Livro erótico francês de 1751 (1ª edição) em dois volumes e seis partes (136, 140 e 132 páginas + 135, 123 e 142 páginas).
Editado em Amesterdão.
500 gr / 8 x 14 cm /
Esta obra foi por vezes sub-intitulada «o libertino que se tornou filósofo».
Recebido de fresco na minha colecção.
25 agosto 2012
24 agosto 2012
«Repetidamente e uma vez mais» - João
"Estávamos num vigésimo segundo andar ao final da tarde, e nenhum outro prédio das redondezas era tão alto quanto este. Uma das paredes da casa-de-banho, como aliás a de outras divisões da casa, era totalmente envidraçada. Noutra parede, perpendicular à vidraça, existia um espelho que acompanhava toda a parede até à porta, e, abaixo dele, uma bancada de pedra negra, ampla, com dois lavatórios próximos e dois copos de vidro. Em pé, apoiado na bancada, observava os pequenos sabonetes e um pincel de barba.
A ausência de prédios próximos com a mesma altura, e o facto de os pisos no topo terem superfícies envidraçadas, retira a necessidade de reserva. Naquele duche podem tomar-se banhos prolongados com o sol a beliscar a nudez, pode passear-se por toda a casa sem que a roupa seja necessária, pode ler-se um livro junto ao vidro, olhando o resto da cidade, como se se estivesse sozinho no mundo. Ninguém vê.
Ninguém te viu entrar. Traiu-te o barulho de chaves pousadas sobre loiça numa pequena prateleira junto à porta de entrada. O som de saltos no pavimento foi discreto, quando te aproximavas de um roupeiro onde deixaste um casaco comprido. A mala atiraste para o longo sofá com vista para a cidade e uma avenida que se projectava distante e perpendicular à fachada envidraçada daquele apartamento. Sentaste-te numa parte dele e depois deslizaste até à chaise longue. Arranjaste o cabelo ao mesmo tempo que um pé empurrava primeiro um sapato para o chão, e depois o outro. Desapertaste a blusa que vestias botão por botão, deixando-a vestida mas com o soutien rendado visível, através do qual havia um vislumbre de mamilos bem desenhados.
Ouviste-me, por fim, dentro da casa de banho, quando a torneira da água foi aberta, e a lâmina se limpava dos pêlos de uma barba desfeita. Rolaste no sofá até te ergueres, soltando o colchete e deslizando o fecho que segurava a saia lápis no seu lugar. Caiu, sem amparo, no chão. Sem ruído e sem queixume, não muito longe dos sapatos. Eras tu, de blusa aberta e renda arejada como que deslizando até à porta de onde eu estava, apenas para me provocar enfiando um dedo entre a tua carne e o tecido que te cobria a genitália, descendo-o lentamente, passando o joelho, tombando também. Estavas a pouca distância de nua. E, rodando, viravas-me as tuas nádegas num convite, como quem me pergunta se já tinha almoçado naquele dia, se tinha fome, se estava interessado numa sobremesa e café.
Disse-te que sim, perseguindo-te pelo espaço, enquanto me fugias em direcção ao sofá. Detiveste-te nas costas dele, parada de costas para mim. Costas, as tuas, que inclinaste em frente, deixando-me um caminho aberto, umas pernas ligeiramente afastadas e nádegas que ofereciam visão e espaço para uma invasão. Disse-te que sim, que uma sobremesa e um café seriam boa ideia, e penetrei-te repetidamente, sem pensar no sofá que se marcava com os nossos odores, sem pensar em mais nada. Ejaculei profundamente dentro de ti, enquanto te segurava as mãos, puxando os teus braços atrás das costas. Quando as larguei, julgo que estavas sem forças. Deixaste-te cair, e eu também, rodando até me sentar ao teu lado.
Num mundo sem consequências terias sido fodida assim, mas no mundo que existe, fiquei de mãos assentes na bancada de pedra escura, segurando com pouca firmeza uma lâmina, a cara ainda coberta de espuma, dois copos de vidro por usar e um pincel da barba molhado. Com o meu olhar na água que corria e o calor do sol que entrava e me banhava a nudez, pensava na sobremesa e no café, nas mãos presas atrás das costas, nas penetrações profundas, e nos acidentes de que tentamos fugir."
João
Geografia das Curvas
A ausência de prédios próximos com a mesma altura, e o facto de os pisos no topo terem superfícies envidraçadas, retira a necessidade de reserva. Naquele duche podem tomar-se banhos prolongados com o sol a beliscar a nudez, pode passear-se por toda a casa sem que a roupa seja necessária, pode ler-se um livro junto ao vidro, olhando o resto da cidade, como se se estivesse sozinho no mundo. Ninguém vê.
Ninguém te viu entrar. Traiu-te o barulho de chaves pousadas sobre loiça numa pequena prateleira junto à porta de entrada. O som de saltos no pavimento foi discreto, quando te aproximavas de um roupeiro onde deixaste um casaco comprido. A mala atiraste para o longo sofá com vista para a cidade e uma avenida que se projectava distante e perpendicular à fachada envidraçada daquele apartamento. Sentaste-te numa parte dele e depois deslizaste até à chaise longue. Arranjaste o cabelo ao mesmo tempo que um pé empurrava primeiro um sapato para o chão, e depois o outro. Desapertaste a blusa que vestias botão por botão, deixando-a vestida mas com o soutien rendado visível, através do qual havia um vislumbre de mamilos bem desenhados.
Ouviste-me, por fim, dentro da casa de banho, quando a torneira da água foi aberta, e a lâmina se limpava dos pêlos de uma barba desfeita. Rolaste no sofá até te ergueres, soltando o colchete e deslizando o fecho que segurava a saia lápis no seu lugar. Caiu, sem amparo, no chão. Sem ruído e sem queixume, não muito longe dos sapatos. Eras tu, de blusa aberta e renda arejada como que deslizando até à porta de onde eu estava, apenas para me provocar enfiando um dedo entre a tua carne e o tecido que te cobria a genitália, descendo-o lentamente, passando o joelho, tombando também. Estavas a pouca distância de nua. E, rodando, viravas-me as tuas nádegas num convite, como quem me pergunta se já tinha almoçado naquele dia, se tinha fome, se estava interessado numa sobremesa e café.
Disse-te que sim, perseguindo-te pelo espaço, enquanto me fugias em direcção ao sofá. Detiveste-te nas costas dele, parada de costas para mim. Costas, as tuas, que inclinaste em frente, deixando-me um caminho aberto, umas pernas ligeiramente afastadas e nádegas que ofereciam visão e espaço para uma invasão. Disse-te que sim, que uma sobremesa e um café seriam boa ideia, e penetrei-te repetidamente, sem pensar no sofá que se marcava com os nossos odores, sem pensar em mais nada. Ejaculei profundamente dentro de ti, enquanto te segurava as mãos, puxando os teus braços atrás das costas. Quando as larguei, julgo que estavas sem forças. Deixaste-te cair, e eu também, rodando até me sentar ao teu lado.
Num mundo sem consequências terias sido fodida assim, mas no mundo que existe, fiquei de mãos assentes na bancada de pedra escura, segurando com pouca firmeza uma lâmina, a cara ainda coberta de espuma, dois copos de vidro por usar e um pincel da barba molhado. Com o meu olhar na água que corria e o calor do sol que entrava e me banhava a nudez, pensava na sobremesa e no café, nas mãos presas atrás das costas, nas penetrações profundas, e nos acidentes de que tentamos fugir."
João
Geografia das Curvas
Kruzes, Kredo!
Pode parecer estúpido mas não é,
sobretudo quando se está na minha pele.
Aqui há dias reparei num sms trocado
entre dois jovens coisos agarrados a jovens pilas e para meu horror
vi lá escrita por diversas vezes uma palavra nova e que, confesso,
me custou a admitir que queira dizer o mesmo que a outra.
Cada coiso ou coisa agarrados a nós
sente-se no direito ao respeito pela sua sensibilidade mas
dificilmente encontram naquele monte de coisas estranhas uma zona
mais sensível do que a nossa, a zona erógena. Por isso mesmo não
me inibo de manifestar o meu desagrado pela forma como os coisos
pequenos adulteram (isto soa bizarro, eu sei) a língua sem
necessidade alguma e sem respeito pela forma como isso pode afectar
uma piroca no âmago do seu ser.
A palavra que me chocou é kona. Até
me custa olhar esta monstruosidade que associa à imagem de algo belo
uma outra que a transforma num pesadelo e eu posso explicar porquê.
A palavra cona, a que os jovens coisos
se referiam, não é um termo feliz, isso posso admitir, e só ganhou
popularidade por apesar do estatuto de palavrão acabar por ser uma
opção mais razoável do que o termo institucional vagina.
Porém, cona é uma palavra inspiradora
até nas letras que a formam, nomeadamente aquele ó tão apetecível
que nos permite uma ligação mental directa a um espaço paradisíaco
e sem o qual nenhuma pila como eu conseguiria sobreviver, pelo menos
com a mesma vitalidade que gosto de louvar. Sim, os coisos agarrados
à nós convencionaram que cona não se pode dizer ou não se deve
dizer embora ande na boca de muita gente e disso não falo por
interposta piroca, sou testemunha.
Contudo, essa palavra para mim tão
apelativa sofre uma mutação tão horrível como se de repente os
coisos agarrados a nós passassem a ter lâminas de barbear entre as
pernas em vez de pirocas magníficas como a que coube em sorte ao
coiso agarrado a mim,
Kona parece ser a mesma coisa, soa
parecido e tudo, mas há a tal questão de pormenor (e o diabo está
sempre nos pormenores) que parece irrelevante para as coisas e os
coisos mas para uma pila não é, pois transforma um espaço seguro e acolhedor numa guilhotina imaginária..
Bastam dois dedos de prepúcio para
perceber que é um insulto associar à palavra mais bonita do
Universo a letra mais insuportável do alfabeto! Qualquer pila
percebe porquê.
E a de um tal de Lorenzo Bobbit pode
explicar com maior detalhe...
São Rosinhas!...
Recebo regularmente informação sobre as novidades da malta amiga da Erosfarma.
Desta vez, chamou-me a atenção um "adorno mamilo Rosinhas vermelho". Que bela homenagem me fazem!...
Alguma alma caridosa me quererá oferecer isto? Eu juro que uso (na minha colecção)!
Desta vez, chamou-me a atenção um "adorno mamilo Rosinhas vermelho". Que bela homenagem me fazem!...
Alguma alma caridosa me quererá oferecer isto? Eu juro que uso (na minha colecção)!
23 agosto 2012
A origem da menstruação
(De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompeia e vertida em latim vulgar por Simão de Nântua.)
’Stava Vénus gentil junto da fonte
Fazendo o seu pentelho,
Com todo o jeito, p’ra que não ferisse
Das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
Ao grande pai Anquises,
O qual, com ela, se não mente a fama,
Passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois resolvia
Na mente altas ideias:
– Ia gerar naquela heróica foda
O grande e pio Eneias.
Mas a navalha tinha o fio rombo,
E a deusa, que gemia,
Arrancava os pentelhos e, peidando,
Caretas mil fazia!
Nesse entretanto a ninfa Galateia,
Acaso ali passava,
E vendo a deusa assim tão agachada,
Julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
Era de génio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor
Atira-lhe um calhau...
Vénus se assusta. A branca mão mimosa
Se agita alvoroçada,
E no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
Tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em subtil fio,
Corre purpúrea veia,
E nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
Jamais perde a tesão
E é capaz de foder noites e dias,
Até no cu de um cão!)
– “Ora porra” – gritou a deusa irada,
E nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
Uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
Que, com tal brincadeira,
Ia ferir a mais mimosa parte
Da deusa regateira...
– “Estou perdida!” – trémula murmura
A pobre Galateia,
vendo o sangue correr do róseo cono
Da poderosa deia...
Mas era tarde! A Cípria, furibunda,
Por um momento a encara,
E, após instantes, com severo acento,
Nesse clamor dispara:
“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
Que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
Um crime como este?!
Assim, por mais de um mês inutilizas
O vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
As horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
Que é que há de fazer, por tanto tempo,
Este faminto cono?...
Ó Adónis! Ó Júpiter potentes!
E tu, Mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
Da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
Tornar bem fresco e limpo
Para recreio e divinal regalo
Dos deuses do Alto Olimpo.
Vêde seu triste estado, ó! Que esta vida
Em sangue já se esvai-me!
Ó Zeus, se desejais ter foda certa
Vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o cono teu sempre atormente
Perpétuas comichões,
E não aches jamais quem nele queira
Vazar os seus colhões...
Em negra podridão imundos vermes
Roam-te sempre a crica
E à vista dela sinta-se banzeira
A mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
Verta fétidos jorros,
Que causem tédio e nojo a todo mundo,
Até mesmo aos cachorros!”
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
Do Olimpo o Grão Tonante,
Que em pívia ao sacana do Cupido
Comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
Das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
À puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
De concha alabastrina,
Que quatro aladas porras vão tirando
Na esfera cristalina.
Cupido que as conhece e as rédeas bate
Da rápida quadriga,
Co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta
Das setas as fustiga.
Já desce aos bosques, onde a mãe, aflita,
Em mísera agonia,
Com seu sangue divino o verde musgo
De púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
À olímpica morada,
Onde a turba dos deuses, reunida,
A espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se a aparelha
Para a venérea chaga,
Feliz porque naquele curativo
Espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
Mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
Celestes abalou...
Sorriu o furto a ciumenta Juno,
Lembrando o antigo pleito,
E Palas, orgulhosa lá consigo,
Resmoneou: – “Bem-feito!”
Coube a Apolo lavar dos roxos lábios
O sangue que escorria,
E de tesão terrível assaltado,
Conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
Em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
Com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
Com carrancudo aspeto,
E erguendo a voz troante, fundamenta
E lavra este DECRETO:
– “Suspende, ó filha, os lamentos justos
Por tão atroz delito,
Que no tremendo Livro do Destino
De há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
O teu divino cono,
E as imprecações que fulminaste
Agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
Estenda-se o castigo
para expiar-te o crime que esta infame
Ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
Toda humana crica,
De hoje em diante, lá de tempo em tempo,
Escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
O cono da mulher,
Com lágrimas de sangue, o caso infando,
Enquanto mundo houver...”
Amém! Amém! com voz atroadora
Os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram.
Bernardo Guimarães (1825-1884)
’Stava Vénus gentil junto da fonte
Fazendo o seu pentelho,
Com todo o jeito, p’ra que não ferisse
Das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
Ao grande pai Anquises,
O qual, com ela, se não mente a fama,
Passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois resolvia
Na mente altas ideias:
– Ia gerar naquela heróica foda
O grande e pio Eneias.
Mas a navalha tinha o fio rombo,
E a deusa, que gemia,
Arrancava os pentelhos e, peidando,
Caretas mil fazia!
Nesse entretanto a ninfa Galateia,
Acaso ali passava,
E vendo a deusa assim tão agachada,
Julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
Era de génio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor
Atira-lhe um calhau...
Vénus se assusta. A branca mão mimosa
Se agita alvoroçada,
E no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
Tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em subtil fio,
Corre purpúrea veia,
E nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
Jamais perde a tesão
E é capaz de foder noites e dias,
Até no cu de um cão!)
– “Ora porra” – gritou a deusa irada,
E nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
Uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
Que, com tal brincadeira,
Ia ferir a mais mimosa parte
Da deusa regateira...
– “Estou perdida!” – trémula murmura
A pobre Galateia,
vendo o sangue correr do róseo cono
Da poderosa deia...
Mas era tarde! A Cípria, furibunda,
Por um momento a encara,
E, após instantes, com severo acento,
Nesse clamor dispara:
“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
Que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
Um crime como este?!
Assim, por mais de um mês inutilizas
O vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
As horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
Que é que há de fazer, por tanto tempo,
Este faminto cono?...
Ó Adónis! Ó Júpiter potentes!
E tu, Mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
Da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
Tornar bem fresco e limpo
Para recreio e divinal regalo
Dos deuses do Alto Olimpo.
Vêde seu triste estado, ó! Que esta vida
Em sangue já se esvai-me!
Ó Zeus, se desejais ter foda certa
Vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o cono teu sempre atormente
Perpétuas comichões,
E não aches jamais quem nele queira
Vazar os seus colhões...
Em negra podridão imundos vermes
Roam-te sempre a crica
E à vista dela sinta-se banzeira
A mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
Verta fétidos jorros,
Que causem tédio e nojo a todo mundo,
Até mesmo aos cachorros!”
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
Do Olimpo o Grão Tonante,
Que em pívia ao sacana do Cupido
Comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
Das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
À puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
De concha alabastrina,
Que quatro aladas porras vão tirando
Na esfera cristalina.
Cupido que as conhece e as rédeas bate
Da rápida quadriga,
Co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta
Das setas as fustiga.
Já desce aos bosques, onde a mãe, aflita,
Em mísera agonia,
Com seu sangue divino o verde musgo
De púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
À olímpica morada,
Onde a turba dos deuses, reunida,
A espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se a aparelha
Para a venérea chaga,
Feliz porque naquele curativo
Espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
Mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
Celestes abalou...
Sorriu o furto a ciumenta Juno,
Lembrando o antigo pleito,
E Palas, orgulhosa lá consigo,
Resmoneou: – “Bem-feito!”
Coube a Apolo lavar dos roxos lábios
O sangue que escorria,
E de tesão terrível assaltado,
Conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
Em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
Com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
Com carrancudo aspeto,
E erguendo a voz troante, fundamenta
E lavra este DECRETO:
– “Suspende, ó filha, os lamentos justos
Por tão atroz delito,
Que no tremendo Livro do Destino
De há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
O teu divino cono,
E as imprecações que fulminaste
Agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
Estenda-se o castigo
para expiar-te o crime que esta infame
Ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
Toda humana crica,
De hoje em diante, lá de tempo em tempo,
Escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
O cono da mulher,
Com lágrimas de sangue, o caso infando,
Enquanto mundo houver...”
Amém! Amém! com voz atroadora
Os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram.
Bernardo Guimarães (1825-1884)
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| Thomas Karsten - A concha de Vénus
blog A Pérola
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«Quem desdenha quer pinar» - Patife

Patife
Blog «fode, fode, patife»
Desejos na Solidão das Horas & Confissão
Confissão IV
Há sempre dentro do peito
Uma verdade escondida
Um sonho desfeito
Uma alma ferida
Há horas de desespero
Lágrimas que não se contêm
Algo de tão verdadeiro
Que não se mostra a ninguém
Há sempre em cada peito
Um secreto alçapão
Que nunca pode ser desfeito
Nem mesmo em confissão
É algo de que não se fala
Que se enterra bem fundo
E tudo o que o coração cala
Nunca vê a luz do mundo
Mas mói a alma por dentro
Num rendilhado tão fino
Seca-a tira-lhe o alento
E esconde-lhe o destino
A pobre coitada vagueia
Á toa sem se deter
Por todo o lado passeia
Ninguém a pode entender
É assim que eu me sinto
Sem ter com quem falar
Se falo pareço que minto
Se não falo, vou rebentar…
____________________________________
Há várias maneiras de estar só e de sentir a solidão, estas duas são duas das possíveis.
Num diálogo interior ou num fechar de olhos imaginando ou fantasiando realidades alternativas, explorando desejos e fantasias a "solo"...
PS: Mais trabalhos meus podem ser visitados, comentados e quem sabe, admirados em:
aminhagaleriavirtual.blogspot.com
Não é fácil ser escocês
A vida pode ser muito complicada.

Entra em qualquer uma e reza para ver uma ruivinha pelada.
Capinaremos.com
Entra em qualquer uma e reza para ver uma ruivinha pelada.
Capinaremos.com
22 agosto 2012
salmão

{SALMÃO, entre as forma poliglotas da língua se desabotoa no rio aceso, descendo, entre os esquadros, continuamente, na fraseologia HÚMIDA, incerta nas cavidades a descobrir }
A PELE se dependura, animal, na gaze a língua, SALMÃO, fecunda e viajante...
Treme o sangue a roçar a crispação que se lambe num enxame, nos mamilos, em osmose. Os SEIOS e a seda dança, crespa, selvagem, múltipla, luxuosa e eu SORVO-ME neles. Isolando os prados em prantos, gemeres abismais exitados, esfuziantes, que na respiração se exibem, líquenes. Obturada a mão MUSA acende a estrela e a massa cravada a recebe em movimento. Fica assim. Gulosa na dança pelas roupas e a nudez. Duplamente CORPO e remoinho…
Nos lugares opacos a carne fica iluminada!
Os DEDOS inventam imperscrutáveis sílabas. Narinas e curvas tensas numa fronte de beleza em labaredas e uma ABERTURA salgada se desfralda em citadinas avenidas de prazer. Os bífidos sentidos onde os teoremas se ajoelham e rendem em pistas marítimas, dorsos onde as COXAS põe a luzir as falanges: onde o meu sal se deita, cresce e aloja essa força que trago dentro de mim, nua, em quadris que tua boca expele transpira, húmida como a escrita em carne, SALMÃO, respira e transpira desde o fundo da página ao grito que se despenha e se entorna na água QUENTE que transborda de onde me arranco o DENTRO e escrevo. As palavras em sexo e as VAGINAS furiosamente ENTORNADAS nesta página, radiando o que na mente ARDE e nos lembrares treme.
Paragens gráficas o SALMÃO desce, no meio cresce. Sei que toco o desvastador, em sinos que desmaiam as raias, a braçada quente. Beijo-te por dentro. A BOCA no chão. O branco da matéria deixando-nos em BRASA os LÁBIOS, na sagacidade dos sítios, e o incêndio não sabe que estás algures na paisagem que ergues em múltiplas tragadas, na VULVA alta, alimento, pura. Tremendo no meu mundo ou no aroma aterrada a colher rotativa a substancia primária. Delicada. Tão ABERTA que apanha toda a rósea LÍNGUA dentro no SEXO desabrochada.
A bexiga planta e discursa laços, acolhimentos, corpúsculos nas vertingens agora poltronas do meu, do nosso, SALMÃO em total desalinho, perto do Porto. ONDE o rebuço ruge agudo os rasgões de LANHA em LANHA.
A choupa pulsa o umbigo. Redondo. A conjuntura chupando um CLITÓRIS, femenino, a carne em círculos debruçada. Brilha, Branco o TESÃO, côncavo grita, geme relâmpagos entre o óleo táctil, no profundo das águas ardentes, o HAUSTO idioma e as efervescências hieroglíficas_____________________ENTRANDO.
«locutora» - bagaço amarelo

É verdade que nunca a cheguei a ver, mas também é verdade que ela me fez perceber uma das muitas coisas que um homem procura numa paixão: um abrigo. Durmo sempre com a persiana corrida, deixado os seus buracos abertos. Desta forma, todas as manhãs a luz do Sol vai entrando devagar no quarto, como se tivesse que pedir licença para me vir despertar dum sono bom. Nesse momento não sei como está o mundo lá fora. Talvez haja uma revolução, talvez um acidente na rua tenha feito vítimas mortais, talvez dois homens se agridam um ao outro depois de um desentendimento no trânsito. Nunca me interessou. Dentro do meu quarto, por aqueles dias, a voz dela era o meu mundo e dizia-me que estava tudo bem. Ela também gostava dessa ténue luz que me espreitava, e depois punha uma música a condizer Só para mim.
Senti a falta dela quando, por causa do meu horário de trabalho, passei a acordar mais tarde. Durante alguns dias, por não a sentir perto de mim, levantava-me ainda ensonado e passava o resto dos dias a dormir em pé. Alguma coisa estava mal comigo, e demorei tanto a curar a falta dela como se fosse um outro Amor qualquer. Mas, claro, como se fosse outro Amor qualquer, lá acabei por passar a ressaca.
Hoje acordei mais cedo do que o costume e foi dela a primeira voz que ouvi. "Se ainda está no vale dos lençóis, fique a saber que tem mais sorte do que eu, e aproveite para ouvir esta música ainda de olhos fechados", disse. Eu fechei os olhos e ouvi-a.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
21 agosto 2012
Eva portuguesa - «Sabor de amor proibido»
Espreguiço-me devagar e sensualmente na cama, onde estivemos aninhados até agora...
Sinto o corpo maravilhosamente dolorido pela sofreguidão com que nos amámos. Contigo é sempre como se fosse a primeira vez... o tesão não diminuiu... antes pelo contrário, aumentou... o meu corpo reclama o teu, a minha alma chama por ti, a minha boca satisfaz-se na tua, eu só existo por ti e através de ti...
Os lençóis estão húmidos de suor e sémen... o quarto cheira a sexo...
Agarro-me a este cheiro que é a soma do cheiro de cada um...
Saíste deixando-me, achavas tu, adormecida.
Mas eu só não queria abrir os olhos para não perder o momento... o teu momento... o nosso momento.
Como em todos os amores proibidos, não sei quando te voltarei a ver, quando voltaremos a estar juntos.
E assim tento prolongar ao máximo estes farrapos de tempo que a vida nos dá.
E sinto o teu beijo de despedida, cuidadoso, carinhoso, amoroso, saudoso até.
E recuso-me a abrir os olhos quando oiço a porta da rua bater.
E continuo nesta dormência de prazeres satisfeitos, de saudades que irão surgir...
Entraste sorrateiramente de madrugada. Não te esperava. Dormia tranquilamente com o gato aninhado a meus pés. Só te senti quando puxaste os lençóis e te aninhaste em mim...
Queria levantar-me, ir lavar os dentes, a cara, ficar mais bonita para ti. Não deixaste. Disseste que me amavas ainda mais quando eu estava assim, amassada do sono e da cama, calma, serena e apenas eu própria...
Disseste que sorria enquanto dormia; com certeza sonhava contigo, numa forma inconsciente de pressentir a tua chegada.
Amámo-nos apressadamente, como se o mundo fosse acabar na próxima meia hora. Enroscaste-te então em mim e adormecemos numa confusão de braços e pernas. Passadas poucas horas acordámos com o amanhecer e tornámos a fazer amor. Desta vez com lentidão, beijos que começam na testa e acabam nos pés... língua que percorre a autoestrada do corpo, detendo-se demoradamente no centro do prazer... mãos que exploram, agarram, arranham, trepando pelo corpo que se abre e se oferece ao outro... chupaste-me e eu chupei-te... lambeste-me e eu lambi-te... mordiscaste e eu fiz-te o mesmo...penetraste-me, primeiro devagar, depois com vigor e urgência... tu por cima, eu por cima, de lado, de trás... nada ficou por fazer, por explorar, por amar... parecíamos sanguessugas um no outro... eu começava onde tu acabavas e vice-versa. E juntos gememos, gritámos, fomos às estrelas... eu mais do que uma vez, fazes sempre questão disso... e brincas, dizendo que é hora do leite, fazendo-me vir selvaticamente na tua boca...
Como é divino e incomparável o amor que fazemos! Sexo com sentimentos mas por vezes animalesco...
E assim deixo-me estar, nua, saciada, besuntada do teu sémen e do meu... e cheiro o nosso amor proibido, que ainda palpita nos meus lençóis e no meu corpo...
E sinto este sabor que apenas um amor proibido tem...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
Sinto o corpo maravilhosamente dolorido pela sofreguidão com que nos amámos. Contigo é sempre como se fosse a primeira vez... o tesão não diminuiu... antes pelo contrário, aumentou... o meu corpo reclama o teu, a minha alma chama por ti, a minha boca satisfaz-se na tua, eu só existo por ti e através de ti...
Os lençóis estão húmidos de suor e sémen... o quarto cheira a sexo...
Agarro-me a este cheiro que é a soma do cheiro de cada um...
Saíste deixando-me, achavas tu, adormecida.
Mas eu só não queria abrir os olhos para não perder o momento... o teu momento... o nosso momento.
Como em todos os amores proibidos, não sei quando te voltarei a ver, quando voltaremos a estar juntos.
E assim tento prolongar ao máximo estes farrapos de tempo que a vida nos dá.
E sinto o teu beijo de despedida, cuidadoso, carinhoso, amoroso, saudoso até.
E recuso-me a abrir os olhos quando oiço a porta da rua bater.
E continuo nesta dormência de prazeres satisfeitos, de saudades que irão surgir...
Entraste sorrateiramente de madrugada. Não te esperava. Dormia tranquilamente com o gato aninhado a meus pés. Só te senti quando puxaste os lençóis e te aninhaste em mim...
Queria levantar-me, ir lavar os dentes, a cara, ficar mais bonita para ti. Não deixaste. Disseste que me amavas ainda mais quando eu estava assim, amassada do sono e da cama, calma, serena e apenas eu própria...
Disseste que sorria enquanto dormia; com certeza sonhava contigo, numa forma inconsciente de pressentir a tua chegada.
Amámo-nos apressadamente, como se o mundo fosse acabar na próxima meia hora. Enroscaste-te então em mim e adormecemos numa confusão de braços e pernas. Passadas poucas horas acordámos com o amanhecer e tornámos a fazer amor. Desta vez com lentidão, beijos que começam na testa e acabam nos pés... língua que percorre a autoestrada do corpo, detendo-se demoradamente no centro do prazer... mãos que exploram, agarram, arranham, trepando pelo corpo que se abre e se oferece ao outro... chupaste-me e eu chupei-te... lambeste-me e eu lambi-te... mordiscaste e eu fiz-te o mesmo...penetraste-me, primeiro devagar, depois com vigor e urgência... tu por cima, eu por cima, de lado, de trás... nada ficou por fazer, por explorar, por amar... parecíamos sanguessugas um no outro... eu começava onde tu acabavas e vice-versa. E juntos gememos, gritámos, fomos às estrelas... eu mais do que uma vez, fazes sempre questão disso... e brincas, dizendo que é hora do leite, fazendo-me vir selvaticamente na tua boca...
Como é divino e incomparável o amor que fazemos! Sexo com sentimentos mas por vezes animalesco...
E assim deixo-me estar, nua, saciada, besuntada do teu sémen e do meu... e cheiro o nosso amor proibido, que ainda palpita nos meus lençóis e no meu corpo...
E sinto este sabor que apenas um amor proibido tem...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
No fundo de mim
Cresces-me na boca,
no peito,
pujante membro que m’arrebate
e bate...
e bate
fundo.
Teso, forte, delicado
pinga num doce-salgado,
e bate...
e bate
fundo.
Entra, sai,
vira, geme,
grita
e bate
fundo.
Bem no fundo de mim!
Vera Sousa Silva
in "Bipolaridades"
Blog Palavras Soltas
Taça em porcelana com imagem erótica escondida na parte de baixo
Tenho um gosto especial por objectos que têm segredos, como esta pequena taça (12,4 x 12,4cm) da época de Napoleão III (1808 – 1873), recebida de fresco para a minha colecção.
A taça tem uma imagem bucólica de um senhor à pesca com uma senhora a assistir:
Em baixo, a legenda "Nos bons Pêcheurs! Une Pêche miraculeuse!" ("Nossos bons pescadores! Uma pesca milagrosa!"):
Virando a taça, a parte de baixo é branca, sem nada à vista...
... a não ser que se passe levemente com um lápis, o que revela uma imagem (tecnicamente está muito bem feito, pois a imagem aparece em falhas do vidro da superfície da porcelana), que é a saia da senhora a ser levantada pelo anzol da cana de pesca, mostrando o rabo ao pescador... e a nós:
Na parte inferior da imagem, revela-se também uma assinatura ("??acke"):
A taça tem uma imagem bucólica de um senhor à pesca com uma senhora a assistir:
Em baixo, a legenda "Nos bons Pêcheurs! Une Pêche miraculeuse!" ("Nossos bons pescadores! Uma pesca milagrosa!"):
Virando a taça, a parte de baixo é branca, sem nada à vista...
... a não ser que se passe levemente com um lápis, o que revela uma imagem (tecnicamente está muito bem feito, pois a imagem aparece em falhas do vidro da superfície da porcelana), que é a saia da senhora a ser levantada pelo anzol da cana de pesca, mostrando o rabo ao pescador... e a nós:
Na parte inferior da imagem, revela-se também uma assinatura ("??acke"):
20 agosto 2012
Apontamento de viagem – no castelo de Sabugal
o castelo de Sabugal
o das cinco quinas feito
ostenta ao maralhal
gárgula de belo efeito
e se à coitada o tempo
cabeça maior roubou
outra de bravo contento
o mesmo tempo deixou
entesoada escultura
ali está empedernida
sem cabeça a criatura
aos céus traz a outra erguida
«respostas a perguntas inexistentes (209)» - bagaço amarelo

O meu Amor pela Raquel sofre de Paralisia "distancial". O que é isso? À medida que a distância entre nós aumenta, eu vou-me sentido mais limitado nos movimentos. Por exemplo, estou em casa e dou por mim com a cabeça aninhada entre as mãos, sem vontade sequer de pegar no copo de uísque à minha frente que já enchi há mais de vinte minutos. Ao lado do copo tenho o telefone mas, apesar da vontade, não lhe telefono mais. Já o fiz hoje umas dez vezes, sempre para lhe dizer o mesmo. Que a Amo.
Se eu me visse assim, sozinho em casa sem vontade de nada, dava-me um pancadinha nas costas e convidava-me para sair, beber um copo por aí e dar dois dedos de conversa comigo mesmo. É o que faço às vezes. Foi o que fiz ontem. No princípio as pernas pareciam com pouca vontade de andar, mas depois lá acabaram por ceder.
Acabei num café dos subúrbios com um televisor bêbado aos gritos para mim e mais três homens também sozinhos, cada um na sua mesa, cada um com a sua bebida. Eu a beber Bushmills, outro a beber cerveja de garrafa, outro cerveja de pressão e outro um licor qualquer. Todos me pareceram homens exageradamente sós. Eu também, apesar de saber que não o sou.
A minha Paralisia "distancial" acabou aí, nesse preciso momento, pouco antes da empregada começar a varrer o chão e nos expulsar delicadamente a todos. Levantei-me com energia, paguei os dois uísques sem gelo e fui dar uma volta a pé pela cidade de Aveiro, já quase deserta de vida. É bom sentirmo-nos sós sabendo que não o estamos, pensei. É bom perceber que por trás de cada história de solidão há sempre uma mulher.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
19 agosto 2012
PREC
De joelhos e mãos no colchão, com os mamilos debruçados quase a roçar o lençol, abanei as ancas antes da corrida e lancei-me sobre a presa já nimbada de aguadilha. Os caracóis aloirados faziam-me cócegas no nariz mas aquelas almôndegas fofas apelavam a umas lambidelas vagarosas antes de escalar o tronco em arremessos de língua e piscadelas cúmplices de pálpebras semicerradas.
Ao começar a engoli-lo abriram-se-me as válvulas palpitantes que o outro, o moreno giraço, se empenhava em transformar num escorrega em assertivos gestos de língua e dedos. E enquanto enfunava a vela daquele belo exemplar louro em chupões cadenciados e amassos de dedos nas bases redondas o garanhão moreno puxou-me pela cintura e resvalou para dentro de mim o seu metrónomo equilibrando-se com as mãos alapadas nas minhas nádegas.
E assim, solidariamente partilhada por um louro e um moreno, todos irmanados no mesmo ritmo, senti que finalmente marchava num processo revolucionário em curso.
Eri Johnson
Ricardo - Vida e obra de mim mesmo
(crica na imagem para abrir aumentada numa nova janela)
18 agosto 2012
«conversa 1906» - bagaço amarelo

Eu - Há quanto tempo é que são casados?
Ela - Vinte e dois anos...
Eu - E é bom na cama ou não?
Ela - Sei lá. Há vinte e dois anos que não vou para a cama com outro. Nem comparar posso...
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
Baralho de cartas «Le Florentin»
Estas cartas são um mimo. Quem colecciona cartas diz (e com razão) que estas «Le Florentin» são das mais bonitas que existem (e eu concordo). E tenho um destes baralhos na minha colecção. Quando vo-lo poderei mostrar ao vivo?...
Na página deste video, apresentam o autor e explicam as ilustrações de cada carta, em cada momento do video (em inglês, mas se há coisa que a malta que aqui vem domina, são as línguas):
"Paul-Émile Bécat (born 2 February 1885 -- died 1 January 1960 in Paris) was a French painter, printmaker and engraver, and was awarded first prize in the Prix de Rome in 1920. He was a student of Gabriel Ferrier and François Flameng and exhibitioned at the Salon de Paris in 1913. Returning from his travels to the Congo, Gabon, and the Sudan, he specialised from 1933 in the technique of drypoint in his erotic works. Today he is best known for his portraits of French writers, and for his erotic works.
This is a Bécat's erotic limited edition of a deck of playing cards. Titled 'Le Florentin', the deck is copyrighted 1955 by Éditions Philibert, Paris.
Credit: mydelineatedlife.blogspot.com
0:00 Frontispiece card
0:10 Joker 1: Giant jester of the Duke of Mantua, whose main duty was to keep an eye on the 'collection' of dwarves given to his master by the other princes of Europe.
0:19 Joker 2: A lady, personifying the Florentine festivities.
0:29 Ace of Diamonds: The Adventuresses
0:38 Ace of Clubs: Allegory of gold
0:48 Ace of Hearts: Allegory of Love
0:58 Ace of Spades: The poisoners
1:06 King of Clubs: The powerful Duke Leonardo, famous for his wealth and his patronage of the arts
1:26 King of Diamonds: Allegory of the soldiers
1:45 King of Hearts: King Francis I
2:04 King of Spades: Bluebeard and his wives
2:23 Queen of Clubs: Protecting and encouraging the arts
2:42 Queen of Diamonds: 'La Belle Ferronnière', favorite of King Francis I
3:01 Queen of Hearts: The lady and the rose, recurrent them of the Renaissance
3:20 Queen of Spades: Lucrecia Borgia
3:39 Jack of Clubs: Leonardo da Vinci, surrounded by the beauties he made immortal
3:58 Jack of Diamonds: The messenger of love
4:17 Jack of Hearts: The lovers of Verona
4:36 Jack of Spades: Machiavelli
4:55 The backside of all the cards
Music by Edward Ka-Spel,'Film of the Book (The Forgotten Version)'"
17 agosto 2012
16 agosto 2012
"A donzela que não podia ouvir falar de foder"
Era uma vez uma donzela muito orgulhosa e rebelde. Se ela ouvisse alguém "falar de foder" ou algo semelhante, ficava com um ar muito ofendido. Era a única filha de um bom homem, um rico camponês que não tinha nenhum servo em casa porque a jovem não suportava ouvir aquele tipo de conversa típica de servos. Ela “...nunca poderia suportar / que um servo falasse de foder / de caralho, colhões ou coisa semelhante” (Fabliaux, 1997: 63).
Um belo dia, um jovem velhaco de nome David chegou àquela aldeia e ouviu falar da filha que odiava os homens. Decidiu então confirmar a curiosa estória, oferecendo os seus préstimos: disse que sabia lavrar, semear, debulhar o trigo e peneirar. O camponês agradeceu, mas respondeu que tinha uma filha que sentia tanta náusea das coisas obscenas que os homens conversam que não poderia aceitar a sua oferta. David fingiu ser um homem temente a Deus e clamou pelo Espírito Santo. Ao ouvir as suas palavras, a filha do rico camponês pediu ao pai que contratasse o rapaz, pois ele compartilhava das suas ideias.
Houve então uma grande festa para comemorar a contratação do “servo beato”. Quando chegou a hora de dormir, o bronco camponês perguntou à filha onde David descansaria: “Senhor, se isso vos agrada / ele pode dormir comigo / ele parece ser de confiança / e ter estado em casas nobres” (Fabliaux, 1997: 67).
O ingénuo pai concordou. A donzela era muito graciosa e bela, e o servo, matreiro, logo colocou a sua mão direita nos alvos seios da moça, depois no seu ventre e no seu sexo, sempre perguntando à donzela o que era aquilo que tocava: “David desceu a mão / direto à fenda, sob o ventre / onde o pau entra no corpo / e sentiu os pêlos que despontavam / ainda macios e suaves (...)”. E perguntou:
Por boa fé, senhora, disse David (...)
o que é isto no meio do prado esta fossa suave e plena? Disse ela: é a minha fonte que ainda não brotou. E o que é isto aqui ao lado / disse David, nesta guarita? É o tocador de trompa que a guarda responde a jovem, verdadeiramente se um bicho entrasse no meu prado para beber na fonte clara o vigia tocava logo o corno para lhe fazer vergonha e medo. (Fabliaux, 1997: 68)A seguir, a jovem virgem decidiu ousar e passou a tomar a iniciativa, apalpando igualmente o servo beato. O poema compara o pénis a um potro e os testículos a dois marechais. A donzela pede então que o belo potro do jovem paste no seu prado. David teme que o “tocador de trompa” da moça – provavelmente uma metáfora ao clitóris – faça barulho, isto é, que a jovem grite de dor e prazer. Ela responde: “Se ele disser mal / batê-lo-ão os marechais. / David responde: Muito bem dito.”
E assim a jovem virgem e falsa púdica “foi derrubada quatro vezes”, “...e se o tocador de corno troou / foi batido pelos dois gémeos / Com esta palavra termina o fabliau.” (Fabliaux, 1997: 70)
blog A Pérola
«Bem-vinda à Foda dos Milhões» - Patife

Patife
Blog «fode, fode, patife»
15 agosto 2012
Anúncio da Playboy... muito bem observado!
E o Sérgio ainda observou melhor:
"A julgar pela Playboy Tuga, agora na cabeça do gajo deveria haver um boné, e dos grandes..."
"A julgar pela Playboy Tuga, agora na cabeça do gajo deveria haver um boné, e dos grandes..."
«pensamentos catatónicos (272)» - bagaço amarelo

Pensei nisto agora mesmo, depois de ter visto a Ana como é costume, de braços cruzados num dos cantos da sala. Parece que está à espera que a vida lhe traga alguma coisa. Mas eu até sei que não está. Quando a cumprimentei e lhe perguntei como anda, ela respondeu isso mesmo: que vai andando. Não estiquei mais a conversa. Deixei de o fazer há uns tempos, quando ela me disse que detesta conversas de circunstância e me deixou especado a olhar para uma parede branca, a pensar no mal lhe teria feito. Acho que lhe disse que estava bonita. Só isso. Ela não ligou e afastou-se.
Por essa altura a Ana deixou-se derrotar por um Amor acabado, que é como quem diz, ela acabou com esse Amor. Parecia um náufrago em alto mar que não queria ser salvo. Ainda parece. A história é a do costume: o marido deixou-a e ela ficou mal. Depois, para não andar mal, decidiu que ia estar mais ou menos para sempre.
De vez em quando encontro-a por aí, como hoje, numa festa organizada por amigos comuns. Estou à espera de lhe poder dizer, numa oportunidade qualquer, que é uma sorte podermos sofrer por Amor. Sofrer por Amor é a única forma de saber o que é Amar. É a única forma de agarrar a vida e deixarmos de andar mais ou menos. Para isso só preciso que ela passe a gostar de conversas de circunstância, porque o Amor é uma circunstância da vida.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
14 agosto 2012
Eva portuguesa - «Sedução»
É estranha esta sensação de desejo contido e emergente que as férias me provocam...
Talvez por estar sem fazer sexo, talvez por estar mais atenta à família, talvez por deixar que a preguiça se apodere de mim...
Mas parece que tudo o que me rodeia desperta em mim de forma ainda mais premente a minha sexualidade, a minha sensualidade.
Sinto mais conscientemente cada pedacinho do meu corpo, cada sensação vivida, cada gemido contido...
Espreguiço-me languidamente ao sol, sentindo o calor tomar conta de mim, suportando a delícia deste beijo quente e sensual.
Sinto uma gota de suor começar a escorrer-me pela nuca, provocando-me arrepios de prazer... e vai descendo pela minha coluna como se de uma língua se tratasse... perde-se naquele sulco onde se iniciam as minhas nádegas, onde tudo pode começar ou acabar.
Levanto-me, ciente deste estado semi-hipnótico em que me encontro e mergulho nas águas translúcidas desta piscina natural, como se mergulhasse nos braços de um amante...e passo a sentir-me livre, aninhada, refrescada, quente, sedenta, desejosa, ardente...
Dirijo-me à cascata que enche este lago e deixo que a água jorre sobre mim qual sémen de um desejo há muito controlado... e sinto-a em cada pedaço de mim... nos meus seios erectos, ansiosos por serem chupados, na minha boca sedenta por outra, no meu sexo inundado de vontade de ser possuído, nas minhas pernas firmes, abertas, esperando encontrar a fraqueza de um desejo a ser satisfeito, a escorrer pelos meus longos cabelos como uma manifestação de carinho e chegando finalmente às minhas nádegas, ao esconderijo no meio delas, fazendo-me ofegar por sentir encostado a mim um sexo duro, rígido, exigente e tão ardente como o desejo que me consome....
Será a envolvência com a natureza a causa deste meu desassossego?...
Será o toque leve da aragem que me arrepia e me faz voltar aos meus instintos mais básicos, mas também mais profundos?...
Será o silêncio e a paz deste verde que me rodeia que me faz querer entrar em contacto de uma forma tão primitiva com a natureza e com a minha própria essência como mulher?...
Vejo este pôr do sol único e transformo-me num animal sedento, faminto de sexo... sereia de dia, pantera à noite...será o verde dos meus olhos que se perde neste verde que me acolhe?...
Tudo aqui me seduz: os cheiros, as cores, as texturas, os sabores... a liberdade de não ter horários, os banhos nocturnos, o sossego que me desassossega... o silêncio que me sussurra, a vastidão que se perde num horizonte sem fim, a vida num estado mais simples, mais prático, mais livre...
Sim, nas férias sinto-me uma sedutora e uma seduzida... que fica por e para realizar mais tarde...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
Talvez por estar sem fazer sexo, talvez por estar mais atenta à família, talvez por deixar que a preguiça se apodere de mim...
Mas parece que tudo o que me rodeia desperta em mim de forma ainda mais premente a minha sexualidade, a minha sensualidade.
Sinto mais conscientemente cada pedacinho do meu corpo, cada sensação vivida, cada gemido contido...
Espreguiço-me languidamente ao sol, sentindo o calor tomar conta de mim, suportando a delícia deste beijo quente e sensual.
Sinto uma gota de suor começar a escorrer-me pela nuca, provocando-me arrepios de prazer... e vai descendo pela minha coluna como se de uma língua se tratasse... perde-se naquele sulco onde se iniciam as minhas nádegas, onde tudo pode começar ou acabar.
Levanto-me, ciente deste estado semi-hipnótico em que me encontro e mergulho nas águas translúcidas desta piscina natural, como se mergulhasse nos braços de um amante...e passo a sentir-me livre, aninhada, refrescada, quente, sedenta, desejosa, ardente...
Dirijo-me à cascata que enche este lago e deixo que a água jorre sobre mim qual sémen de um desejo há muito controlado... e sinto-a em cada pedaço de mim... nos meus seios erectos, ansiosos por serem chupados, na minha boca sedenta por outra, no meu sexo inundado de vontade de ser possuído, nas minhas pernas firmes, abertas, esperando encontrar a fraqueza de um desejo a ser satisfeito, a escorrer pelos meus longos cabelos como uma manifestação de carinho e chegando finalmente às minhas nádegas, ao esconderijo no meio delas, fazendo-me ofegar por sentir encostado a mim um sexo duro, rígido, exigente e tão ardente como o desejo que me consome....
Será a envolvência com a natureza a causa deste meu desassossego?...
Será o toque leve da aragem que me arrepia e me faz voltar aos meus instintos mais básicos, mas também mais profundos?...
Será o silêncio e a paz deste verde que me rodeia que me faz querer entrar em contacto de uma forma tão primitiva com a natureza e com a minha própria essência como mulher?...
Vejo este pôr do sol único e transformo-me num animal sedento, faminto de sexo... sereia de dia, pantera à noite...será o verde dos meus olhos que se perde neste verde que me acolhe?...
Tudo aqui me seduz: os cheiros, as cores, as texturas, os sabores... a liberdade de não ter horários, os banhos nocturnos, o sossego que me desassossega... o silêncio que me sussurra, a vastidão que se perde num horizonte sem fim, a vida num estado mais simples, mais prático, mais livre...
Sim, nas férias sinto-me uma sedutora e uma seduzida... que fica por e para realizar mais tarde...
Eva
blog Eva portuguesa - porque o prazer não é pecado
13 agosto 2012
«respostas a perguntas inexistentes (207)» - bagaço amarelo

Tenho uma amiga de quem gosto muito mas que, por viver longe dela, só vejo muito raramente. Eu divido a minha vida entre Aveiro e Porto, ela divide a dela entre Castelo Branco e a Covilhã. A forma como nos conhecemos foi muito estranha, e levou-me a perguntar várias vezes o que é nos pode interessar ou não numa pessoa. Duma coisa tenho a certeza: há pessoas de quem gostamos muito, outras de quem não gostamos nada. Nunca na vida chegamos a saber o motivo.
Conheci-a há já muitos anos num pequeno bar em Bruges, na Bélgica, durante um fim de semana que ali passei sozinho. Mal entrei, sentei-me no único lugar ao balcão disponível e ela estava ao meu lado direito. Não me lembro de quem estava ao meu lado esquerdo porque, por qualquer motivo, ela me prendeu a atenção desde o primeiro momento. Depois de a ter visto a dar alguns goles numa cerveja tão grande quanto a que entretanto eu pedi, e sem lhe ter ouvido uma única palavra, perguntei-lhe se ela era portuguesa. Ela sorriu e respondeu que sim.
Passámos o fim de tarde e a noite toda a passear por aquela belíssima cidade medieval, entrando de vez em quando num bar à sorte para beber qualquer coisa. Ela mostrou-me um caderno que tinha onde pedia a todas as pessoas que conhecia que fizessem um retrato dela. Não tinha que ser um desenho aproximado. Podia ser um texto, um rabisco ou qualquer outra coisa que, para quem o fizesse, a definisse a ela como pessoa. Folheei todas as páginas e, como ela era uma pessoa que viajava muito, tinha textos em alemão, inglês, italiano e espanhol. Também tinha muitos desenhos, totalmente diferentes uns dos outros.
O interessante daquele caderno é que demonstrava os vários ângulos sob os quais ela tinha sido vista por pessoas diferentes, e acabámos a falar sobre isso mesmo. Ela tinha a teoria que nós somos o que os outros pensam de nós, e que aquele caderno acabaria por dar um puzzle sobre ela mesma. Um trabalho que a ajudaria a conhecer-se melhor a ela própria.
No fim da noite, e já no último bar, ela pediu-me para também lhe fazer um desenho. Com o que o meu estado parcialmente sóbrio me permitiu, desenhei-a duas vezes como se se estivesse a ver a um espelho. Por baixo escrevi que nós também temos o direito de pensar alguma coisa sobre nós mesmos.
Para ser sincero, já não me lembrava desse desenho. Lembrava-me apenas do abraço prolongado que demos quando me despedi dela em frente ao hotel onde estava alojada, e do percurso solitário que depois fiz até à minha pensão barata no perímetro urbano da cidade. Há uns dias fui jantar com ela, numa pequena pizzaria em Viseu, e ela mostrou-mo. Disse-me que nessa noite, apesar de ter vontade, não me convidou para subir ao quarto dela porque tinha lá o marido à espera.
O marido era um holandês viajado, homem de negócios, que lhe controlava totalmente a vida. Ela sentia-se extremamente só e, quando ele tinha reuniões, ela aproveitava para sair e ver pessoas. Como era, e ainda é, muito bonita, sempre lhe foi fácil acabar a conversar com um estranho qualquer. O caderno, confessou-mo nesse jantar, era o resultado dessas saídas.
Nessa noite em que a deixei no Hotel, e porque já era demasiado tarde, ele ralhou violentamente com ela. Foi também a primeira vez que ela lhe respondeu e ameaçou divorciar-se, o que veio a acontecer uns meses depois. Uma das coisas que ela lhe disse nessa discussão é que ele devia ver-se ao espelho, para perceber que não era apenas aquilo que os seus colegas de negócios lhe diziam, mas era também um homem violento, inseguro e sem o mínimo de respeito por quem gostava dele. Depois chorou.
Lembro-me que fui passar esse fim de semana a Brugges precisamente para estar sozinho, mas cinco minutos depois de sair à rua já estava extremamente arrependido. Queria estar com alguém porque me sentia só. Acho que vivi uma época assim, em que nunca estava bem como estava a não ser que alguém me surpreendesse. Não sabia, pelo menos da forma que sei hoje, o que é Amar e estar continuamente apaixonado. Era esse o meu problema.
Ela acabou a pizza dela uns cinco minutos depois de mim, cruzou os talheres e pediu dois cafés.
bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
12 agosto 2012
O Fotógrafo
Olhe Senhor Doutor, conhecemo-nos na net, num site de fotografia. Conversa puxa conversa, email para cá, email para lá e foi inevitável acabarmos a analisar a profundidade de campo das nossas camas. Aliás, em termos sexuais tudo corria bem e até o sabor da sua língua a vinho, ou uísque, ou cerveja era um fotograma que me excitava. Era mais comum encontrar cerveja no frigorífico que um bife.
Era comum ficarmos deitados na cama com o Sexy Hot’s a encher o televisor toda a noite para dar ao negativo a quantidade certa de luz. Nos dias em que ele estava muito cansado eu aplicava o polarizador de o deitar e absorvia-o todo na solene volúpia de beber a emulsão após o que ele me brindava com a sua língua transformada em papel fotográfico de pin-hole, ou então, digamos que, com tecnologia digital.
O lado Kodachrome da nossa relação também se espelhava no facto de espreitarmos os nossos vizinhos a uma distância focal segura. Usámos o filtro colorido da sua irmã para criarmos uma perspectiva mais ampla que a monotonia do enrolanço a dois. Nas bombas de gasolina, enquanto eu enchia o depósito ou calibrava os pneus, ele procurava aberturas de diafragama correctas para saias primaveris.
A bodega foi que o meu código DX não me permitiu ler os seus gostos por bondage e na sua primeira tentiva de me atar com corda natural levantei o joelho à altura dos seus ossos íliacos e danifiquei-lhe temporariamente o fotómetro.
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