11 junho 2006

O apaixonado - por Charlie

Era já a terceira vez esta semana que lhe telefonava.
- Está? – dizia ele ainda antes de ela ter tempo de lhe dizer fosse o que fosse.
Ficava calada, inspirava fundo e tentava segurar o seu enfado aparente pela insistência com que ele a presenteava continuamente.
Continuava depois de ela lhe dizer que sim, que estava, mas dizendo habilmente que tinha pouco tempo.
Afazeres e compromissos adiantava-lhe ela depois, mas que ele nem ouvia, de tal forma lhe deitava o coração aos pés, de homem perdidamente apaixonado e entregue aos seus encantos. Por ela, ele faria tudo o que lhe pedisse e mesmo mais, faria o impossível para ter o seu amor incondicional.
O céu era pequeno para conter tudo o que sentia por ela, inventaria uma nova abóbada celeste, mais sublime e grandiosa, em que as estrelas seriam poemas em permanente recitação e evolução entre si. Um novo universo onde o seu nome seria o eco primeiro e último entre todos os corpos celestes. Um grandioso poema único em seu louvor, cantado até ao infinito por todos os astros.
Por ela iria ao fundo dos mares e, desafiando os Deuses, entraria nos céus clamando em triunfo a glória suprema do amor que lhe sentia.
Cobri-la-ia de jóias e de ouro, e faria dela uma rainha.
Continuava assim mais de meia hora em crescendo contínuo até ficar exausto, terminando sempre em súplicas e promessas...
Finalmente desligou.
Era a terceira vez esta semana.
- Quem era? – perguntou uma voz ao seu lado.
- Era o Osvaldo.
- Ah, o Osvaldo... Qual Osvaldo? Quem é o Osvaldo? O que queria ele?
- O mesmo de sempre. O que querem todos.
- Mas este não é o tal do carro...
- Sim, é. O de sexta-feira. O que chegou com o Toni.
- O Toni? Mas esse não estava em Lisboa?! É que nem o vi...
- Não o viste porque estavas entretido. O Toni estava em Lisboa mas descobriu-me este saco de dinheiro para a gente esfolar. Bem, podes mandar as tuas putas para casa descansar uma temporada que isto promete. Já agora, liga ao Toni e diz-lhe que precisas de falar com ele. Se tudo correr como prevejo, e se bem conheço o Toni, tens homem para as tuas noitadas e os teus alfinetes, meu querido. Sabes que não o faço por menos. Agora beija-me, meu panasca. Que gosto da forma como sabes beijar...

Charlie

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