevo.
E que, apesar dessa triste época em que o fascismo, o conservadorismo e o anti-intelectualíssimo (filho pródigo do nazi-fascismo!) cresceram no Brasil, ainda tenho redes sociais, em que pese, com limitação de comentários, afinal, não estou no mundo para dar voz a sofomaníacos e, menos ainda, para ouvir suas opiniões revoltadas e, via de regra, inquinadas de ódio, preconceito, desrespeito e delírios de grandeza narcísicos.
Enfim, apesar dos pesares eu ainda sou uma pessoa esperançosa: confio que as pessoas possam usar a leitura como fonte de conhecimento e de evolução. Pois é isso que ela é!
Leitura e, claro, experiência de vida, sempre foram e sempre serão os melhores amigos do ser humano e de sua revolução interior, afinal, não teremos uma vida realmente valorosa sem que nos desconstruamos diariamente. O indivíduo que, ao morrer, conserva os mesmos pensamentos que teve durante toda a sua existência, certamente, não evoluiu nada. Como diria minha mãe, parafraseando o poeta, passou a vida “em branca nuvem”[2].
Dentre tantos assuntos debatidos ao longo da palestra a questão acerca da forma com que a sociedade encara a infidelidade masculina e feminina foi bastante “revisitada”.
Evidente que cada pessoa tem um conceito do que seja infidelidade conjugal, de acordo com seus limites ético-morais pessoais. Algumas mulheres, por exemplo, creem que o fato do marido fazer sexo com outra mulher não é tão grave quanto o fato dele se envolver emocionalmente com outra; outras, como eu, acham que a mera busca por interação afetiva com qualquer mulher, sem que a parceira saiba, seja traição.
Alguns homens creem que o fato da esposa beijar outro seja infidelidade, inclusive, muitos matam quando descobrem que a parceira transou com outro, eis os altos índices de feminicídio no Brasil para provar mais esse triste sintoma do machismo sistêmico.
Vivemos num país machista, isso é inegável.
Todavia, o machismo, assim como o racismo, a xenofobia, a homofobia e todo tipo de discriminação, se aprende. E tudo o que é "aprendido" pode ser "desaprendido" e, no mínimo, "não ser mais ensinado"!
Nós repetimos o que aprendemos em casa, ouvindo e vendo.
Somos construções culturais.
Como já escrevi aqui, em minha opinião não existe “cérebro masculino” e “cérebro feminino”. Existe educação e cultura, cabe a cada um de nós evoluirmos e nos desconstruirmos.
Para concluir essa parte deste ensaio vou colocar-lhes o meu conceito de infidelidade abstido de juízo de valor: “traição conjugal é tudo o que é feito sem que o parceiro saiba e com a intenção de omitir dele permanentemente”.
Cada pessoa se “vê” conforme a própria consciência, logo, não me cabe julgar e dizer que o meu parceiro A ou B age “certo” ou “errado” ao trair a esposa comigo ou com qualquer moça que ele “pega” facilmente (e sem pagá-la) numa simples ida a um barzinho para tomar um drink.
Da vida eu só sei de mim e eu nunca fui infiel a meu ex-marido ou a nenhum dos namorados que tive. Aliás, eu jamais irei trair um homem caso um dia volte a me relacionar amorosamente com um. Tenho uma facilidade muito maior em despir-me com o único objetivo de gozar, do que desarmar meu coração e alma e “dar-me” a conhecer a qualquer pessoa.
Ou seja, tanto na palestra quando aqui, quando falo em “infidelidade” ou “traição”, não quero dizer que seja certo ou errado, justo ou injusto, abjeto ou admirável.
Razões e justificativas, cada um têm as suas e nelas se agarra para poder viver em paz. Cada pessoa, também, vale-se dos mecanismos de defesa do ego (negação, racionalização, projeção e etc.) da forma que lhe aprouve.
Fato inquestionável é que os homens costumam justificar e aceitar a sua conduta infiel, enquanto, a maioria, não aceita a hipótese de ser traído. Eles “questionam” coisas como:
“Se eu não ‘como’ o mesmo alimento todos os dias no almoço, porque ‘tenho’ que transar com a mesma mulher sempre e não com a loira, com a ruiva, com a japonesa e etc.?”.
Outros usam velhos e machistas conceitos de “biologia” para explicar suas “puladas de cerca”, trazendo, desde comparações do ser humano com os animais até o fato de o órgão sexual masculino ser externo (“dador”), enquanto o feminino é interno, ou seja, “receptor”.
Balelas, tudo balelas!
Exercícios bem fajutos da racionalização (mecanismo de defesa do ego).
Fato é que, na sociedade como ela é, quando as pessoas se casam há implícita e, no âmbito religioso, explícita, a promessa de fidelidade. O mesmo quando um casal anui um namoro com exclusividade ou união estável. Teoricamente, portanto, quando você, portador de falo ou você, portadora de vagina, se casa está “abdicando” dos outros falos e das outras vaginas existentes neste vasto mundo.
Segundo estatísticas, no entanto, 50 e 60% dos homens têm sexo fora do casamento, contra 45 a 55% das mulheres[3]. A independência financeira das mulheres é um dos fatores do aumento da infidelidade entre o sexo feminino, em que pese, convém frisar que isso sempre ocorreu, mas as mulheres são mais discretas e, porque não dizer, ardilosas em suas escapadelas: são menos dependentes do ego e da (nada sutil) necessidade de contar para o “coleguinha” que “pegou” fulana e beltrana.
Mulheres vivem aventuras sexuais que nunca irão contar, enquanto homens disseminam aventuras sexuais que nunca irão viver, apenas para reafirmar perante os outros machos a ideia de que ele é um “macho alfa”. Enfim, a maioria dos homens é, graças à sua educação machista, bastante previsível e falastrona. Falar de seu desempenho na cama e do número de mulheres com as quais se relacionam sexualmente é importante para eles. Comumente, os ricos ostentam dinheiro, os poderosos ostentam poder e os metidos a “gostosos”, para exibirem-se para os que eles consideram mais abonados e poderosos do que eles são, falam de suas conquistas sexuais.
Enfim, a masculinidade tóxica inerente à educação heteronormativa, faz dos homens criaturas bem previsíveis.
Fato é que, de regra, as pessoas se casam apaixonadas entre os 20-30 anos. É comum que anos após, o desejo sexual diminua e o comodismo faça morada na cama do casal. Restará, ainda, certa atração, mas não tão forte como antes, de forma que, surgirão duas opções aos parceiros: jogar aberto e, possivelmente, divorciar-se, renegando o acomodamento da vida a dois; ou, manter-se no “quentinho” e confortável espaço do casamento, valendo-se do sexo extraconjugal para suportar a tediosa vida de casado.
Frise-se, porém, que algumas pessoas são educadas e condicionadas a aceitar esse “tédio” como algo normal, corriqueiro e até mesmo “inevitável” na vida, tipo: “a gente nasce, cresce, estuda, paga boletos, se casa, educa os filhos, vivencia o tédio do casamento, paga mais boletos, viaja, trai a esposa e morre casado e entediado, preferencialmente com netos vivos”.
Dizem-nos, desde sempre que “sexo não é tudo num casamento”.
A sociedade hipócrita e religiosa adora “demonizar” o sexo e o prazer sexual, não à toa tantas mulheres são sexualmente reprimidas.
Ora, meus amigos, “nada” é “tudo” num casamento!
Atração física não é “tudo” num casamento.
Amizade não é “tudo” num casamento.
Filhos não são “tudo” num casamento.
Admiração recíproca não é “tudo” num casamento.
Estabilidade financeira não é “tudo” num casamento.
E, claro, sexo não é “tudo” num casamento, mas, como “tudo” dito acima, é uma parte essencial para que ele se mantenha sem infidelidade ou sem a premente necessidade de “abrir” a relação e inventar “modinhas” para superar o sexo amornado pelo decurso dos anos.
Relacionamentos são construções, mas desejo sexual não se inventa. Como diria Regina Navarro Lins, é o tesão entre o casal que faz com que haja criatividade na cama, não o contrário.
Uma vez perdido o desejo, a relação costuma naufragar: surge a “necessidade” de ménage e de certas “inovações” que eu, pessoalmente, acho bastante abjetas; ou, claro, fazem o casamento sobreviver na base de escapadelas e posteriores “agrados” e presentinhos para amenizar a culpa pela traição.
Aliás, a culpa é a “força motriz” por trás de cada presente caro e agradinhos românticos recebidos fora de datas especiais nos casamentos do mundo!
O ideal seria, se a pessoa não tem maturidade ou vontade de ter uma relação aberta, que ela vivesse livre e intensamente a sua sexualidade enquanto solteira para que, na hora do “juramento” matrimonial ela prometesse e cumprisse a fidelidade e, portanto, o refugo aos outros pênis e vaginas que sempre existirão dando “sopa” por aí.
Creio, pois que experiência de vida sempre ajuda, logo, ao contrário do que muitos pensam, eu acredito que, quanto mais velhos e experientes os “nubentes” forem, maior a probabilidade da fidelidade prometida não se tornar uma promessa quebrada.
Convenhamos que desejo sexual, atração física e excitação são comuns, conexões mentais, afinidades e “atração intelectual”, não. Convém estimar e, realmente, valorizar o que é raro, posto que tudo que é valioso a tal ponto merece respeito.
A poligamia e o poliamor são tendências dos relacionamentos no futuro, segundo muitos sexólogos e a própria supracitada Regina. Em que pese eu não tenha real compreensão destas relações e nem maturidade para viver uma, tenho certeza de que é possível ser feliz numa relação aberta, basta que todos os envolvidos sejam transparentes uns com os outros.
Sob o ponto de vista do imperativo categórico de Kant[4](no qual eu pauto a minha vida), esse “modelo” de relação é mais justo e correto do que o hipócrita que é o vivenciado pela maioria das pessoas desde que o mundo é mundo.
Falo agora, sobre conceitos limitados e machistas que eu já vi sendo reverberados por muitas mulheres.
Eu cansei de ouvir de senhoritas portadoras de vagina e, até mesmo, autointituladas “feministas”, que quem “estraga” os casamentos são as próprias mulheres, posto que, segundo elas, “a mulherada engorda e não se cuida depois que casa e tem filhos”. Ouvi isso certa vez de uma “bem aventurada” que, antes dos 35 anos, já tinha feito 3 plásticas, acordava às 05 horas diariamente para malhar e fazia sexo com o marido uma vez por semana, tendo que "marcar" com antecedência.
Ora, existem homens que também "relaxam" depois que se casam: engordam, arrotam na frente da parceira, não ajudam nas tarefas da casa (que são do lar, não da esposa, vez que ela não é a sua empregada doméstica!), chegam do trabalho e sentam no sofá sem sequer lavarem o copo que usam para tomar cerveja! Existem homens que se esquecem do bom e velho sexo oral e da “pegada” mais forte e inesperada, depois da assinatura do- na visão do brasileiro machista- título translativo de propriedade (certidão de casamento).
Aparência física tem um “grauzinho” de relevância, mas, para o homem, mais importante do que a “boa forma” da parceira é a libido e o desejo!
Não tem, porém como uma esposa ter tesão no parceiro à noite se ele é grosso, egoísta e chato o dia inteiro! Não tem como ela ter vontade de transar se não recebeu ajuda do marido para cuidar dos filhos e do lar onde vivem. Não tem como ela ter desejo se o parceiro é sexualmente egoísta ou se, enquanto ela é vaidosa, o indivíduo se acomoda e não depila sequer o saco! (Mulheres não gostam de fazer sexo oral em meio à mata atlântica!).
Fato lamentável, porém é que não são poucas as mulheres que, durante a época de namoro, valem-se de ardis para seduzir e conquistar o parceiro, pois creem que está na “sua hora” de casar. Elas foram educadas para “casarem-se” até tal idade, terem filhos e etc.. Logo, quando acham que encontraram um cidadão que será um “bom pai” para os seus rebentos, elas agem dissimuladamente até conseguirem a tal da certidão de casamento e, de preferência, uma festa chiquérrima e uma viagem para um local paradisíaco cujas fotos irão direto para o seu Instagram!
Depois, o sexo quente “amorna”, o desejo “diminui”, a vaidade, idem. Quiçá nunca nem existiram tão “forte” nela, a questão é que ela queria mesmo o tal do casamento!
Enfim, e como boa fã do The Doors que sempre fui, digo-lhes que “people are strange”, sobretudo pra mim, que sou uma estranha. Mas, se formos à base de todas as diferenças entre os gêneros, do afã por casar-se de “papel passado” até a necessidade de fazer sexo com o maior número de mulheres possível, independente de estar casado ou não, encontraremos o combatível machismo estrutural, que, como eu sempre digo, atrofia a mente masculina e limita a felicidade e liberdade sexual feminina.
Com leitura, racionalidade, bom senso, educação e, logicamente, boa vontade as futuras gerações de homens e mulheres poderão ser mais bem resolvidas e não precisarão “socorrer-se” tanto na hipocrisia para poderem viver bons momentos de prazer sem que sejam apedrejadas e criticadas por gente conservadora e, possivelmente frustrada, afinal, certo estava Marcel Proust quando disse que “assim que uma pessoa se sente infeliz, torna-se moralista”. Lamentavelmente, o Brasil e grande parte do mundo, estão vivenciando uma tragicômica onda de conservadorismo e moralismo de gente imoral.
Por fim, se existe algo que convém ser dito para todos os homens e para todas as mulheres do mundo é que vocês não devem permitir que alguém queira lhes mudar. Se amem, se valorizem, se respeitem! Pessoa alguma nesse mundo pode ser tão boa a ponto de não lhes aceitar e, apesar disso, ser por vocês “estimadas”! Aceitação é sinal de afinidade e afinidade é o rumo do amor, da constância, do afeto e, sobretudo, do respeito num relacionamento amoroso.
Nada pode ser mais ofensivo do que ter alguém tentando fazer você ser o que não é, do que ter alguém que, por tentar lhe mudar, deixa claro que não gosta do seu jeito! Uma pessoa assim não merece o seu prezar, o seu afeto, a sua presença e, sobretudo, o seu sacrifício. Não aceite ouvir nada no estilo “eu gosto de você, mas...”! Entenderam?! “'Mas' vá se catar se você não me aceita como eu sou”! Essa é a merecida resposta, afinal existem mais de 7 bilhões de pessoas nesse pálido ponto azul (planeta terra) e o "mas" é uma conjunção adversativa: a pessoa que o usa está se contradizendo. No exemplo dado, significa que, na verdade, ela não gosta de você ou, no mínimo, não aceita o seu jeito de ser!
Se conheça, se dê o devido e merecido valor que você verá que é melhor estar só do que estar com alguém que quer lhe mudar, independente do motivo!

Simone Steffani - acompanhante de alto luxo!

[1] PATROCÍNIO, Carol. A vagina como ela é. Revista Galileu. São Paulo/SP, 29 de dezembro de 2015. Disponível em: . Acesso em: 01 maio 2019.
[2] “Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, e não homem,
Só passou pela vida, não viveu”.
Francisco Otaviano
[3] CARATONI, Bruno. CALLEGARI, Jeane. Amor, o fim. Revista Superinteressante. São Paulo/SP, 03 de junho de 2010. Disponível em: . Acesso em: 07 de maio 2019.
[4] “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal." Variante: "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza”.

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