15 julho 2018

«Talvez a morte seja apenas um vidro entre nós» - bagaço amarelo


"Quero estar sempre perto de ti", disse ela. Depois tocou-me com a ponta dos dedos. Nesse preciso momento, do outro lado da rua, uma criança caiu enquanto corria e começou a chorar, um homem pequeno e magro discutia em árabe ao telemóvel e um automóvel estacionou a uns cinco metros de distância de mim.
Apeteceu-me correr para a criança e abraçá-la. Ficar perto dela enquanto a dor da queda lhe permanecesse latejante na carne e na alma, mas o pai antecipou-se.
Fiquei a pensar no que raio será isso de estar perto de alguém. E se a S. estivesse perto de mim a vida toda mas com um vidro a separar-nos? Continuaríamos perto, mas os nossos dedos não se poderiam tocar de novo. Estaríamos suficientemente perto?
O homem pequeno e magro está a discutir com alguém que está longe, mas pela intensidade da voz percebo que é uma discussão olhos nos olhos entre duas pessoas que não se podem ver. Não sei árabe, mas por qualquer motivo adivinho que falam de Amor, talvez entre dois corpos que se apaixonaram no passado e agora não sabem como enfrentar uma vida onde o Amor se esvaiu como se evapora a água da chuva: devagar e sem que ninguém dê conta.
Toco de novo a S. com a ponta dos dedos. O forte calor que se faz sentir em Inglaterra faz-nos suar pelo simples facto de estarmos na rua. O suor é, apesar da vontade de estarmos juntos, a maior prova de que estamos vivos. É sempre a carne que demonstra vida. Não a alma.
A M. partiu, disseram-me. Morreu, para estar mais perto da verdade. Estou triste e mergulhado em mim. Talvez seja apenas isso, penso: deixou de poder suar em dias de Verão como este.
A S. pergunta-me se estou bem. Que sim, respondo.
A criança já deixou de chorar e está ao colo do pai. O homem que discutia em árabe ao telefone calou-se e desapareceu na primeira curva da rua. Uma mulher sai do carro e caminha na minha direcção. Entendo apenas à segunda que me está a perguntar se o museu da Indústria fica perto. Que sim, respondo. Indico-lhe a direcção.
Talvez a morte seja apenas um vidro entre nós. Continuamos perto mas sem nos tocarmos na ponta dos dedos. Se for assim, fica bem!

À MAV. Até sempre!


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»

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