27 novembro 2018

O falo das Caldas não está sozinho no mundo

Texto escrito pelo meu secretário e publicado no jornal «Gazeta das Caldas» de 16 de Novembro de 2018, poucos dias antes de uma Assembleia Geral da Confraria do Príapo.












Os Caldenses devem ter orgulho do seu património e devem saber, assim como todos os que não são das Caldas, nacionais e estrangeiros, que esta tradição da sua cidade se enquadra em muitas outras manifestações em todo o mundo e desde tempos pré-históricos de rituais de fertilidade. Quem vê os falos das Caldas como uma simples brincadeira, está a desperdiçar toda a sua riqueza histórica e cultural. Mostrar o falo das Caldas devidamente enquadrado numa mostra de arte erótica de todo o mundo e de todas as épocas, em meu entender, valorizá-lo-ia enormemente e retirar-lhe-ia o peso negativo que a sociedade em geral lhe atribui.

Da sacralização da fertilidade ao sexo como pecado

No estudo «A religião e o culto fálico na Região Oeste», ainda não publicado e em fase de revisão, Carlos Almeida aborda as "malandrices das Caldas" e encontra as suas raízes num culto milenar do qual estas peças em louça chegaram aos nossos tempos. Mas não estão sozinhas. Os cultos milenares sublimaram-se e continuam tão entre nós como no Neolítico. A sacralização do sexo é um marco universal da cultura Humana. Recorrentemente, o Falo, pénis erecto, surge isolado de qualquer representação adicional, podendo assim ser considerado o arquétipo da noção de símbolo. É o caso dos menires, profusamente espalhados por todos os territórios. O culto do Falo é uma das manifestações mais importantes da expressão humana na sua adoração à maravilha misteriosa assente no poder da força criadora e conseguiu, apesar de toda a diabolização feita na sequência da Cristianização, permanecer e sobreviver em ritos marginais quase até aos nossos dias.
Como constata Carlos Almeida, "se muitos Historiadores actuais tratam o fenómeno fálico como assunto menor e quase tabu, isso deve-se certamente a rebuços devidos ao véu moral dominante, que esconde e secundariza este importante tema e o relega para a mera e incómoda prateleira dos assuntos laterais e inconvenientes".

A Confraria do Príapo e a defesa da louça "malandreca" típica das Caldas


A Confraria do Príapo foi criada em 8 de Maio de 2009 tendo como objectivo a defesa, valorização e promoção da garrafa-falo. Sou confrade fundador para, na medida das minhas possibilidades, ajudar no que seja necessário para não deixar morrer esta herança cultural ancestral. É que, como refere Carlos Almeida no seu estudo, "o falo das Caldas é possivelmente a última representação explícita e antropomórfica do culto do falo no velho continente. A par de outros pontos na Ásia, a sua continuidade no tempo só tem paralelo no Japão, onde, ainda nos dias de hoje, se continua a fazer a festa anual do pénis".

O falo das Caldas em excelente companhia

A colecção de arte erótica «a funda São» é composta actualmente por 2.000 livros (das temáticas do erotismo e da sexualidade, desde o ano de 1664 até aos nossos dias) e 4.000 objectos diversos (quadros a óleo e acrílico, desenhos originais, gravuras, jogos, mecanismos e segredos, brinquedos, publicidade, artesanato, peças de design, selos, moedas, postais, calendários, antiguidades, estatuetas em diversos materiais e de diversas proveniências, etc.). Como não poderia deixar de ser, da colecção fazem parte muitas peças de artesanato das Caldas da Rainha... em excelente companhia com objectos de todo o Mundo e de várias épocas.
Sonho, desde 1996, num período em que trabalhei nas Caldas da Rainha, com um espaço nesta cidade que apresente, contextualize e dignifique a louça "malandreca", como esta merece.
Não deixem o falo sozinho!

Paulo Moura

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