24 janeiro 2018

As mulheres no tempo de Camões, descritas por ele

Excerto da carta terceira (de Lisboa, a um amigo de Luís Vaz de Camões, que estava em retiro campestre)

"(...) Quanto é ao que toca a estoutras damas de aluguer, há muito que escrever delas. Alguns dirão que, como quer que nestas não há aí mais que pagar e andar, não pode haver engano. Neste jogo digo que é ao contrário, porque vereis estar um rosto que é a castidade de Lucrécia luxuriosa, uma testa de alabastro, uns olhos de mordifuge, um nariz de manteiga crua, uma boca de pucarinho de Extremoz; mas, o pueri, latet... E se vos disserem que estas pelam os que as têm, assentai que é fábula, porque eu vi muitos não ter nada de seu, e agora os vejo com mulas e cavalos.
De algumas conseguintes vossas amigas vos darei novas.
Maria Caldeira matou-a o marido. Grande perda para o povo, porque reparava muitas órfãs e adubava os pagodes de Lisboa, afora outras obras de grandes respeitos. E, por que esta senhora não vivesse muito tempo no outro mundo só, se partiu para lá Beatriz da Mota, vossa amiga.
Deste dilúvio houveram algumas destas damas medo e edificaram uma torre de Babilónia, onde se acolheram; e vos certifico que são já as línguas tantas, que cedo cairá, porque ali vereis Mouros, Judeus, Castelhanos, Leoneses, frades, clérigos, casados, moços e velhos.
(...)
E tudo o destas senhoras é brando, rostos novos e canos velhos. São boas para ninfas de água, porque não deitam mais que a cabeça de fora.
A razão por que se comem estas mais que as outras em Lisboa, é que, afora seus rostinhos, servem de foliões, que cantam e bailam tão bem que não hão inveja aos que El-Rei mandou chamar.(...)"

Luís Vaz de Camões

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