16 março 2010

Raízes

Pétalas da mesma flor, folhas da mesma árvore - só quando assim formos podemos enraizar. Ah! Mas entretanto, abraçamo-nos enrolados e nus como raízes soltas e famintas que encontram terra húmida. Das noites nossas fica sempre o teu orvalho quente nas minhas folhas. Não me vou repetir, não me vou repetir, não me vou repetir que aqui me esgoto; só aí, em ti, eu nunca me esgotava; era sempre muito mais o que de ti me enchia do que toda a imensidão que em ti libertava. Tantas vezes nos parece que já é tarde, chegamos assim ao corpo um do outro, montados nesse relógio que nos tenta desmontar; fecha os olhos, o tempo tenta-nos enganar - às vezes parece-me que sabes - é cedo ainda. Ainda é demasiado cedo? O tempo diverte-se, abraçamo-nos e os braços ainda são ponteiros; abraçamo-nos e passamos e o tempo acaba-se quando ainda é e foi demasiado cedo. Só quando assim fossemos - pétalas da mesma flor, folhas da mesma árvore - poderíamos enraizar.

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